domingo, 7 de agosto de 2016

Por que é difícil ler os grandes autores?

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Vivemos em uma época bizarra em que conhecimentos simples, que deveriam ser domínio de todos, não são entendidos nem pelos especialistas na área, e muito menos por professores em salas de aula, este é o caso da diferença textual entre autores de várias estirpes. Escritores não são iguais, textos não são iguais; há os ruins, os aceitáveis, os bons, muito bons e excelentes, é uma grande estupidez achar que todos os textos são iguais e uma incrível falta de cultura não saber diferenciá-los. Para maioria a diferença entre um bom texto ou um mau é o uso correto da gramática, e isso não é verdade, o texto mais medíocre e vagabundo pode ser gramaticalmente correto, isto o torna apenas aceitável, nada mais.

O que a escola ensina, ou deveria ensinar é escrever um texto gramaticalmente correto, infelizmente não chega nem a isso, entender a excelência textual dos grandes autores passa ao largo. A fluência na leitura não é tarefa simples, ela desenvolve-se aos poucos, é necessário criar o gosto da leitura no aluno com textos de estrutura sintática simples, e só depois ir aos mais complexos. Atirar o estudante despreparado sobre o texto de Machado de Assis, nosso maior escritor, em vez de incentivar a leitura tem o efeito contrário, faz com que a maioria dos garotos passe a odiar a leitura, primeiro por ser um texto denso e difícil, exigindo do aluno uma proficiência que ainda não tem, aqui a dificuldade pode virar trauma; e para piorar, os assuntos abordados por Machado não são do gosto do estudante médio, ou seja, é difícil e chato, em vez de ler tornar-se um prazer vira um sacrifício, criando sentimento ruim sobre todos livros.

Esta realidade da leitura obrigatória em sala de aula já é velha, conhecida por todos e ninguém faz nada para mudar, mas há aqui mais um agravante: até a década de oitenta os jornais ainda tinham escritores razoáveis que usavam estruturas sintáticas menos simplórias, funcionava como transição entre os livros infantis simples e a escrita mais complexa, desta maneira, ao ler um Machado a vala para transpor já não era tão grande. Este rito de iniciação dos jornais aos textos complexos não mais existe, por conta dos manuais de “redação e (falta de) estilo”, os jornais hoje são mais pobres que a literatura infantil.

Após o aluno aprender a decodificar os códigos do alfabeto e começar a ler, é imprescindível captar o gosto e o interesse com livros sobre assuntos que interessem ao estudante, só assim ele desenvolve o gosto pela leitura; a leitura escolar obrigatória de textos que não interessam ao aluno faz com que toda leitura ganhe um sabor amargo, mas, se o aluno ler o assunto que gosta, que tem prazer, a leitura tornar-se-á um hábito agradável que o acompanhará ao longo da vida. A primeira e principal função da escola é desenvolver no aluno a habilidade e o prazer pela leitura.

Ler os grandes escritores é a habilidade maior, para encarar estes textos tem que gostar de leitura.

Como disse acima, fazer um texto gramaticalmente correto é mera mediocridade, e não é isso que faz o grande escritor, que tem um domínio tão bom da língua que muitas vezes é capaz de violar a gramática de forma magnífica. O grande escritor cria a sua língua, por isso também há certa dificuldade ao ler um novo mestre da escrita, é como aprender uma língua nova, muito parecida com a que você conhecia, mas com diferenças, e demora um tempo até acostumar-se, por isso um novo grande escritor é sempre um desafio e uma grande aprendizagem da língua.

É necessário entender o que é escrever bem para identificar o bom texto, ler os grandes ajuda, cada mestre escritor acrescenta um nível novo de expressividade na língua que os escritores subseqüentes se apropriam. Shakespeare, criou no diálogo de suas peças uma dramaticidade inédita, nunca vista nas peças gregas. Cervantes ao detalhar a condição humana em seu romance picaresco deu uma nova dimensão ao personagem, até aquele momento inédita em textos. Goethe infunde em seus personagens os dilemas caros à alma humana. Alguns textos são tão poderosos que transpassam a barreira da língua, podem ser traduzidos e ainda guardam uma potência fenomenal, não tenho habilidades na língua russa, mas é fácil ver a força estupenda do texto de Dostoiévsky mesmo em uma tradução, mas um Hemingway  usa a concisão e força da língua inglesa de uma forma tão estupenda que uma tradução tira-lhe toda a vida, ler “O Velho e o Mar” ou o “Sol Também se Levanta” em português é uma pálida amostra do texto em seu original, o lirismo de Fitzgerald também esvai-se na tradução. Quando o leitor acompanha as desventuras de Zaratustra penetra na alma o desespero niilista que Nietzsche habilmente colocou no texto, é preciso um leitor experiente para não sucumbir a esta armadilha espiritual. No “Coração das Trevas” o leitor é levado ao horror abissal da alma quando acompanha a história de Marlow em sua jornada ao interior do Congo, Conrad faz o leitor experimentar uma escuridão inenarrável em poucas páginas, é obra de um mestre da pena.

Sempre que o leitor inicia o livro de um grande autor que ainda não tomou contato, mesmo leitor experiente, há um desafio, uma dificuldade, entrar no jogo escrito do autor, aprender sua linguagem, é a nova dimensão que faz o leitor crescer. Quando acompanha a visão aguda de Balzac o leitor aprende a ver no enlace do cotidiano mais que a mediocridade da vida comum. Em Tolstói é oferecida uma visão ampla de todo o tecido social a partir de suas engrenagens. Conhecer os grandes escritores é fundamental para o bom leitor, este duelo com as grandes obras o faz crescer, e se tem pretensões a tomar a pena em suas mãos tal desafio é fundamental.

Ler é uma experiência de vida, aprender a pilotar um avião também, assim como escalar uma montanha, viajar em um veleiro e atravessar a pé uma cordilheira, só que o livro é mais barato. Experimentar a vida somente através dos livros não é uma atitude saudável, mas o livro aguça a percepção para a vida real, torna ela mais plena, somente o grande autor consegue transformar seu texto em experiência de vida.

Infelizmente a literatura tomou um rumo estranho, distanciando-se do leitor comum e focando nos escritores ou pretensos seu público, em “Ulysses” Joyce faz um desfile de virtuosismo e estilo, mas atulha sua obra de significados ocultos, coisa que qualquer escritor medíocre consegue fazer, não é traço do grande escritor, mas é o recurso que os escribas contemporâneos vagabundos conseguem copiar bem. Faulkner e Virgínia Woolf brincam com a estrutura do texto tradicional, criando narrativas tão convolutas que a estória vai formando-se em partes apenas na memória do leitor, são brincadeiras interessantes na fronteira do que é um texto inteligível, mas uma Gertrude Stein exagera na dose e falha em ser uma grande escritora. O modernismo virou uma armadilha para os escritores, criando um estereótipo obrigatório e infértil para o autor contemporâneo.

O modernismo para inovar focou-se mais na forma que no conteúdo, e só se interessa em forma quem quer apreciar a arte escrita em si, para o leitor normal, e isso não é pecado, o importante é o conteúdo. Infelizmente deste vício criou-se um tipo de “iliteratura” que é rica em formas estereotipadas, formas que não funcionam, engodos literários, que hoje dominam a literatura contemporânea. O embuste, o charlatanismo, e os maus textos hoje são a norma desta pseudo-literatura viciada, e o leitor é deixado de fora, enganado.

Para não cair neste engodo é preciso conhecer os verdadeiros mestres da literatura, o problema aqui é que para o leitor inexperiente a dificuldade com um texto ruim é a mesma com o texto de um mestre, ele não consegue diferenciar a mera porcaria estereotipada de um texto funcional que realmente expande o domínio da expressividade da língua. A boa notícia é que todos os textos dos mestres clássicos e alguns dos primórdios do modernismo e mais antigos estão disponíveis gratuitos na internet, e para quem tem um e-reader, consegue o mesmo conforto do papel, desta maneira o acesso à nata da literatura nunca foi tão simples e barato, não há desculpa para a ignorância, o leitor só cai na enganação dos contemporâneos se quiser.

Se você quer crescer como leitor, aceite o desafio de ler um dos grandes, se a dificuldade for muito grande, concentre sua leitura em textos mais simples: Conan Doyle, Tolkien, Simenon com seu inspetor Maigret, o Padre Brown do Chesterton, Maurice Leblanc, Orson Welles, Walter Scott, dentre outros. Ler antes de mais nada tem que ser diversão, se há dificuldade em iniciar os grandes, há também a recompensa, pois é uma experiência que nada além da vida real consegue ultrapassar, com a diferença que vida temos uma,  livros podemos ler vários.

Alex


Um comentário:

  1. Aí ó: https://tecnoblog.net/210369/stf-e-books-e-readers-isencao-imposto/
    http://www.publishnews.com.br/materias/2017/03/09/stf-isenta-e-books-e-e-readers

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