domingo, 24 de agosto de 2014

Amazon x Hachette; Amazon x Brasil; e eu com isso?

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Para os que andam ligados nessa coisa de ebook e e-reader o caso da Amazon contra a Hachette tem sido um prato cheio de dramas, fofocas e cabeçadas que está passando do limite razoável, e em princípio isto nada tem conosco, por isso evitei de divulgar o assunto aqui no blog, é um caso restrito aos EUA, todo dia há notícias de novos empreendimentos no ramo do ebook por lá, eles nascem e morrem e nada chega aqui, por isso para nós brasileiros falar destas estórias parece coisa de alcoviteiro, o interessante de ver é a verve empreendedora que existe por lá, negócios nascem e morrem às centenas antes de um ir adiante e quem tiver curiosidade recorra aos blogs e jornais Norte Americanos, uma vez que para pouquíssimos brasileiros isso tem qualquer interesse; mas vou entrar hoje nesta história sórdida pois há no Brasil a tentativa de uma briga semelhante.

Para oferecer um background melhor para que nossos leitores entendam o assunto preciso retroceder um pouco ao caso onde o departamento de justiça americano abriu um processo contra a Apple e as cinco maiores editoras americanas por combinação de preços, a palavra em inglês é “collusion”, evito de traduzir pois os significados jurídicos são diferentes entre a palavra traduzida aqui e sua contraparte, assim, entenda como uma combinação secreta para lesar o consumidor aumentando o preço dos livros. O caso é que a Apple com sua loja e as seis maiores editoras da época juntaram-se para criar o que foi chamado de “agency pricing”, basicamente as editoras diziam qual o preço final de venda e a Apple levava uma porcentagem deste preço, desta maneira o preço final que o consumidor pagaria em um título seria ditado pela editora, sem a possibilidade das livrarias darem desconto, até aí não há grandes problemas a princípio, mas ao que parece e os dados comprovam, houve uma combinação para subir o preço de livros de papel e ebooks, e foi isso que fez o departamento de justiça americano abrir um processo, várias editoras preferiram fazer um acordo para ressarcir o consumidor em vez de esperar o processo ir até o final, a Apple não, e as decisões do juiz responsável tem sido desfavoráveis, resta saber qual vai ser a conta no final, se vai ficar barato ou caro para a Apple.

A Amazon não gostou desta história de “agency pricing”, ela é conhecida por dar desconto nos livros, quem é consumidor Amazon de longa data sabe, sempre foi assim, na maioria das vezes o título almejado está mais barato na Amazon; mas, com o “agency pricing” esta política de descontos é impossível. A Amazon entrou em conflito com algumas editoras e parou de vender seus títulos, e hoje, quando uma gigante como a Amazon tira seus livros fora do catálogo, você sabe que vai perder uma parte significativa de sua renda, e como é normal em sociedades livres, ninguém é obrigado a vender ou comprar de ninguém, é o que se chama livre negociação, só temos problemas quando a coisa vira um monopólio, por maior que seja a Amazon ela ainda não é um monopólio, assim, apesar de ter um enorme poder de fogo em qualquer negociação, o negócio ainda é livre. Tudo que estou falando é exclusivo do mercado dos EUA, aqui a Amazon ainda é irrelevante se não contarmos seus bolsos cheios de dólares para investimentos, mas a indústria brasileira de livros é mais irrelevante ainda, desta maneira editores estão em polvorosa com a entrada da Amazon no mercado brasileiro, ela é uma empresa capitalista fazendo o que deve fazer: ganhar dinheiro, ao contrário dos nossos editores que sempre se preocuparam mais em manter a concorrência fora do que desenvolver o mercado de leitores para aumentar seu faturamento.

Agora podemos falar do caso Amazon x Hachette, a história é a seguinte: a Hacchette é uma das grandes editoras Norte Americanas, ela vende livros; a Amazon é atualmente uma das maiores livrarias, ela compra livros para revender; o caso ocorre na venda de ebooks, como é o normal a Amazon quer que a Hachette lhe diga o preço do livro, para depois vende-lo ao preço que bem entender, contrário ao preço de “agency” onde é a editora que diz o preço final de venda. A Amazon pode não comprar nada da Hachette, e não vender nada da Hachette, mas aí ambos perdem, quem perde mais? Para compensar que o esquema com a Apple foi pego pelo departamento de justiça do governo, a Hachette queria cobrar caro nos ebooks vendidos para a Amazon e assim ela não poderia vender mais barato e concorrer com os livros de papel da editora, em resposta a Amazon retirou os livros da tal editora de sua loja e a gritaria pública começou. Tirar os livros da Hachette do catálogo da Amazon é uma enorme perda de dinheiro para a editora, e ela colocou parte da negociação aberta fazendo seus autores contratados escrever uma carta pública para a Amazon, a coisa ficou patética, ridícula mesmo, mas para piorar a Amazon mandou uma carta para seus leitores/autores para que escrevessem ao CEO da Hachette defendendo o seu lado, o que já era ruim ficou pior, este embate tem mais rounds com escritores proeminentes e jornalistas pronunciando-se contra ou a favor, quem quiser saber mais vá aos blogs norte americanos de e-reading, não é um história bonita nem divertida, mas acho que este resumo nos serve para entrarmos em outras questões e em especial aos últimos movimentos em relação ao Brasil.

Nesta história há dois grandes jogadores: Amazon e Hachette, dois lados: Amazon e Hachette, portanto tome seu acento na torcida correspondente, mas isso é uma idiotice, há mais lados nesta coisa, há mais argumentos e muita coisa envolvida. Dicotomias imbecilizantes são uma tática velha para polarizar opiniões e empobrecer o debate, quer um exemplo clássico? A velha briga direita versus esquerda. É um paradigma inútil que tem empobrecido a vida política mundial e excluído do debate as pessoas e suas vidas que é o que realmente importa, direita ou esquerda são conceitos genéricos e para muita gente tem significados diferentes, assim qualquer debate neste sentido carece de verdadeira objetividade, e as verdadeiras questões que importam nunca são ditas, ficam perdidas neste debate inútil e infindável que não se apóia em qualquer parâmetro objetivo. A realidade é que levadas ao extremo, direita e esquerda são apenas formas diferentes de ditadura, e como todos sabem ditadura é tudo igual, não importando a cor de sua bandeira ou o discurso vigarista a justificar as atrocidades. A realidade é que auto-determinação é algo que ninguém dos que gostam de poder tem simpatia, eles querem te controlar, e você não quer ser controlado; é isso que ocorre com o caso Amazon/Hachette, quem está de um lado é rebanho de um, quem está do outro é animal de curral do outro, e quem pensa e quer viver sua vida e ter seus argumentos está fora. Por que digo isso? Pois vocês verão que há algo muito mais profundo nesta estória e por mais que tenham falado do assunto à exaustão muitos aspectos não foram abordados.

Preciso apenas de mais um adendo para deixar claro para os brasileiros todo o processo envolvido: para quem não está acostumado a comprar livros em inglês, há uma dinâmica que não existe aqui: “hardcover” e “paperback” o livro de capa dura e a brochura; lá, quando um livro de relativo sucesso é lançado, primeiro há uma edição de capa dura bem mais cara, e quem quiser ler tem que pagar pelo “luxo”, só depois quando as vendas caem ou depois de um ano é que lançam a versão brochura mais barata. Com este processo as editoras ganham muito mais com a capa dura, e quando o mercado cai exploram outras faixas com o paperback, e dependendo dos livros até os de bolso super baratos em uma terceira exploração do mercado. Com ebooks e lançamento simultâneo, a obrigatoriedade de pagar mais para ler na edição de capa dura desaparece. Para quem é de fora da máquina editorial imprimir um livro, principalmente de capa dura é proibitivo, mas para editoras com a máquina estabelecida é bem barato, é uma fração pequena do preço final do livro, e a diferença de um hardcover para um paperback também é relativamente pequena, este menor custo de impressão que as editoras têm perto dos “civis” é o que lhes dá o controle do mercado. Aqui não é muito diferente. Outro ponto é que editoras pagam relativamente pouco aos autores, desta maneira impressão e o texto em si são uma parte menor do valor pago pelo consumidor.

Entendida a dinâmica do mercado atual americano, vamos nos concentrar um pouco na história da Amazon que conto como um de seus antigos fregueses. O mundo AM ( antes da Amazon) era um local quase sem internet, informação era difícil, editoras eram reclusas e livrarias os pontos de encontro entre pessoas e livros, às vezes ouvia-se falar de um livro, mas não havia onde procurar, com muita sorte e muitas livrarias às vezes encontrávamos um exemplar, e aí víamos a coisa em si, o livro que antes era só boato, e não pensem que estou falando de tomos obscuros, achar um mero Advanced Dungeons & Dragons era uma “quest”. Mesmo com as informações corretas, nome e endereço da editora era quase impossível adquirir o livro, as editoras não tinham interesse e não se davam ao trabalho de vender um único livro, ainda mais atravessando continentes. Este era o mundo AM, cheio de livros, mas difíceis de comprar. Com a entrada da internet surgia uma possibilidade, vender coisas on-line, ninguém botava muita fé, apesar dos EUA terem muito bem consolidada a venda por catálogos de papel; ao que parece, pelas necessidades não atendidas do leitor, livro seria o mercado ideal para começar a vender coisas na internet. Primeiro problema, desconfiança, segundo a própria logística. A Amazon começou pequena, a mim a grande diferença era que eles enviavam livros para o Brasil, a maioria das livrarias Norte Americanas não enviava, mas ao longo deste diferencial eles começaram a construir um catálogo muito completo, assim se eu queria saber se um livro existia minha primeira parada era a Amazon, e o catálogo não era só de livros atuais, lá tinha tudo, e pasmem, mesmo que eles não tivessem o livro para vender eles procuravam em sebos para você! Acredita? Lógico que a Amazon tornou-se a única parada para comprar livros, tinha um frete marítimo bem barato, e aí você comprava dez livros ou mais, às vezes juntava com amigos, e por muitos anos pelo menos dois ou três livros eu comprava toda semana, e o que é melhor, muito mais baratos que os livros nacionais!

Para completar o pacote a gentileza e presteza do atendimento eram sem par, eu nunca tive problemas, o máximo que me aconteceu foi encomendar um livro e receber a versão em capa dura sem custo adicional, pois ele estava fora de estoque, com uma carta dizendo que se eu fizesse questão do paperback eles trocariam sem custo, pode parecer pouco, mas este tipo de gentileza deixa uma ótima impressão, com um amigo aconteceu dos livros molharem no transporte, substituíram rapidamente e ainda desculparam-se pela demora em receber os novos exemplares, tudo sem nenhum custo ou aborrecimento. Lógico que indiquei a Amazon para todos os amigos, e todos viraram fregueses satisfeitos. E até hoje nunca ouvi de nenhum amigo que a Amazon pisou na bola, o frete marítimo baratíssimo não existe mais, eles também não procuram mais livros em sebos, era tudo parte de uma estratégia comercial, funcionou! Estou magoado pelos serviços que deixaram de ser prestados? De jeito nenhum, é a natureza da relação comercial, eles não são meus amigos, sou apenas um cliente satisfeito, e o que eles se propuseram eles cumpriram.

Ao ter um catálogo extremamente completo e um atendimento de primeira a Amazon virou referência, assim, ao pensar em comprar livros nos EUA só existia uma livraria: Amazon, e no mundo PM (pós Amazon) era muito mais fácil e barato conseguir livros. Livro era apenas o início, a idéia sempre foi ter uma loja de tudo, mas pelas características do público leitor e dos livros a estratégia inicial foi excelente, hoje pelo que dizem livros são menos de dez por cento do faturamento da Amazon, mas o catálogo completo é uma referência que faz com que outras lojas sejam irrelevantes. Mas vamos ao caso oposto, a Amazon tem seu tablet, o Kindle fire, e sua loja de “apps”, programas para este tablet, mas ela é muito inferior à loja da Google, quem é cliente da Amazon de livros sente-se o primeiro, já na loja de “apps” quem tem um kindle fire sente-se em desvantagem, você vê um programa legal mas ele não existe na loja da Amazon, isso gera frustração, melhor pegar um Android genérico com acesso à loja da Google do que o Kindle fire, conseguem entender a natureza do jogo?

Vamos adiante, como vocês viram o mercado de livros foi apenas uma estratégia para iniciar a loja on-line da Amazon, mas imaginem o que aconteceria se deixassem estes clientes de lado ou começassem a pisar na bola, a sua loja de outras coisas perderia credibilidade, e aí alguém poderia tomar o seu lugar. Vender livros físicos tem um custo logístico muito grande, é muito item de baixo valor perto de outras coisas da loja, mas vender ebooks é muitíssimo mais barato, não só pelo papel, mas por toda logística envolvida. Ebooks não existem sem o e-reader e a Amazon tratou de lançar o seu modelo com seu programa e formato de livros que só rodam em sua loja, o Kindle não foi o primeiro nem pioneiro em nada, mas pela fama da livraria quase virou sinônimo de e-reader, e assim, mais que nos livros físicos a Amazon responde por mais da metade das vendas de ebooks dos EUA, ao aliar a comodidade da sua loja aos ebooks a Amazon atingiu uma dominância sem precedentes, e ao mesmo tempo reduz o custo de logística de manter seus clientes leitores felizes.

Para quem gosta realmente de ler o e-reader com o ebook é um avanço sem precedentes, ele tem o conforto do papel, sem o peso e todos os problemas, e além de tudo é mais barato, dá para ler mais e ainda tem muitos livros gratuitos, que por mais que sejam de domínio público, os de papel nunca foram gratuitos e alguns até caríssimos. Assim quando uma Amazon disponibiliza livros gratuitos não é por serem beneméritos, é para o leitor os baixar em sua loja e não os adquirir em outro lugar, a idéia é ser a primeira opção, que como vocês vêem, falha miseravelmente no mercado de programas para Android.

Em um mercado capitalista não se fazem coisas para ser bonzinho, mas por que elas dão dinheiro, a curto ou médio prazo, raramente longo, assim a Amazon agrada seus clientes pois isso lhe garante fidelidade e mais negócios, se os tratarem mal eles vão comprar em outro lugar, desde que o outro lugar exista, isso chama-se concorrência, se alguém faz algo melhor para quem compra ele leva o cliente e o negócio. São as tais regras de mercado que se auto-regulam desde que haja concorrência.

No caso Amazon x Hachette a editora tem um vasto catálogo, e se a livraria não tiver seus títulos e o leitor quiser comprar terá que ir a outro lugar, e quem sabe este lugar lhe dê uma boa impressão e ele passe a comprar lá não só livros mas outras coisas, a Amazon perde, o grande trunfo da Amazon não é só ser uma loja grande, mas ser a loja que tem tudo! Ao outro lado a Amazon tem um grande público e se os livros e ebooks das Hachette não estiverem à venda neste ponto ela perderá muitas vendas, e ainda outras editoras vão vender livros em seu lugar, pelo porte da Amazon é uma grande perda financeira imediata. A Hachette quer proteger seu mercado de papel, por isso quer que o ebook custe mais caro, por seu custo muitíssimo menor o ebook pode custar muito menos, mas vejam: se a Amazon vende os ebooks mais caros ela também ganha mais, em teoria, mas a realidade não é bem assim, pelos dados que tem a Amazon e só ela tem dados tão bons do mercado de livros, um ebook deve custar entre U$3 e U$9,99 e assim maximiza-se os ganhos, segundo o que dizem, mas isso não convém aos editores que ainda vendem seus livros de papel e querem proteger o seu mercado, aí está a briga que todos viram, mas há aí um outro detalhe, lembram do tal caso de “collusion” que o departamento de justiça pegou? Todas as grandes editoras combinaram preço juntas, todas queriam aumentar o preço do livro. Porque todas juntas? Pois eles sabem que se uma baixar os preços os outros estarão em desvantagem e ela ganhará uma fatia maior do mercado. Por qual motivo a Amazon insiste em forçar este confronto com a Hachette? Se ela aceitar baixar os preços os outros também serão obrigados a reduzir seus preços, entenderam este outro aspecto da negociação?

Tudo parece muito definitivo, mas não sentiram falta de algumas pessoas importantes na cadeia do livro? Autor e leitor, o segundo é tratado como uma massa amorfa e o primeiro quase inexiste, parece que livros tem geração espontânea, deixe em um canto uns restos de carne, roupa suja, papel e tinta que logo terá lá, surgido do nada, um livro! E a realidade é que com ebooks e e-readers tanto editores como livrarias tornam-se supérfluos, instâncias que não agregam qualquer valor no livro, que é uma relação entre autor e leitor.

Outro aspecto que tem sido cuidadosamente escondido são os direitos menores que o leitor tem sobre um livro eletrônico em relação à sua versão impressa, a desculpa neste caso é proteger o direito do autor, mas a realidade é que ele é quem menos ganha no processo, ele é apenas uma desculpa para os editores restringirem o direito dos leitores, essa idéia de comprar um livro e não poder fazer o que quiser com ele é absurda, imagine se Hitler estivesse no poder hoje, nem precisaríamos reunir asseclas em praças para queimar livros, seria apenas retirar o livro do sistema e ele deixaria de existir, ninguém mais poderia lê-lo, pode parecer exagero, mas Hitler existiu e não estamos a salvo de outros ditadores, hoje mesmo ditaduras sangrentas existem em Cuba aqui na América, na África e na Ásia. Já houve tempo que livros eram raridades, caso da biblioteca de Alexandria, imaginem que dos livros que foram vítimas do incêndio, os que só existiam lá nunca mais puderam ser lidos, o que perdemos? Toda nossa riqueza cultural está em livros, além disso há toda uma função social em compartilhar livros, e isso está definitivamente proscrito com as regras draconianas que querem impor aos ebooks.

Outro aspecto que acho fedorento são os serviços de aluguel de livros on-line, não por conta da remuneração que é a principal preocupação dos livreiros, mas pelos catálogos, eu assino TV a cabo, tem um monte de canal, um monte de programa, a grande maioria um lixo total que não assisto, mas pago por tudo! Pior, fomento essa ruindade, sempre escolhi os livros que quis ler, sejam de onde forem, mas veja o caso da TV a cabo, alugo um serviço e fico restrito à sua programação, e tem tanto filme bom que não passa; veja o caso dos animes, sempre sucesso mas ferrenhamente boicotados nos serviços de cabo brasileiros, lembram da história do jabá para tocar música no rádio? Só que rádio era de graça, TV por assinatura nós pagamos! Eles escolhem o que vamos ver, e por exposição o que fará sucesso, a mesma coisa com o serviço de “aluguel” de livros me dá nojo, espero que os leitores sejam espertos e não deixem o seu direito de escolha de lado, é fácil perder liberdades e direitos, difícil recupera-las.

Mas, e o Brasil, onde fica nisso tudo? Para começar somos um país de poucos leitores, tudo por culpa dos nossos editores, livro por aqui sempre foi caro, e assim sem acesso, sem leitores, é óbvio que a “indústria” editorial não cresce; uma realidade contemporânea e histórica nefasta, a falta de livros tem sido a principal causa do nosso subdesenvolvimento, e mesmo hoje que apregoam que o livro no Brasil é barato ele ainda é caríssimo e pouco acessível. A realidade é que para quem tem o hábito de ler, isso não sai barato, pois quem lê, lê vários livros em um mês, e pode colocar aí um gasto de uns trezentos reais ou mais, o livro é barato para quem compra um livro ao ano, talvez quatro, mas estes não são leitores, e o pior é que nos EUA um livro com o mesmo número de páginas custa mais barato que o nosso, piorando a situação pois lá eles também ganham mais, assim, os editores que dizem que o livro no Brasil é barato estão tentando dar nó em pingo d’água para dizer uma mentira tão cabeluda. E falaram muito esta asneira no jornal, é preciso muita cara de pau! Aí vem um imbecilzinho e diz: “dinheiro para comprar livro não tem, mas tem para tomar um chopinho com os amigos”, enquanto tivermos que escolher entre o chopinho e os livros estaremos condenados, um não é excludente do outro, se há esta necessidade de escolher um ou outro é por que estamos muito mal, é aquela visão deturpada do esquerdinha ignorante que não admite que alguém possa ler e ainda tomar uma cervejinha com os amigos, coisa de burguês, pobre que é pobre não tem escolha, é como se disséssemos, olha, se você quiser ler vai ter que tomar umas pauladas, tem que ter sacrifício. E assim nunca formaremos leitores, o único e verdadeiro leitor lê por prazer e só há prazer com liberdade.

Se nos EUA livros e ebooks são apenas uma questão de mercado, aqui é de cidadania, e os livreiros se comportam como cadelas do governo, e seus asseclas na internet ficam latindo para a Amazon, com um medo mortal da concorrência, vi até um sugerindo que os livreiros fariam o governo expulsar a Amazon! Sério, procurem por aí, só dando risada. O que detonou tantas reações raivosas pelo jeito foi o fato da Amazon anunciar que conseguiu um catálogo com mais de 150.000 livros, e isso foi um grande feito, como mostrei anteriormente, é a mesma estratégia da Amazon quando começou nos EUA, e ela é boa, vender livros físicos não é só um negócio, é um teste para o serviço de logística no Brasil, mas por ter entrado no varejo de livros físicos com um catálogo tão completo a Amazon atraiu para si o ódio de todo mercado editorial, que tem medo da concorrência, pior ainda é que grande parte deste mercado é o governo, por isso o mercado papeleiro é tão lambe botas do governo. Os e-readers que podem significar a liberdade no mercado do livro no Brasil são ferozmente combatidos por livreiros, editores e governo do PT. O ebook com o e-reader é uma ameaça à manutenção da mediocridade editorial brasileira, a Amazon, a Cultura com a Kobo e agora a Saraiva com a Bookeen trouxeram o aparelho, mas o imposto da vergonha que a Dilma mantém no aparelho o torna muito caro para o bolso do pobre, principalmente o não leitor, que não corre o risco de virar leitor; precisam garantir que o brasileiro ainda troque votos por dentaduras. O novo problema é que a Amazon a despeito de todos boicotes montou um catálogo invejável que vai alavanca-la ao primeiro posto, e ela deixará de ser desprezível e vai ter mais poder de fogo para negociar no preço dos livros, os editores estão borrando as calças de medo, o governo também não quer livro barato. Estão colocando a causa de lutar contra a Amazon como um dever nacional: Brasil x Amazon, mas nós leitores somos de opinião contrária, pois queremos livros mais baratos, mais leitores, mais cultura e educação.

Depois de vocês verem toda a história da Amazon, Hachette e o caso do processo contra as editoras e a Apple, veja este trecho de uma reportagem da folha:

“Haroldo Ceravolo Sereza, presidente da Libre, diz que o mercado passa por um momento de mudança que exige muita atenção das entidades.
“Em princípio, não achamos um problema a Amazon vender no Brasil. É bom que o mercado tenha mais um lugar para vender livros. Só queremos que eles respeitem as regras da concorrência, que não pratiquem preços abaixo do mercado, como fazem lá fora.”"


Se tiverem curiosidade leiam a matéria inteira, notaram alguma diferença? Nos EUA o departamento de justiça processou a Apple e várias editoras por tentar fixar preços e ferrar o consumidor acabando com a livre concorrência, as editoras querem manter os livros caros, o caso da pinimba com a Hachette, e aqui querem que o governo faça esta fixação de preços do livro para mantê-los caros e inacessíveis! Acreditam? Que regras da concorrência são essas que o cara diz aí em cima? Nos EUA elas são consideradas crime! O que seria um preço abaixo do mercado? Um preço abaixo do que o mercado combinou para ferrar o consumidor? As coisas aqui são tão surrealistas que o cara ousa dizer isso em um dos jornais de maior circulação! E sabe do pior? Quase ninguém vê o absurdo! O pior de todo o Brasil vem desta falta de livros, façam o que fizerem, sem livros continuaremos a ser um país de merda, e não nos subestime, a coisa ainda pode piorar muito, vejam a Venezuela, nem livros nem papel higiênico!

Alex


8 comentários:

  1. É uma pena que um texto assim não tenha mais leitores, e essa é a tragédia nacional. Eu estou tão assustada com o que tenho visto nesta época de eleições no Brasil que já não sei nem como protestar, pois falta de informação não é mais o caso, é falta de vontade das pessoas pararem para pensar nas consequências de seus atos, falta de vontade de tentar entender essa louca realidade, falta de coragem e iniciativa para mudá-la. Comecei a editar ebooks gratuitamente para outras pessoas na esperança de popularizar o formato e também de chamar a atenção para a liberdade do modelo editorial digital, para tornar os livros mais acessíveis... Dá vontade de rir de autores que dizem ter um livro na gaveta e só estão esperando uma força para conseguirem lança-lo como livro (impresso, é claro, pois muitos desconsideram o ebook como livro válido). Autores deste tipo não podem ser leitores verdadeiros, não me convenço disso, podem ser apenas colecionadores, acumuladores de papel somente, pois por mais apego que se tenha ao papel é impossível negar as qualidades do e-reader, a praticidade que ele oferece, principalmente para aqueles textos que só se lê uma vez. Comportamentos dogmáticos são muito suspeitos e certos discursos eu já desisti de tentar entender, ou tentar argumentar, pois o outro lado geralmente nem sabe o que pode significar o termo 'argumento' e produz respostas risíveis, que por mais que mostremos que o que a pessoa está falando não faz o menor sentido nada adianta, não se consegue diálogo e o próximo passo é ela partir para a agressão sem fundamento. A ausência do debate político sério no Brasil só prova o quanto gente que lê e pensa e questiona e o livro são necessários, seja em que formato for.

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    1. Oi Helena,

      Entendo que o estado atual do Brasil e estas eleições são apavorantes, uma vez que há possibilidade de entrarmos em uma nova ditadura, mas como você bem observou só percebem estas realidades os que lêem, que são minoria, mas a maior parte sem perceber só se dará conta quando o sofrimento e o infortúnio invadir-lhes a vida, veja a miséria e o sofrimento que assola a Venezuela, veja a desgraça que assola o povo cubano por todos esses anos, lá um mero sabonete cheiroso é um luxo, é uma pobreza inimaginável, e mesmo assim os ignorantes flertam com este sofrimento, justamente por serem ignorantes. Por isso os livros e a educação de verdade são tão combatidos pelo PT, para que o povo não perceba que eles os conduzem para a miséria e a morte. Quem lê sabe que há um mundo melhor, é só querer, mas quem não lê sem consciência escolhe a miséria, material e espiritual.

      Parece que o ebook no Brasil está sendo responsável por uma mudança maior do que se imagina, ao despir o texto do objeto livro uma realidade grotesca da literatura brasileira apresenta-se: um mundo de pose e imagem, mas sem texto, uma intelectualidade vazia e inútil que escondia-se nas dificuldades e barreiras do papel; gente que escreve sem excelência para leitores que não vão ler, apenas colecionar os tomos e os exibir em suas estantes. Os ebooks com o texto integral mas sem a imagem fazem com que a única coisa que reste de um livro depois de lido seja sua vivência, e isso os impostores não tem, pois não lêem. E aí está a razão e a necessidade da inexistência do debate e da argumentação sincera, ela desmascara este tipo de farsante de maneira inexorável, é um perigo. E por este motivo eles fogem como baratas, escondem-se em sua mítica pessoal para que os outros não vejam o lixo de que são feitos.

      A realidade é que os textos de gaveta não são tão bons como seus autores presumem, e a razão é simples, sem o livre debate, sem a exposição sincera e crítica verdadeira nenhum autor consegue crescer. Justamente pela facilidade do ebook tenho lido ensaios dos grandes escritores, textos antes restritos, hoje não só fáceis mas também gratuitos, e o que se vê é uma realidade diferente que suas obras máximas deixam transparecer, pois se ver apenas os livros pensará que vieram do nada, e isso não poderia ser mais falso, eles tiveram uma vivência com os textos, embates e discussões que poliram suas habilidades, e isso não acontece hoje, “autores” pensam apenas em produzir livros, mas não tem vivência textual, não se submetem ao debate nem ao contraditório, e com isso ficam inferiorizados, por isso o livro objeto é tão mais importante que o livro texto.

      Cabe a nós discutir e não calar, calar é o jogo deles, não o nosso, precisamos do debate, do aperfeiçoamento, não vivemos de imagem, vivemos de textos. E os vigaristas vão sempre fugir da realidade, pois a verdade é sempre superior, é algo que não podem encarar. O ebook e o e-reader está expondo duas realidades, os que gostam de ler e viver um texto e os que gostam de ter livros e posar com eles.

      Abraço,
      Alex

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  2. Lendo este texto e acompanhando o andamento de matérias relacionadas ao e-reader Alex, não sei se vc leu uma matéria americana que diz quem lê no papel absorve melhor do que quem lê no e-reader, achei completamente tendenciosa e parece uma manipulação de editoras para vender mais livros físicos, eu como vc Alex mais de 4 anos leio no e-reader e não percebi esta dificuldade de absorver a história, ao contrário entendo e leio mais. Entendo que tem pessoas que gostam dos livros físicos as pessoas são diferentes, mas não entendo a oposição ao e-reader já que ele ajuda muito em nossa leitura, concordo com sua colocação que gostamos do texto, da história e é isso que importa. Mas estou feliz muito dos meus amigos por causa do LEV da Saraiva entraram no mundo digital e estão amando. Mesmo achando Kindle e Kobo superior em alguns quesitos creio que o LEV veio popularizar o e-reader e e-book no Brasil.

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    1. Oi Marta,

      Não sei se falamos da mesma pesquisa, mas recente (menos de três semanas) vi uma pesquisa que comparava leitura eletrônica e papel, havia diversas falhas óbvias na metodologia, quando planejamos um experimento é necessário levar em conta todos os aspectos e fixar-se em apenas um, no caso a pergunta: há diferença entre ler no papel ou no meio eletrônico, assim entre os grupos a única diferença seria papel ou meio eletrônico. Quem não isola bem seus sujeitos faz uma pesquisa porca, e o trabalho está longe e ter uma metodologia elegante. Primeiro, eles compararam leitores que lêem há muito tempo no papel com gente que pegou um e-reader pela primeira vez no teste, assim haver-se-ia de comparar leitores experientes de e-readers com leitores experientes de papel, que creio sejamos todos. Segundo, nas discussões não vi uma clara distinção entre e-readers e tablets, e acho isso fundamental, da minha experiência ambos são completamente diferentes e a distinção deve ser clara. Terceiro, é preciso eliminar a variável formato e formatação para comparar exclusivamente o desempenho do meio, é comum pessoas que não tem o hábito de ler pockets acharem pior, é até uma cultura diferente, o americano por achar o pocket descartável ao ler arreganha o livro e ele fica igual uma couve-flor, eu que tenho cuidado sacro com o livro acho tal comportamento uma heresia, uma vez que guardo os pockets e prefiro pois são mais fáceis de carregar por aí, além de serem mais baratos. Outro ponto a considerar é que as diferenças não foram tão grandes e em alguns quesitos a leitura em meio eletrônico superou o papel, o universo amostral foi pequeno e a quantidade de experimentos limitada, nada que não possa ser corrigido ao melhorar o protocolo experimental, mas se não houver esta intenção aí podemos dizer que houve manipulação. O importante da ciência é que os resultados possam ser repetidos, só assim veremos se há diferenças significativas ou não, no meu caso vejo uma diferença enorme entre ler no tablet ou no e-reader, apesar da tela do tablet ser maior, mas não vejo diferença em relação ao papel. Minha hipótese é que a luz direta no olho atrapalha a concentração interferindo no ciclo da melatonina.

      O problema não é gostar dos livros físicos, eu também gosto, mas só gosto pois eles contém um texto, e é isso que vale; o e-reader está denunciando que há gente que gosta de livros físicos apenas como objeto mas não lê, mas diz que lê, entende, e isso é em número alarmante no Brasil, muita gente usa livro como fantasia de intelectualidade, e o e-reader não serve para isso, só serve para ler; e para quem quer ler, que imagino seja a verdadeira função de um livro, o e-reader é um grande avanço, para quem não lê um perigo.

      Não tenho nada contra o Lev, acho a iniciativa excelente, mas não gosto da Saraiva, tem uma próxima de casa e faço questão de andar quatro vezes mais para ir na Cultura quando vou comprar um livro físico, muitas vezes fui mal atendido no que apelidei de “só raiva”, e quando o atendimento é bom o vendedor não diferencia um livro de um par de tênis e tenta me empurrar um “modelo” que não quero, o atendimento da cultura não tem sido lá essas maravilhas, mas para chegar aos pés da “sóraiva” precisa piorar muito, é uma questão pessoal, se um lugar trata-me mal nunca mais volto, simples assim. Desta maneira não vou dar propaganda gratuita de uma loja que pessoalmente deploro. O bom tratamento da Amazon é mais impactante quando existe contrastes como a Saraiva.

      Fugindo um pouco da tema, como você é uma das poucas pessoas que conheço que já leu o Padre Brown, viu que a BBC fez um seriado? Está ótimo, o ator que faz o padre está perfeito, para quem leu e gosta é uma delícia de ver. Aliás, antes eu só conhecia do Chesterton o famigerado padre, confesso que depois que comprei o completo da Delphi passei a gostar mais dos ensaios brilhantes do Chesterton.

      Abraço,
      Alex

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    2. Legal Alex, não sabia do seriado, tentei procurar por aqui e não achei para comprar. Aonde vc encontrou? Será que tem para alugar em locadoras? Amo Padre Brown li em português quando criança lançado pela editora Ediouro e agora com o kindle em inglês com a versão completa muito bom. Gosto de ler detetives atuais tbém, mas creio que Padre Brown, Miss Marple, Hercule Poirot e Sherlock Holmes ainda estão acima destes novos personagens atuais.

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    3. Marta,

      Padre Brown passa no canal do cabo Film&Arts aos domingos, também adoro os detetives clássicos, e tem vários: Poirot, Miss Marple e o Maigret do Simenon no Eurochannel, Morse, Lewis e Endeavor também são ótimos, e os dois Wallander. Não sei que edição que li, foi um livro que peguei na biblioteca de uma colônia de férias, lembro apenas que era português de Portugal.

      Abraço,
      Alex

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  3. Artigo que se diz imparcial, mas é puxa-saco da Amazon. Na boa, sou cliente assídua deles, mas a Amazon tem medidas bem desonestas em relação a política de conteúdo... e de feedback, então... Eles "administram" os reviews dos livros de forma a manipular a avaliação do produto. Transparência zero com o consumidor.

    Compro na Amazon porque em matéria de costumer service, como vc falou, é a melhor, mas não pago pau para eles, não. Como comprei ereader pra apoiar autores independentes, então compro meus ebooks na Smashwords, que é mais barato e tem a capa mais bonita...

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    1. Cara Mamãe eu sou Cult,

      Onde você tirou a idéia de que pretendo ser imparcial? Se lesse o blog veria que acho imparcialidade a grande falácia dos imbecis, não existe imparcialidade! Melhor ser honesto e deixar claras as idéias do que os textos obscuros dos vigaristas que se dizem imparciais.

      Em vez de dizer que a Amazon “tem medidas bem desonestas em relação a política de conteúdo”, diga quais são essas medidas, não fique no genérico. No caso do feedback ingenuidade sua que eles tenham qualquer obrigação de serem imparciais, democráticos ou qualquer coisa assim, eles são em ente privado e fazem o que querem, normalmente não faço reviews no site deles pois dá trabalho, não serei remunerado e o conteúdo passa a ser propriedade da Amazon, prefiro fazer no blog que é público e eu controlo o conteúdo, em vez de dar este meu direito à Amazon. Não tenho facebook pelo mesmo motivo, acho os termos de uso aviltantes, é minha escolha, mas veja quantas pessoas submetem suas liberdades e vida privada a eles; eu não.

      Gostaria que definisse o que quer dizer com “pagar pau para eles”, a Amazon tem méritos que são inegáveis, o meu acesso a livros antes da Amazon era muito menor, eles tornaram essa coisa de achar o que quiser na internet normal, mas não foi assim, antes era o contrário, pouco se encontrava na internet, e eles foram os primeiros, todos os livros achavam-se na Amazon, mesmo que não vendessem. E eles também tem defeitos, atualmente o principal acho que é exigir exclusividade dos autores brasileiros para pagar 70% de royalties e sem exclusividade só 30% se me lembro bem, além do item do contrato que os permite equiparar o preço do seu livro com o menor que encontrarem; se vendido na Kobo ao preço X o autor ganha 70%, mas a Amazon equipara o preço para pagar apenas 30%! E trouxas dos autores Norte Americanos que não entendem que isso vai valer para eles e não o contrário quando a Amazon for mais dominante, o que eles fazem aqui é um vislumbre do que a Amazon planeja fazer lá, ou qual o motivo de discriminar o autor brasileiro?

      Não diferencio autores em dependentes e independentes, prefiro livros que gosto ou não, independente de onde venham, e lógico, levo em consideração os preços.

      Abraço,
      Alex

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