sexta-feira, 25 de abril de 2014

Onde estão os novos escritores do ebook?

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Não há livro sem autor, não adianta falar dos equipamentos para ler ebooks sem livros para ler, nem muito menos existem escritores se inexistem leitores. Uma das grandes apostas do pessoal aqui do Ebookbr era de que a liberdade de publicação advinda do ebook traria à superfície uma nova leva de bons autores que não tinham como aparecer, e reafirmo o convite que temos a novos autores: estamos abertos para divulgar qualquer bom trabalho que nos chegue, não cobramos nada a não ser competência com seu meio. Para submeter um livro para divulgação aqui no Ebookbr é só enviar uma cópia já formatada em arquivo ebook, pois além do texto avaliamos a formatação, no nosso endereço de contato; não adianta mandar um link para download, nem ao menos a página de compra, se o autor não é capaz de enviar uma cópia do livro, também não merece ser avaliado para ganhar divulgação gratuita de sua obra. Tudo que recebemos lemos, pelo menos uma amostra, se não há resposta é por não acharmos que o material tem o necessário, se do contrário avaliamos que vale, o livro ganha um post, o autor do post estará jogando a sua reputação junto com o livro, responsabiliza-se por aquilo que publica, só assim podemos ter uma apreciação honesta. É pessoal, não há uma avaliação universal de mérito, e cada um dos autores aqui do blog é responsável pessoalmente pelos livros que divulga. Se eu divulgo um livro estou dizendo: acho que este livro vale, assino e tenho argumentos para dizê-lo. Pode não parecer, mas isso dá trabalho, e assim não publico avaliações negativas, pode até ter uma diversão sádica em mostrar os absurdos, os sem noção, mas dá trabalho e não é construtivo, assim, nem respondemos às submissões, mas tudo é lido, talvez em ritmo lento, mas no momento tudo que recebemos foi lido ao menos por um dos membros do blog.

Quem segue o blog já notou que pouquíssimos autores receberam algum destaque, infelizmente, a maioria do que recebemos não tem condições de ser divulgado, vai da total falta de noção até a inexistência do cuidado mínimo que se exige com um livro, ou a própria falta de conhecimento de seu meio. Não somos um empreendimento comercial que precisa publicar ou morrer, publicamos o que achamos que vale para o leitor, se tal texto aparece; não editamos, não ajudamos autores a atingir o mínimo necessário, como faz uma editora, aqui ou o livro chega pronto ou não vê a luz. Sabemos do trabalho árduo de editoras e editores para colocar um texto em formato minimamente aceitável, mas a idéia do ebook auto-publicado é que o autor tome esta responsabilidade em sua mão, pode até pagar um editor profissional para o serviço, e pode também cair nos montes de arapucas de gente que oferece este serviço sem ter o mínimo de competência, no final é o autor o responsável, ao contrário das editoras. Eu sei que muitos textos vão para editoras em formato indigno e dão um trabalho louco para editores e revisores, mas esse é seu trabalho, e cobram por ele, a maioria dos autores de editoras recebe uma paga também indigna, impossível para um escritor que quer viver de suas letras, mas a escolha foi dele, se perpetua este modelo é culpa sua.

Mas a pergunta permanece: onde estão os novos escritores do ebook? Nos Estado Unidos não há o que dizer, não só aparecem novos escritores, muitos grandes vendedores de livros, como muitos autores de carreira já estão largando editoras e tendo maior ganho com o ebook. Não há dúvida que lá também aparecem os indigentes da literatura, e um monte de coisa que nunca passaria pelo crivo das editoras vê a luz, mas o leitor não é bobo, enganam alguns incautos, mas é só isso, de resto tem mais gente reclamando do lixo auto-publicado, mas há os que sabem escrever ou contar uma estória e sucedem em entrar na lista dos grandes vendedores, os “bestsellers”, a loteria do mundo da literatura. Não há dúvida de quem fez esta mudança, o ebook junto com o e-reader, mas por que lá é tão diferente daqui? A primeira e mais gritante diferença é que lá existem mais leitores, mas não é só coisa de mercado pois o número de leitores não quer dizer apenas o número de compradores, mas o número de pessoas que tem o mínimo necessário para ser um escritor, e repetindo o óbvio: um grande escritor sempre é um bom leitor, assim a nossa educação precária, ideológica e vigarista nos trás não só um atraso, mas dois, se não há leitores não existem também escritores.

Continuando com a comparação, nos EUA livros sempre foram acessíveis, e já foram mais, sem falar no sistema de bibliotecas, mas sempre foi possível encontrar livros baratos até em farmácias e supermercados, que mesmo que não tenham grande conteúdo, no mínimo traziam um exercício de maior domínio da língua escrita; e hoje, com o ebook isso é enormemente ampliado. Aqui o livro sempre foi caro e inacessível, e um texto minimamente bem escrito capaz ao menos de permitir o treino da língua, nunca esteve à disposição do brasileiro médio. O ebook com o conforto do e-reader é capaz de resolver esse problema secular, é combatido ferozmente pelo governo do PT que lhe cobra o dobro em imposto para assim não permitir sua popularidade, mesmo contra o que diz a constituição que é francamente favorável ao livro e não permite imposto em nome da difusão da cultura, educação e liberdade de opinião.

Existem mais diferenças e a coisa vai mais fundo do que imaginamos, ler é prazer e diversão, mas também pode ser educação e cultura, não espere descobrir as grandes verdades do universo em um livro de puro entretenimento, assim como não espere grande filosofia na partida de futebol de final de semana com os amigos, mas assim como alguém pode fazer um drible artístico ou um gol cinematográfico, um livro apenas divertido pode ter lances brilhantes e um pouco de arte na estória, diversão com inteligência. Nos EUA o livro como entretenimento puro e simples sempre teve o seu espaço, no Brasil estes livros sempre foram vistos com desdém, pois uma vez que não temos um “mercado consumidor de livros”, ou seja, leitores, pouco importou a satisfação desta parte, e assim os livros foram cultuados nos círculos acadêmicos pseudointelectuais. O país que não tem leitores, que não é capaz de divertir-se com um livro, leva o livro muito a sério... parece piada, mas a coisa ganha tons de humor negro. Como um país que não tem leitores pode levar o livro a sério? Fácil, é só não ler e cultuar os livros como objeto de adoração, cultuar os escritores como seus sacerdotes, alimentar um sistema de falsidade intelectual, criar uma sociedade de eruditos não leitores e escritores de mentirinha. Gente que ostenta imensas bibliotecas não lidas, de preferência na sala de estar, para dar entrevistas em frente a uma parede de livros, mas ouse perguntar ou comentar um dos títulos do acervo, será proscrito, ainda mais se leu, entendeu e tem uma avaliação intelectualmente objetiva e honesta. Compram livros que falam de livros, e repetem a mesma opinião para forjar erudição, mas nunca leram os originais, pois é só assim que idéias estúpidas tornam-se hegemônicas e sambistas grandes escritores. Livros são comprados, presenteados, mas não são lidos, e assim você cria o “bestseller” de mentirinha, o livro que todo mundo comprou pois alguém disse que era bom ou por que ganhou algum prêmio de embuste, mas ninguém ousou abrir a capa para checar se era verdade, e ninguém neste meio tem cultura literária para comparar, compara-se algo com algo, quem não lê compara nada com nada, um corolário da ignorância, muito bem disfarçada e dissimulada, desde que não leiam, desde que o brasileiro mantenha-se um povo de não leitores, as mentiras permanecem enterradas e continuamos a ser o povo mais fluente em javanês.

Mas eis que surge um aparelhinho chato que é capaz de mexer com as verdades básicas da intelectualidade brasileira, com ele não se mostra livros, desfruta-se, lê; não dá para usar de fundo para entrevistas, seu conteúdo só aparece no fundo da alma; o livro que era objeto de culto agora pode circular por mãos profanas, mãos que não se preocupam com sua santidade, mas com sua essência, gente que pode descobrir que naquele mundo de mistérios não há nada que vale, e pode descobrir nos textos apócrifos a verdade cuidadosamente editada.

Estes escritores que precisam de todo um arcabouço para serem famosos e relevantes nunca estarão no ebook, pois o ebook não se compra para mostrar, para guardar ou para presentear, compra-se para ler, e podemos adquirir o livro segundos antes de ler, não é um objeto de culto mas algo para usufruto. O e-reader desfaz a mística do livro e traz a leitura para seu verdadeiro patamar, a diversão ou o conhecimento que contém um livro.

Vejo um monte de gente que só lê os livros ditos sérios, no engano de ganhar conhecimento superior, o agora considerado apenas mais um gênero: ficção literária, aí estão categorizados os tais escritores sérios, ou os escritores artistas, mas com mais freqüência os idiotas seguidores acéfalos da doxa ditatorial do pós-modernismo; quer substância, conhecimento? Vá ler filosofia ou ciência, do seu início ao fim, mas não, ficam lendo estes embusteiros. Lógico que neste meio há grandes escritores, principalmente os antigos, que sobreviveram ao atrito imposto pelas areias do tempo, mas a ficção literária moderna é noventa por cento ar quente, vazia. E infelizmente é neste gênero ingrato e moribundo que a maioria dos escritores brasileiros investe, sem cultura, sem leitura, não lêem os grandes, mas apenas a mediocridade contemporânea, e assim não tem noção do papel ridículo que fazem, investem no mais difícil, na briga de gigantes sem ter habilidade para igualar os fraldinhas. E mesmo que seja um grande escritor, não encontrará público, pois não há leitores com a habilidade necessária, e é por isso que o golpe das premiações funciona, pois não há gente culta e honesta para dizer que o rei está peladão; como disse, nesse gênero o livro é apenas um objeto de decoração, assim, mesmo um escritor de mérito e estrema habilidade, não tem como sobressair-se sem ficar beijando traseiros imundos de gente ignorante, a panelinha dos incapazes que se dizem literatura brasileira. Neste meio a pura inabilidade é disfarçada de hermetismo para enganar o leitor inculto, e assim mantê-lo ignorante, idólatra e servil.

Outro fator importante para o subdesenvolvimento literário é a linguagem pobre padronizada pelos jornais imposta pelos manuais de redação e (falta de) estilo, é medíocre e mediocrizante por natureza, foi feita para que os bons escritores não humilhem os maus, e como são minoria, que a qualidade dos jornais não seja medida com base nos bons textos, o que os tornarias inferiores a si mesmos. A desculpa é que os textos sejam mais compreensíveis, mas em realidade ela evita completamente a abordagem de assuntos complexos, condenando o jornal à leviandade. Não faz tempo que ler jornal era para as pessoas que queriam aprofundar-se nos assuntos, não é mais, o mesmo conteúdo dos telejornais está transcrito nos jornais, sem maior profundidade, é a imposição da leviandade e conseqüente mediocridade. Qualquer assunto complexo tem instâncias de analogias mais próximas ou distantes que necessitam de frases longas, complexas e não podem reduzir a já pouca variedade de pontuações ao ponto usado de maneira freqüente, o que reduz todas as cláusulas à mesma hierarquia, ridículo. É absolutamente impossível tratar de assuntos complexos com esta escrita aleijada, pior ainda se ela for imposta na literatura, é a derrota! Mas tem gente que escreve e faz sucesso com esta ignomínia, é o melhor diagnóstico da literatura brasileira, gente que não sabe escrever para o leitor que nunca aprendeu a ler; como eu disse: tudo deve ter comparação, este leitor que aceita este lixo nunca experimentou algo melhor, mais saboroso, mais vivo, e por isso consomem dejetos. A leitura de verdade traz um desafio que lhe faz crescer, para quem vive no Brasil comer uma feijoada no Japão e pagar uma fortuna por algo ruim é ridículo, já experimentamos algo muito melhor em nosso país, o mesmo ocorre com o livro, tais autores paupérrimos só existem pois o leitor inculto nunca experimentou coisa melhor, nunca cresceu.

Toda esta síndrome culmina com o fato de existirem pouquíssimos escritores profissionais de livros de literatura: com poucos leitores, sem investir na divulgação da literatura e na melhoria da educação, autores tem pouca relevância, e assim, para piorar, as editoras brasileiras que já cobram caro no livro, mais caro que nos EUA, pagam ao escritor muito menos que lá! A maioria dos escritores não vive de seus livros, mas a editora vive! Viram o absurdo? O e-reader na mão do brasileiro significa acabar com esta síndrome nefasta que subdesenvolve o brasileiro, a educação, a leitura e a cultura e também destrói todo o tecido social de uma nação, afogada em ignomínias cúmplices da ignorância.

Alex

6 comentários:

  1. Tenho a impressão de que o sonho de boa parte dos 'escritores' brasileiros contemporâneos é justamente entrar nas panelinhas das grandes editoras, ser citado por este ou aquele crítico, vencer este ou aquele prêmio. Bem como o sonho dos críticos de literatura é ser reconhecido por um desses canais, entrar nas panelinhas igualmente. Sim, o leitor verdadeiro não se deixa enganar por nada disso, não liga tanto para a indústria de resenhas compradas ou 'manipuladas', mas se existe este tipo de leitores no Brasil, leitores de fato, a quantidade é insignificante e ninguém ouve a sua voz. Não, os novos autores e críticos parece que não querem realmente mudanças na literatura ou no sistema literário, já que a Internet está aí desde a década de 90 e pouco mudou até então. Daqui a pouco aprovam o tal Marco Civil e aí mesmo é que vai ficar difícil bancar auto-publicações e a liberdade de expressão. Eles, estes autores e críticos, querem ser parte do sistema, nada mais. No Brasil há o equívoco de que o que é gratuito não tem valor, o que é auto-publicado não tem qualidade. É uma grande mentira, pois se o material tem qualidade um dia será reconhecido, e em formato ebook maior é a chance de ser lido por alguém, dentro ou fora do Brasil. É triste esta realidade, mas fazer o quê? Literatura requer tempo, e gente que saiba ler. Ótimo post!

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    1. Oi Helena,

      Infelizmente esta sua constatação é dolorosamente verídica, o sonho do brasileiro não é escrever bem, dominar sua arte, e com isso não tem prazer com o ato em si, mas com sua suposta conseqüência, o sonho de tornar-se um escritor por vontade do rei, e é apenas um sonho e uma muleta; sonhos são sementes que sem trabalho nunca florescem, apodrecem sem nunca ter germinado, ninguém sabe precisamente a planta que sairá de uma semente, necessita de trabalho, realidade, e mesmo assim ninguém prevê como será o fruto, todas plantas sofrerão desafios, e é o trabalho que as manterá vivas, sejam secas ou pragas, há trabalho, há a realidade, e sem ela não há proficiência necessária à existência do fruto, e quando o fruto apodrece deixa sementes, que deverão ser cultivadas e nem assim darão algo perfeitamente previsível, é um ciclo de vida, é assim que se vive a vida; um sonho em que não se trabalha, assim como a semente que não é plantada não vive, não nutre ninguém e não deixa descendência.

      Infelizmente a dependência do rei vem longe no inconsciente do brasileiro, aqui o trabalho próprio e o mérito são desprezados, justamente pois é isso que não tem os amigos do rei e os que querem ser amigos do rei. Por isso esses autores são subservientes e ineptos, devem copiar e nunca desafiar a instituição reinante, e com isso temos uma legião de capachos inúteis. Se a história nos disse algo, é que nenhum capacho foi adiante, veja o exemplo do Becket, eu não gosto, prefiro o Joyce, mas o Becket cópia é incrivelmente inferior ao Becket original. Os escritos de Emerson aqui são motivo de desprezo, mas baseados na nossa própria história contra a de locais com pessoas dedicadas a trabalhar e acreditar em si, o que produzimos? Uma literatura escassa e pobre ancorada em poucos luminares desprezados em seu tempo. Por isso louvamos os mortos, já calados, impotentes, incapazes de crítica. Acho que é preferível a literatura viva e crítica mesmo dos mortos do que a morte em vida do qual sofrem estes que não são capazes de viver suas leituras, o leitor de verdade pode ser raro, mas garanto, ele diverte-se muito mais, vive.

      Abraço,
      Alex

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  2. Parabéns, Alex. Ótimo texto, como de costume, mas especialmente porque coincidiu com uma experiência que resolvi fazer usando o KDP. Coloquei um ebook meu de fantasia infanto juvenil agendado para custar R$ 0,00 nesta semana. De janeiro até aqui, teve 4 vendas, mesmo com minha divulgação em blogs e redes sociais. Pois desde segunda até agora (meio-dia de sexta), SEM EU ABRIR A BOCA PARA FALAR DA PROMOÇÃO, o ebook foi baixado 70 vezes.
    Isso me faz pensar que a loja da amazon é sim acessada e minuciosamente vasculhada, mas visando apenas o conteúdo gratuito. Extrapolando um pouco o pensamento, eu nem configuraria este aspecto como ruim, afinal pode ser usado como uma poderosa estratégia de propaganda, mas existe sim uma problemática nesse esquema de busca por ebooks grátis, que é o não uso do livro digital. Se a pessoa baixa porque está de graça, sem que tenha sido impelida por uma indicação ou curiosidade, o livro não será lido, constando apenas como estoque de leitura num oceano de arquivos que jamais serão lembrados.

    Apesar de parecer, esta situação é muito diferente do caso que surge na venda dos livros físicos, pois o leitor compra sem vontade imediata de ler, coloca na estante com dezenas de outros que estão na espera, mas no ato da compra, alguém foi pago, e o mercado se movimenta, mesmo que o livro nunca seja lido e fique a empoeirar numa estante. Esse ciclo inútil de empobrecimento da leitura é, ao meu ver, mais crítico na comercialização digital. O leitor não tem autocontrole para resistir à promoção do livro que não pretende ler, mas ao mesmo tempo o escritor não se beneficia com o modelo, nem financeiramente nem com divulgação.

    Daniel Monteiro.
    http://blogaodocoelhao.blogspot.com.br/

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    1. Pois é, Coelho, o velho problema da generalização... Desculpe meter o meu comentário nesta discussão (risos!). Falando em experiências, todos os livros que eu baixo serão um dia lidos, no meu tempo, é claro. Nem todos os leitores têm o mau hábito de encher suas estantes virtuais ou reais com títulos que não pretendem ler. Se um livro está acessível o tempo inteiro e gratuitamente na rede, maior a chance de vir a ser lido - e o que melhor: recomendado - por alguém. Mas se o objetivo é vender livros, talvez a Internet não seja nem de longe o melhor lugar, mas continua sendo a esperança de quem realmente gosta de ler e vive ansioso por novidades neste mar de mais do mesmo editorial pseudo-literário. Saudações cordiais!

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    2. Oi Daniel,

      Sua experiência é muito interessante, é um fato, e permite várias interpretações, difícil fazer um juízo de causa e efeito, mas vamos analisar: sem qualquer esforço promocional de sua parte, ao colocar o livro gratuito o mesmo teve setenta downloads, contrário a apenas quatro vendas consolidadas de janeiro até agora com ampla divulgação. Infelizmente acho que não existe o registro de quantas vezes uma amostra do seu livro foi baixada, de um livro que interessa-me, sempre baixo antes uma amostra, mesmo que já conheça o livro, ao menos para ver a formatação, mas no caso de desconhecidos leio as primeiras páginas, o folhear das livrarias de papel; nem todo livro que folheio compro, era meu hábito passar horas em livrarias investigando as estantes e folheando livros, e muitas vezes não comprava nenhum, é como atualizava-me do que existe; transferi meu hábito para o digital, se um livro está gratuito em vez de baixar uma amostra pego logo o livro, em vez de ler em pé na livraria, leio um trecho no conforto da minha residência; se em uma livraria encontro um livro interessante logo compro, pois corria o risco de não encontrar novamente, essa urgência não existe no mundo digital, só compro um livro se vou ler, não compro para guardar, a não ser que o livro custe um ou dois dólares, próximo a zero, da mesma maneira que chafurdava nos cestos de promoções de pockets nos EUA. Pense no gasto que existiu para eu somente folhear o livro, impressão, distribuição, ponto da livraria e funcionários, e mesmo assim um monte de livros encalha, só gasto! Seu livro chegou aos olhos do leitor com gasto mínimo em comparação, pense no papel, como seria seu gasto em publicidade e propaganda? Anuncia-se na TV para milhões para atingir poucos mil, mas existe uma diferença, ao oferecer o livro ou um trecho para publicidade, isso não é propaganda, é a realidade do seu trabalho, ali está o mérito, no caso da propaganda tudo que oferece é adjetivos superlativos que podem ou não ser a realidade do livro, quantos livros são comprados por propaganda ou premiações e nunca são lidos? Isso tem um custo.

      Outro argumento: se quiser pode chafurdar nas listas de livros grátis da Amazon e encher rapidinho a memória do seu e-reader, se este é o hábito, sem nunca ler nada, mas quem daqueles livros será lido? Quais você indicará aos amigos? Acho difícil quem baixe o livro só por estar gratuito, pois há muita coisa assim, acho que a maioria só baixa se há um mínimo interesse, além disso, tem que pensar quem é o público que tem kindle e conta na Amazon, é um leitor mais experiente e mais velho, a nata dos leitores, é gente que em sua maioria lê inglês e já tem kindle desde antes de vender no Brasil, ainda são pouquíssimos os jovens comprometidos com leitura que investem em um e-reader, para quem lê cinco livros ao ano não justifica o investimento, pior ainda em português onde o preço do ebook é muito semelhante ao papel.

      No ebook a possibilidade do bestseller ou o encalhe é possível ao escritor independente, antes as portas estavam fechadas, mas é um assunto vasto e aqui só arranho a superfície, é uma discussão que vale, principalmente saber como chegamos aos livros que lemos, mas isso fica para a continuação da conversa, se quiser.

      Abraço,
      Alex

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    3. Oi Helena,

      O seu comentário já evidencia outro aspecto do mesmo assunto, a possibilidade do leitor encontrar textos de excelência fora do tédio da norma editorial, que prioriza a mesmice, motor de quase todo empreendimento comecial. Neste caso acho que a direção aponta para comunidades elitistas de leitores críticos, gente com critérios claros e conhecidos disposta a sujar o pé na lama para garimpar e espalhar os tesouros encontrados; ainda aponto outro aspecto, a necessária lapidação de gemas brutas, mas ambos trabalhos não são simples e exigem gente honesta e competente com vasta cultura pronta a referendar e defender suas indicações, meio no estilo do Bloom.

      Abraço,
      Alex

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