domingo, 9 de fevereiro de 2014

Livros, e-readers e cultura.

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Cultura, palavrinha difícil, abusada, vilipendiada, torcida em seu sentido e prostituída em todos os sentidos; dá para traçar um paralelo com a palavra vida, que também por significar tudo e nada, no final do uso diário perde todo seu sentido, ou mesmo a busca de um sentido. Não há vida sem passado e não há cultura sem memória, e ao mesmo tempo vida e cultura apenas justifica-se no presente, parece incongruente, dependemos do passado, de sua lembrança, mas seu uso, sua realidade está no presente.

A escola foi um dispositivo inventado para difundir a cultura em sociedade, e de uma vasta gama de conhecimentos, escolhemos aqueles imprescindíveis para o homem viver em sociedade, mas o que tentamos injetar é uma espécie de cultura postiça, padronizada, industrializada e plastificada para servir a todos, menos aos que realmente buscam cultura de verdade; a coisa legítima, muito mais brilhante, vibrante e viva não está nos medíocres bancos escolares, está na vida de cada um, e na vida que teve a cultura em nossa sociedade, não nos textos dogmáticos repetidos à exaustão, mas no uso prático que se faz deste conhecimento tornando-o vivo.

Ter cultura como fim é mera imbecilidade, pois é da vida que ela advem, não como objetivo, mas como subproduto involuntário. Você lê um livro, diverte-se, toma contato íntimo com o texto, e desta relação pessoal ganha como subproduto cultura, viver o livro é o que lhe dá cultura; mas se ao contrário, você é obrigado a ler, decorar, e não tem a vivência do livro, o que vem é uma cultura postiça e disfuncional, não uma relação pessoal com o livro, mas uma relação intermediada pela sociedade, pois cultura em si não tem qualquer valor a não ser o desfrute advindo da vivência que a gerou, a cultura como valor social é falsa. O motivo da cultura ser valorizada em círculos sociais é que os indivíduos verdadeiramente cultos e inteligentes se destacam, e por isso despertam inveja, a inveja gera cobiça e assim, sem viver, os invejosos almejam ter o mesmo destaque, mas não querem a vivência, cultura de verdade, apenas sua aparência social. E por não importarem-se e não viverem são impossibilitados de ter a compreensão dos assuntos daqueles que experimentam esta relação com seu tema de paixão, ficam aleijados, e como todo invejoso, inferiorizado, indigno da cultura que finge ter.

Rousseau não entendeu estas diferentes relações e confundiu a verdadeira cultura com sua afetação social, fruto da inveja, e assim em seu discurso contra as artes e a ciência, as culpou pelo pecado humano, e não percebeu que é a relação social que gera esta perversão, e de maneira burra e crédula creditou ao homem inculto a pureza, pois este estava livre da cultura corruptora, mas é do homem, da sociedade humana esta perversão, não da cultura, seja na forma de arte ou ciência. Veja este excerto:

Hoje, quando estudos complexos e gostos refinados reduziram a arte de agradar em princípios, uma vil e enganosa uniformidade governa nossos hábitos, e todas as mentes parecem ser produzidas do mesmo molde: reiterada polidez traz demandas, propriedade escreve ordens, e incessantemente pessoas seguem as tradições costumeiras, nunca suas próprias inclinações. Uma pessoa não ousa ser como ela é. E neste constrangimento perpétuo, homens que compõem este rebanho chamamos sociedade, colocados na mesma situação, todos fazem as mesmas coisas, a não ser que forças poderosas o evitem. Assim, uma pessoa nunca conhecerá bem a pessoa com que trata. Pois para conhecer um amigo será necessária uma situação crítica, dito isso, esperar até que seja tarde, pois é lidando com estas emergências que você o conhecerá de verdade.

Ele confundiu a uniformidade, a mediocridade, como traço da cultura padronizada, mas este comportamento é inerente do homem inferior, que tem a tendência de ajuntar-se em bandos e comportar-se como matilhas, assim como os animais aos quais é impossível perverter com a cultura, o tal homem natural não tem nada de idílico, tem embutido em seus genes as mesmas características de todas as bestas feras que o precederam sobre a terra. Mas, ao contrário dos animais o homem tem escolha, uma escolha consciente, da mente humana intelectual, não animal que age sem escolha consciente possível, e é nesta consciência humana que reside a cultura, e é responsável pelo uso que faz de suas potencialidades.

Fabulosos e evidentes são os enganos de Rousseau, mas pior foi a leitura que a inveja ainda mais aguda dos homens inferiores fez de seu trabalho, gerando a estupidez do marxismo e sua luta de classes, como podem ver, o comportamento de gado que Rousseau despreza é a própria natureza do sentimento de classe; classe esta que não suporta o diferente, pois quer a tudo mediocrizar, e no momento de seu nascimento, era uma aristocracia decadente e uma burguesia ascendente que viraram alvo da inveja da massa medíocre.

Apesar de Rousseau ter reconhecido Bacon, Descartes e Newton como capazes de subsistir à cultura social mediocrizante, não ousou seguir seus escritos, e como bom homem inferior ignorou as palavras de Bacon:

Os que se dedicaram às ciências foram ou empíricos ou dogmáticos. Os empíricos, à maneira das formigas, acumulam e usam as provisões; os racionalistas, à maneira das aranhas, de si mesmos extraem o que lhes serve para a teia. A abelha representa a posição intermediária: recolhe a matéria-prima das flores do jardim e do campo e com seus próprios recursos a transforma e digere. Não é diferente o labor da verdadeira filosofia, que se não serve unicamente das forças da mente, nem tampouco se limita ao material fornecido pela história natural ou pelas artes mecânicas, conservado intacto na memória. Mas ele deve ser modificado e elaborado pelo intelecto. Por isso muito se deve esperar da aliança estreita e sólida (ainda não levada a cabo) entre essas duas faculdades, a experimental e a racional.

Um detalhe importante a salientar é que como viemos neste curso de uma sabedoria eminentemente religiosa, virtudes como lógica e razão eram consideradas divinas e metafísicas, mas de um ponto de vista epistemológico tendo a ver estes valores como fruto da observação e experimentação, da causalidade.

De um lado temos a cultura real, a que adquire-se do contato com as artes e a ciência, do outro temos o contato social, indireto, falso. Junto com o marxismo ganhou popularidade um tipo de estudo chamado historicismo, se levarmos em consideração os escritos de Hegel, as coisas não tem valores em si, mas apenas os que a sociedade lhe dá, assim em vez de imiscuir-se em artes e artesanias, cria-se uma narrativa falsa que substitui a coisa em si. Esta cultura de falsificações tornou-se o cerne das idéias marxistas, pois como uma religião Marx predisse que o fim da chamada luta de classes seria inevitável, mas há aí muita, toneladas de besteiras, a primeira e mais fundamental é a própria idéia de classe, agrupar pessoas nestes cercados de gado é tirar toda sua humanidade e cultura verdadeiras.

O homem inferior sente inveja do superior e tenta sabotar aquilo que cobiça, quer destruir o que não pode ser, mas ser superior ou inferior é uma escolha à disposição de todos, e para isso é só descobrir os verdadeiros gostos e prazeres que tem no contato exclusivo com seus objetos de estudo, sejam eles quais forem. E desta escolha vem o desenvolvimento mental, o homem torna-se inteligente não por seus genes mas por sua atitude diante do conhecimento, da cultura. A partir do momento que tem prazer em uma atividade você constrói sua cultura, seu saber, como já demonstrou Piaget, você tem um modelo vivo, e a partir dele novas informações são incorporadas gerando o fenômeno da acomodação, isso cria um todo conectado e coeso, diferente de informações simplesmente memorizadas e descontextualizadas do conteúdo geral, que não se encaixam, e portanto não formam o entendimento como um todo.

Em todo esse processo o livro tem sido o principal veículo da cultura, só ele é capaz da intimidade intelectual necessária, houve época que achava que livros não mais valiam como ferramenta de comunicação de massa, uma vez que muito menos gente lê, mas depois de muito explorar toda a linguagem de vídeo e áudio, cheguei à conclusão que certo conteúdo intelectual é inviável nestas mídias, pois não se consegue transmitir conceitos intelectuais complexos. No livro lemos e relemos, paramos para pensar e organizar as idéias e este ritmo é pessoal, vídeo e áudio, mesmo pausando, não tem esta versatilidade para induzir o pensamento profundo. Vídeo e áudio são ótimos acessórios, mas para conceitos intelectuais complexos, não são suficientes, nada supera a intimidade que a mente tem com o livro, e nem precisamos dos grandes tratados de filosofia para provar, qualquer livro de estória é muito mais vívido que o melhor dos filmes, não há filme que consiga nos transportar para uma realidade imaginária com tanta eficiência. Assim, é inevitável ver que uma sociedade com menos livros, em que se lê menos, é uma sociedade mais estúpida.

É bem evidente o processo de desvirtuamento cultural em que vivemos, na época em que o acesso é mais fácil, mais democrático, as falsificações culturais proliferam, a sociedade humana mais organizada e institucionalizada é a que mais prega a mediocridade; universidades, em vez de serem centros difusores de excelência, tornaram-se os bastiões dos medíocres. Cabe aos que prezam a cultura, os que dela tiram prazer, caminhar independentes para não serem cerceados pela massa.

Com o mercado ditando o que se imprime, o e-reader veio devolver a diversidade fundamental para o mundo dos livros e da literatura, o próprio livro gratuito para quem tem e-reader é um tabu, pois nunca foi assim, livros sempre custaram, sempre foram objeto, este ebook sem corpo é uma aberração, pois tudo que traz é a literatura e cultura despidas de todos os fetiches, mas com toda a parte essencial. É um choque achar tomos de incomensurável valor cultural gratuitos na internet, é a cultura despida de toda inutilidade, mas preservada em sua essência. É uma quebra de paradigma, para aqueles que sempre tiveram relacionamento íntimo com o livro nada muda, a transição é prazerosa, pelas facilidades que traz, mas para quem tem um relacionamento idólatra, fetichista ou vigarista, o e-reader traz o desmascaramento da falsa intelectualidade, uma afronta, por isso tanta gente quer sabotar o e-reader, por isso tanta gente odeia o acesso que o e-reader trouxe para os ebooks e o acesso que dá a toda cultura. É também por este motivo que o governo cobra imposto no e-reader, pois sem a taxação ele fica acessível aos pobres e pode significar a quebra do ciclo de ignorância crescente do Brasil, um governo com base em teorias socialistas furadas precisa da ignorância do povo para que prospere a implantação do almejado regime ditatorial.

O que acho engraçado é que ninguém espelha-se mais nos grandes homens, é como se fossemos indignos, e é aí que começam as más escolhas, a inveja em vez do prazer e da virtude. Se muitos foram grandes é por inspirarem-se nos grandes, para um exemplo sonoro, pegue a primeira sonata de piano do Beethoven, ela é um desafio a Mozart, lógico que o segundo já não mais existia, mas era o mestre a ser batido, Beethoven parte de uma melodia muito parecida com as composições de Mozart, mas à medida que a música progride a estrutura vai ficando mais sofisticada, “melhorada”, ousou ir além, desafiou o mestre. Por melhores que sejam todos são homens, e podem ser ultrapassados por outros homens, mas o caminho da inveja faz com que os mestres sejam apenas desprezados, mas nunca superados, pois o invejoso é sempre indigno, para vencer necessita da falsificação e da complacência da massa medíocre que faz o seu sucesso, mas nunca seu mérito, é um conluio implícito onde o mérito verdadeiro é ofensa pois desmascara a farsa.

Sem descambar para o lado místico, adquirir cultura exige que primeiro siga o ditame das portas dos templos iniciáticos: “Conhece-te a ti mesmo”. Quem é você? Quais são seus  gostos? O que realmente lhe dá grande prazer? A partir daí siga a sua curiosidade, vá vivendo e encaixando todos os pedaços de informação que adquire segundo o mapa dado pela sua curiosidade, não se deixe seduzir pela pressão social, só você sabe o que você quer, e nessa relação ninguém pode se meter, e verá que terá os melhores amigos pelos assuntos em comum que te atraem, aqueles que podem acompanhar-te na busca pessoal e não os que queiram te desviar do que é seu, do que é você. O invejoso não consegue ter esta relação íntima com seus interesses, ele não tem prazer, inveja o prazer que outros tem e a cultura que por ventura virá, cuidado com esses tipos, eles não tem nada de bom a te oferecer.

De posse de um e-reader, vou dar-lhe algumas dicas: nunca se deixe intimidar por qualquer texto, faça perguntas, se não entende pergunte o porquê, pode ser que ele refira-se a outros textos ou conceitos que não estão no livro, se as palavras não fazem parte do seu léxico, o dicionário foi feito para isso, no e-reader basta um “clique”, e assim seu repertório cresce, pergunte, nunca fique calado! O grande problema ou solução é que cultura de verdade é sempre desafiadora, irrequieta, ela te faz questionar, e tudo que a massa medíocre não quer é este desafio. Certa polidez social, já denunciada por Rousseau, existe ainda hoje, e é ela que mantém a aparência dos impostores da cultura, que não devem ser desafiados para não serem desmascarados, eles ostentam uma posição social, mas não mérito moral, não são invejados pelo que são, mas pela posição que ocupam.

Seja verdadeiro, seja você, pergunte, desafie e cresça, se a cultura hoje é mais fácil e acessível a sociedade é mais ignorante e estúpida, enquanto os invejosos tem que tomar antidepressivos para dormir por perder de vista o verdadeiro prazer, siga em paz com o livro e deixe que te guie nos sonhos de grandeza que um dia embalaram os grandes homens.

Alex

3 comentários:

  1. Alex a livraria Cultura esta fazendo uma promoção como Kobo GLo pela metade do preço não sei até quando.

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    1. Obrigado pela informação Marta, fiz um post.

      Abraço,
      Alex

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