sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Conversa com Helena Frenzel: dedicação para a verdadeira literatura.

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Helena Frenzel tem um blog único dedicado ao escritor independente, foi quando tomamos conhecimento mais próximo que suas qualidades vieram à tona, é o primeiro lugar que temos notícia em que o escritor independente pode contar com uma editora no sentido intelectual da palavra, desta maneira, resolvemos conversar para destacar as qualidades e evidenciar sua singularidade no meio literário, assim como o papel desta ferramenta que é o ebook e o e-reader.

(Ebookbr) Oi Helena, não sei se já lhe disseram isso, mas seu blog não faz jus ao trabalho que pratica, não sei se por modéstia ou outro motivo as qualidades editoriais da empreita não são enfatizadas, só vim a perceber isto em nossa conversa, já havia entrado em sua página antes e estes pontos, que acho fundamentais, não estavam evidentes, há tanta gente que faz propaganda sobre muito menos substância, e no seu caso, acredito que a relevância do trabalho poderia ser mais enfatizada.

(Helena) Olá! Em primeiro lugar, muito grata ao Ebookbr pelo reconhecimento e espaço para poder falar um pouco sobre o meu trabalho. Quanto à observação de que a breve apresentação no Quintextos não faz jus ao trabalho que realmente pratico, diria que a razão está na minha tendência natural em quase sempre focar no trabalho e deixar a propaganda de lado, o que já me foi apontado aliás, em outras ocasiões. Adoro trabalhar nos bastidores, diria que estou mais para Wozniak, centrado nos problemas técnicos, do que para Jobs, voltado para vendas e motivações - também um visionário, claro. Sim, esse excesso de propaganda enganosa para serviços editoriais de péssima qualidade, e os preços absurdos e fora da realidade que algumas empresas cobram para gerar ebooks no Brasil, motivaram-me a oferecer um certo apoio editorial a autores independentes, pessoas que geralmente não têm acolhida no mercado. Pior do que uma simples recusa é não receber nunca um feedback sincero sobre um texto, algo que leve a pessoa realmente a repensar a sua escrita. Os sites brasileiros ditos ‘literários’ estão abarrotados de pessoas que adoram distribuir comentários falsos e vazios, e isso não leva ninguém a lugar nenhum. Há escritores que não gostam de críticas nem de sinceridade, verdade, mas há outros, raros, que gastam um bom tempo na rede garimpando gente realmente disposta a ler e criticar com critérios literários. Eu tive sorte de encontrar algumas pessoas assim, com as quais mantenho uma troca de idéias bastante produtiva. Essa foi uma outra razão para oferecer o apoio editorial, a possibilidade de uma leitura crítica sincera e desinteressada a quem assim desejasse. O princípio base é a distribuição livre e gratuita de bons textos, de modo a aumentar as chances de ‘tentar’ formar novos leitores. Um PDF pode ser rapidamente impresso, copiado e distribuído para quem não tem ainda acesso a livros impressos ou a ebooks. O autor que não tem restrições quanto à distribuição de seus textos sob uma licença CREATIVE COMMONS poderá tê-los editados e disponibilizados sem custo algum, o mesmo para obras de domínio público que ainda não tiveram um adequado tratamento editorial. Assim ganhamos todos: escritores e aspirantes, leitores e eu, que busco contribuir com a melhoria da literatura produzida hoje no Brasil. Editar textos requer tempo, claro, atenção e competência também, mas é uma atividade que faço com muito gosto, automaticamente até. Estou com 40 anos e agora me vejo com oportunidade para me dedicar à minha verdadeira paixão: Literatura e Línguas. Sempre que leio um texto, mesmo não querendo, identifico com facilidade certos padrões ou pontos que poderiam estar melhor apresentados, ainda mais em textos alheios. Daí não me custou muito formalizar o trabalho que já faço, digamos, quase sem querer.

(Ebookbr) Não acredito que precise fazer propaganda, mas sim evidenciar o mérito do trabalho, que existe, é real.

Para nos situarmos gostaria de saber quem é a leitora Helena Frenzel, diga-me os autores que aprecia e as razões para tal, assim conseguimos ter uma idéia dos valores literários que preza, do velho oráculo vem a pergunta: diga-me o que lê e direi quem és, não literal mas literário. Na guia “Quem escreve este blog”, encontrará nosso perfil leitor, e por ele pode ter idéia dos valores literários que perseguimos. Já calçamos os sapatos do editor tentando montar uma coletânea, e posso dizer por experiência própria que não é fácil, e ainda muito trabalhoso, e muitas vezes desprezado, pois a maioria dos autores não aceita críticas, por isso paramos de responder às solicitações aqui no blog, tem trabalho de ler, escrever uma crítica e ainda é mal recebido. Você teve sorte de encontrar autores dispostos a crescer, mas acredito que a falta de crítica qualificada está na raiz da má literatura que se faz hoje no Brasil, qual a sua visão?

(Helena) Concordo, propaganda não é o foco, por isso me esforço para oferecer ao leitor, acima de tudo, textos de qualidade que falem por si, pelo menos um pouquinho (risos).

Sim, já conhecia o perfil da maioria dos escritores deste blog, o meio que me levou aliás a entrar em contato com a Maurem Kayna e a querer conhecer mais o seu trabalho como contista, trocar idéias e críticas sinceras. Eu, como escritora, estou ainda muito aquém de produzir a escrita que considero bela, mas escrevo muito mais por hobby, para externar um pouco do que vai dentro de mim, não tenho a ambição (ainda) de me profissionalizar, até mesmo porque li, certa vez, algo mais ou menos assim: o escritor que não produziu uma obra relevante até os quarenta, provavelmente não a produzirá mais. Sim, mas deixemos esse comentário de lado e passemos ao meu perfil de leitora.

Eu leio, acho que, até antes de ter sido alfabetizada, pois na minha casa havia muitos livros à disposição, enciclopédias, livros em outras línguas; um livro em francês era um dos meus preferidos, dicionário era um brinquedo muito interessante, bem como Monteiro Lobato, Exúpery, versões de fábulas tradicionais dos Grimm e do Andersen, que há pouco tempo pude ler nos originais, das fábulas de Mil e Uma Noites e outras histórias que hoje sei que são celtas. Marcos Rey e seu Cadáver, Maria José Dupré com seu Éramos Seis e outros desta coleção. Machado, Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, Jorge Amado são autores que conheço desde criança e li Mar Morto numa época em que seria considerada leitura inadequada para a minha idade, mas o que mais me encantou nos livros de Amado foi a poesia. O primeiro livro que li de Machado foi O Alienista e esse me ganhou para sempre para a literatura. Na adolescência tive uma fase ‘rosa’, livros de rápido consumo, histórias clichê. Sempre li muita poesia, sem falar na música da fase de ouro da MPB, sempre gostei de Drummond, Quintana, Gonçalves Dias, Gregório de Matos, Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Clarice, Cecília Meireles, essa turma aí. Também poetas maranhenses não muito conhecidos no restante do país até hoje. Autores latino-americanos: Borges, García Márquez, Cortázar, Sor Juana Inés de La Cruz, Neruda, Clorinda Matto de Turner (um único romance) e tantos outros. Dentre americanos e ingleses: Poe e seus contos de terror e, "A Gata Triste e seus crimes" (brincadeira!) e, mais recente, Tom McCarthy, autor de C, romance cuja leitura ainda não concluí, mas o livro é muito bom. Dos alemães mais novos, estou lendo F de Daniel Kellermann, autor de Measuring the World, que me fez querer ler também o F, pelas ótimas recomendações. Os espanhóis Javier Marías, Javier Cercas, Rosa Montero, Soledad Puértolas, Enrique Vila-Matas, que é catalão. Italianos: Calvino, Tabucchi e outros autores mais modernos cujo estilo vem sendo ‘adotado’ por alguns autores brasileiros contemporâneos. Gosto de ensaios e biografias. Amo Susan Sontag, Umberto Eco, Guimarães Rosa (Grande Sertão é um de meus livros preferidos), Saramago (amo esse autor e só não li mais livros dele por falta de oportunidade). Acho que tendo mais para o ensaio ou para a ficção filosófica, digamos. Já li Dan Brown, mas não me emocionei muito não. Sou louca para poder ler mais livros de autoras brasileiras como Adélia Prado e Nélida Piñon, mas não encontro com facilidade por aqui. Pois é, leio de tudo, até os textos mais simples na Internet, esses contos de consumo rápido, poemas, crônicas, amo Rubem Alves. Os livros mais antigos, os canônicos, são os que mais me atraem e os que lotam minha biblioteca. Joyce e seu Retrato do Artista, Kafka, Thomas Mann, que é filho de uma brasileira. Não li os russos, mas descobri Tchekhov já há algum tempo. No momento estou lendo Doris Lessing (The Golden Notebook) e estou amando. Tenho uma filha de dois anos que tem ocupado todo tempo que antes eu usava para ler, por isso tenho lido relativamente pouco ultimamente, mas quem gosta de ler sempre encontra um jeito, nem que sejam só alguns minutos antes de desmaiar e dormir o sono dos justos, necessidade de toda mãe aliás, ou os deslocamentos no ônibus.

Para fechar, sobre a questão da qualidade da literatura e crítica atual no Brasil, penso o seguinte: nasci na década de 70 e já sou fruto de um ensino ruim, e os 'intelectuais' de hoje, ou se criaram numa redoma, cresceram fora do país, ou frequentaram as mesmas escolas que eu. E o ensino de hoje, comparado ao do passado, só decaiu, é o que eu percebo. Chegando ao ponto de um professor de português inserir erros num texto, antes correto, e ainda tentar provar por ‘a’ + ‘b’ que o erro é regra gramatical, ou seja, ignorando os elementos Sujeito-Verbo-Objeto, aí não tem mais jeito, um burro abaixa a orelha para deixar o outro falar, não é não? Quem quiser fazer literatura-arte ou crítica séria hoje, no Brasil e em vários outros lugares, prepare-se para falar para as paredes, mas ainda bem que existem exceções (risos). Por isso, inicialmente, tenho trabalhado com textos mais simples, visando alcançar os não-leitores, pessoas que ainda não tiveram a chance ou o encontro com um texto que os faça ‘nascer’ leitores, ou ‘renascer’ quem sabe. Essa postura dos iniciantes em não valorizarem as críticas que recebem, ou mesmo não aceitarem críticas, é algo que me desanima bastante a seguir nesse caminho da edição, ainda mais como hobby, mas eu tenho objetivos maiores, e é para eles que eu olho quando passo por tais situações.

(Ebookbr) Este negócio de chegar a uma “escrita bela” acho de certa maneira complicado, não pela beleza em si e isto já foi muito discutido por aí, mas a conseguir chegar em uma escrita definitiva, de tudo que li nunca soube de um autor, mesmo os grandes, que alcançou com a escrita o que desejava, é uma constante busca, nunca se está satisfeito; Flaubert, um dos mais neuróticos, não cansava de queixar-se à amante o quão ruim eram suas cartas e o desconforto com a forma final de seus textos, o próprio Borges mencionou que publicava para parar de editar, caso contrário não teria fim. Nunca ouvi de um autor que esteve satisfeito e em paz com sua escrita, talvez a angústia que o Bloom cita no Cânone Ocidental, ou a simples consciência do entendimento de um universo infinito ou muito grande. Em relação à tal regra dos quarenta acho que seria uma boa meta a quebrar, mas tenho certeza que outros já a deitaram por terra, não me vem à cabeça agora, mas tenho certeza que há vários escritores que só despontaram na senioridade.

Sou fruto do mesmo ensino oferecido a ti, e não acho que foi ruim, tive professores que com prazer chamava de mestres, gente com cultura vasta e apreço por ensinar, indicaram-me livros e incentivaram a ir além do parco currículo escolar, e a prova está aí, em suas leituras, diversificada sem ser medíocre em leque de diversão à filosofia, quem lê isso hoje? Acho que o problema da intelectualidade é a farsa, não o ensino, se foge ao debate, se não coloca-se à prova você sabe que é um farsante e precisa recorrer a estes meios escusos para não ser denunciado, as pessoas fazem cara de entendimento quando se fala de física quântica, não é pecado não saber, é mais produtivo ser honesto e perguntar, é mais difícil fazer boas perguntas do que encontrar respostas; o nosso conhecimento é fruto da curiosidade não do nosso ensino, pois sem honestidade não há nem ensino nem aprendizado.

Você está me falando de contos literários e textos simples para “não-leitores”, dois extremos no meu ponto de vista, explique-me um pouco mais desta articulação. E aproveitando, diga como entrou em contato com ebooks e e-readers e as possibilidades que vê para estas ferramentas construírem novas possibilidades.

(Helena) Pois é, o comentário sobre ‘a regra dos quarenta’ foi uma brincadeirinha. É óbvio que certos textos, oriundos de uma visão mais madura, jamais poderiam ter sido escritos fora de seu próprio tempo. É preciso chegar aos sessenta para compreender profundamente os vinte ou viver num tempo distinto, seja para confirmar as previsões ou surpreender-se com o rumo que as coisas tomaram. Lembro-me de uma tradutora de Saramago, tradutora para o Alemão, contando ter-se chateado quando disse a ele que não havia entendido certas coisas em seu texto e ao pedir-lhe uma orientação, ter ouvido dele um “minha filha, quando você tiver minha idade, você vai entender...” Surpresa eu ficaria se uma profissional alemã padrão, jovem, tivesse entendido de pronto essa ‘resposta’ ao invés de interpretar como estrelismo ou má vontade do autor, conclusão mais confortável de se chegar aliás. Quanto à escrita ‘bela’, não me iludo quanto às limitações da minha, principalmente porque no momento não tenho tido como dedicar-me a esta tarefa como ela requer. Eu, para escrever verdadeiramente, digo: entregue ao ato e nada mais, necessito de silêncio e solidão para poder sair de mim, fora a pesquisa, claro, e isso é impossível com uma criança pequena, a menos que eu queira perder para sempre ‘a escrita do livro’ que é vê-la crescendo. Quem sabe no futuro eu volte a ter na escrita as experiências transcendentais que já tive uma vez e me levaram aliás, a denominar-me escritora, e é verdade: escrever é uma busca constante. No dia em que me vir satisfeita ou tiver todas as respostas, não haverá mais razão para escrever.

O conhecimento é fruto da curiosidade própria e interesse de cada um, concordo. Por isso vejo como essencial o papel daqueles que incentivam nas pessoas, independente da idade, essa curiosidade, essa ardência por perguntas e a busca por respostas. A meu ver, esta cultura precisa ainda nascer e florescer no Brasil, as pessoas estão mais acostumadas a receber tudo prontinho ou meio-mastigado, e ainda se engasgam ao tentar engolir. Aqui talvez se encaixe essa observação da fuga ao debate, ponto a que Marcia Tiburi frequentemente volta em seus textos e falas: sair da eterna reflexão e passar ao debate, deixar de ser ‘bonzinho’ e ter a coragem de questionar e criticar sem piedade. Mas para se chegar a isso, também não creio que funcione oferecer alimento sólido para quem só consegue digerir líquidos. Aí importa muito a diversidade da oferta para públicos diversos, e a dosagem também. Para que alguém comece a se interessar pela leitura, a meu ver, é necessário que duas coisas aconteçam: ter repetidas experiências positivas com livros ou textos e ter acesso irrestrito aos mesmos, gratuitamente e nos mais diversos níveis de dificuldade e formatos. Daí o formato eletrônico de um texto se mostrar ideal, pois pode ser impresso e distribuído a baixo custo, tendo assim mais chances de chegar a pessoas que não têm ainda o costume da leitura ou o acesso a livros e informação. E se esses textos conseguem falar com essas pessoas, inspirá-las de algum modo a buscarem em novas leituras soluções para suas questões existenciais, independente do gênero, tanto melhor. Um rápido exemplo: tive uma professora de Português que mudou minha vida com seu jeito de ensinar. Diante de uma classe sem muito futuro numa escola pública de periferia, ela conseguiu fomentar o interesse dos jovens lendo em alta voz, em tom de importante obra literária, nossas próprias redações. E além de calar para ouvi-la, ficávamos maravilhados como ela conseguia tirar beleza daqueles textos mal escritos, e nós tínhamos consciência disto porque ela usava os mesmos textos como material para explicar os mistérios da língua. Na verdade ela nos ensinou a ler e escrever além dos textos e o resultado é que toda a classe terminou o ano sabendo ler e escrever muito melhor, e com sede de mais livros, pois ela usava textos de autores consagrados também.

Quanto à mistura de contos literários com contos mais simples (especificamente no projeto Quinze Contos Mais), a depender da quantidade de textos que recebo posso tentar agrupá-los de diferentes modos e em diferentes volumes, tentando alcançar públicos mais diversos. O índice de participações ainda é baixo, mas espero que o interesse aumente com o tempo, pois para isso trabalho. A idéia é dar espaço para quem tem talento e algo interessante para contar, e se de modo competente e literário, tanto melhor.

Quanto às possibilidades do ebook, sempre vi nos livros eletrônicos e em outras tecnologias um mecanismo de inclusão, mas neste pensamento há muitas ressalvas porque antes é necessário capacitar as pessoas a tirarem real proveito da tecnologia. É o caso dos celulares que já dão acesso automático ao facebook e também por isso estão sendo banidos de muitas salas de aula, pois por si só não servem como ferramenta de instrução, só atrapalham. Essa ‘educação’ do usuário não é interesse dos grandes, principalmente dos governos e fabricantes de equipamentos e programas, isso não é diferente em lugar nenhum do mundo. Essa tarefa acabou ficando a cargo dos cidadãos mais críticos e engajados. E pouco adianta trocar professores por vídeo-aulas ou colocar tablets nas mãos de quem não sabe usá-lo, a menos que se pretenda acabar com a qualidade do ensino e justificar um falso crescimento só com aumento de número de vagas e distribuição de equipamentos. Colocar cada vez mais informação e textos de qualidade na rede, e incentivar a sua busca, é uma forma de manter a cabeça fora d’água e nadar contra o oceano de lixo que ameaça nos afogar, não só na rede (risos).

Como cheguei ao e-reader? Estudei Ciência da Computação e ainda na universidade, nos primórdios da Internet no Brasil, acostumei-me com ebooks e PDFs, uma forma de acesso a informações que, se duvidar, ainda hoje não chegaram ao Brasil em formato de livro físico. Um mundo de possibilidades se abrindo diante dos meus olhos, quando ainda nem sonhava com as barreiras absurdas que foram se erguendo silenciosamente no Brasil e em outros países contra ebooks. Tenho um iPad, que é usado basicamente como e-reader e enquanto conseguir encontrar títulos que me interessam em versões compatíveis com este equipamento, não vejo razão para trocar. Se bem que já cogitei comprar um Kindle, mas não costumo comprar coisas sem ter realmente uma necessidade gritante, minha forma de combater a doença do consumismo e a cultura do ‘descarte’ do mundo atual.

(Ebookbr) Concordo contigo que existe muito uso ignorante da tecnologia na educação para show e não por objetivos educacionais específicos, e no geral é sempre mais prejudicial que o método não tecnológico, mas vejo do ponto de vista logístico: a construção, manutenção e preenchimento de milhares de bibliotecas em oposição à disponibilização de e-readers, mais simples, rápido, fácil e barato. Você disse que a educação também é sabotada em outros países, como é por aí onde está vivendo? Tenho muitos amigos alemães que prezam sobremaneira educação e cultura, aliás, nem se atreva a falar mal de Goethe que fará um inimigo. Pelo que entendi você não tem um e-reader, vou tentar catequiza-la; só abandonei o papel pelo e-ink, já leio ebook há muito tempo, mas literatura sempre foi em papel, as telas com luz não permitem o mesmo nível de concentração e conseqüente imersão na estória, para deixar isto bem claro uso um conto do Faulkner: “Barn Burning”, leia no ipad e se tiver um amigo que tenha um e-reader leia no aparelho e sinta a diferença.

Pelo conto ter dimensões menores que a novela muita gente acha que é o material ideal para os iniciantes, eu particularmente acho o contrário e um dos pânicos de leitura de minha infância estava na coleção “para gostar de ler”, que no meu caso tinha o efeito contrário, antes ler um Ivanhoe, Jules Verne ou Dumas, maiores mas muito mais interessantes. Aliás, se ler entrevistas de grandes escritores verá que todos consideram o conto uma forma muito mais difícil, exigente e imperdoável; hoje mesmo em um artigo na Folha, de Noemi Jaffe, veja as bobagens escritas sobre o conto e a Alice Munro: “Munro escreve exclusivamente contos e é comparada, nessa linguagem, a outro grande inventor: o russo Anton Tchékhov. Afinal, escrever um livro de contos com unidade, rigor e dicção própria, como fez a canadense com mais de 15 títulos, é exatamente igual a escrever um romance.” Não! Não é igual a escrever um romance, é muito diferente e muito mais difícil, basta ver quantos romances memoráveis há e quantos contos. Outra bobagem: “Dominar a arte do conto como ela o faz representa a capacidade (de acordo com Julio Cortázar) de continuamente vencer o leitor por nocautes e não por pontos, como faria o romance. Uma tarefa nada fácil, mas que a autora realiza com perfeição”. Se leu a Alice Munro sabe que não há comparação possível com o Cortázar, não há KO, existe um urdume de vozes, estórias e emoções.

Você tem um background bem inusitado uma vez que ciência da computação, por ser ciência exata, não compartilha do dogmatismo ideológico do construtivismo literário dominante nos cursos de letras, como você se posiciona no panorama literário contemporâneo? E como isto reflete no seu trabalho editorial?

(Helena) A qualidade da educação aqui está decaindo, como no mundo inteiro aliás, e essa conclusão é do PISA, não é minha só. Ainda assim, a meu ver, continua muito superior ao ensino oferecido no Brasil atualmente, e aqui falo só das áreas que conheço, sim? Há muita oferta cultural em todos os sentidos: música, principalmente erudita, teatro, bibliotecas, museus, feiras de livros, concursos de leitura e declamação nas escolas, e o que é melhor: gratuitamente ou a preço baixo. Há um projeto do governo federal que fomenta a leitura para crianças logo nos primeiros dois anos de vida, onde são distribuídos livros gratuitamente e são ensinadas aos pais técnicas para contar histórias para os pequeninos. A programação infantil de alguns canais de TV é de muito boa qualidade, feitos com propriedade por profissionais qualificados e sobretudo com explicações simples nos mais diversos temas técnicos e filosóficos relacionados ao universo infantil (também jovem e adulto). Os documentários são ótimos. Galinha Pintadinha, Xuxa e Cia não teriam vez nestes canais, estaria mais para Palavra Cantada e MPB for Babies, só para falar do que eu conheço de trabalhos brasileiros mais atuais voltados para crianças.

Conheço o seu posicionamento quanto ao e-reader (acompanho mesmo os posts do blog) e tendo uma oportunidade de testá-lo, provarei sim, com gosto. Quem sabe essa experiência não é a razão que preciso para finalmente decidir compra-lo? (risos).

Agora, voltando aos contos: acho que muita gente pensa como a Noemi Jaffe e o Michael Laub, que num texto na Folha de São Paulo (Falácias sobre a literatura) declarou:  ““Escrever contos exige tanto sacrifício quanto escrever romance." -- Sei que é um gênero difícil e tal, mas estou usando critérios objetivos: os anos de dedicação e concentração, os casamentos terminados, os remédios para a lombar.”” E eu sorrio diante de certas discussões porque, a meu ver, o desafio maior do conto literário não está no tamanho, muito menos no tempo que requer para ser escrito. Essa citação de Cortázar é repetida ad nauseam e ainda assim tenho a impressão de que muitos que a citaram não entenderam o que ele, provavelmente, quis dizer. O conto verdadeiramente literário é tão difícil de escrever justamente porque não há espaço para erro: ou você acerta na escolha das palavras – únicas! - ou acerta; qualquer outra opção periga desclassificá-lo como conto literário, colocando-o simplesmente na lista de ‘esforços’ ou ‘promessa de um’. Engraçado que eu descobri a Munro outro dia, através de um post da Maurem Kayna, e quando ainda estava me planejando para comprar alguns de seus livros, lá ela ganha o Nobel! Fiquei feliz por ela e pelos contistas, claro, pelos leitores do gênero também.

Pois é, ter vindo de exatas acho que foi o que me salvou até agora do veneno paralisante que borbulha no meio literário acadêmico (mundial). Explico-me rapidamente, e outro dia descobri que Doris Lessing compartilha dessa visão. Por certo já ouviu falar de um livro de Pierre Bayard, Como falar dos livros que não lemos, e aqui falo apenas do título, pois esse livro ainda não li, pretendo ainda. Pois bem, acho que a isso resumiu-se o objetivo de muitos cursos de literatura: falar de livros sem lê-los, desenvolver toda uma retórica para escrever resenhas e críticas e seguir lendo o que todo mundo lê. Na mesma lógica a que se reduzem muitos cursos de escrita criativa: como escrever ‘bem’ sem ter lido um livro sequer (risos). Doris Lessing também observa esse fenômeno no prefácio do livro que estou lendo no momento (The Golden Notebook) e conclui que há muito tempo alguma coisa está errada no meio literário, que só se salva quem por ventura ainda está começando na área e vem cheio de paixão, pois lê por gosto e quando vai falar de um livro, primeiro lê esse livro (não livros que falam dele) e a partir dessa leitura monta a sua própria opinião a respeito, com honestidade e baseado nos modelos de análise que se considera mesmo ‘teoria da literatura’, aí sim, contrasta com opiniões alheias; e que ninguém deveria ler um livro com objetivo outro que não a vontade e o prazer de lê-lo, que os livros ruins, aqueles cuja leitura não nos fala nem um pouco, devem ser abandonados sem pena, e que não se deve insistir na leitura de um livro para o qual ainda não se sinta preparado ou disposto. Muitos tentam ler um livro complexo e travam, a exemplo do Ulysses, que ainda não li nem tentei, mas que um dia pretendo ler. Nesses casos, mais aconselhável seria esperar um pouco e tentar dialogar com o livro mais tarde, numa outra ocasião, com sinceridade, mas nunca, nunca se deveria ler por pura obrigação, não ocupar anos e anos estudando apenas um autor ou um único livro, que isso é um desperdício de vida sem tamanho, considerando tudo o que já foi escrito e está à disposição. E eu concordo com ela em tudo isso. Estudo Romanística (por puro prazer) e em uma das análises que  fiz sobre um livro, recebi a melhor nota com a observação (elogiosa até) de que minha análise baseara-se apenas no texto, matéria da Literatura aliás, e não puramente em opiniões de terceiros sobre o mesmo, e que poucos ou quase ninguém vai por esse caminho (talvez por insegurança ou medo de questionar os sistemas de avaliação).

E como isto reflete no meu trabalho editorial? Não confio em impressões outras sobre um texto que não nas minhas próprias de leitora. Evito ler resenhas de livros que ainda quero ler e não acho que resenhas sejam tão necessárias assim fora de um contexto de estudos. Foco no texto em primeiro lugar e depois em todas as outras variáveis que poderiam situar melhor sua função no espaço e no tempo ou influir nas suas recepções. Busco não ter preconceitos literários, dou uma chance a todo texto de tentar me conquistar. Trato de ler o que quase ninguém está lendo e manter meus olhos abertos para o que vier a me interessar. Tento agir com honestidade, primeiro diante de mim mesma, pois sei que não vou viver o suficiente para ler tudo o que gostaria. Criei o Quinze Contos Mais para fomentar a escrita e leitura de contos e o Quintextos, para tentar resgatar a importância do texto na literatura e promover autores independentes e o ebook como alternativa de publicação. Acho que é só isso, pelo menos por enquanto (risos).

(Ebookbr) Já ouvi falar do livro “Como falar dos livros que não lemos”, mas só li o título e nunca pensei em ir adiante, sou naive, acredito que só posso falar dos livros que li e peço que não me falem dos que não li para não estragar, se dos que li já esqueço um monte, imagina dos que não li... Acho que tivemos um bom panorama do seu trabalho, como ainda não é usuária do e-ink aguardo sua comparação no dia que fizer o teste, e te compreendo, eu era cético e só converti-me ao ver a luz, ou a falta dela. Gostaria de saber se gostaria de dizer algo mais a nossos leitores.

(Helena) Bom, para mim foi uma conversa muito agradável, e espero que tenha sido boa a leitura para quem acompanhou até aqui. Muito obrigada, Ebookbr, pelo espaço e generosidade, coisa rara no meio literário aliás. Gostaria de parabenizá-los pelo excelente trabalho ao informar e promover discussões de alta qualidade, e portanto produtivas, em torno de ebooks. Só o fato do Quintextos ter sido aqui notado por puro mérito da proposta, para mim é mais uma prova da seriedade dos propósitos deste site, e de sua independência. Sinto-me então muito honrada em figurar nestas páginas e desejo que este site continue sendo um diferencial na Internet brasileira.

 Aos leitores, gostaria de lembrar que, fora do universo comercial, tenho visto muita coisa acontecendo no mundo da arte literária, para a felicidade de quem não aceita ser tratado como mero dígito ou gerador de cifras. Em várias partes do globo tenho encontrado escritores competentes, pessoas que buscam liberdade em vários âmbitos, sobretudo para criar, e para isso têm explorado cada vez mais e melhor as possibilidades da rede para trabalhos de auto-publicação e distribuição gratuita, termos que, no Brasil, lamentavelmente, ainda são vistos como coisa rejeitada no mercado ou coisa sem valor. Aqui na Alemanha, por exemplo, não vejo pessoas associarem automaticamente ‘gratuito’ e ‘artesanal ou feito à mão’ a coisas de baixa qualidade; tal característica é mais encontrada na produção em massa para massas, objetivando venda e consumo rápido, a chamada cultura do fast-food que já sabemos ser tão prejudicial. Peçam a um artesão para pôr preço em qualquer de suas peças e poderão vê-lo titubear, até mesmo recusar-se a fazê-lo, pois cada peça é única e por isso rara, e leva um pedaço do autor ou editor, no meu caso; existe toda uma história por trás da produção de cada peça, e por isso mesmo requer tempo para ser produzida e exige, quem sabe, mais tempo ainda para ser apreciada. E essa é a filosofia de ‘produção’ dos ebooks do Quintextos, uma peça única, feita com cuidado e aquele toque especial que uso denominar ‘caseiro’, por ser algo diferenciado, como no caso de certos doces e pratos que só algumas de nossas avós sabiam preparar. Por isso ‘artesanal’ e ‘caseiro’, neste sentido, penso que bem definem o processo dos ebooks que produzo.

 Tento não confundir o livro (texto e conteúdo) com o produto editorial, nisso concordo com Juan Goytisolo, escritor espanhol que aprecio. Enquanto o mercado for puramente o objetivo, a literatura e o texto dificilmente terão o papel principal. Uma das coisas que mais gosto nos meus projetos literários é justamente não estar presa a imposições de mercado, o que me permite, de fato, manter o foco na produção textual e literária.

 Quanto à distribuição gratuita de obras, digo-lhes que um texto livre pode cair sem complicações nas mãos de tradutores sérios realmente interessados na arte e em levar para seus países histórias interessantes para quem realmente ama a leitura e busca alternativas a certos padrões. Afinal de contas lemos, sobretudo, para descobrir outros mundos, culturas e visões, não é mesmo? Livros transportam mundos e transportam a tais mundos e o fácil acesso a eles só pode trazer vantagens para leitores e, em especial para autores que, acima de desejarem vender livros, desejam verdadeiramente conquistar o leitor. 

Alex

3 comentários:

  1. Foi através de Helena Frenzel que conheci este blog. Gostei demais desta entrevista. Na brincadeira que corre pelo facebook para que se faça um elogio à pessoa, utilizando a inicial do nome, escrevi para Helena: lúcida, o que esta entrevista comprovou ser absolutamente verdadeiro. Tenho certeza que ela vai acabar se rendendo aos readers. Afinal, até eu que, em termos de informática, sou uma analfabeta funcional, fui conquistada, imagine ela! Acho excelente a ideia de se oferecer gratuitamente textos para download. Sobretudo num país como o Brasil, onde o preço dos livros tradicionais é proibitivo. Parabéns a Helena pela entrevista e a você pela iniciativa de entrevistá-la.

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    1. Lu Narbot,

      Conversar com a Helena foi um prazer, infelizmente no Brasil vivemos duelando com a iniqüidade, e dialogar com alguém que tem mérito próprio parece uma indulgência, a vontade era continuar a conversa ad infinitum, mas aí nada seria publicado. O e-reader e-ink parece um capricho a quem nunca pousou a mão em um, mas para quem gosta de literatura, é uma absoluta necessidade, pois é a única mídia eletrônica que permite a mesma concentração que o papel, é a única tecnologia que permite a essência do livro transcender o físico.

      Abraço,
      Alex

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  2. Celêdian Assis,

    Ao encontrar mérito, raro na literatura brasileira, é nosso dever evidenciar, que a competência ganhe notoriedade, e como luz que afasta trevas, divida este mar de mediocridade.

    Abraço,
    Alex

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