terça-feira, 20 de agosto de 2013

Quando não notícia é boa notícia.

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Diariamente estamos de olho no cenário do ebook e e-reader internacional, e há bastante movimentação, mas infelizmente a maioria é irrelevante para os brasileiros, aqui o ebook ainda é uma coisa subdesenvolvida como a própria literatura brasileira; este aparelhinho tecnológico tem propriedades que o diferenciam de dispositivos fruto do furor consumista: tem um objetivo definido, é feito e construído para uma tarefa específica para um público específico, para leitores. Perto dos tablets que fazem tudo e também servem para ler de maneira rudimentar parece pouco, mas indica um compromisso do seu possuidor com a palavra escrita, não uma relação leviana, mas profunda, a ponto de exigir o melhor dispositivo para sua atividade, para os não leitores a diferença entre ler no e-reader e ler no tablet parece insignificante, mas para quem realmente gosta de ler não há comparação possível, sem contar a durabilidade da bateria e a possibilidade de ler ao ar livre.

O que torna o e-reader bom para ler é justamente o que o torna menos versátil que um tablet, é um produto específico, com uma tela específica que a não ser para leitura, é inferior para todo o resto, ao mesmo tempo o e-reader não pode ser usado como objeto de status como o livro de papel; quantas vezes você vê um acadêmico ou suposto intelectual dando uma entrevista e o pano de fundo é uma biblioteca de centenas de tomos com suas lombadas decorativas? Isso não dá para fazer com o e-reader, livros do e-reader não formam estas belas bibliotecas decorativas que supõem uma erudição, os ebooks só empilham-se na alma do leitor, não podem falsear erudição; pode parecer irrelevante, mas infelizmente no Brasil a quantidade de gente que mais junta livros em decoração em vez de ler é muito grande, por isso que sempre fogem quando existe a possibilidade aberta de debate, para não evidenciar a fraude de títulos e postos que supõem grande conhecimento.

Por quanto tempo não houve novidades na prensa de tipos móveis? E as linotipos? Em compensação, apesar do marasmo tecnológico, quantas maravilhas observamos no cenário literário desde a criação de Gutenberg? O e-reader é o herdeiro desta tradição, até sofreu “downgrade”, os Kindles e Sonys antigos tinham som, liam o texto em voz alta, hoje não mais, em compensação colocaram aquela estupidez de rede social, ler é um momento de solidão, concentração, onde a única companhia é o autor do texto em questão, vejo que o pessoal que não desgruda das redes sociais não consegue ter estes momentos de introspecção, e nem são capazes de concentração prolongada. Muita gente que tem e-readers antigos não vê necessidade de trocar, e estão desfrutando de todas as vantagens da leitura digital. Quem tem um e-reader é um leitor mais ávido, esperto, viu que a novidade lhe beneficiaria sobremaneira, barateando a literatura, diversificando as possibilidades de leitura e recebendo textos em tempo recorde. Para quem realmente gosta de ler o e-reader dá um banho no papel por sua praticidade, e a não ser que seja milionário, é difícil ficar sem o aparelho e ter o mesmo nível de leitura. Por conta da internet textos crípticos excelentes e em domínio público tem aparecido, coisa que nunca seria impressa novamente hoje encontra leitores, preciosidades redescobertas do passado reescrevendo a história, antes ignorados por falta de publicação. Pode não parecer, mas há uma efervescência na redescoberta da cultura antiga em domíno público, e tudo gratuito no e-reader. Há pouco tempo viviam falando dos tais “enhanced books”,  com capacidades que o livro comum não tem, mas por sorte a realidade caiu dura e pararam de falar nestas bobagens, até o EPUB3 ficou meio ridículo, pois o EPUB que já está em uso é perfeitamente capaz de quase toda literatura que antes era feita nas linotipos e todas as outras que preencherão a “Biblioteca de Babel” que um dia imaginou Borges, e até lá, o que já faz o e-reader ainda é muito. Sem filme, som e redes sociais o livro só de palavras ainda é grande, e seu futuro ainda maior, a não ser que a humanidade passe a ser menor, indigna dos próprios antepassados.

Ano após ano os computadores de mesa sofreram upgrade, cada dia mais velozes, mas para a maioria dos usuários não fazia a mínima diferença, mesmo assim trocavam suas máquinas, sem precisar, pois não sabiam do que precisavam, e ainda não sabem. A velocidade dos processadores chegou no limite, aí diminuiu-se a velocidade e ninguém percebeu, menos velocidade mais núcleos, e nos tablets a velocidade dos processadores diminuiu ainda mais, pois o usuário comum não precisa de computadores super rápidos, montar um computador para editar vídeos era caríssimo, mas por conta dos consumidores que compravam máquinas cada vez mais potentes sem precisar, hoje estas máquinas são baratas e acessíveis, e só para estes e alguns poucos as máquinas super rápidas são necessárias, para a maioria, dinheiro jogado fora, tanto que hoje os tablets, computadores muitíssimo inferiores, cumprem as tarefas do usuário mediano, e assim a venda de PCs caiu vertiginosamente. Mas para quem precisa de um PC, só um PC resolve, o mesmo com o e-reader, ele é para o leitor, específico, e por não obsolescer como o tablet, vai sendo usado ano após ano sem substituição, cumprindo sua função, sem onerar o consumidor ou o meio ambiente, atitude inteligente. Quem tem tablet tem ao mesmo tempo tudo e nada pois não sabe o que quer, e assim cai na ciranda do upgrade, ele não sabe o motivo mas precisa do novo modelo, do novo lançamento, da novidade, para o leitor de livros o e-reader sem novidade é a boa notícia, continuará a ler, como leram seus antepassados.

Alex

2 comentários:

  1. Afrânio Bezerra de Souza,

    Não sei se lembra da transição, saímos dos cores de mais de 4ghz, que precisavam quase de uma turbina de avião ou refrigeração líquida para os núcleos duplos de efetivos 1 ghz que se diziam com mais de 2ghz, quanto tempo demorou até termos quatro núcleos com 2ghz cada? Além disso, na transição a maioria dos programas nem os SOs estavam preparados para trabalhar com vários núcleos, demorou quase seis anos para utilizarmos com eficiência nos PCs o processamento paralelo. Para o usuário comum isso passou despercebido, pois estavam longe do uso intensivo do processamento, mas para quem realmente precisava de massa de processamento, a mudança foi sentida e bem sentida. A realidade é que o consumidor médio nunca precisou e nem precisa de processamento extremo, é apenas um item de marketing a justificar que seu computador ficou velho e tem um mais novo melhor, mas que faz o mesmo que você precisava fazer. Evitar as perdas energéticas foi essencial para os dispositivos móveis, e foram eles que impulsionaram a arquitetura RISC em detrimento ao CISC, no PC a guerra de Mhzs fez com que as soluções de dissipação de calor aumentassem de forma grotesca, impossível nos dispositivos móveis, além da própria durabilidade da bateria. Tudo é uma questão de “timeline”, não dá para comparar processadores multicore de hoje com os de seis anos atrás, houve efetivamente um downgrade de velocidade no momento da troca, mas o público foi enganado quando diziam serem os multicores mais velozes que os antigos, só quem realmente usava o limite percebeu. E no caso dos tablets a velocidade de processamento é de computadores de mais de dez anos atrás, tinha smartphone que usava processador semelhante ao meu timex sinclair 1000!

    Abraço,
    Alex

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  2. Oi Marta,

    Houve melhorias nos e-readers, mas também pioras, o brilho do meu Sony é chatinho mas não impede a leitura, nele eu posso rabiscar o texto, o que o faz meu principal dispositivo de leitura; não só riscar, mas sumir com as marcas sem perder as anotações, quando quero ler sem sua interferência, infelizmente o Kindle nunca permitiu este conforto. Além disso, às vezes gosto do “read to me” do meu kindle Touch, é só espetar no som do carro e ouvir o livro no inferno do trânsito. Concordo que as novas telas são melhores, mas entre a Pearl normal e as de mais definição não há diferença funcional perceptível, dá para ler muito bem na de mais baixa resolução como na de alta, a luz resolvi com uma lanterna de livro de U$5,00 que não drena a bateria do e-reader. Mas entre não ter um e-reader e ter um cool-er ou um Sony antigo em vez dos modernos, a diferença é monstruosa, li em papel quase toda minha vida, e como você, leio mais com o e-reader. Com a iluminação o e-reader pode ser lido em todas situações, do sol intenso à perfeita escuridão, mais que o livro de papel que não tem luz, é um conforto, só que periférico e ainda caro perto da alternativa, gostaria de mais comprometimento com a funcionalidade para o consumidor em vez de com os ditames da propaganda, em vez de aperfeiçoar o aparelho apenas mudam e às vezes pioram, por isso acho que no quesito e-reader menos notícia é mais, em vez de inventar bobagens de marketing, preferia que incorporassem as boas funcionalidades que já existem.

    Abraço,
    Alex

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