sábado, 3 de agosto de 2013

Leitura, educação e prazer.

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Existe algo muito, muitíssimo errado em nossa visão de educação, e vem da idéia que prazer encontra-se no lado oposto, inimigo do aprendizado e do estudo que deve ser penoso, árduo e nunca divertido, sem esforço não há ganho, é preciso suportar dor para ganhar a virtude do aprendizado e conhecimento; juro que tentei localizar na história este conceito errado, mas não consegui nada claro, a igreja colocava que a vida na terra é sofrimento, e que uma virtude como o conhecimento só viria através da provação, mas isso não começou com eles, muito antes, quando o primeiro Buda procurava respostas a suas questões, encontrou um grupo de ascetas que pregava a liberdade das dúvidas mundanas através das privações e sofrimento do corpo. Logo ele viu que este sofrimento não levaria a nada, também contrário a sua vida anterior como príncipe, Buda escolheu o caminho do meio, foi esperto, e com isso bem sucedido em sua busca. Mas como já afirmei anteriormente, as pessoas tem maior facilidade em entender os extremos simples do que os meios complexos, e estamos aqui com um sistema educacional que não entende o que é educação mas de maneira subliminar ou direta prega o sofrimento, e desta maneira exclui um aprendizado que seria natural, lúdico e prazeroso.

Existe a falsa noção que o prazer é algo fácil, e não é verdade, não é comprando o que anunciam na TV que terá prazer, pois assim que adquire o produto, verá que ele não traz prazer verdadeiro, não há desfrute, apenas um engodo, que o tal Buda percebeu quando morava no palácio. O prazer vem do conhecimento, no caso auto-conhecimento, a própria pessoa tem que descobrir qual o seu prazer, e isso não é simples, tão complicado que pessoas adultas ao longo da vida perdem total contato com o que lhes dá prazer e caem em depressão profunda, perdem a capacidade ao verdadeiro prazer e tem que viver à base de medicamentos que tornam a mera existência aceitável apenas como zumbis.

Infelizmente a leitura encontra-se neste ciclo pernicioso, tornada obrigatória e chata, impede que os estudantes encontrem o verdadeiro prazer de um livro, e esta é uma deficiência que carregará até o final da vida. Quem recebe este condicionamento pavloviano associando estudo e conhecimento, assim como leitura ao sofrimento, dificilmente sucederá em qualquer tarefa intelectual, ou se o fizer, será uma espécie de masoquismo, sofrendo e penando sempre que tiver que estudar ou ler, ficará sempre atrás dos que descobriram o prazer, pois o que para ele é dor e não vê a hora de parar, para o outro é prazer e assim tem energia infinita para dedicar-se ao próprio deleite. É uma competição injusta, mas real.

Parece faltar aos educadores o entendimento real do que seja aprender, conhecimento e educação e seu processo de apropriação pelo indivíduo. Infelizmente muito da pedagogia é ideológica e muito pouco empírica, por isso gosto muito de Piaget que soube além de teorizar, olhar para o fenômeno e testar suas hipóteses, mas por um grande infortúnio, é um péssimo escritor e a vastíssima literatura que deixou está além do pedagogo mediano; além de Piaget ser um alien, veio de uma área distinta, com pensamento distinto que nunca foi apropriado por psicólogos, pedagogos ou filósofos; Piaget era um naturalista, e palavras como evolução e desenvolvimento tem significação diferente nestas disciplinas oriundas de bagagem teórica díspar. A despeito das dificuldades Piaget foi genial, investigando com muita perspicácia o desenvolvimento da inteligência e conseguindo resultados impressionantes mas ainda pouco compreendidos, infelizmente; ainda pior é o uso ignorante dos estudos de Piaget, e neste pacote encontra-se o tal construtivismo, que é uma simplificação grosseira de conceitos muito mais complexos, o próprio fenômeno da acomodação virou um jargão apócrifo.

Veja um bebê, está entranhado em seus genes a busca pelo aprendizado, não precisa de professor, não precisa ser mandado estudar, brincando e com prazer toma conhecimento das coisas, suas formas, movimentos, e aos poucos vai aprendendo todo o seu ambiente, desenvolvendo a inteligência. Alguns pais vão preocupar-se que o filho logo perde o interesse pelos brinquedos que tem, mas este é um processo natural do aprendizado, no momento que já se sabe tudo sobre um determinado objeto, ele não mais desperta a curiosidade que guia o nosso aprendizado e a formação contínua da inteligência. Não adianta forçar, este é um processo natural, o melhor que se tem a fazer é dar acesso e deixar as crianças livres. Na medida em que crescem este processo prazeroso de aprendizado, guiado pela curiosidade deve ser mantido, e aí começa o problema, pois cada vez mais cedo queremos impor sobre as crianças um aprendizado curricular, programático e obrigatório que desconsidera o prazer. Infelizmente hoje, com raras exceções, cabe apenas às crianças lutarem por seu prazer de aprender, pois a maioria dos professores não tem este domínio do prazer para si, e desta maneira não conseguem transmitir aos alunos o verdadeiro prazer da leitura. Neste cenário apocalíptico, ter livros livres à disposição do leitor iniciante é fundamental, é necessário que a garotada descubra o seu prazer na leitura, e assim possam sobreviver leitores aos traumas das leituras obrigatórias de clássicos brasileiros chatos e impróprios a leitores iniciantes. Aqueles que não se apropriaram do prazer de ler, ao serem obrigados a ler livros que não lhes fazem eco, associarão leitura com sofrimento, e assim, para se tornarem leitores terão que superar um trauma e não seguir um prazer, serão pessoas sempre em desvantagem aos que da literatura tiram deleite.

Sem literatura a alfabetização não se solidifica, pois é no treino que a criança tem ao ler livros que ocorrerá a verdadeira apropriação da palavra escrita, por isso o acesso ao livro é fundamental, e não só isso, toda educação de verdade, seja do nível que for, está em livros, e sem eles nada existe. Se o desenvolvimento do intelecto da-se na criança de forma natural, a educação moderna envolve uma vastidão de experiências impossíveis em apenas uma vida, mas que estão à nossa disposição em livros, alguns estudos sugerem que ler e experimentar de verdade ativa as mesmas estruturas cerebrais, assim a experiência do livro seria apropriada como experiência real, é mais um ponto em favor da essencialidade do livro.

Estou falando tanto de prazer em educação e leitura mas preciso deixar claro que este não é um prazer nem vulgar nem leviano, infelizmente quando falamos em tornar assuntos divertidos os “didáticos” tendem a imbecilizar os conteúdos, estripando toda complexidade e sentido que faz do aprendizado um desafio, sim, há prazer no desafio, e um aprendizado sem desafio não desperta curiosidade, não confunda desafio com dor, são desafios prazerosos. É na gênese do próprio conhecimento que está o caminho para sua compreensão, sua linha lógica, a própria epistemologia que alardeava Piaget, que ao contrário da epistemologia filosófica, não prescinde dos dados empíricos, pois é neles que encontra-se a lógica de tais conteúdos.

Esta idéia de educação com prazer sem ser leviana parece unir preceitos opostos, mas não é verdade, muito ao contrário, é o prazer que nos permite ir adiante em detalhes, minúcias e assuntos de extrema complexidade, pessoas que lêem ou estudam sem prazer ocupam uma parte mais limitada de seus cérebros e logo cansam os “circuitos”, quando a leitura ou o estudo ocorre de forma lúdica utiliza-se maior parte do cérebro, além de cansar menos permite maior criatividade e associação de idéias ao desfrutar de um texto, mas como disse, prazer não é gratuito, cada um deve descobrir o que lhe trás prazer e seguir, sem cair à sedução da luxúria simplória, não é simples na nossa cultura que louva o sofrimento ou o prazer banal e leviano, mas uma vez que provar, lamento, não há como voltar atrás, prazer verdadeiro e falso não se misturam.

O maior obstáculo do brasileiro para a educação é o preço absurdo do livro, não é o único, mas é um dos grandes, antes do e-reader eu pensava se os aparelhinhos MP4 pudessem ser usados para distribuir livros, poderia ser ruim, mas seria acessível; hoje com a tecnologia do e-ink a leitura em meio digital não tem diferença prática do papel, e assim, quem sabe mais pessoas tenham a possibilidade de sentir o prazer de ler um bom livro.

Alex

2 comentários:

  1. Alex será que é problema no blog eu não consigo as vezes postar aqui, somente pelo facebook.

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    1. Oi Marta,

      Não sei o que pode estar acontecendo, deve ser alguma falha de rede ou autenticação, mas as postagens ocorrem normalmente, visto que este conseguiu entrar, em relação ao postado na caixa do Facebook: Tanto você como eu que já somos leitores aumentamos nossa quantidade de leitura com o e-reader, e acredito que entre nós e muitos outros usuários do aparelho exista uma concordância de sua absurda praticidade, não competimos com livros de papel, apenas o digital é mais prático e deveria, como acontece em países desenvolvidos, ser mais barato, mas infelizmente aqui a falta de visão é total, não só não temos educação, como não temos pessoas competentes que saibam o que é educação e ainda contamos com uma ideologia que quer manter o brasileiro ignorante divulgada pelo governo nos seus foros de São Paulo sem o menor pudor. O benefício do e-reader em mãos de brasileiros seria incomensurável, o custo em perda de arrecadação irrisório, mas para quem quer um país de jumentos ignorantes livros são uma ameaça, por isso mantém o imposto, não existe vergonha maior.

      Abraço,
      Alex

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