quinta-feira, 18 de julho de 2013

Raquel Cozer advoga na Folha pela mediocridade na literatura e a morte do escritor.

Aumentar Letra Diminuir Letra



Fico perplexo diante da superficialidade, imaturidade e ignorância do conteúdo produzido por jornalistas, hoje a bola da vez é Raquel Cozer, comenta sobre o lançamento do “Kindle Worlds”: “Alguma coisa está muito fora do padrão quando a maior livraria on-line do mundo abraça uma causa que há mais de uma década cresce às margens do mercado e à revelia de alguns de seus autores mais vendidos.”, como uma suposta jornalista de literatura ignora que o tal licenciamento de obras derivadas é prática mais que corriqueira e nada tem em comum com o universo fanfic? Deixe-me explicar com maiores detalhes, a Amazon anunciou um serviço onde autores podem submeter textos de universos específicos já criados para aprovação e edição, mas isso é o que já ocorre há muito tempo no mercado tradicional, ou você acha que o George Lucas escreveu todos os livros de “Star Wars”? Autores sempre submeteram textos para universos existentes na estrutura tradicional, a Amazon não criou nada novo nem oficializou o fanfic, que é livre, não submete-se a uma aprovação dos detentores dos direitos.

Esta bola fora com a Amazon era só o gancho de sua matéria sobre bobagens ainda mais profundas e um tal de Richard Nash, vejam: “É um cenário em que autor e editor vão além dos livros para virar produtores de cultura. "A cultura do livro não é fetichismo com o texto impresso; é o movimento da idéia e do estilo na expressão de histórias", escreve Nash.”. Perguntinha básica: Esse povo lê? Eles realmente sentam em um canto e tem aquele diálogo com o autor? Pois parece-me que eles não tem nem idéia do que seja literatura uma vez que não são leitores, não praticam e não sabem o que querem aqueles que gostam de sentar e ler um livro; “movimento da idéia e do estilo na expressão de histórias”, se a cultura do livro não é fetichismo, e não deve ser, esta frase certamente é o epítome do fetichismo acéfalo.

O tal Nash diz que o direito autoral existe para proteger o mercado, o investimento do editor, está certo em parte, pois um autor independente não têm condições de fazer valer seu direito autoral em casos pequenos, somente a grande editora o têm, mas mesmo para ela raramente compensa, é mais uma ameaça, ou medida quando a pirataria ganha escala. Mas hoje, com a tecnologia do e-reader vivemos novos tempos, o direito autoral funciona efetivamente para proteger o autor independente de ter sua obra apropriada por grandes editoras. Proteger autor era uma desculpa da editora para resguardar seus ganhos, com a democratização da “impressão” e distribuição eletrônica, o direito autoral vira uma ferramenta de verdadeira proteção do autor contra os grandes “publicadores”.

Segundo Nash escritores não serão mais escritores, ou não mais ganharão dinheiro escrevendo livros, veja: “No digital, defende Nash, "a receita não virá de fazer cópias, virá de serviços, palestras, produtos associados. São formas de gerar receita que independem do faturamento com vendas de livros."”. Escrever para o leitor ler não será mais um serviço remunerado, o autor vai ter que dar palestras, vender produtos derivados, ou seja, não será mais um autor e nem poderá dedicar-se à escrita, e o que faz o leitor que não quer assistir palestras ou comprar “merchan”, mas apenas um texto para ser lido? Este tipo de afirmação beira o ridículo, é a morte do autor, da literatura e do leitor, um mundo de mediocridade, sem a excelência de autores que dedicaram-se à escrita. Parte do argumento é que pouquíssimos autores vivem de sua escrita, inclusive um tal Silvio Meira, engenheiro de software, afirma no artigo: “Conheço dezenas de escritores, mas não conheço nenhum que viva dos livros que escreve. Alguns são colunistas, outros fazem roteiros, outros atuam em editoras”, primeira obviedade, com o que pagam as editoras brasileiras ao autor brasileiro, ninguém vive mesmo, hoje com o livro eletrônico os autores americanos não se contentam com o que paga a editora lá, e aqui pagam muito menos. O editor brasileiro paga uma fortuna para licenciar um livro estrangeiro, mas ao autor brasileiro paga em amendoins, desta maneira está explicado o motivo da literatura brasileira ser tão subdesenvolvida, só com livros de políticos, jornalistas, atores, apresentadores e sambistas e uns poucos escritores amarrados a uma doxa pós-modernista infértil e tediosa.

O motivo do autor brasileiro não viver de seus escritos é que as editoras cobram caríssimo nos livros, o que diminui o público, e ainda pagam pouquíssimo ao escritor, impossibilitando que dedique-se ao ofício; é um círculo vicioso que espalha ignorância: as pessoas não lêem pois custa caro, as crianças não desenvolvem a leitura pois é caro, o número de leitores diminui, autores não podem viver de sua escrita, a qualidade dos livros piora e muito mais gente deixa de ler, gente que lê menos é mais ignorante, e ignorante estimula ignorância, e aí se formam jornalistas.

Vamos inverter o círculo, com e-readers baratos mais gente terá acesso a livros, autores poderão oferecer seus textos diretamente aos leitores, sem o enorme custo de impressão e distribuição livros custarão muito mais baratos, mais gente poderá ler, mais crianças poderão desenvolver a leitura, mais público leitor e mais renda para o autor que poderá dedicar-se à escrita, cobrar barato de maneira que as pessoas achem justo pagar o valor do livro para que o autor continue a escrever para poderem ler. Mais leitura, mais cultura e menos ignorância.

O tal engenheiro de software vai além: “O autor foi criado pela prensa. Antes de Gutenberg, não existia copyright. As histórias pertenciam às comunidades. Vemos agora uma volta ao coletivo, com mixagem, apropriação de textos. O conceito de autor fica difuso”, podia não existir copyright, mas Sófocles, Ésquilo e Eurípedes, sem falar de Homero, não são nomes de comunidades mas de autores, e se eu os copiar será apenas plágio. É este tipo de idiotice que diminui o próprio ser humano, carreando a contrabando o texto de Rousseau em sua mixagem de cultura da mediocridade. Deixem Sófocles ter o crédito que merece, foi ele que escreveu, e sem ele tal obra não existiria, prefiro ter Sófocles, Ésquilo, Eurípides, Homero, Shakespeare, Cervantes, Defoe, Sterne, Flaubert, Hemingway, do que estes “remix” genéricos que o tal engenheiro professa. Esse povo vê literatura como produto, não tem sensibilidade para apreciar a finesse nos escritos de Flaubert e o colocam na mesma categoria de um Paulo Coelho, como alguém pode crescer a ainda querer falar qualquer coisa de literatura com sentidos tão grosseiros? Como alguém imprime tal idiotice em um jornal?  Editores acham que textos tem geração espontânea, nascem sem os autores pensarem, dedicarem-se, estudar, pesquisar, errar, trabalhar.

Esta noção completamente estapafúrdia do futuro sem passado vem de caras como Foucault, sem que se leia o mesmo, há uma infusão de idéias pós-modernistas que pregam o novo sem passado, nossos filhos não lerão os livros que lemos, nem lerão livros, segundo estes progressistas será algo novo que ainda não sabem. De Galileu a Newton e Einstein houve o novo como progressão e desenvolvimento do passado, Hemingway apreciava Victor Hugo, leu os clássicos, não criou do zero, mas os progressistas querem uma nova existência, sem passado, sem cultura, sem história e sem vida!

Para o tal Nash o autor criará uma marca, como Nike ou Apple e viverá do seu licenciamento, mas se pensarmos, a excelência do autor vem do seu texto, que ele produz escrevendo e os leitores lendo, marca vem de propaganda, não de reconhecimento, e se o autor quer continuar como autor tem que escrever mais e cada vez melhor ou sua “marca”nada valerá, assim, se seu valor está em seu texto, seu trabalho, como licenciar este bem? Visto assim o pensamento do tal Nash não parece um monte de porcaria? Será que esse cara tem a mínima idéia do que seja literatura? E como a Sra. Cozer consegue publicar tamanha sandice e ainda dizer-se conhecedora de literatura?

Alex

3 comentários:

  1. Não importa o veículo, importa ler bem. E ler bem é ler textos que se prestam à leitura.

    ResponderExcluir
  2. Eu li esse texto da Folha, eu particularmente adoro as muitas da invencionices da Amazon e sou leitora voraz de fanfics.

    O que a Amazon está fazendo nada mais é que estratégia mesmo de mercado para ela própria, diante da gama de fanfictions que começaram a ganhar notoriedade ao ponto de virarem livros impressos ela criou esse sistema onde todos ganham uma fatia do bolo, Amazon com a distribuição, o autor da obra pelo "licenciamento" e o fic-writer pela fanfiction.

    Toda história tem dois lados. O que a Amazon está fazendo é simplesmente abraçando um nicho de mercado que tem consumidor.

    Eu mesma li 50shades, quando ainda era a fanfic Master of the Universe e várias outras fics gringas que viraram livros, aqui no Brasil os livros A Infiltrada, Entre a Nobreza e o Crime, 30 dias com Camila quando eram fanfics e eu as teria comprado como fanfic.

    Achei algumas declarações do Nash meio absurdas, outras plausíveis.

    Escritores ganharam dinheiro com seus livros? Uma pena parte sim, mas a maioria não creio. Amazon ela possibilita a realização do sonho de se ter um livro publicado, mas não é garantia de venda.

    E sinceramente falando muitos autores tem um ego maior que o talento.

    Mundo digital ainda tem muitooo a render.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Alexandrina,

      Você está certa em dizer que o que faz a Amazon é uma estratégia de mercado em benefício próprio, o dilema vem entre editoras e a Amazon, pois em teoria são parceiras, a Amazon distribui o que as editoras produzem, e entrando nesta área de receber, avaliar e licenciar textos de fanfics, a Amazon está atuando como editora, e a obra que será editada deixa de ser fanfic para ser oficial da licenciadora. A Amazon não está abraçando um nicho de mercado que não existia, mas avançando sobre um que existe, o licenciamento de obras, com algumas vantagens: às vezes autores são pagos antecipadamente para criar obras derivadas, no caso, o autor fanfic produz por sua própria conta e risco, se aceitarem será licenciada, se não fica como fanfic e não pode ter uso comercial pois não tem a licença.

      Note que o fifty shades era um fanfic que não foi licenciado, pois a temática abertamente sexual no mundo de sexualidade subliminar do crepúsculo nunca seria aceita, assim, nunca seria uma obra licenciada, nomes foram mudados, tornou-se uma obra independente, apesar da relação “psicológica” de crepúsculo e fifty shades ser a mesma entre os principais protagonistas, mas nunca existirá copyright para isso.

      O problema do fanfic é que você não pode comprar legalmente um fanfic que não seja licenciado, ou seja, tenha a autorização do dono do direito, por isso fanfic é diferente de obra licenciada.

      O mundo digital tem muito a render, verdade, há um novo paradigma de liberdade a ser desenvolvido, e sim, muito autor não ganha com seus livros assim como a maioria das empresas fecha, por que com os escritores seria diferente? Ego de escritor ou de empresário não segura livro em venda ou empresa aberta, está aí o Eike para provar.

      Abraço,
      Alex

      Excluir