terça-feira, 5 de março de 2013

Amazon no Divã

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O doutor Freud iniciou a técnica da psicanálise, viu que seus pacientes apresentavam um subconsciente que por muitas vezes tomava o comportamento consciente e gerava muitas das patologias psíquicas que conhecemos, assim, diversas técnicas de abrir este subconsciente foram criadas para que os pacientes tomassem conhecimento desta parte autonômica de sua psique. Tenho uma amiga que diz que rico faz análise por esporte, para se conhecer; pobre é quando está louco mesmo e não tem mais jeito. Acho que a Amazon não é pobre, então vamos usar os atos da própria para analisar o que quer esta gigante, vamos conhecer melhor a Amazon.

Esta loja começou vendendo apenas livros na internet, a maioria disse que iria falir, e acho que por muito tempo deu prejuízo, época em que ninguém acreditava que era possível vender coisas pela internet. A escolha de vender livros não foi aleatória, foi pensada, pois era o produto que melhor se adaptava e podia ganhar com a venda on-line. Quem quer um livro específico, procura até encontrar, e a Amazon preencheu um buraco no mercado oferecendo um serviço de qualidade, antes encomendar um livro de uma editora era quase impossível, encontrar o mesmo em livrarias também era muito difícil. Com o novo serviço leitores do mundo todo passaram a conseguir livros de maneira muito mais simples. A Amazon colocou-se a trabalhar, produziu o mais completo catálogo de livros, mesmo que os mesmos não estivessem disponíveis eles procuravam em sebos para ti, não é à toa que tornou-se a primeira e única parada para comprar livros. Leitores são mais que simples consumidores, são formadores de opinião, lucrando com a característica de cauda longa do mercado de livros, tratando de forma exemplar seus consumidores a Amazon ganhou fama, volume e competitividade que os permitia vender livros muito mais barato, além da logística muito mais enxuta que de uma livraria física. Tudo isso foi pensado no subconsciente coletivo da Amazon, e o principal objetivo era ganhar concorrência tratando o público como nunca foi tratado, funcionou. Atingido o objetivo alguns serviços que não davam dinheiro foram excluídos, como a procura de livros em sebos e os fretes marítimos baratos, tudo bem, eles já eram muito grandes para sofrer com a perda, e ninguém assumiria este nicho muito custoso.

Com a fama feita, confiança ganha, a Amazon expandiu seu escopo de produtos de apenas livros para tudo que pode ser vendido na internet. Atender bem o cliente é apenas um item de competitividade, funciona enquanto existe competição, se você tem opção vai onde é melhor atendido e encontra o menor preço. Neste ínterim a Sony lançou o primeiro aparelho e-reader, um hardware ainda caríssimo, mas com possibilidades de mudar para sempre o mercado do papel, uma tecnologia que prosperando colocaria em cheque todo o mercado já estabelecido de livros. A Amazon, nada besta, já a maior livreira do mundo, rapidamente adotou a tecnologia, enquanto outras livrarias ficavam restritas ao papel. Novamente ninguém acreditava que o e-reader daria certo, a leitura em palms e computadores nunca vingou, mas também nunca foi confortável como um livro, aos poucos o aparelho foi barateando e o número de livros digitais aumentando. Quando a industria do papel se deu conta, já era tarde demais, o mercado foi tomado e kindle já era sinônimo de e-reader. Mas existiam outros e-readers, competindo com a Amazon, se vendesse um aparelho completamente dependente do seu sistema, ninguém o compraria. Você quer ser capaz de colocar seus textos, um aparelho totalmente dedicado à loja nunca venderia, mas como a Amazon agora é grande, tem seu aparelho que só lê o formato proprietário e só aceita o DRM da própria Amazon, se fosse possível, o Kindle só leria conteúdo da Amazon, mas a competição não deixa. Com a associação dos e-readers com as lojas que vendem conteúdo, os aparelhos independentes quase desapareceram, as livrarias podem vender o aparelho mais barato e tirar o prejuízo nos livros, os fabricantes de aparelho e os revendedores não.

A força da Amazon está na confiança que obteve do seu consumidor, prestando um serviço gentil e eficiente. Se você está de olho no noticiário de livros internacional deve ter visto um monte de artigos sobre a Barnes & Noble, qual o motivo de tanta consternação por esta livraria? A Borders, uma cadeia grande desapareceu com muito menos choro; é simples, ao contrário da Borders que era uma espécie de supermercado de livros a Barnes & Noble é uma livraria que tem conexão com o leitor, deixou sua marca, afeto, quem já foi a New York e gosta de livros, tem na B&N uma espécie de ponto turístico obrigatório, perder-se em suas prateleiras era voltar ao Brasil com muita coisa boa para ler, é uma experiência marcante, por isso a consternação pública quando a B&N vai mal das pernas e nem tem mais fôlego para manter em catálogo livros menos populares que faziam a alegria de leitores diversos no mundo inteiro. Estes livros hoje estão na Amazon, mas a ligação sentimental com a B&N ainda existe, por isso a consternação, e apesar de eles fazerem tudo errado, até em prejuízo do consumidor, a relação desfeita ainda gera dor.

Muita gente aqui no Brasil tem uma relação com a Amazon, mas a Amazon USA não é a mesma que a Br, ou será que a loja brasileira é o que será a Amazon USA quando não mais tiver concorrência? E aí vem nossa pergunta: O que quer a Amazon? Será que o comportamento da Amazon no Brasil representa o subconsciente da Amazon USA?

No Brasil a Amazon tem preços altos, pouca diversidade e nem um aparelho competitivo, enquanto a Kobo vende toda sua linha de aparelhos no Brasil, o cliente Amazon brasileiro só pode comprar o kindle mais simples, e fica preso à loja, com o Kobo pode-se comprar livros em quase todas livrarias pois aceita Adobe DRM, com Kindle só na Amazon. Mas olhe que estranho: para um autor vender seu livro de forma independente na Amazon Brasil e receber 70% de royalties deve obrigatoriamente estar no programa KDP select, o que te obriga a dar exclusividade da venda para a Amazon, se o livro não for exclusivo a Amazon paga apenas 35%, pode parecer muito para um editor tradicional que paga muito menos, mas para ebook deixa a Amazon fora da competição, há até muitas livrarias sendo criadas nos EUA que prometem competir com a Amazon oferecendo percentagens maiores para o autor. Nos EUA o autor não precisa ser exclusivo da Amazon para receber 70%, aqui precisa, ela só vende o aparelho mais simples aos brasileiros, sua base de consumidores no país lê inglês e não vai comprar livro brasileiro caro, para os leitores exclusivos da língua portuguesa o que a Amazon oferece é muito inferior que a concorrência. Não há motivo para um autor dar exclusividade à Amazon de um livro em língua portuguesa, e muito menos vender no site para ganhar apenas 35% quando pode vender em outras lojas ganhando 70%, visto que o preço final deverá ser o mesmo por contrato, ou seja, quem vender na Amazon vai ganhar menos ou dar exclusividade a uma loja com uma base de leitores de língua portuguesa ainda pífia e sem fazer esforço para competir com outras livrarias. Assim, a Amazon que é o grande expoente para os Indies nos EUA, no Brasil é a vanguarda do atraso.

Será que esta exclusividade dos autores e a degradação dos serviços é o plano futuro para a Amazon USA quando a concorrência diminuir? O que diria doutor Freud?

Alex

7 comentários:

  1. Só uma correção Alex. Nos EUA os autores também são obrigados a retirar seus livros das outras livrarias virtuais para poderem entrar no KDP e receber os 70% de royalties. Eu já sabia disso, e acho que foi comentado inclusive no The Digital Reader, mas quando você escreveu, entrei em contato com um amigo que auto-publica livros nos EUA e ele confirmou que você tem mesmo que retirar os livros de circulação e dar exclusividade à Amazon. Ele também disso que isso é temporário, e o período em que o livro pode ficar na promoção é bem variável. Durante esse tempo, os autores recebem alguns períodos de três dias onde os livros ficam gratuitos. Ele me disse que não adianta escrever um livro e entrar nesse programa. Você tem que escrever vários, e escolher 1 deles para entrar no programa, para chamar a atenção para os outros da série.

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    1. Mobile,

      A diferença é que os americanos podem aderir ao programa de 70% de royalties sem ter que aderir ao KDP select, os brasileiros só recebem 70% de royalties se estiverem no KDP select, se não estiverem no KDP select só recebem 35%. Entendeu a letra miúda?

      Abraço
      Alex

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  2. O plano da Amazon é simples: Venda os produtos a preço de custo ou com prejuízo e acabe com os concorrentes.

    Primeiros as livrarias foram à falência, agora serão as editoras. A tendência é os autores autopublicarem seus livros ou usarem a editora da Amazon.

    O mais interessante para um autor é disponibilizar suas obras nos mais diferentes lugares. Ficar preso à uma exclusividade não faz sentido. Só faz sentido nos EUA onde a Amazon é um monopólio. Aqui no Brasil o mercado é muito incipiente.

    Alex:

    Quanto os outros (Google, Kobo, Apple, etc.) pagam aos autores autopublicados?

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    1. Marcos,

      É justamente isto que é difícil de entender, no Brasil a Amazon não é competitiva, em todos os pontos que pensar, uma livraria completamente diferente da Amazon USA.

      A Kobo paga 70% com menos restrições contratuais que a Amazon, só não sei como é o pagamento a autores brasileiros, até a última vez que chequei não havia opção para conta em reais. O Google no Brasil não aceita independentes, só entra na loja quem eles convidam; em relação à apple, procure aqui no blog alguns artigos da Maurem e sua saga com o ibooks.

      Abraço,
      Alex

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. A amazon tá jogando com as cartas que têm. Todas as pessoas que conheço, SEM EXCEÇÃO,que compraram o kindle foi pra ler de graça. Ninguém vai gastar dinheiro com ebook, seja ele mais barato que o livro físico ou mais caro. As poucas pessoas que fazem isto, não representam uma parcela significativa que permita maior competitividade nos preços.

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  5. Quem aqui no Brasil utiliza outra loja de livro eletrônico fora a Amazon?? Uma parcela muito pequena com certeza.

    A amazon só tá garantindo o monopólio dela no Brasil com essa parada dos 35%.

    Um dos ebooks independentes brasileiros mais vendidos: Branca dos Mortos e os 7 Zumbis, é exclusivo amazon e vende muito bem obrigado.

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