sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Carnaval com Livros

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Orgia da carne ou simplesmente seis dias em orgia de letras, é você que escolhe, um período de liberdade dos afazeres e da moral diária, ou simples feriado a ser desfrutado da maneira que desejar. Tomei de parceria meu e-reader e lá fui enfrentar o inferno aeroportuário que nos é impingido pela mais pura incompetência, desta vez estava só, junto comigo nas salas de espera não encontrei nenhum outro e-reader viajando, muitos laptops, alguns tablets, celulares em fúria, e só, nem livros de papel, revistas ou jornais. Para distrair-me das agruras da espera e do atraso mergulhei no livro e sua capacidade mágica de transporte, só saindo ao chamado dos falantes anunciando uma nova troca de portão de embarque. Ao ler em ônibus e metrô o e-reader chama atenção, atraindo olhares no mínimo incômodos, no aeroporto, por sorte, quase a mais pura indiferença, mas fui interpelado por seis vezes por pessoas querendo saber que “tablet” era aquele, leve para ser seguro com apenas uma mão, expliquei que não era tablet e sim leitor eletrônico com tela específica para ler livros, leve e com altíssima durabilidade da bateria, nem foi na bagagem o cabo de carga, o que são seis dias perto de dois meses de bateria? Engraçado é que chamou a atenção o fato de estar lendo com apenas uma mão, em pé ou sentado quando havia lugar, ou até na fila em Confins com a bagagem de mão ocupando o outro posto: “ É este o kindle vendido aqui no Brasil? Posso ver?” perguntou uma senhorita logo atrás de mim na fila, infelizmente este meu não é mais vendido, é mais antigo, aqui a Amazon ainda vende apenas o kindle mais simples, mas expliquei que a Kobo tem a linha completa, com um aparelho menor que o meu, ainda mais portátil.

Impressionou-me o número de pessoas que tomaram a iniciativa de perguntar e não tinham a mínima idéia do que era um e-reader, chamou-lhes atenção eu estar lendo segurando o aparelho com apenas uma mão, três em Brasília e duas em Confins sem contar a menina da fila que sabia o que era um kindle, mas nunca tinha visto de perto. Em país onde leitura é pouco difundida, o e-reader é ainda mais desconhecido. Já estamos aqui no blog falando apenas disto há alguns anos, pregando aos convertidos, mas aí fora o aparelho que facilita a leitura ainda é um desconhecido. Nos EUA já representa mais da metade dos livros vendidos, aqui ilustre desconhecido, mas algo mudou quando os aparelhos passaram a ser comercializados por aqui, não mais somos apenas um apêndice do mercado americano, restrito aos que lêem inglês, há agora uma realidade local a ser formada, em caminho independente; a venda dos aparelhos mostrou aqui a mesma flexão da curva de vendas de ebooks que ocorreu nos EUA quando os aparelhos caíram de U$300 para quase a metade, mas agora, muito do que vemos acompanhando mais de duas dezenas de fontes internacionais, tem pouca ou nenhuma relevância aqui. Ainda existe briga e relutância dos meios tradicionais em relação à tecnologia, mas teimo em dizer que é inevitável, por um simples ponto: conforto. Para muitos ir a uma livraria comprar livro é um prazer, mas ter que ir à livraria quando não se quer, não; e pior, ter que circular diversas livrarias à procura de um título específico, não é agradável, ele pode chegar de imediato no conforto do seu lar, se tiver um e-reader, sem espera, sem custo extra de frete e até mais barato, como pode concorrer? Se não encontrar o livro digital vai comprar em papel, mas e o inverso? E se o livro só existir digital e é este que deseja ler? Estará excluído se não tiver um aparelho, ou terá que optar pelo desconforto do computador ou tablet. Não sei vocês, mas já peregrinei muito por um livro e até paguei fortunas em alguns muito necessários. Comparado a isto comprar um e-reader é fácil, mesmo que não seja e-leitor freqüente.

Publicar ebook é muitíssimo mais barato que publicar e distribuir um livro de papel, portanto, com toda certeza existirão muito mais ebooks do que livros em papel e hora ou outra o leitor se verá na posição de ter que ler um livro que só existe no meio digital, isto já acontece hoje em vários cursos onde o professor publica o conteúdo digital para o aluno; aí lhe resta a opção por conforto e seu compromisso com a leitura. Qualquer televisão de quatro polegadas faz o seu papel, mas para quem gosta, vai comprar uma de quarenta e seis polegadas ou maior, o mesmo ocorre com o e-reader, quem gosta mesmo de ler vai comprar o aparelho próprio, assim como é ruim assistir tv em telas minúsculas, é ruim ler em telas emissoras de luz, pura questão de conforto, sem contar o peso do aparelho e longevidade da bateria.

Se nos EUA o conforto é o principal na troca do papel pelo digital, aqui ainda há mais um ponto, o acesso; o preço do livro que era caríssimo pela máfia do papel, e impossibilitava a maioria dos brasileiros de ter leitura freqüente, hoje pode sair fora desta panelinha e ver gente independente florescer, crescer por mérito, por habilidade escrita e não por propaganda descarada ou disfarçada nos meios de comunicação de massa. À medida que o número de e-readers cresce, aumentam as chances de autores independentes viverem de sua escrita, independentes dos minguados ganhos oferecidos por editoras e ainda cobrando mais barato nos livros, tornado-os mais acessíveis a mais gente. Há ainda um longo caminho, os preços dos ebooks brasileiros em sua maioria são ofensivos de tão altos, e os autores brasileiros ainda são uma classe subdesenvolvida pelas mesmas mazelas do mercado, precisam hoje aprender a escrever para o público, seja ele qual for, e não para críticos suspeitos e editores gananciosos e ignorantes. Vai tomar tempo, é preciso dedicação, mas acredito que uns poucos aqui surgirão, como poucos surgiram fora, só estamos muito atrás.

Passado o carnaval o Brasil começa oficialmente a entrar no novo ano, e agora cabe a nós escrever nossa própria história, escrever nossas estórias, e com elas montar um novo panorama literário, livre de clichês ou outros grilhões que tem subdesenvolvido a nossa cultura. Para um país mais leitor, para leitores mais conscientes, para literatura mais qualificada, está aí o e-reader e o milagre da tecnologia.

Alex

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