quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

“Tempo sem Kindle”: A coluna ignorante de Marcelo Coelho na Folha.

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Ontem o colunista da folha resolveu falar de livros e e-readers e mais especificamente do kindle, e como sempre, respondemos aqui ao apanhado de besteiras. Alguns vão dizer que todos tem direito à sua opinião e nisto não discordo, mas no momento que verbaliza tal opinião, ela torna-se um argumento e pode e deve ser contestado, opinar ou argumentar sem ser contestado é coisa de ditadores, gente que não consegue sobreviver por conta de um argumento fraco que desfaz-se ao menor uso da lógica, portanto vamos lá, colocar um pouco de luz nas assunções ruins do texto.

Ele começa dizendo o óbvio, toda aquela pataquada de cheiro de livro e prazer táctil é uma besteira, mas perde o argumento ao tentar justificar suas causas: “É que todo esse apelo à “fisicalidade” do livro tende a ser uma traição, acho, do que há de mais espiritual no ato de ler.” Em evidente contradição ao afirmado anteriormente: “O livro impresso, quando se manifesta na conversa sobre tato e perfume, inscreve-se no mesmo capítulo que mobiliza os adeptos da “slow food”, os especialistas em charutos, os que percebem notas de canela e mirtilo no vinho não sei das quantas. É vontade de refinamento, decorada e repetida num esforço de autoconvencimento.”

Que o texto em um livro não tem qualquer apelo da “fisicalidade”, parece óbvio, mas quando degusta um vinho, o sabor, é a pura “fisicalidade”, e apenas isso, quem toma um vinho deve preocupar-se com o que está no copo, sem rótulo ou preço, e como na música, tem gente que tem maior treino e gente que não percebe nada. O tal vinho com notas de canela deve ter sido de festa junina, e mesmo os mirtilos são citação da pura ignorância. Como diz o ditado popular: “em terra de cego quem tem um olho rouba no pôquer”, tem gente que não tem o menor treino do paladar e blefa, sem diferenciar um vinho bom de um estragado, acredite, já vi, inclusive com elogios ao avinagrado. Mas tem gente que sabe do que fala e tem treino do paladar, assim, não é uma vontade de refinamento ou esforço de autoconvencimento, é maior treino dos sensos, que nos outros são grosseiros e pouco desenvolvidos, e nisto, a única sensação que importa é a física, vinho espiritual é vinho de propaganda ou de etiqueta de preço elevado, raramente justificada nas notas dos vários sabores presentes.

Mas cheiro ou aspecto táctil do papel tem uma explicação mais simples, por estarem presentes em momentos felizes de leitura, eles são contrabandeados junto com a experiência, como aqueles sabonetinhos que a avó deixava nas gavetas para perfumar, remetem aos momentos felizes passados na casa da avó, mas em nada essencial da experiência em si; desta maneira, quem apega-se ao cheiro ou tato e não ao texto em si, despreza o que de importante há na leitura por aspectos irrelevantes ao prazer de ler.

Depois Coelho faz digressões sobre os vários formatos de livros, mas falha em dizer o óbvio, independente de existirem formatos e encadernações que preferimos, no livro físico não há escolha, se ele está em um formato esdrúxulo para segurar, vire-se! Não há como mudar.

Comprou um Kindle há dois anos e não usa, cita como motivos: “é muito chato ler qualquer livro em que o texto tem a invariável aparência de um documento do Word. Será incompetência minha ou toda a arte da tipografia desaparece com o Kindle?”.

Para quem anteriormente citou a espiritualidade do livro, em franca contradição, apega-se a um aspecto físico visual que nada tem em comum com o texto em si, a não ser que se fale de concretismo, este híbrido bastardo entre texto e artes plásticas. Além disso, meu word tem a cara de todos os livros do mundo, com algumas milhares de fontes, tem aí toda a arte tipográfica, mais que qualquer livro, que apresenta uma única fonte e não permite mudança. No kindle tem algumas fontes, uma me agrada, e o que é mais interessante, posso ler todos os livros com a fonte, diagramação e formato que gosto. Outro dia uma amiga, revoltada, mostrou-me um livro: “O Céu dos Suicidas” de Ricardo Lísias, apesar de ser um livro de tamanho “normal” todo texto estava disposto em uma minúscula coluna no meio, atrapalhando de sobremaneira a leitura, fico imaginando o que o diagramador pensou, será que era para imprimir o livro em papel higiênico? Está certo que o livro é pequenino e com uma formatação normal, letras não tão grandes, perderia mais da metade das páginas, mas nada justifica uma formatação tão esdrúxula e desconfortável, mesmo que de livro vire conto.

O próximo problema são capas e preço do arquivo digital, para dizer o óbvio: capas nem são parte integrante do livro se pensar no seu conteúdo “espiritual”, estão lá para atrair o olhar do comprador, mas raramente são parte integral do texto, eu particularmente gosto de livros do século dezenove e sua encadernação de couro sem capas ilustradas. Dito isto, gostei da atualização do Kindle que colocou um “cover browser”, gosto da capa não por sua arte, mas por sua função icônica que rapidamente identifica o livro, é apenas um costume, um vício que peguei por minha biblioteca física estar sempre desorganizada e ter que procurar os livros pelo “ícone” capa ou lombada. O preço não é função do Kindle, é coisa das editoras, está cheio de autores independentes, alguns muito bons que vendem seu livro a preços justos e sem restrições.

A última queixa do colunista é a falta de “fisicalidade”, e nisso acho que ele nem explorou o aparelho, eu pessoalmente gostaria que tivesse uma opção que retirasse qualquer indicativo de tamanho e progresso, para que o fim do livro viesse com surpresa. Acho que se o colunista já pensou um pouco no ato de escrever uma estória, expandimos e contraímos o tempo da maneira que nos aprouver, esta falta de dimensões que não sejam a do pensamento é uma das grandes características do livro. Se ele tivesse prestado atenção no aparelho veria que dá para folhear tão bem ou melhor que outro livro, só não da mesma maneira.

Ao contrario do Coelho, uso o aparelhinho em base diária e por sua comodidade de ler e adquirir livros aumentei ainda mais meu tempo de leitura. Sempre fui apaixonado por livros, tenho muitos, até demais, mas no momento que pousei as mãos em meu primeiro e-reader, nunca mais abandonei, ainda leio livros em papel, mas se posso escolher, é tudo digital, não se deixe enganar pelo texto todo contraditório do colunista, se nunca viu um e-reader, pegue na mão, pegue emprestado se puder e tome suas próprias decisões, pode parecer misticismo, mas você só vai ver o que é um e-reader de verdade quando experimentar.

Alex

9 comentários:

  1. alguém pagou esse cara para escrever isso!?
    é sempre complicado quando algo "novo" aparece, até cair no conhecimento de todos as grandes vantagens do e-reader, sempre haverá alguns conservadores que não irão aceitar a ascensão do próprio.
    Realmente somente pegando um e-reader para tirar conclusões, e considero difícil alguém comparar leitura com, como dito, "a invariável aparência de um documento do Word", no meu caso com meu kindle, fiquei impressionado com a semelhança do e-ink com o papel impresso, no meu a tela só se limpa completamente quando se passa várias páginas, com isso dá a impressão de que os "restos" dá página anterior se pareça com as palavras do verso da folha..:)
    O problema é a influência dessas opiniões.. atrasando o sucesso evidente.

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    1. Acho o mesmo, este cara deve estar levando dinheiro para falar tamanha asneira, até parece que ler se resume em tatear as folhas, todo mundo esquece que ler é a essência da interpretação, quando pegamos um texto em nossas mãos viajamos com o conteúdo e não com as folhas, parece que tem gente que adora verbalizar asneiras este sujeito é um exemplo, fajuto exemplo!

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    2. Bráulio,

      Fiz a mesma pergunta, aí fui ver melhor quem é o gajo, diz ali ser editor da folha, incrível como pode ser tão ignorante, mas se leu “O Hobbit” do Tolkien, leia essa outra coluna: Medinho à moda antiga , como alguém tão ignorante pode dar-se o título de crítico cultural? E o que é pior, parece que escreveu um livro sobre o assunto “Crítica Cultural: teoria e prática, pelo nível do que ele fala sem saber, ou seja: ignora, é contraditório que tenha alguma cultura. Como é editor da folha pode explicar os constantes artigos contra os e-readers no jornal.

      Sabe que quando me perguntaram se incomodava os restos de página sem refresh total, também comparei com a transparência do papel e as letras do verso? Não me incomoda, mas se quiser você pode colocar refresh a cada página, gastando um pouco mais de bateria.

      Acho que a idéia é acabar com o e-reader, mas o aparelho é tão bom que ganha destes boçais.

      Abraço,
      Alex

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    3. Mel,

      Concordo 100% contigo, não consigo entender como um suposto crítico cultural pode dar-se ao luxo de tão abissal ignorância, não só sobre o e-reader, mas sobre livros em geral, talvez a explicação seja que ele é destes tipos que usam livros só para decorar a mesa de café.

      Abraço,
      Alex

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    4. nossa essa crítica do hobbit é muito escrota...

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    5. Incrível não? Ele fez uma critica ao Tolkien baseado no filme e obviamente nunca leu o livro, parece criança que vai fazer prova de livro e vê o filme em vez de ler. Como alguém assim pode intitular-se crítico cultural? Antes ele deveria ter cultura, para depois fazer a crítica, só no Brasil existe este tipo de jabuti.

      Abraço,
      Alex

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  2. Você escreveu uma excelente resposta ao artigo do Sr. Marcelo Coelho, Alex, muito bem argumentado.
    E se vale uma observação, eu tenho rinite, e toda vez que ouço alguém falando sobre o "cheiro do livro de papel", tenho vontade de espirrar (rs). Falando sério, até nisso eu prefiro o Kindle. Com os livros de papel, se eu arriscasse ler um livro que ficou guardado muito tempo, acumulando ácaros, eu poderia acabar tendo uma crise de rinite. Para mim, a falta de "cheiro de livro" é na verdade uma vantagem do Kindle.
    E como você, eu gosto muito do meu Kindle e depois que o comprei eu tenho lido com maior frequência do que antes. E minha biblioteca tem aumentado muito, principalmente com tantos livros gratuitos que as editoras americanas promovem diariamente. Muita coisa boa para ler sem ter que gastar dinheiro com isso.
    Abraços!

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    1. Cris,

      Infelizmente também sou do clube da rinite, quando tiro o pó da minha biblioteca fico duas semanas como se estivesse resfriado.

      Como você minha leitura aumentou muito com o e-reader, virei um “chain reader”, sem parar ao terminar um livro e já iniciando outro, que já está no aparelho por promoções e comodidade, e tudo que o e-reader facilita.

      Abraço,
      Alex

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  3. Manoel Guimarães,

    Infelizmente ignorância ainda é ignorância e atenho-me à definição do dicionário, acredito que devemos usar as palavras que melhor definem o que queremos demonstrar, o colunista em questão não se deu ao trabalho de usar o próprio aparelho, ignorou, e portanto ignorante é o título que melhor define a questão. Em relação à sua crítica de meu tom raivoso, saiba que tem nome: falácia de tom, e já foi repisada na história da humanidade, mas o fato é que por achar tal texto raivoso, nunca deve ter lido Rousseau, Kant, e nem o educadíssimo Chesterton de tom muito mais “raivoso”. O que ignora, é a natureza do discurso, da filosofia e dos ensaios, e assim como os vinhos ignorados pelo colunista, textos também exigem certo grau de cultura, ou conhecimento, ao qual ignorância é o oposto. Assim, não me culpe pelos termos que o próprio dicionário acha apropriados, e tenha consciência da velha falácia moderna do “politicamente correto”, “sapere aude” e tenha capacidade de escapar desta sina maldita.

    Alex

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