terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Livro mais livro, livro menos livro; livro mais livre?

Aumentar Letra Diminuir Letra



Na história da humanidade tecnologias vem em sucessão resolver velhos problemas, ou criar novos, e dentre milhares de inventos, a sociedade muda, quem pensaria em parar de usar a roda e utilizar carregadores a pé, sejam humanos ou animais? Mas veja que, em muitos lugares e situações, o lombo de animais ainda é o melhor método, não sumiu; a roda é ótima, mas exige estradas, e hoje o mundo é ocupado por elas. Quem pensaria em usar velas ou lamparinas em vez de luz elétrica, hoje nem criação de Edison, com o LED muito mais eficiente, mas velas e lamparinas ainda existem. Todo debate apocalíptico do tudo ou nada raramente concretiza-se, mas a dominação do mercado muda; o papel não deixará de existir, mas frente ao e-reader e o livro digital, sucumbe por suas forças e fraquezas; o ebook também tem aspectos positivos e negativos, e para muitas funções papel ainda é soberano, como o jumento de carga no terreno montanhoso, tem seu uso, mas querer impor as limitações do jumento ao automóvel não faz sentido, imagine se os carros só pudessem trafegar em velocidade de jumento? Faz sentido? Não!

O que vemos hoje é tentar impor as limitações do papel para uma tecnologia muito mais capaz, ou pior ainda, limitar ainda mais os direitos sobre o livro eletrônico, negando a posse de seu conteúdo a seu comprador e o direito de usá-la como bem entender. Possuir uma biblioteca, comprar livros, sempre implicou em deter o conhecimento neles contido, e assim usar, legar, emprestar ou herdar livros, parte dos direitos de quem tem a posse sobre a biblioteca estão sendo revogados. A tecnologia que permite mais, limitada ao lombo do animal, até quando os burros vão restringir o livro eletrônico e suas características inerentes?

Se voltarmos nossas lentes ao passado histórico do livro, veremos que tal discussão está longe de ser contemporânea: o clero já preocupou-se da bíblia poder cair em mão dos seus fiéis; universidades preocupadas que o saber pudesse ser adquirido pelos estudantes sem o intermédio acadêmico; reis preocupados com livros que podiam dizer a verdade sobre sua tirania e fazer o povo pensar em uma nova forma de organização onde soberanos não seriam mais necessários. E hoje, mais uma vez, tal maldição abate-se sobre o livro em sua nova encarnação.

Estamos convivendo com o absurdo da limitação geográfica do livro, ela existia no papel, tenho livros portugueses que comprei aqui no Brasil com os dizeres que a venda é proibida fora do território português. Ter acesso ao saber na época do livro de papel significava comprar o livro na edição original, pois se um dia houvesse tal publicação em território nacional, iria demorar alguns anos, ou nunca chegar. Meus professores sempre tiveram as edições mais recentes dos conteúdos de suas disciplinas, e na universidade não há desculpa, está em inglês, vire-se! O ebook em alguns casos está agrilhoado ao chão de residência, e se tentar atravessar fronteira com os livros que não podem sair, eles serão confiscados de seu aparelho! Não lhes parece uma medida medieval? Um feudalismo literário? Mas isso ocorre hoje, fruto da estupidez dos contratos de publicação, que do papel, passam sem qualquer mudança ao livro digital, com seus vícios muito mais ferrenhos. O pior é que isto ainda é a prejuízo do autor, pois em vez de receber o dinheiro de quem quer comprar sua obra, fica refém da venda de direitos regionais, que podem nunca concretizar-se, e nunca existem para a maioria dos autores chamados “midlist”, que vivem de escrever mas não ficam milionários, justamente os que mais precisam deste dinheirinho extra.

É divulgado que hoje na sociedade da informação somos mais cultos e educados, mas tal propaganda está longe da realidade, nosso principal veículo de comunicação ainda é a televisão, e por seu formato, só permite conteúdos superficiais; pense em um programa de entrevista de uma hora, muitos quando muito tem trinta minutos, divididos com as tentativas de te fazer comprar algo, sobra quase nada, e todas vezes qualquer debate não permite sair da superficialidade dos temas, mesmo em programas de três horas, não se sai da superficialidade. E esta é a norma, fala-se de muitos temas, cada dia um diferente, mas nunca em profundidade, sempre aquele caldo ralinho de saber, que não permite ao espectador conexões necessárias para dominar o assunto. A televisão traz ilusão do conhecimento, mas blinda o espectador da verdadeira ciência por detrás das aparências. Dependendo do espectador, ao se ver o mesmo programa, vê-se coisas diferentes, vou dar um exemplo: vamos dizer que temos um programa que falará sobre o avanço da música do período clássico sobre as composições barrocas, um espectador alheio à cultura musical, outro dominando escalas, notas e harmonias; ao tocar exemplos da música de cada período, o primeiro ouvirá uma massa indistinta de sons, ao passo que o segundo poderá ver as linhas harmônicas, as polifonias barrocas e a monofonia clássica no mesmo programa, mas em ambos os casos não se sai da superficialidade e ambos os espectadores tem a falsa noção que sabem a diferença entre os dois movimentos musicais.

A internet surgiu no mundo da televisão, e apesar de ser um meio muito mais capaz, foi e ainda é pautada por esta superficialidade televisiva, aos poucos os hábitos mudam, ainda ontem ouvi na televisão de pessoas mortas por uma cabeça d’água em uma cachoeira em Ubatuba, não disseram onde o fato ocorreu, como sou freqüentador da região e interessa-me saber em que rio tal perigo existe, entrei na internet, descobri que o curso d’água em questão é o Ubatumirim, a informação essencial foi negada pela televisão e nunca imaginei que tal rio estivesse sujeito a tal regime, o que só descobri com o espaço extra que existe na internet, à televisão só sobrou o sensacionalismo dos mortos. Durante muito tempo disseram que os textos na internet devem ser curtos, e obviamente tal exigüidade de espaço não permite aprofundar-se nos temas, mas há quem queira, e a internet permite, textos muito mais longos, em movimento oposto ao das revistas com textos cada vez mais curtos. Mas em computador ou tablet textos do tamanho de livros não tem o conforto necessário, e aí o aparelho e-reader vem suprir esta lacuna, antes exclusiva do livro, com todos os seus pesadelos logísticos de distribuição, impressão e venda. Uma vez que o livro de papel era o único meio, não se pensava que todo o processo envolvido era um peso, mas no momento que temos uma tecnologia que simplifica a tarefa de publicar e distribuir livros de maneira assombrosa, voltamos a competir jumentos com carros; jumentos não precisam de estradas, mas no momento que as temos, melhor usar o automóvel; livros de papel não precisam da internet, mas como a temos, melhor usar o e-reader e circular o livro eletrônico.

Em nossa sociedade toda fonte do mais profundo conhecimento está nos livros, e hoje com o suporte do e-reader esta superficialidade pestilenta que assola nossa vida pode dar lugar aos pensamentos mais profundos e elaborados, como o culto da música ouve sons diferentes dos leigos, assim é os que tem a cultura dos livros, que ao olhar o mundo vêem mais que os outros. Os livros tem a capacidade de fazer a experiência da realidade muito mais rica, mas também podem alienar, criando um universo em suas páginas que blinda os olhos da realidade, e é por este motivo que ler um livro é uma experiência muito mais intensa que ver um filme. Diz o rodapé do meu Kindle que ainda lerei este livro por sessenta horas, umas mil e duzentas páginas, uma única estória, será que algum filme pode competir?

Ler é um ato de transformação sem volta, uma vez que se pega gosto por livros, as estórias mais intensas, sempre estarão em livros, e ao contrário da televisão que é medianizante, com poucas opções para muita gente, o livro é diversidade, mesmo o leitor de bestsellers não lê os mesmos bestsellers que outros, e assim tem-se diversificação das leituras, dos gostos e das pessoas, que mesmo com a literatura mais porcaria, há muito mais diversidade que nos outros meios, mesmo a internet, ferramenta poderosíssima, é usada de um jeito superficial e mediocrizante, com o livro no conforto do e-reader, a internet ganha esta valiosa contribuição para humanização das pessoas; nosso DNA é diferente de todo outro ser humano, assim como nossa feição, por que não nosso gosto e cultura. As pessoas não são iguais, e também não são obrigadas a conviver com quem não se quer, é o direito da livre associação, mas isto só existe com diversidade, o e-reader é plural permite todo conteúdo, não significa que eu deva gostar de tudo, escolhas fazem parte da vida, não escolher é não ter personalidade, anular-se frente à diversidade, aos poucos a própria pluralidade some.

O e-reader permite o aumento da diversidade da leitura, que já é muito grande, e se maior não irá atrapalhar, já existe muita coisa que não me interessa, não quero ler, e não me atrapalha, a facilidade de publicação pode acrescentar livros nesta categoria, mas também pode acrescentar livros que apenas eu e uns poucos vamos apreciar, e que antes nunca seriam publicados. Acho que todos ficaram abismados e decepcionados com os preços dos ebooks das editoras tradicionais, afinal, não tem papel, impressão, distribuição física, tudo bem, sei que ainda tem imposto que o papel não tem, mas mesmo assim: está caro! E o que é pior, a parte que cabe ao autor ainda é ínfima, menos do que se paga a um autor fora, e por isso nunca cultivamos autores, pois não há cidadão capaz de dedicar-se à escrita e tirar daí algum sustento.

Há quem veja o preço absurdo do ebook no Brasil como uma sabotagem à popularização do livro entre os brasileiros, pode ser, mas acima de tudo é uma oportunidade para os autores independentes, que podem competir em preço em termos de superioridade, é só apresentarem um trabalho de mérito, cuidado e bem executado. Os escritores brasileiros tem a mania de serem literários, pela mania das editoras que sempre desprezaram gêneros populares como sci-fi e fantasia, quase sempre vinda de fora, mercados maiores onde os autores podem viver de seus escritos, aqui uns poucos se atreveram no terreno, e apesar de muito populares nos seu nicho, nunca saíram dele. Não confunda com o gênero moderninho chamado de YA (young/adult) jovem adulto, que apesar da temática usar dos universos da ficção científica e da fantasia, o que tem de comum é serem mal escritos, escritos para crianças, coisa que o gênero original nunca foi, possuidor de um elitismo “trash”, relegada aos “nerds” com habilidade de leitura e rapidez da mente para aceitarem livros não condescendentes.

É muito fácil escrever melhor que um Rick Riordan, onde a graça da estória está na mitologia grega e romana, mas mesmo assim é preciso um mínimo de habilidade, diria mais, um mínimo de “semancol”, tem gente que escreve e não tem nem noção da porcaria que cria, falta de cultura, falta de leitura, pode parecer ridículo, mas o que mais se vê por aí é gente que quer escrever sem ler, pode parecer um paradoxo, e é, mas é comum, e sabe o que é pior, muitos ainda querem escrever “literário”, competindo com caras como Hemingway, Faulkner, Virginia Woolf, Henry James, Victor Hugo, Shakespeare e todos os outros, pobres coitados! Mas mesmo escrevendo literatura de gêneros, é preciso um mínimo de cuidado, um mínimo de proficiência e muita leitura. Leio descrição de livros, aqueles resuminhos que não sei se choro ou dou risada de tão bisonhos, mas quem sabe desta lama surja algo que presta, vendido a preço justo, aproveitando as potencialidades de toda esta nova tecnologia. Tolkien foi o pai da Fantasia e ficou restrito ao círculo dos universitários americanos que o descobriram, ao contrário de sua terra natal, o que foi prazer de um grupo restrito, hoje é um dos maiores líderes de venda, isso é literatura, antes de mais nada, diversidade, e o livro cheio de nomes do filólogo agora encontra lugar no coração dos leitores.

Hoje no momento que escrevo este texto o livro em formato eletrônico já representa quase a metade dos livros dos países desenvolvidos, já não faz diferença separar eletrônico de papel, é livro do mesmo jeito na acepção popular, mas há diferença, e querem que o livro eletrônico venha com menos direitos, com impostos que não incidem sobre os livros de papel, assim, o livro eletrônico que é mais que o impresso, tem que ser tolhido para correr junto com os burros, não faz sentido! Vamos usar a tecnologia em prol do homem, da humanidade, e não de grupelhos vagabundos que querem apoderar-se da cultura, ou acabar com ela, é uma briga ativa, política, apesar da palavra estar contaminada, é isso mesmo, política no melhor sentido, de se fazer cidadão (um dia com mais tempo falo para vocês desta política superlativa que nada tem em comum com a gonorréia verbal espalhada por nossos políticos), e o que é melhor, está em livros de domínio público. Não podemos nos omitir, pois aí deixamos de existir, não podemos largar os nossos direitos, brigar, de maneira ferrenha e ativa, por aquilo que acreditamos ser o melhor e não fugir como covardes aceitando mazelas de politiqueiros e empresários querendo escravizar o leitor, o cidadão e a sociedade.

Alex

2 comentários:

  1. Alex, excelente texto.
    Desde que lí - aqui no blog - o assombroso caso da cidadã que teve sua conta cancelada pela amazon e, com isto, perdeu seus livros eletrônicos, tive minha "certeza" da soberania do e-book frente o livro impresso abalada. E isto é só a ponta do iceberg. Outro exemplo pode ser o conhecido fato que o DRM não nos permite "passar a diante" livros. Em outras palavras, minha herança será apenas a biblioteca de papel, a eletrônica vai comigo para o caixão!
    Abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Thiago,
      O livro eletrônico é fabuloso, são as pessoas que querem restringir a tecnologia e suas possibilidades, devemos lutar contra, eles tentam fazer estas coisas passarem despercebidas e quando você vê, seu direito foi violado, o caso da garota que perdeu seus livros é assustador, e teve repercussão a contento, obrigando-os a voltar para trás, sabia que no contrato da Adobe de DRM tinha uma clausula que proibia ler o livro em voz alta? Essa estória de não possuir o livro é outro destes absurdos que devemos nos insurgir contra, por sorte no Brasil, contratos com clausulas abusivas são inválidos por direito, e assim não é possível violar o código do consumidor. Mas temos que continuar lutando, não deixar os absurdos passarem em branco.

      Abraço,
      Alex

      Excluir