sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Como usar o e-reader na educação.

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Qual papel pode ter um e-reader em sala de aula? O que este magnífico aparelhinho tem de especial que pode alavancar a qualidade da educação? Se você não sabe vou dizer, apesar de achar que isso já deveria estar claro para qualquer um minimamente envolvido com ensino; livros, sim, apenas livros, são a base de toda educação que é e que foi, apesar de relativamente banalisados, mesmo com nossos preços excludentes dos mais humildes em posses, ainda é o livro a peça fundamental de qualquer educação que o valha, já foi precioso em valor monetário, item de importância no espólio dos mortos até o século XVII, e apesar do valor monetário decrescente por sua popularização, o valor cultural é exponencialmente aumentado por maior divulgação e acesso, e nisto o e-reader tem papel fundamental.

Se em tempos passados a evolução da sociedade também representou a evolução do homem, hoje, em nossa máquina social altamente compartimentalizada o homem é menor, apenas uma peça que se soma, e apesar da incrível complexidade dos eletrônicos, do microchip, a internet e os processos industriais que constroem um automóvel, o indivíduo não tem o menor conhecimento de tais processos, ao contrário do homem medieval que tecia a própria roupa, cultivava e cozinhava a própria comida, hoje o engenheiro de microchip não sabe cozinhar nem cultivar; quem cozinha não cultiva e vice versa, sabemos apenas a nossa pequena parte nesta gigantesca máquina, e se apenas uma pequena parte falha, o fornecimento de eletricidade, o transporte urbano ou a distribuição de alimentos, nossa máquina colapsa. Existe um ente ainda onisciente de toda cultura humana: o livro.

De divagações históricas e filosóficas, vamos à parte prática: o professor em sala usando um e-reader; vou supor que eu como professor tenho um e-reader, um computador, e que meus estudantes, todos, tem um e-reader. Com este arranjo simples posso passar para meus alunos os textos que desejar para que leiam em casa, antes da aula, assim, de um conteúdo passivo, passado pelo professor, a aula pode tornar-se um debate frutificante entre alunos e professor, além disso, o aluno pode contribuir com textos que encontrar e achar pertinente, talvez vocês me perguntem de onde vem estes textos, digo: qualquer professor, em sua área de especialidade, sabe encontrar tal material, pois assim tem sido feito a centenas de anos, preparávamos até material próprio e distribuímos cópias mimeografadas, mesmo com a tecnologia da fotocópia, pois era muito mais barato, mas o professor já desvalorizado e depauperado não pode dar-se a estes luxos, mas o e-reader permite que qualquer texto esteja nas mãos dos alunos sem custo, e o mais importante, como o que se ensina nas escolas é coisa de velha a muito velha, todo o material necessário está disponível em domínio público, assim o professor minimamente dedicado, com acesso a uma biblioteca, um scanner e um bom programa de OCR, pode produzir com facilidade material de altíssima qualidade para a leitura dos estudantes. Ainda mais, pode compartilhar na internet este material com todos os professores do mundo, em trabalho colaborativo para melhorar a educação.

E por que o e-reader em vez do tablet? Pelo motivo do material necessário já estar em livros, o tablet pode ter vídeos, mas os mesmos ainda precisam ser produzidos, pode ter joguinhos, mas o mesmo problema existe, enquanto os livros que trazem a fonte básica de todo o conhecimento do universo escolar já existem, estão prontos, alguns apenas bastando ser digitalizados, outros prontos. Quem na época de faculdade não se apoiou nestes textos? E não se engane, não existe diferença entre conteúdo universitário e escolar, é o mesmo assunto, que infelizmente nos livros didáticos está estripado de todo sentido lógico que dá embasamento ao verdadeiro conhecimento, não esta decoreba acéfala, boa para treinar papagaios, mas ofensiva para o ser humano.

Infelizmente a primeira medida para melhorar a educação é aumentar a qualidade do tempo em sala de aula; tentaram aumentar o tempo, não adiantou, na medida que se aumentou o número de horas que passa em sala, diminuiu a qualidade da educação. Não adianta nada o professor ficar lá na frente falando se ninguém presta atenção, pior ainda se o professor fica passando conteúdo na lousa e os alunos copiando, seria ótimo para copistas medievais, mas para estudantes que devem pensar é catastrófico, sabemos que isto não é dar aula, mas quantos exemplos ainda persistem em sala de aula. Uma aula simplesmente expositiva pode estar em vídeo e ser vista pelos estudantes quando quiserem e quantas vezes quiserem, até em áudio, mas o tablet não é o aparelho ideal para usar este conteúdo, sua tela diminuta é inferior à televisão da sala para ver anotações em lousa ou outras referências. E um minúsculo e barato MP3 é muito melhor que o enorme tablet para o conteúdo de áudio exclusivo.

Professor é um recurso valioso, desperdiçamos e desvalorizamos usando-os para o que não deve, sofre o professor, condenado a ser reprodutor de conteúdo acéfalo; sofre o aluno, com uma educação árida e desestimulante, não se aprende por paixão, mas por obrigação, quando em realidade não existe maior aventura. Mas para isso é necessária uma nova mentalidade, ou a volta de uma velha, aventureira e livre, oposta ao nosso ensino industrial e mediocrizante.

Quando falo da oposição entre liberdade e ensino industrializado, por favor, não façam qualquer paralelo com o debate que está vivo na mídia entre o padrão Claudia Costin e a liberdade do lixo propagada por pedagogos e sindicatos; ela quer um mínimo de padrão industrial e para os outros a liberdade é apenas uma desculpa para o lixo que já existe, propagado pela escumalha que ocupou o magistério devido aos baixos salários.

Feito o esclarecimento, não confunda o que falo aqui com este debate rasteiro que povoa a mídia, a liberdade que falo é superlativa, para um ensino de qualidade superior, não desculpa para a ignorância, por isso deploro os livros textos pedagógicos, as apostilas vagabundas e os sistemas de ensino de padronização industrial, produzindo educação com o mesmo método que se fazem salsichas. Quem escreve estes livros, quem monta estes sistemas de ensino, não tem qualquer domínio dos assuntos abordados, assim, mesmo que o aluno queira, em seu material de apoio educacional não estão as chaves para compreender o conteúdo apresentado, assim só resta a opção da memorização; alunos fingem que aprendem decorando o conteúdo; professores fingem que ensinam exigindo que os alunos vomitem o resultado da memorização em provas ridículas.

Comprar um livro por disciplina já é um peso no orçamento dos pais, imagina dez ou doze, impossível, mas com o e-reader esta realidade é possível, permitindo ao aluno diferentes fontes e visões, desenvolvendo o olhar crítico e usando o professor como entidade viva, pronto a debater com o aluno e não a pregar conteúdo de forma dogmática. Quantas vezes já perguntei a um garoto do porque de algo, para receber a resposta de que é assim pois o professor disse, isso não é resposta de um aluno com senso crítico, mas de um autômato, educação indigna do ser humano. De posse das fontes os alunos podem tomar as próprias conclusões, terem domínio sobre o conteúdo aprendido, e não uma memorização que falsifica um conhecimento que não se possui. Estou falando de duas educações: uma de mentirinha, outra de verdade, qual escolhemos? Qual está presente em nossas escolas, mesmo as particulares? Qual educação queremos para nossos filhos?

Infelizmente a educação só depende do aluno, é ele que aprende, o professor é apenas um facilitador, ou talvez incentivador, quando passa ao papel de algoz, não há mais incentivo para educação, a maior aventura humana torna-se pena para condenado. Cabe ao professor manter o espírito vivo dentro do corpo, aqueles que se limitam ano após ano às mesmas aulas, as mesmas palavras, independente do auditório diferente, condenam a própria atividade.

Como disse, a maioria dos livros didáticos é feita por quem não tem o menor domínio sobre o conteúdo, desta maneira, normalmente as fontes primárias são mais frutíferas pois vem acompanhadas dos raciocínios originais, mas vez por outra alguém que entende bem de um assunto pode criar material educacional de qualidade excepcional. Lá pelo começo da década de sessenta, uma universidade desapontada com o ensino protocolar apresentado a seus estudantes, pediu a alguém que entendia um pouquinho de física para ministrar um curso aos jovens estudantes, as aulas foram gravadas, as lousas anotadas, e ao término do curso tivemos um livro usado até hoje pelos estudantes, por sua pertinência e clareza; o nome deste professor: Richard Feynman.

Conteúdo está disponível em livros, o melhor, conteúdo pode ser criado por professores, compartilhado com todos, e se o aluno dispõe de um e-reader todo este universo esta em seu alcance para engrandecer a educação, não é algo fabuloso? Acredito que qualquer um que já deu aulas ressentiu-se de não poder oferecer aos alunos o material necessário para que caminhem sozinhos, agora, se e-readers invadirem salas de aula, o que seria utópico hoje é possível. Conseguem ver o tamanho da revolução educacional?  Melhoria de verdade! Não esta porcaria ideológica que contamina os pedagogos; e o que é melhor, a custo mínimo.

Como brasileiro enoja-me ver o quanto estamos gastando com estádios monstruosos para um evento particular de esporte, bilhões do dinheiro público, quando a educação é deixada de lado, pior é gastar dinheiro para piorar o ensino, sem uma programação minimante objetiva. Livro é educação, sua matéria prima básica e o e-reader a maior chance de democratizar seu conteúdo, nossa constituição veda imposto ao livro, mas o mesmo é cobrado do e-reader, e isto involui todo o Brasil. Revolta-me a hipocrisia da Dilma e de seu partido o PT, em viagem a Europa diz-se a favor da educação, mais de uma vez, e agora, no fim de ano, repetiu as mesmas mentiras, justo quem mais impôs obstáculo ao livro; é de um hipocrisia monumental, o governo que é contra o livro e sabota de propósito a educação, tem a incrível cara-de-pau de dizer que prioriza a educação, certos que uma nação de ignorantes não vão lhes contestar a mentira suja. O e-reader mais barato sem imposto vai contra o plano do PT de controlar a mídia, pois hoje as editoras, todas, são grandes puxa-saco do governo, tendo nas compras estatais enorme parte de sua renda. Infelizmente literatura de verdade é liberdade, e com este cabresto nossa literatura mantém-se subdesenvolvida, e nossa educação depauperada em favor de uns poucos autoproclamados demiurgos. Pagamos caro em estádios, pagamos barato os professores, tão barato que agora não mais adianta aumentar os salários, pois a má remuneração atraiu para o magistério apenas os incompetentes que não tem capacidade de auferir maiores ganhos em outras áreas, restam no meio desta escória uns poucos idealistas, minoritários e discriminados pela mediocridade reinante no ensino, qualquer um que se destaque é uma ameaça para a massa medíocre de professores que mantém a baixa qualidade do ensino e prega pela tal liberdade, que em realidade é libertinagem e vagabundagem de incompetentes que não aceitam o mérito como critério.

Como funciona a aula com e-reader? Simples, o aluno recebe os textos de referência da aula, um bom tempo antes para que leiam, e assim a aula é usada de forma que todos os alunos participem no debate sobre o tema, assim temos aulas de maior qualidade. Não só isso, recebendo o texto antes os alunos podem tomar conhecimento com o assunto e assim as informações necessárias estarão já em sua memória definitiva, que é processada durante o sono, na aula o assunto será relembrado pelo aluno, fortificando as conexões e permitindo o uso efetivo do professor, como ser pensante capaz de discutir o assunto. Além disso, a aula perde seu caráter passivo e ganha um viés participativo, muito mais eficiente, o aluno precisa aprender a duvidar do seu professor, confrontá-lo, e saber que o professor não é figura mítica que tudo sabe, mas uma pessoa com maior vivência no assunto que pode oferecer um debate qualificado. Falei algo absurdo ou impossível de ser concretizado? Acredito que não, viram como é fácil melhorar a qualidade da educação? Não dependemos de planos mirabolantes nem dinheiro infinito, gasta-se mais em coisas que não funcionam.

Infelizmente cada vez mais nossa educação é infantilizada neste processo industrial de fabricação de diplomas, e isto não acontece só nos colégios, mas nas universidades, nos cursos de graduação, mestrados, doutorados e pós-doutorados e por aí vai. Do aluno na escola não se exige mais que regurgitar conteúdo em uma prova, o mesmo acontece nos cursos de graduação, poucos os professores que ainda exigem o uso de um cérebro funcional. Mestrado? Já morreu, na Europa até o doutorado foi infantilizado, saindo o doutor sem conhecimento do seu assunto, defendendo uma tese do orientador sem usar o próprio cérebro, um peão de obra mais treinadinho. Pós-doutorado?  A mesma coisa, afinal os peões de obra precisam continuar recebendo para trabalhar. E a coisa só piora quando esses tipos invadem as salas de aula, piorando o que já era ruim. Toda esta monstruosidade fruto da deficiência no ensino básico.

O professor com seu baixo salário hoje é um dos trabalhadores mais pobres e desvalorizados, dar aulas deixou de ser uma profissão para ser um sacerdócio onde o pretendente faz um voto de pobreza, é irônico, pois o professor foi o primeiro classe média da história, nas polis de Atenas, na cidade dividida entre senhores e escravos, a única classe intermediária eram os professores contratados para ensinar as pessoas a se virarem na democracia, já se sabia a educação imprescindível na sociedade democrática. É o professor grande responsável pela educação, deve ser valorizado e valorizar-se, por isso o mérito é fundamental, o e-reader é apenas um aparelho que pode portar o conteúdo de toda educação, livros, apenas uma ferramenta, mas a combinação destes dois ingredientes em círculo virtuoso pode desencadear a mudança de mentalidade na educação.

Alex

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