quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Orgulho e preconceito, cabeças mortas.

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Lá vem mais um artigo produzido pela família dos quadrúpedes, na velha seara: tablets versus e-readers. Cansei das luvas de pelica, vamos à manopla da armadura: A primeira coisa a notar é a raiva que certas pessoas têm do leitor e-ink, e aí vou embrenhar-me nos motivos psicológicos de tal comportamento enrustido. Por muito tempo éramos todos leitores, uns liam mais, outros menos, outros ainda diziam que liam mais do que realmente liam, mas o mundo era verde, as cidades não tinham comido toda a natureza e chapeuzinho vermelho sempre chegava na casa da vovó. Entre quem lê e quem diz que lê, ficou um valor social de quem lê e é culto, independente de ler ou posar de leitor; assim, a pessoa “lida”, culta, ganhou certo status social, basta ter a sala coberta de livros, e outros bem bonitos, grandes e caros na mesinha de café para usufruir do status de intelectual, mesmo que os livros não difiram dos outros objetos decorativos. Como o mundo da antiguidade era simples, bastava querer para falar javanês, mas a tecnologia veio para estragar tudo, criaram este tal de e-reader, que consegue o mesmo conforto de ler no papel para aqueles que insistiam em além de ter, ler os livros que possuíam, tinham até a audácia de pegar livros emprestados ou de bibliotecas, sem os possuir, qual o motivo de comportamento tão aberrante? Absolutamente inexplicável para quem não lê.

Quem lê tem esta relação diferente com o livro dos não leitores, acomoda-se em um cantinho quieto e com a luz certa, passa horas ali, imóvel, olhos fixos no texto e cabeça voando no mundo, nos vários mundos, das idéias, das estórias, da história; ele não saiu do seu canto, mas caminhou nas margens do Thames antes mesmo de nascer. Não que livros sejam a única face do mundo, mas quem lê, quando viaja de verdade aproveita mais, tem olhos que vêem além do turista comum, mistura-se na paisagem e saboreia a experiência. Ler nos abre os olhos e o apetite para a vida, se uma vida é pouco, o leitor, através dos olhos dos escritores vive muitas vidas. Mas note que tal dádiva não vem sem preço, aqueles que não conseguem viver a vida e as páginas do livro, vão ter do leitor realmente culto uma inveja mortal, e aí que o e-reader e o tablet são a cor da pele da discriminação, o apartheid, entre os verdadeiros leitores e os que se dizem leitores. Você lê pouco, para quê investir em um e-reader, o tablet cumpre bem a tarefa, e além do mais, com seu nível baixo de leitura a concentração necessária para ler textos mais complexos é supérflua, o tablet serve. Mas tem aquele esquisitão, que cisma em te corrigir ao desfilar suas habilidade em Javanês, ele não consegue ler no tablet, compra um aparelho dedicado apenas para ler, e o que é pior, mais barato que o tablet e ainda o usa por muitos anos, sem ter que trocar anualmente, te corrige no javanês... imperdoável! Que morram os hereges! Cultura foi feita para mostrar não para vivenciar ou saborear.

Bom amigo leitor, é com estas pessoas e estes sentimentos que lidamos aqui, já deve ter ouvido falar da licantropia, aqui lidamos com a jumentropia, que diferente do licantropo que se transforma com a luz da lua cheia, o jumenthomem se transforma à luz da cultura, crescendo cascos, voltando às quatro e comendo capim, tentando suplantar seu ódio à cultura com o hábito de escoicear a esmo. O artigo da folha é um destes coices.

O que o Jumenthomem não percebeu: Tablet serve para muitas coisas, e-reader só serve para ler, mas o faz de maneira muito melhor e insubstituível, assim, não é uma tecnologia de transição, é uma tecnologia para ler, em evolução. Tablets e e-readers não são competidores, pelo menos não para os leitores, e são estes que estranhamente gastam dinheiro em livros, e a desproporção é avassaladora, o leitor lê vinte a trinta vezes mais que o não leitor possuidor de tablets, compra vinte a trinta vezes mais livros. E-readers são mais longevos, não precisam ser trocados todo ano por conta do sistema operacional novo, quem tem os primeiros Sonys ainda os usa para ler, sem necessidade de comprar novos aparelhos. Muita gente já tem um e-reader e não vê necessidade de um novo. A Vizplex, única produtora de telas e-ink viáveis cresceu muito, o fato de parar de crescer não significa que vai desaparecer, a indústria automotiva no mundo parou de crescer, os carros vão desaparecer? Os mesmos analistas de mercado diziam que o ipad iria ser um fracasso... são pessoas confiáveis, eu sempre disse que se o ipad coubesse dentro do bolso do consumidor, seria um sucesso, só para aferir a credibilidade dos jumenthomens analistas que são citados na matéria.

Vamos parar de ser complacentes com este tipo de imbecilidade, quem gosta de pregar o sumiço dos e-readers são os jumentos ignorantes que não conseguem ver a diferença entre os dois aparelhos, por um simples motivo: não lêem, e pior, ficam melindrados por quem o faz e ainda gosta, diverte-se e recomenda.

Alex

14 comentários:

  1. Excelente artigo Alex, concordo plenamente. Olha que já tentei ler no meu tablet mais impossível, o e-reader é muito superior para quem quer ler por horas a fio. Não entendo porque tem pessoas que não gostam do e-reader e teimam a falar mal dele. Nós que amamos o e-reader e sabemos o quanto ele é importante em nossas vidas sabemos como faz mal ler este tipo de notícia.
    Vida longa ao e-reader, porque quem realmente gosta de ler não troca ele por um tablet.

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    1. Oi Marta,

      Você tocou no ponto nevrálgico, e-reader é para “quem realmente gosta de ler”. Por isso esta campanha dos possuidores de tablet que não gostam de ler. É exatamente isso, não dá para ler no tablet, não tem a mesma concentração a mesma imersão. É a diferença entre saborear uma deliciosa Tarte Tatin e lamber o papel da propaganda.

      Abraço,
      Alex

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    2. aff... que matéria mais imbecil essa da Folha....

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  2. Esse tipo de picuinha é tão sem sentido...Sem contar que qualquer um vê que, para quem realmente gosta de ler, o e-reader é com certeza a melhor opção. Eu trabalho com/estudo tradução, e tenho que deixar o brilho do meu monitor no mínimo para não ficar com os olhos lacrimejando de tanto arder no final do dia! Tela com brilho não serve para quem lê bastante.

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    1. Kino,

      Exatamente, é absolutamente sem sentido, pois é óbvia a diferença abissal entre ler em e-ink e LED ou LCD. Também acreditava o único problema ser o tempo e o cansaço visual, mas, pegue um conto curto mas complexo, tipo um Faulkner, você não vai conseguir o mesmo nível de concentração/imersão no tablet.

      Abraço,
      Alex

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  3. A questão taí: O tablet faz o jogo da indústria. O e-reader não. Daí ficam forçando a barra para usarmos o tablet para leitura de livros. Quem sabe daqui a alguns anos com uma e-ink colorida, retroiluminada e boa pra vídeo acabe esta aporrinhação.

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    1. Alex Carlyle,

      Vai demorar muito tempo para o e-ink colorido chegar no mesmo ponto de conforto do e-ink preto e branco, ainda vou fazer um post sobre o assunto, com todos os aspectos técnicos esmiuçados, a maior diferença está entre RGB e CMYK, alongo-me depois em um post próprio.

      Abraço,
      Alex

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  4. Olha só... O primeiro comentário ali no artigo da Folha é meu, e vai ao encontro do que você escreveu, com muito mais propriedade, aqui. E recebi 4 "joinhas"!

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    1. Oi Rodrigo,

      Não somos só nós que vemos quanta bobagem há no artigo da folha, já deparei-me com os ignorantes, mas fiquei encafifado, há algo mais na estória, acho que descobri o motivo desta campanha de difamação, mas vou fazer um post específico para o tema, por agora, deixo a dúvida e convido os leitores a opinarem qual seria o motivo desta campanha de difamação contra a verdade objetiva e insofismável do e-ink ser muitíssimo melhor para ler que o tablet.

      Abraço,
      Alex

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  5. Fábio Iglesias Gagliano,

    Acho que nosso modo de pensar é parecido pois ambos temos e-reader e é muito fácil ver o quão melhor para leitura é o e-ink, aliás, não é só melhor, o tablet é limitante para leituras mais complexas, mesmo eu, leitor experiente, não consigo bom nível de concentração se o texto é mais abstruso, tipo Guimarães ou Faulkner. Tenho um pouco de pena das pessoas que macaqueiam o que ouvem sem pensar, sem passar pelo próprio critério; infelizmente quem o faz sem pensar adota o argumento do texto e renuncia ao próprio pensamento e não tem condições de argumento, infelizmente prática comum no jornalismo, se alguém diz que dois e dois é cinco, você afirma que é cinco mesmo, sem usar o próprio senso e ver que é uma mentira deslavada. Só assim o óbvio passa a ser questionável e obscuro, por falta de cérebro.

    Abraço,
    Alex

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Eu concordo com você Alex.

    Meu Kindle Keyboard passou dessa para melhor faz um mês, o que me obrigou imediatamente a comprar três livros para dar conta da crise de abstinência. Como Kindle, nos 18 meses com que estive com ele, li literalmente um livro após o outro, vários deles comprados no dia exato de seus lançamentos nos EUA, coisa impensável antes de possuir um e-reader.

    Ao voltar para o papel, me deparei com o primeiro problema: O peso do livro. Segundo problema, não dá pra levar esse livro pesado e volumoso de 500 páginas para todo lugar, como eu fazia com o Kindle. Com ele, qualquer fila 5 minutos em uma fila era 5min de leitura. De volta ao livro de papel, meu tempo de leitura agora está reduzido, e o primeiro dos três livros, que no Kindle com certeza eu já teria terminado de ler, ainda está na metade. Isso sem falar nas pequenas vantagens do livro eletrônico sobre o de papel: dicionário, controle sobre o tamanho da fonte, etc.

    Agora vamos aos Tablets... Eu sou daqueles leitores que dedicam 2 horas ou mais do dia para a leitura. Eu eu usasse o tablet para ler, eu praticamente teria que recarregá-lo todo santo dia. Porque eu não o usaria apenas para ler. O tablet que tenho é de 10 polegadas. Imenso, e horrível para ler, porque para ler nele eu preciso de uma boa iluminação, muito mais luz do que eu precisava no Kindle... caso contrário, a bateria dele vai-se em questão de horas. Aí vem o problema da leitura em si. Ler no Tablet para mim é igual ler na tela do computador, e olha que na tela do PC a resolução é HD. No tablet não. Ler no tablet ou no monitor pra mim é a mesma coisa, cansa minha vista e é desconfortável. Por falar em conforto, os tablets são tão pesados quanto os livros de papel, além de serem muito mais desconfortáveis de se manusear. Qualquer um que já passou meia hora lendo em um ereader e meia hora lendo em um tablet de 10 polegadas sabe bem a diferença. Os que proclamam o fim dos ereaders, como você disse, nunca fizeram o teste prático, apenas repetem como autônomos sem cérebro o que os outros falam.

    Eu acho que os ereaders não vão acabar. Eles vão evoluir, ou os tablets evoluirão para algo que justifique extinção. No momento, isso está muito longe de acontecer, e os leitores, aqueles que realmente gostam de ler, jamais trocarão um pelo outro só porque o "mercado" quer.

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    1. Mobile boa colocação tua também, por isso que é importante ter sempre mais de um e-reader caso um quebre tem outro, porque não me vejo voltando aos livros depois que me acostumei com o e-reader. Como você bem disse o conforto, praticidade, dicionário e poder comprar um livro já no lançamento são coisas antes não imaginadas por nós. Espero que possa adquirir um outro kindle ou outro e-reader logo. E volte a sua leitura como antes.

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    2. Concordo com ambos, e como a Marta disse, tenho dois e-readers, ficava em pânico só em pensar do meu Sony pifar ou ser roubado, tal modo tornei-me dependente do aparelho e seu conforto para leitura; assim, tenho também um kindle que permite-me além do backup, fazer compras na Amazon, diversificando minha possibilidade de encontrar livros. Ficar sem e-reader e retornar ao papel seria um atraso, além do mais tenho aproveitado muito títulos em domínio público de obras de filosofia, que antes eram caríssimas no papel e acabavam ficando sempre para depois. Leio muito mais com o e-reader, é inegável, por conta da praticidade e do conforto. Antes adorava perder-me nas imensas filas de prateleiras de Londres, hoje gasto meu tempo lendo, que é a real razão de embrenhar-me nas livrarias. Não tem como ler no tablet, ele não substitui o e-reader nem em emergência, é comparar um T- bone do Sujinho da Consolação com um sanduichinho xexelento do macdonalds, não tem comparação possível.

      Abraço,
      Alex

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