quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Mais e melhores livros.

Aumentar Letra Diminuir Letra



A maioria do debate sobre o livro eletrônico acontece com base nos países onde ele já existe e é realidade, locais onde o aparelho e-reader é fácil de ser encontrado e o preço está compatível com o bolso do consumidor. Os EUA é a principal referência mundial, mas cada local tem realidades literárias distintas, independente de já possuírem ou não o suporte do ebook. Uma das grandes celeumas é o acesso facilitado que qualquer pessoa hoje tem para publicar seu livro no formato eletrônico, uma vez que custa uma fração do que custava imprimir cópias em papel. Mesmo custando caro, o autor que se auto-publicava, contava com um preconceito, era um rejeitado, publicou independente pois não teve capacidade de ser selecionado por uma editora, e assim, a única maneira de seu livro ver a luz, foi reunir um dinheirinho suado e bancar a impressão de dois mil exemplares do próprio bolso, que sem estrutura de divulgação e distribuição, acabavam quase que invariavelmente encalhados e tomando um dos cômodos da casa do pretenso autor. As editoras estabelecidas, de posse de capital e uma máquina de divulgação e distribuição, monopolizavam os livros que chegariam aos olhos do público, faziam o papel de porteiro, permitindo aos escritores serem autores, ou fechando a porta e barrando-lhes o acesso. Em teoria esta estrutura garantiria a qualidade do material impresso, mas isso nada mais é que uma grande e gorda mentira, e quem se mantém corrente com o que é publicado pelas editoras tradicionais, sabe que muito lixo sai das máquinas.

Uma coisa é realidade, dentro das máquinas das editoras existe o processo de polimento do livro; depois de aceito, o manuscrito inicial passa por gente que vai corrigir desde inconsistências a erros gramaticais, e tentar garantir uma diagramação que dê ao livro um aspecto profissional de produto acabado. Mas esta produtificação é tudo que as editoras podem fazer, e o que mais aparece nos livros auto-publicados. Está cheio de gente por aí que além de não saber escrever, não tem a decência de passar um corretor ortográfico automático, e sem a menor noção, editam ebooks cheios de erros, mal diagramados além de mal escritos. Este verniz final que é aplicado pelas editoras é a falha mais fácil de ver, uma vez que identificar um bom texto já exige uma erudição invulgar, e assim vemos coisas que não veríamos, pois passavam pela máquina das editoras, temos a dura sensação da vergonha alheia: como alguém pode ser tão cego a ponto de publicar tal porcaria e ainda assinar?

Os apocalípticos tendem a culpar este cascalho bruto, que antes ficava nas peneiras das editoras, pelo fim do livro, da literatura ou da arte escrita, e nada poderia ser mais falso, tal cascalho sempre existiu, mas não chegava aos olhos do público, e o que chegava, recebia um polimento e um perfuminho para que o lixo não fedesse assim, de maneira tão ofensiva. Esta enxurrada de livros imprestáveis dificultaria ao leitor encontrar o que vale, nivelando por baixo a literatura, esta aí outra afirmação estúpida, vamos pensar: você quer comprar um livro, visita a livraria ou o catálogo da Amazon, quantos livros lá existem? Muitos! Não terá que fazer uma seleção? Óbvio que sim, de tudo que existe, em sua grande maioria, são livros que não quero ler, tenho que achar os que são do meu gosto, poucos dentro do mar que já é publicado. O aumento do universo de procura não diminui minhas chances de encontrar o que ler, mas o aumento da diversidade acrescenta. Assim, perto da imensidão de livros que já existem e não me interessam, o cascalho torna-se irrelevante, mas o aumento da diversidade é importante, permite que coisas que antes estariam invariavelmente fora do meu alcance, fiquem disponíveis, façam parte da minha escolha.

Muitos autores alegam que sem as editoras será difícil ter autores profissionais, que ganham o suficiente para dedicar-se exclusivamente ao ofício de escrever, uma vez que são as editoras que os financiam, está aí outra das mentiras, e para isto vamos usar novamente o velho pensamento lógico: Como funciona o atual processo editorial? Uma editora investe em vários livros e dentre eles alguns vão vender muito, os “bestsellers”, uma parte vende mais ou menos e outros ainda nem se pagam. Na média a editora tem lucro e os mais vendidos pagam os prejuízos. Desta maneira, são esses autores que não são os mais vendidos, mas têm capacidade de gerar lucro que saem perdendo, os chamados “midlist”, ameaçados de desaparecer sem o financiamento das editoras. Mesmo nos EUA onde um escritor ganha muito mais do percentual do livro que aqui, a parte do valor que vai para o autor é ínfima, ficando a maior parte com editores, livreiros, gráficas e fábricas de papel. O autor “midlist” tem que custear todo este peso morto consigo, uma vez que não é beneficiado pelas ações de promoção da editora que concentra os esforços nos “topsellers”, ele fica exclusivamente com sua base conquistada de leitores. Pode ser confortável para certos autores terem toda uma estrutura que lhe paga pouco, mas garante que ele só preocupe-se em escrever, e deixe todo o resto do processo editorial para profissionais, mas isto vem a custo, que poderia render mais ganhos se o autor tomasse certos afazeres em sua mão, ficando com uma renda maior e até contratando ele mesmo profissionais para fazerem o que a editora fazia, uma vez que já está tudo embutido no preço de seus livros. A percentagem do autor auto-publicado, pode ser estratosfericamente maior sem toda esta gordura, e assim, além de ganhar mais pode vender seus livros a preços menores, o que lhe garante mais competição.

Deve-se notar que estes autores “sustentados” pelas editoras são uma minoria e existe uma maioria de autores que foi publicada, não foram bem divulgados, os livros perderam sua janela de venda, e hoje estão em algum depósito de encalhe que não rende um centavo para o autor, que não tem nem o direito de vender seus livros, preso ao contrato com a editora, esses enjaulados são grande quantidade, esquecidos, largados na sarjeta, estariam melhor se puderem vender seus livros o ano inteiro independentes da janela de oportunidade das livrarias de três meses. E não estou nem falando dos livros fora de impressão, que ainda poderiam render para o autor, mas encontram-se travados pelos contratos, longe dos olhos do público. Quantas vezes você já quis um livro para descobrir que o mesmo estava “out of print”? Ebooks não ficam fora de impressão, sempre geram renda para o autor e prazer ao leitor.

Muito da literatura veio a ser pelo formato a ela destinado, o espaço disponível para os textos; foi com os folhetins que a forma conto ou novela serializada ganhou existência, pelo espaço disponível, antes inexistente. O e-reader não impõe um formato, mas nosso costume, assim, textos minúsculos, sem valor de mercado fora de coletâneas, podem ser vendidos a centavos e ainda gerar lucro para o autor e prazer para o leitor, é só viabilizar um sistema de pagamento que não seja mais caro que o livro em si. Assim como livros muito grandes, caros por consumir muito papel, ficam viáveis no e-reader.

Literatura é antes de mais nada diversidade, não existe um livro bom para todos, mas aquele que você gosta, e assim como temos personalidades diferentes, gostamos de ler coisas diferentes. A multiplicidade de escolhas possibilitada pelo e-reader e a auto-publicação só vem a bem da literatura, mesmo com a enorme quantidade de porcaria sem noção que possa ser publicada, todo este cascalho permite que venham a público as jóias escondidas, sempre é bom lembrar que a maioria dos grandes livros foi muito mais rejeitado do que aceito, e o ebook com a estrutura do e-reader vem levantar o debate e glorificar a literatura, tirando o livro deste papel imundo de produto de mercado para ser algo mais que um veículo de movimentação de capital.

Alex

Nenhum comentário:

Postar um comentário