terça-feira, 30 de outubro de 2012

Vamos Falar de Preços?

Aumentar Letra Diminuir Letra


A notícia quente da última semana foi que a Apple iniciou a venda de livros nacionais. O preço em dólar é só para dar a pitada de coisa fina, “chique no último”.

O que me deixaria verdadeiramente feliz é encontrar alguns títulos específicos no bom e velho português.

Se eu quiser ler os “cinquenta tons” consigo encontra-los em qualquer lugar, nos megaportais ou nas biroscas digitais.

Já se eu quiser ler “Quem Pensa Enriquece”, ou “Agassi” ou “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, só no bom, velho e pesado papel. Estes são apenas exemplos.

Já desejei muito ler estes livros digitalmente. Não consegui. A oferta de livros em PT-BR ainda é pequena, mas como tudo, isso aos poucos também vai mudar.

Assim como os preços.

Vamos falar de preços. Recentemente ouvimos que as empresas nacionais estão morrendo de medo da Amazon e da sua política de preços agressiva.

Para as empresas nacionais o Lucro Brasil é como um membro da família, e como tal, precisa se manter vivo e saudável.

Qual a minha esperança em relação aos preços? Uma dica, não é a Amazon, é a pirataria!

Calma, não somos a favor da pirataria, este é o discurso. Porém, vamos relembrar fatos ocorridos com a música digital, vulgo MP3, que têm tudo para se repetir agora.

Com a criação do MP3, tornou-se simples para qualquer pessoa fazer uma versão digital de seus CDs e colocar na rede.

Em tal momento o DRM virou piada de tão problemático e confuso. Ninguém queria pagar caro por algo mais complexo que encontrar e baixar a versão “de grátis”. Afinal, o gratuito tocava no CD do carro e no Foston presente de natal.

Então veio um cara visionário e decidiu vender músicas individuais e com preço baixo. Depois vieram as assinaturas. Todos podiam ouvir o acervo do mundo por um preço módico.

Passou a ser mais fácil comprar música legal do que encontrar no meio de milhares de sites de anúncio de viagra e afins.

As pessoas querem comodidade. E aceitam pagar por ela. Quando a Apple parou de colocar DRM em suas músicas, não viu aumentar a pirataria, na verdade quase ninguém se deu conta disso.

O problema e a solução estavam claros. Somente facilidades e preços baixos venderiam músicas que todos poderiam ter gratuitamente na rede (mas não queriam ter o trabalho de encontrar).

Creio que os livros eletrônicos terão o mesmo destino, ainda que vá demorar um pouco mais, pois existe uma pequena peculiaridade neste caso: é muito mais trabalhoso digitalizar um livro do que uma música.

As pessoas não se dão ao trabalho de digitalizar livros,  não da mesma forma que faziam com músicas. Então, em teoria, veremos circulando por ai apenas os livros digitais que forem oficialmente lançados (já que ninguém quer digitalizar manualmente o “Agassi”, por exemplo.

Esta oferta está aumentando, mas os títulos continuam caros.

Agora vem o pulo do gato. Infelizmente para a indústria, o DRM de livros é tão imbecilmente simples de quebrar quanto o DRM de músicas. O processo é indolor e leva microssegundos.

Veja que exemplo simples: algumas pessoas com tempo e vontade criam um grupo com o objetivo de comprar os livros mais solicitados, quebram o DRM e devolvem o livro para a rede, agora de graça. E isso existe ou vai existir, acredite em mim.

Agora coloque isso em escala mundial e pronto. Chegará um momento em que todos os livros estarão na rede de forma gratuita. E qual será a solução para que a indústria não quebre?

Outro visionário (porque o primeiro já morreu) vai ter a brilhante ideia de vender livros baratos, mais que isso, vai converter o livro digital de produto para serviço.

Já pensou? Pague $15 por mês e leia o que conseguir.

Então neste dia o livro digital vai ficar barato. Ou não vai vender. Simples assim.

E quem ganha com isso? Nós os consumidores.

E quem perde com isso? Os sites de anúncios de viagra e afins.

Alex Godoy

10 comentários:

  1. Nos EUA a amazon já oferece um serviço assim, apesar de ter restrições na quantidade de livros "emprestados" ao mesmo tempo.

    Assim como tudo na vida, tudo tem seu tempo. A hora dos livros baratos vai chegar, só torcemos que as plataformas "ebooks" e tablets diminuem os preços rapidamente.

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  2. O preço, creio não é a questão central. Exemplo, ontem recebi uma news da Amazon anunciando um título de uma autora que gosto - versão kindle $13.99/ impresso capa dura $15.95. OU seja, não é que os preços fora do Brasil sejam tão melhores assim, mas o hábito está estabelecido.
    Quanto à partilha de livros sem DRM, já existem sim iniciatvias que estão crescendo e formando verdadeiras bibliotecas partilhadas entre certos grupos, promovendo inclusive compras custeadas pelos membros. O Brasil talvez vá perder o período de tempo em que seria possível ganhar dinheiro vendendo e-books... em breve fora daqui outras formas de lucrar com a circulação de e-books tomarão mais vulto (como as famigeradas propagandas, por exemplo, mas não só...).

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  3. Verdade Maurem.

    O preço lá fora é mais compatível e lógico do que aqui, creio eu, por dois motivos:
    Primeiro, a versão digital é mais barata que a impressa, o que é lógico. Aqui muitas vezes é o inverso.
    Segundo, $13.99 é mais acessível a um americano do que R$30 a um brasileiro. Questão de renda per capita.

    O DRM sempre foi piada ao meu ver. É simples de ser quebrado e por isso mesmo só chateia quem busca viver na legalidade.

    Já existem (como disse o amigo Ronildo) iniciativas de serviços voltados à leitura digital, como o Amazon Prime. Mas a impressão que passa é que ainda não surgiram grandes iniciativas neste mercado, ao contrário do que acontece com a música digital.

    Abs.

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  4. Sou um acadêmico e portanto sou um leitor por profissão. O que o mercado editorial não percebeu é que existe uma enormidade de leitores por obrigação que estão substituindo o xerox pelo pdf. Falo dos estudantes universitários.
    Comparar mp3
    e livros digitais é interessante, é preciso reconhecer uma mudança fundamental que ocorreu no mercado da música digital. Na música pré-mp3 o produto colocado à venda no mundo físico era o "álbum", um conjunto de obras reunidas por diversos motivos: convenção artística, gênero musical, público, classe social etc.
    No mundo do livro ninguém pensa em vender capítulos, o correspondente da fração que o mp3 representa. Tenho um kindle e diversas deixei de fazer compras por que só me interessava uma fração do livro, principalmente em livro de autoria coletiva que está se tornando cada vez mais comum.
    Também preferiria 1000 vezes comprar um capítulo a preço justo dos Leitores de Machado de Assis, do que ter esse mesmo troço em xerox ou pdf. Alías, só depois de abandonar a vida e o orçamento de estudante é que estou conseguindo aos poucos acabar com minha biblioteca xerográfica.
    O número de úniversidades e portanto, o dos leitores por obrigação, os estudantes não parece que está diminuindo. Será que ninguém vê isso ou eu estou viando na maionese?

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  5. Sou um acadêmico e portanto sou um leitor por profissão. O que o mercado editorial não percebeu é que existe uma enormidade de leitores por obrigação que estão substituindo o xerox pelo pdf. Falo dos estudantes universitários.
    Comparar mp3
    e livros digitais é interessante, é preciso reconhecer uma mudança fundamental que ocorreu no mercado da música digital. Na música pré-mp3 o produto colocado à venda no mundo físico era o "álbum", um conjunto de obras reunidas por diversos motivos: convenção artística, gênero musical, público, classe social etc.
    No mundo do livro ninguém pensa em vender capítulos, o correspondente da fração que o mp3 representa. Tenho um kindle e diversas deixei de fazer compras por que só me interessava uma fração do livro, principalmente em livro de autoria coletiva que está se tornando cada vez mais comum.
    Também preferiria 1000 vezes comprar um capítulo a preço justo dos Leitores de Machado de Assis, do que ter esse mesmo troço em xerox ou pdf. Alías, só depois de abandonar a vida e o orçamento de estudante é que estou conseguindo aos poucos acabar com minha biblioteca xerográfica.
    O número de úniversidades e portanto, o dos leitores por obrigação, os estudantes não parece que está diminuindo. Será que ninguém vê isso ou eu estou viando na maionese?

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  6. Acho que existem alguns "entusiastas" da "divulgação" de cultura que também apostam em livros menos mainstream (o processo de digitalização parece ser bem simples com um bom scanner de mão e um software OCR - tenho um para copiar documentos no trabalho, mas nunca testei em livros), embora o problema seja a revisão.

    Inclusive vem a questão: quando baixamos o texto de um livro que temos a versão física, legalmente não deixa de ser pirataria, mas moralmente é? Já não pagamos o preço, temos que pagar de novo para ler em um dispositivo mais leve?

    Eu tenho O Guia do Mochileiro das Galáxias, e acabei lendo a versão pirata (nesse ponto, volto para o problema de erros na digitalização OCR: bem frequentes e desconfio que a falta de páginas deve ser constante), nesse ponto não me sinto 'culpado'.

    O preço do e-book não é nada convidativo. Pior: são constantes as promoções do varejo nacional, ansioso em desovar estoques de livros para a próxima safra, alguns títulos chegam a custar a metade da versão digital. Ou seja: gastam (ou forçam o cliente a gastar) com frete, carreto, tem despesas de estoque para os livros impressos, mas não baixam o preço dos e-books! Ainda não entendo essa lógica do varejo aqui...

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  7. Pois é Paulo, livro digital não ocupa espaço, não pesa, não envelhece em depósito.

    Fernando Binder, muito bem lembrado. Fiquei pensando se existiria um mercado para a venda de capítulos de livros, se seria de alguma forma lucrativo para as empresas. Acho que infelizmente não, parece um nicho muito específico.

    De qualquer forma, já inventaram o desconto educacional, justamente para facilitar um pouco a vida do estudante, mas é pena que as empresas não utilizam este recurso de forma séria. 10% (geralmente o valor de desconto em loja física para estudante) não é desconto educacional, é marketing, na minha opinião.

    Abs.

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  8. Infelizmente as empresas aqui no Brasil só pensam no lucro fácil. Quase todas esperam recuperar o dinheiro investido no menor tempo possível, e isso se reflete também no mercado editorial.

    Isso me faz pensar algo: Qual seria o preço justo de um livro impresso aqui no Brasil?

    E sobre os e-books? Qual seria a margem mínima justa aqui no Brasil? Seria 10 reais para livros autopublicados e 25 reais para os demais? Ou 8 e 20, se seguíssemos a cotação do dólar?

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  9. Alex Godoy,
    De fato, as editoras devem estar preocupadas com os tais 20% dos títulos que correspondem a 80% do faturamento.
    Ainda continuando com a comparação com o mp3 a ídeia do DRM parece ser realmente estúpida.
    o mercado leitor jamais chegará perto do mercado "ouvidor", o que impede o famoso ganho em escala e que permite vender um música a "dois real" e alguém sair com um catatau de dinheiro nos bolsos.
    Ora, se já não dá pra vender pra chuchu, fracionar o mercado me parece ainda ídeia ainda pior.
    O que me parece portanto é que o DRM é uma forma de proteção que editoras e livreiros usam para se protejer um dos outros.
    Será que seria possível uma ação nos mesmos moldes daquele contras as operadoras celulares que bloqueavam o aparelho?

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  10. Fernando, perfeita colocação.

    Você fez uma analogia interessante. A resposta estaria em tese na Lei. E como sou advogado, não posso opinar muita coisa pois Direito do Consumidor não é da minha área de conhecimento.

    Mas divagando um pouquinho, podemos perguntar se o livro digital que comprei passa a ser "meu" ou se eu tenho apenas uma licença de uso dele. Confesso que não sei.

    Da mesma forma temos os DVDs de filmes e shows, estes possuem bloqueio contra cópias.

    Olhando por este lado, acho que a proibição de bloqueios de celulares são na verdade a exceção da regra estabelecida.

    Quanto ao DRM, penso que as empresas estÃo passando por um ciclo de amadurecimento igual ocorreu com o MP3. Veja, chegou um ponto em que o MP3 estava tão difundido que não fazia mais diferença a preocupação com o DRM. A Apple não iria segurar seus clientes por causa do DRM. Então ela deixou de se preocupar com isso e continuou preocupando-se com o que realmente importa, qualidade e preço.

    Hoje as empresas protegem seus livros com DRM da mesma forma que fizeram com o MP3. Mas isso por si só não vai garantir nenhuma exclusividade em breve. Veja a Amazon que estuda a tempos adotar o EPUB por medo de perder mercado.

    E como eu disse antes, só quem perde é o consumidor que não pode ler o que desejar onde desejar.

    Se o ato de comprar e ler um livro for mais trabalhoso do que conseguir sua cópia alternativa, eu definitivamente sei qual caminho tomarei.

    Abraços.

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