quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Que morra o autor! Sobrevivem os livros.

Aumentar Letra Diminuir Letra




Comecei a escrever este texto como uma resposta ao post da Maurem: “Das obrigações do autor moderno”, mas acabei estendendo considerações e pensamentos e resolvi colocar como um novo post, gerado pelos questionamentos iniciados pela Maurem, e complementados pelos meus pensamentos no assunto, assim, para entender este texto é necessário ler o anterior e as referências que ela posta.

A minha primeira consideração tem congruência não com o autor moderno, mas com as tecnologias que desnudam práticas antigas que não eram colocadas em questão, ou seja: a dicotomia entre escrever e divulgar. Ao escritor independente que pretende existir dos víveres auferidos de sua escrita, não resta escolha, deve fazer papel de divulgador de sua obra, mas a obra em si não é a própria divulgação de suas idéias ou habilidade de envolver o leitor na trama de uma estória? O que seria esta divulgação independente do conteúdo do livro? Não seria de certo modo um comportamento esquizofrênico? O que o autor quer dizer já está grafado nas páginas do livro, o que mais a narrar? Justificar sua escrita? Ou mistificar um conteúdo que não reflete o trabalho?

Estas questões se afiguram hoje, pois no passado, os papéis estavam definidos sem possibilidade de discussão, autor escreve, editora propagandeia e vende. Entidades diferentes para processos diferentes, mas em realidade leitura é esta relação escritor leitor, nada mais, só aí há verdade; tem mais, leitor não se relaciona com autor e sim com livro, assim, livro independe do autor. O autor perto do livro representa um pelo de rabo de rato, um nada, não é ele que interage, mas sim o livro; o autor morre o livro ainda vive, por isso digo: que morram os autores, mas que deixem os livros!

Não que escritor seja dispensável, afinal, sem ele o livro não existiria, mas quando o livro é bom tem vida independente, é ele que relaciona-se com o leitor, é ele mais longevo, é  nesta relação que reside a literatura. Quem é hoje Sidney Sheldon? E Coelho neto? Sustentar um escritor nada tem em comum com a longevidade da obra, é a exposição e acessibilidade para aquisição de um livro que o faz rentável, popular e capaz de sustentar um autor. “Bestsellers” em sua maioria vendem muito por estarem disponíveis em todos supermercados, farmácias, bancas de jornais e em todos os lugares que o possível leitor direcionar o olho. Antes esta necessidade de “atenção” não era tão ofensiva, mas com milhares de autores competindo pela mesma “atenção”, o leitor fica saturado, irritado com a insistência. A maioria quer apenas vender livros sem importar se o mesmo é do seu agrado ou minimamente bem executado, incluam aí autores, editores e críticos profissionais. Desta maneira geram valores paralelos que nada tem em comum com o conteúdo do livro em si, que é o que deveria contar. Isto acontece em todos locais, você compra um tomate grande e bem vermelho, perfeito, mas tem gosto de plástico, é ele que vende, em detrimento do pequeno, não tão bonito, mas de paladar incomparável. Afinal, você só vai comer depois de comprar, só vai ler depois de pagar. E quantos tem paladar ou gosto literário para notar a diferença?

Em seu texto a Maurem cita um artigo de Cássio Pantaleone sobre literatura em tempos digitais, onde ele traça um incrível aumento de textos produzidos e que talvez estes, com suas inutilidades, erros e desprezo pelo desenvolvimento do ofício do escritor, estariam a corroer a literatura. Acredito que exista aí uma grande confusão, o que se vê na internet não é literatura, é apenas a transfiguração da linguagem falada, como se todas as ligações telefônicas e conversas de bar ganhassem publicidade, e é isto que ocorre, não é literatura, apenas linguagem falada, com a mesma relação que existia antes entre escrever e falar. Não é novo, já existia, não era visível. Influencia no ponto aonde trás à tona questões antes escondidas, questões que já vem do primário: a diferença entre linguagem escrita e falada.

Escrever, o ofício do escritor, não é aquilo que se faz em mensagens de texto que imitam a fala; escrever bem é antes de tudo pensar o texto, elaborar e organizar palavras em diferentes níveis e significados, mas devemos ter cuidado, existe um clichê de “fazer literário” que ganhou popularidade depois de decretarem morte ao enredo; restou apenas esta literatura “mondronga” formulando que a inovação é tudo, desprezando o que já se escreveu, literatura inculta e bastarda travestida com estereótipo de erudição. Ouse desenvolver um enredo e os donos do “fazer literário” vão lhe tachar: romanesco!

Gosto de ser otimista, não do tipo bobo alegre sem críticas, mas ver o que podemos fazer de bom com o que temos, é uma postura pessoal, que às vezes é deliciosamente irritante aos pessimistas e niilistas de plantão. Acredito que o acesso indiscriminado à leitura, seja ela qual for, é um ganho, já comparei aqui o acesso aos livros com o skate; o aceso ao equipamento e informação só fez bem ao esporte, o mesmo acredito para o livro. É na peça tecnológica chamada leitor com e-ink que consegui o mesmo ou melhor nível de conforto que no livro de papel. Talvez pelo meu hábito ter-se formado sobre páginas de livro, só encontro conforto e concentração na tela e-ink, o tablet com seu LCD não me permite conforto para literatura, dá para ler mail, artigos de revista, mas literatura não.

Se o leitor tiver em mãos um aparelho e-ink, todo um ecossistema diferente de divulgação e distribuição de literatura passa a ter realidade. Ao autor é facilitado o acesso ao leitor, a todos os autores, bons ou maus, a decisão é do leitor. Se antes a pilha de cascalho era exclusiva do editor ou seus subordinados, agora ela está à disposição do leitor, mas quem quer chafurdar no lixo, perdendo tempo precioso de leitura para encontrar o que presta? Há de se formar um sistema de confiança, do mesmo modo que prezo a recomendação de amigos, devo ter confiança em quem me indicará livros e isto é uma via de duas mãos, existem livros que meus amigos gostam que eu não gosto, conversamos sobre o assunto, é uma relação honesta; imagine agora que alguém usando desta confiança indique um livro que não gostou, com finalidade comercial, em duas ou três indicações ruins a confiança se esvai, e não há nem como justificar, pois a fonte da indicação foi apenas uma relação comercial. Ruim? É isto que ocorre atualmente com as indicações “profissionais”.

Ouvi falar de um tal de Tolkien lá por 84, não era um livro fácil de encontrar, a edição brasileira estava esgotada e era impossível achar a obra completa, originalmente em três volumes foi dividida em seis. Nem sabia quem era o tal Tolkien e nem descobri ao finalizar seus livros; paguei peso de ouro em uma edição portuguesa da Europa-América. Minha relação foi com o livro, não me interessa quem é o autor apenas sua obra, seu nome serve somente como referência para encontrar outros livros bons. O autor já era morto, não havia propaganda do livro, a edição brasileira deixou de existir, mas era na boca dos leitores que “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis” sobreviviam, é este o livro imortal.

O que o escritor tinha a dizer estava no livro, e mesmo depois da morte do autor, o livro sobreviveu e pôde traçar relação com leitores que nunca viveram no tempo de vida do progenitor.

Não há de negar que há relação direta entre venda e popularidade com exposição, mas esta nada tem em comum com o livro em si, muitas vezes o livro supera o autor, Conan Doyle assassinou Sherlock Holmes, teve de ressuscitá-lo. Gosto de Harry Potter e acho que é um livro que sobreviverá ao tempo, sendo lido pelas novas gerações, mas não digo o mesmo da autora e sua tentativa de contemplar o mundo literário.  Moby Dick tornou-se maior que as obras subseqüentes de Melville e até Tolstoi ficou pequeno frente a “Guerra e Paz”, autores são estes seres inconstantes, mortais, sujeitos aos dissabores da vida, livros independentes são imortais.

O que me incomoda neste “autor moderno” é que o livro dependa de sua “performance”, quando acho que o livro de verdade deve ter vida em si.

Alex

Um comentário: