domingo, 16 de setembro de 2012

Texto e suporte de leitura – implicações da tecnologia (errada)

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Dentre as críticas ao livro eletrônico, abstraindo o apego emocional dos bibliófilos (grupo no qual também me enquadro, embora de modo um tanto flexível), algumas podem ser pertinentes quando o suporte adequado para leitura não está disponível.  
Antes de prosseguir, permitam-me delinear o foco de análise (ou mero palpite pessoal): trato o e-book sob a perspectiva do leitor de literatura, pois não costumo adquirir e-books na área técnica.
 Já abordei alguns aspectos do imenso volume de textos ficcionais e sua qualidade em excessos na web, mas uma troca de mails com Marcelo Spalding trouxe à tona uma questão que já havia discutido com os demais colaboradores do EbookBR, e agora procuro observar e discutir por outros ângulos: a tela do computador (e, na minha opinião, tablets ficam quase na mesma categoria), especialmente no ambiente da web, é completamente inadequada para uma leitura efetiva do texto ficcional (a leitura de um arquivo de texto, mesmo no formato word, ou PDF,  ainda é melhor que a janela do navegador; e se falamos de um formato ePub ou iBook, a coisa melhora um tantinho mais), especialmente se o texto em pauta foge um milímetro que seja das fórmulas óbvias tão em voga no mercado editorial “pop” (refiro-me aqui à enxurrada de vampiros e similares com enredo repetido à exaustão mas com volumes de venda respeitáveis).
A inadequação tem a ver com conforto de leitura (tela e-ink e papel são incomparáveis com telas LCD ou qualquer outra que emita luz), com a condição de concentração e a disputa com outras leituras e afazeres quando nos encontramos diante do navegador. Leitura, ainda que seja um entretenimento, só cumpre seu papel (mesmo que o papel seja diversão) quando é possível concentração total no ato de ler. Estar presente no texto, envolvido realmente com seu conteúdo (isso, claro, quando o escritor logrou êxito e produziu um texto capaz de conquistar o leitor). Mas isso já são favas contadas, muito já foi discutido a respeito nos debates sobre o espaço ocupado por e-readers x tablets e a questão que gostaria de colocar em pauta é uma outra faceta neste contexto.
Todos os que acreditamos no valor da literatura como formadora de senso crítico, capacidade analítica, cidadãos mais capazes e com uma visão de mundo mais amplo costumamos lamentar os dados sobre hábitos de leitura do brasileiro. Há aqueles que chegam a debitar parte do problema ao uso crescente da internet, das redes sociais e toda a gama de atrativos que atua especialmente junto ao público jovem (potenciais leitores?). Creio que todos concordamos que o fator preço dos livros também funciona como um desestímulo poderoso e um antídoto possível para o alto custo bem poderia ser o acesso à literatura pela via da internet, mas aí vem a pergunta: será que a baixa qualidade de leitura que o processo online propicia não contribui catastroficamente para a manter esse cenário de pseudo-leitores que temos por aqui? Perdoem se me intrometo em seara que não domino, pois trago percepções, sem base em pesquisas sobre o processo da leitura considerando aspectos cognitivos, neurológicos ou o que seja. O olhar é empírico e convicto: a concentração é sempre parcial para a leitura no navegador. E atenção parcial equivale à compreensão reduzida e, portanto, grandes perdas no efeito modificador-construtivo da experiência de leitura.
Assim, fico imaginando como não faria diferença se o Brasil não estivesse tão para trás em questões a oferta e custo de e-readers (refiro-me a telas e-ink, não a tablets que repetem os potenciais de dispersão do computador, embora também possam cumprir função razoável para leitura). O catálogo de e-books em português ainda está muito aquém do mínimo aceitável, mas isso tem forte correlação com a falta de e-readers. Claro que se o preço do livro impresso fosse mais compatível com a renda do brasileiro, isso seria um problema menor, mas como o e-book tem um inegável potencial de reduzir custos na distribuição de conteúdo, ainda assim seria relevante que a população tivesse acesso a um suporte tão adequado à experiência da leitura como o livro impresso. Esperemos que o PLS 114/10 seja aprovado e a taxação ao livro eletrônico se extinga, isso poderá favorecer o acesso à literatura num suporte adequado. Mas não nos concentremos exclusivamente nisso porque o gosto e o ganho com a leitura é produto de um conjunto de ações muitíssimo mais abrangente que começa na atitude do indivíduo para com os seres em formação. 

MK

2 comentários:

  1. Oi Maurem,

    Levantou um ponto interessante, antigamente eram apenas livros, cada volume com um texto diferente, existem horas para um e horas para outros, é por isso que o criado mudo sempre tinha mais que um livro. Existem livros que exigem mais concentração, outros em que a concentração dá maior prazer, por isso ficamos mais envolvidos na estória. Um livro pobre como o “Hunger Games”, pode ser lido enquanto assistimos televisão, o mesmo não ocorre com um Tolkien que perde totalmente o sabor, ou um Faulkner que perde totalmente o sentido.

    Percebi que o problema não é o tamanho, o tempo de leitura, mesmo em um conto curto, a minha qualidade de leitura é muito maior no e-reader, no mesmo local, não consigo o mesmo nível de concentração na tela do tablet. Só consegui ter prazer com literatura digital no e-ink, antes era só em papel.

    Esta percepção é interessante e pode determinar o nível de habilidade de leitura de quem no futuro iniciar no digital. É importante ver isso em detalhe.

    Abraço,
    Alex

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  2. Seu artigo me remeteu imediatamente a um texto que eu considero fundamental, "Ceci tuera cela", que é o capítulo central de "Notre Dame de Paris". É um longo discurso do arcebispo de Paris sobre como o então recém-inventado livro impresso viria a matar a arquitetura como principal ferramenta de comunicação na Europa.

    Por trás das previsões do arcebispo, está a constatação de Victor Hugo de que a técnica determina o discurso. Ou, como diria Marshall MacLuhan algumas décadas depois, o meio é a mensagem.

    Existem aí dois erros muito fáceis de se cometer. Um é de achar que essa "morte" é absoluta. Outro é o de invalidar todo o argumento justamente porque a "morte" não é absoluta. O caminho do meio, penso, é o de buscar um ponto de vista o mais distanciado possível para tentar entender que tipo de mudança o livro digital começa (já?) a trazer à escrita. Talvez ainda seja impossível perceber.

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