quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Skate, Livros e E-readers

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Pelos idos de setenta e sete a turma descia as ladeiras do bairro em elaborados carrinhos de rolimã, cada um tinha o seu, construído segundo a mais precisa engenharia à disposição dos moleques da rua, conceitos inovadores colocados à prova em corridas atrás de corridas, sagrando o design campeão, até que um desafiante surgisse. A matéria prima fundamental para esta indústria do barulho sobre o asfalto era o rolamento velho, descartado pelas mecânicas, preciosidade dos garotos, guardados com todo cuidado, envoltos em jornal e um pouco de graxa, atiçavam os olhares cobiçosos dos outros competidores, era uma verdadeira caça ao tesouro; não era fácil encontrar tais jóias, uma peregrinação diária às mecânicas mais próximas ou enchendo a paciência dos adultos para quando um dia tivessem que trocar seus rolamentos, guardassem os velhos para ganharem nova encarnação nos bólidos barulhentos do asfalto. Eram necessários dois iguais para montar um eixo, assim, guardávamos e trocávamos até ter um par, alguns carrinhos construídos com três rolamentos, os mais rápidos e ágeis nas curvas com dois pares iguais, grandes atrás, menores na frente.

Assim organizava-se a sociedade dos corredores de rolimã, e seus heróis da velocidade, foi descendo a rua conosco que conhecemos aquela pranchinha sobre rodas, só um dos garotos tinha um skate importado, todos queríamos aprender a nos equilibrar e descer a rua em pé, era uma fila, uns doze ou dezesseis garotos revezando-se no skate, competindo lado a lado com as máquinas barulhentas. Não demorou muito e passaram a existir skates brasileiros, muitíssimo inferiores aos importados, sempre comprados em viagens, pelos poucos que tinham o privilégio de viajar para o exterior. Mas o nacional, mesmo caríssimo para um garoto, ás vezes nos chegava pela graça do velhinho do vinte e cinco de dezembro. De mais de dúzia de corredores de rolimã, uma mão deles virou skatista, descendo as ruas em pé, não mais sentados, e aos poucos ouvíamos aqui e lá novos truques para serem feitos com a pranchinha além de descer ruas, trezentos e sessenta, hang tem, e lá estávamos nós tentando os truques em nossas imitações nacionais, caras e ruins.

Nos idos de oitenta e quatro ou cinco, não sei precisar com certeza, o panorama era outro, tínhamos skates nacionais de melhor qualidade, ainda caros e restritivos, os gigantescos para pista, privilégio de poucos, não existiam pistas fáceis por aí, alguns skates um pouco menores para a modalidade street, ainda descendo ruas, mas agora fazendo grinds nas guias, sweep stance e um monte de manobras que a garotada hoje chama de “old school”. Ficamos velhos, o skate hoje se parece com os antigos de freestyle, pequenos, sem frente ou traseira, feitos para andar no flat. Babávamos com as fotos dos aerials feitos nas pistas, mas quem podia andar em uma? Não existiam aos montes, não eram acessíveis, ter um skate já era uma conquista, não era um esporte, considerado apenas uma delinqüência, nos chamavam de drogados, e quem andou de skate de verdade nos points de street sabe que por lá não rolava droga, impossível de misturar com o equilíbrio e concentração para fazer manobras, jeans velhos, armadura contra a aspereza das quedas no asfalto, luva de soldador e nada de moda skate, apenas skatistas andrajosos com a melhor roupa para o esporte, discriminados e ainda dispostos a andar de skate, éramos uma minoria, sem esperança de ver aqui o desenvolvimento que o esporte tinha tomado em solo norte americano.

Foi nesta época que despedi-me do esporte, em vez de passar os fins de semana andando de skate de dia e tocando contra-baixo nas noites com os amigos, passei para as caminhadas, escalas e cavernas.

Não deixo de ter uma ponta de inveja quando vejo um garoto com menos de dez anos fazer um ollie com tremenda facilidade. Dizem que andávamos “pesadão”, old schoolers, sem o tal ollie, manobra básica que mudou o skate. Mas não foi só isso, hoje um skate é relativamente barato perto do que pagávamos antigamente, existem pistas públicas, virou esporte, coisa que na época era inimaginável, e a chave para tudo isso foi o acesso, não há qualquer incentivo especial, foi o barateamento do material que aumentou a popularidade, incentivou a indústria brasileira em busca de qualidade, tem até moda skate para os posers de plantão como tinha a moda surf. Quem naquela época poderia imaginar o avanço que o skate teria no Brasil? De descriminados, boicotados e marginalizados, para uma potência do esporte mundial. Tudo isso por conta de um ingrediente básico, acesso. Um skate não é baratíssimo, mas é acessível, mesmo para garotada de mais baixa renda, e isto gera mais praticantes, e dentre eles alguns muito bons, mas todos podem praticar o esporte independente de suas habilidades, o skate é popular.

De oitenta e cinco para cá o preço do skate diminuiu, o mesmo não ocorreu com os livros, aliás, esta é justamente a data que marca uma significativa elevação do preço. Enquanto o skate tornava-se mais acessível o livro tomava o caminho inverso, não que fosse barato antes, mas passou a ser ainda mais caro. Brasileiros são ases do skate, escumalha das letras, e na educação, que depende da leitura, existe a catástrofe. A maioria não aprende skate na escola, mas aprende ou deveria aprender a ler, o governo não gasta uma porcentagem do PIB com skate, mas gasta com educação, e assim, sem acesso aos livros, a ignorância espalha-se.

Chamavam-me radical por conta do skate, sempre achei o nome esporte radical estúpido, pior ainda se penso em escalada em rocha, mas hoje ser radical é pensar que o acesso ao livro pode mudar este panorama nefasto que temos. Não há radicalismo, é uma conclusão simples, sem acesso a leitura, o item básico, não há todo o resto, não há desenvolvimento. Se alguém discordar que se manifeste, mas acho que o que fez a diferença do skate no Brasil foi simplesmente o acesso. Em oitenta e cinco éramos um bando discriminado, minoritário, quase invisível, hoje somos uma potencia mundial, pois qualquer garoto pode ter a tal pranchinha com rodas; tem os melhores, tem quem só quer andar para divertir-se. Com livros é diferente, não há acesso, não há nada.

Foda-se que a Amazon não vem para o Brasil, nós precisamos de acesso ao aparelho, o e-reader é capaz de baratear e dar acesso à leitura, mesmo que tenhamos que importar, mas se estes imbecis, vigaristas e ignorantes que estão no governo querem bloquear o acesso do brasileiro à leitura, vamos tirar eles de lá, não nos representam, qualquer um que boicote os livros e a educação de maneira tão direta deve ser denunciado! É o PT na figura da Dilma que bloqueia o livro e não quer que a educação prospere no Brasil! Se o skate pôde crescer, a literatura e a educação também podem. O brasileiro é ruim de letras como era de skate, foi o acesso que mudou isso, é a falta de acesso da população aos livros que mantém isso.

Acabem com a raça destes vagabundos que querem um Brasil ignorante, subserviente e medíocre.

Alex

5 comentários:

  1. A mais pura verdade Alex.
    Muitos não alcançam teu raciocínio por ser partidários à situação. Mas das N situações que já passaram o problema do acesso a leitura persiste. E é claro que a culpa é de quem elege, não cobra, reclama e não esquece...
    Um exemplo que vejo são os livros técnicos que consumo. Por aqui, duzentos reais fácil, fácil. Amazon ebook, 10 dollares. O desalento? Fritar os olhos diante do notebook/tablet/pc ao tentar passar 10 (das comuns 400 paginas) de tais edições. A esperança? amazon.com.br?

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    1. Errata:
      ...E é claro que a culpa é de quem elege, não cobra, reclama e esquece...

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    2. Thiago,

      Tendo a discordar de ti, nosso sistema de representação não representa nada, os votos dos candidatos mais votados são irrisórios do ponto de vista de representatividade, e lembre-se que para ter democracia os gregos contratavam pessoas para educar o povo, pois até eles, naquele esboço, sabiam que sem educação não há democracia.

      Infelizmente por este problema, quem usa livros técnicos já lê no computador há muito tempo, os preços dos livros técnicos por aqui são um assalto, justo eles, tão necessários ao crescimento técnico do país.

      Abraço,
      Alex

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    3. Alex,

      Ao dizer "... os votos dos candidatos mais votados são irrisórios do ponto de vista de representatividade ..." tu te refere a pluralidade partidária criada pela cultura do voto no candidato (que elege um representante sem maioria), ou, o fato dos eleitos não representarem os interesses de seus eleitores?
      Pergunto, pois acredito que a nefasta política contemporânea possui ambas as hipóteses.

      Um abraço,
      Thiago.

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    4. Thiago,

      Infelizmente são ambas as hipóteses e ambas inter-relacionadas, não representam ninguém e assim uma minoria que votou não tem poder de fiscalizar. É um circulo vicioso. Não é exatamente o voto no candidato, é ele ir ao parlamento sem votação majoritária, não sabendo e não devendo satisfação a quem representa. Poderia ser resolvido com o voto distrital, pois aí os eleitores vão ficar de olho e próximos ao vencedor do distrito, o sistema atual é hipócrita.

      Abraço,
      Alex

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