quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O escândalo das estrelas na Amazon.

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Quando sentei para escrever este artigo, minha intenção era apenas falar sobre uma coleção que tem me divertido muito nas últimas semanas, a Delphi Classics, são livros em domínio público que reúnem quase tudo escrito por um autor, nos exemplares que peguei, nas partes que li, a diagramação está boa para leitura em e-reader. Óbvio, fui pesquisar sobre a “editora”, me deparo com esta página, falando de reviews falsos postados nos livros. Isto levou-me a discorrer do escândalo que tem permeado os sites internacionais sobre e-reading. Existem os fantoches de meia (sock puppets), que é quando você conversa com a própria mão disfarçada, e os reviews pagos, todos a sua maneira fraudam o que seria um suposto código de ética em reviews de leitores.

O artigo fala que existem nos reviews da Delphi comentários elogiosos feitos pelo próprio editor, para esconder falhas da coleção, reviews cinco estrelas, não de leitores, mas dos tais fantoches criados pelo editor. Muitos textos da Delphi clamam congregar todos os escritos de um mesmo autor, o autor da crítica encontrou textos que não estavam na coletânea e confrontou o editor, que usou os tais sock puppets para contradizer o rapaz. Os livros da Delphi são coletâneas de textos em domínio público, bem organizados, com livros, contos, ensaios, críticas e até cartas de um autor, custa nos que comprei U$3,00, o que acho que vale para ter grande parte dos textos bem organizados e diagramados. Eles clamam terem tudo escrito pelo autor, mas o rapaz que fez a crítica viu que na obra do Dickens, alguns textos encontrados no projeto Gutenberg estavam faltando. Independente, na minha opinião, por U$3,00 os livros ainda valem.

O negócio é que o escândalo dos fantoches de meia, é só a ponta do iceberg, autores usam seus fantoches para falar mal de livros de concorrentes e falar bem dos próprios livros, de certa maneira fraudando um código de ética implícito. Joe Konrath um autor que saiu do “legacy publishing” e hoje é um dos porta-bandeira da auto-publicação, tem uns pontos interessantes, vale ser lido, não concordo em tudo.

O sistema de classificação por estrelas da Amazon permite que os leitores, ou supostos leitores, classifiquem um livro em um sistema que vai de uma estrela, para livros que achou ruim, até cinco estrelas para livros que achou bom, além disso, pode-se escrever um review explicando o motivo da qualificação ou dizendo o que for. Ter mais reviews ou mais estrelas fazem o livro mais visível no sistema da Amazon, conferindo-lhe em teoria mais vendas, por conta da maior publicidade, desta maneira o sistema virou um método de propaganda. Alguns espertinhos perceberam e ofereciam um serviço de reviews pagos, onde o autor poderia pagar um preço combinado para ter um número de reviews positivos, fazendo seu livro subir na escala e ganhar visibilidade, chegar aos olhos do leitor, e quem sabe ao seu bolso, e assim, vendendo, subir mais ainda na escala.

A atitude da Amazon é de suposta neutralidade, é uma posição difícil, entrei no “goodreads” para conseguir referências de livros para ler, fiquei abismado, é um sistema disfarçado de publicidade para autores ou editoras, o que invalida totalmente qualquer recomendação, por conta da parcialidade do sistema. O Joe Konrath reclama que a Amazon permite reviews de uma estrela, aceita que livros sejam “denegridos”, mas em todos os reviews, que não são apenas de livros, mas de todos os produtos vendidos no site, a postura da Amazon é antes ter um cliente bem informado, confiante em o que compra, em vez de insatisfeito e sem confiança no sistema; muitos fabricantes reclamaram de reviews negativos em seus produtos, mas a Amazon tomou o lado do cliente, melhor bem informado do que enganado e insatisfeito com a compra e o site. Eu tendo a acompanhar o entendimento da Amazon, assim, acho os reviews negativos fundamentais, mas é preciso notar que eles podem ser aparelhados por concorrentes, e usados para denegrir um produto, assim como um livro. Atualmente ao escolher um livro leio somente os reviews negativos, se tem consistência, e se os pecados apontados pelo leitor, também são falhas na minha concepção. Já me dei mal, os review negativos da trilogia de “Gelo e Fogo” diziam que o livro tinha muitos personagens, era excessivamente descritivo, e a estória era complicada; pontos positivos no meu ver, mas o livro não tinha muitos personagens, tinha muitos nomes, pois mesmo os principais são mal delineados; nem de longe o livro é descritivo, e a qualidade de tais descrições é péssima, pobre; a estória não é complicada, mas sim aleatória. Poderia escrever um review ruim para o livro, mas mesmo um review ruim dá trabalho, e por mais louco da vida que fiquei ao terminar o primeiro livro, minha injúria não moveu-me para fazer de graça para a Amazon um review ruim da obra. Infelizmente a realidade de quem faz um review espontâneo na Amazon, e o faz bem feito, está trabalhando de graça para uma empresa privada, nada que os usuários do facebook não façam, mas um review bem escrito, bom ou mau dá trabalho, quem está disposto? A verdade é que é mais fácil conseguir reviews pagos, falsos ou com agendas secretas do que os espontâneos, uma vez que o assunto vira um comércio, um mercantilismo, e assim toda a validade e confiança no sistema é perdida. Vira apenas propaganda.

Mas ao outro lado, autores e editoras não pagam para fazer propaganda? Independente da qualidade do livro os profissionais da área ganham para falar bem da obra, como confrontar ambos os critérios? É o leitor, alvo da propaganda, advertido que ela nunca vai falar mal do produto? E quando a coisa é um review em jornal ou revista, com o autor da crítica escolhido a dedo por gostar ou desgostar do tema, e assim influenciar a venda da obra. Não é igualmente nojento? E se editoras também fraudarem o sistema pedindo que seus empregados abram contas para fazer reviews elogiosos à obra? E se o autor pedir para todos os parentes fazerem o mesmo? Como o leitor pode escapar destas armadilhas e conseguir uma opinião minimamente honesta, sem agendas escondidas?

Alex

5 comentários:

  1. Oi Alex, tinha lido sobre os reviews falsos num blog americano que leio e pensei como as pessoas são "criativas" para querer fazer propaganda de seus livros. Eu costumo ler as sinopses dos livros e também gosto de ler reviews, as vezes acabo gostando de livros que eram considerados ruins e não gostando do que eram considerados bons. Acho que nem sempre podemos ir atrás de reviews, temos que ler se o livro nos interessa e tirarmos a nossa própria conclusão.

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    1. Marta,

      Isso é verdade, mas minhas melhores recomendações vem de amigos, pois conheço o gosto e confio. Por que o mesmo não pode acontecer com “personas” de internet, desde que eu estabeleça um relacionamento de conhecimento e confiança, seria o mesmo que um amigo, o problema é que quando os interesses comerciais sobrepõe-se ao critério, aí não há confiança que resista. Com mais livros publicados, uma rede de leitores de confiança vai ser extremamente necessária, para encontrar bons livros sem perder tempo garimpando cascalho.

      Abraço,
      Alex

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  2. O dinheiro corrompe. A gente pode até não ter se dado conta, mas era óbvio que algo assim aconteceria mais cedo ou mais tarde. Acho que pior do que se auto-elogiar é pagar por uma quantidade X de reviews positivos. Sempre se desconfiou a idoneidade de alguns críticos, ou dá má vontade de outros. O que se pensa de um crítico, seja literário, musical ou de cinema, é que ele consiga deixar de lado seus pré-conceitos faça uma avaliação imparcial. No caso das estrelas é o contrário. As pessoas que entram lá, entram para dar suas opiniões pessoais sobre os livros. Se você gostou, você vai lá e diz que gostou e porque. Se não gostou, idem. Geralmente nós compramos algo para ler com uma boa expectativa. Ninguém compra um livro ruim de propósito. E cada um de nós tem sua própria opinião.

    O Alex já comentou antes sobre as crônicas de Gelo e Fogo, já disse antes e repetiu que não gostou do primeiro livro, e abandonou a série. Minha opinião sobre a série é completamente diferente, talvez por eu gostar do gênero do livro, e ter visto nas narrativas em pontos de vista algo interessante. Se o Alex fosse escrever um review sobre o livro, provavelmente seria negativo. No meu caso, seria positivo. Mas nenhum de nós dois se preocuparia tanto em analisar o livro pela ótica do crítico literário, que tem que levar muito mais coisa em consideração.

    Muita gente está escrevendo hoje em dia. E tem muita gente ganhando dinheiro publicando seus próprios livros nos EUA. E a cada dia, com essa crise que espreita por lá, mais e mais pessoas tentam explorar essa nova oportunidade. E quem não tem talento sempre tenta subverter o sistema. No fim das contas, é tudo por dinheiro.

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    1. Mobile,

      Não acredito em avaliação impessoal, pois seria a avaliação de uma pessoa desprovida de personalidade, um zé nada. Prefiro as pessoas que são declaradamente pessoais, assim posso ver se afino com seu gosto, ou não, e assim saber com quem estou falando e o que está me indicando. Se um filme é bem falado pela crítica da folha, eu sei que não devo assistir, é um critério.

      Do ponto de vista da crítica literária acadêmica, a trilogia de gelo e fogo é invisível, uma vez que o mínimo que se espera de quem seja “literário” é uma escrita cuidada, no gelo e fogo é desleixada. O que me revoltou no livro é que os personagens são aleatórios, sem personalidade, a grande maioria apenas nomes largados na estória, da mesma maneira que personagens de novelas da globo, cascas sem recheio. E com personagens aleatórios, a estória também é aleatória, como a das novelas, que muda ao gosto do público, é um tipo de narrativa que tem dominado os enlatados televisivos como Alias e Lost, escrita sem enredo.

      Meu problema é que não consigo ver um livro como um mero produto, seguindo os ditames do marqueting de massas sem qualquer personalidade, um livro é uma relação pessoal autor leitor, e só valem os autores que tem o que dizer, e esta essência, comercialmente é o que menos importa, um publicitário vende até o lixo que odeia, uma pessoa comum, não vê motivo para propagandear lixo, a não ser que goste de verdade.

      Alex

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  3. Daniel Monteiro,

    Sim, sei que já existe, e este é justamente o cerne da discussão, como comparar os pecados internéticos com o costume editorial? Não são semelhantes e igualmente enganadores?

    Abraço,
    Alex

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