sábado, 29 de setembro de 2012

Das obrigações do autor moderno

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Rezam as lendas contemporâneas que o escritor que pretenda ser lido hoje em dia está obrigado a uma intensa atividade nas redes sociais, a dedicar largo tempo construindo sua base de contatos, os pretensos leitores de sua obra, e divulgando seu trabalho de todas as formas eletronicamente possíveis.  Se esse autor publicou um e-book, então, ou pretende publicar, as recomendações são ainda mais enfáticas. 

Não pretendo aqui descontruir ou combater essa visão, mesmo porque ela tem lá seu fundamento quando falamos de autores que não estão suportados pela estrutura de divulgação de uma editora, mas convenhamos que vale a pena levantar alguns questionamentos.

Baseio-me na premissa de que um escritor precisa, antes de tudo, ler. E ler muito, todos os grandes que lhe antecederam e os contemporâneos que se destaquem (no meio do caminho algum tempo será gasto com textos que não trarão grande crescimento, porque para avaliar é preciso ler – ao menos quando se prefere não caminhar somente pelas trilhas indicadas pela crítica, que muitas vezes são encomendadas).  

Adicione-se a essa premissa a constatação de que são raros (sempre foram e continuarão a ser) os escritores que (ao menos no começo da carreira e até atingirem razoável nível de excelência e/ou popularidade, que não necessariamente andam juntos) vivem exclusivamente da escrita. Muitos grandes escritores tinham como meio de pagar suas contas outras profissões, a menos que tivessem algum patrocinador (mas já não vivemos em tempos de mecenas generosos). É verdade que houve aqueles que, por sua obstinação em se dedicar à escrita arriscaram, quando a juventude lhes dava a gana e audácia necessárias, alguns abdicaram de confortos ou segurança para tentar (sem nenhuma garantia de êxito) uma carreira que sempre depende, em alguma medida, do acaso, ou da sorte, além de muito (muito mesmo!) trabalho e, sim, alianças adequadas.

Desenhado esse contexto, olho para o cenário das populares redes sociais e, mesmo sem querer  diminuí-las (talvez porque também esteja entremeada nelas e reconheça seus potenciais) acabo assinando embaixo das reflexões de Cassio Pantaleoni em seu artigo sobre literatura em tempos digitais, acrescentando outras percepções (ou mais provocações).

Facebook, não é lugar de literatura!

Calma, antes que alguns proponham meu linchamento, deixem-me explicar o que cabe nessa frase. Participo de alguns grupos do face (talvez alguns poucos membros destes, aliás, lerão essas reflexões, mas sei que serão poucos) que busquei pensando em três focos: e-books / e-readers; literatura e escritores brasileiros.  Comento cada uma das experiências contrapondo-as à corajosa manifestação de Javier Marías sobre sua ojeriza ao universo “pop writers”.

O primeiro dos focos citados – o universo de e-books e e-readers é o tema cujas interações no facebook são mais eficientes, pois as notícias postadas e a troca de informações entre membros do grupo contribui de fato para a atualização sobre o tema; permite conhecer experiências de outros usuários, saber de lançamentos de equipamentos de leitura, títulos e, eventualmente, promoções de editoras. Não se alcança nesses grupos, porém, trocas sobre conteúdos literários.

Quanto ao segundo foco, a literatura em si, convido-os a um teste: pesquise no facebook (creio que o twitter traz realidade distinta) o termo literatura. Um número reduzido de páginas ou grupos surgirá. Dos resultados apresentados, a maioria será de páginas de escritores interessados em divulgar sua própria obra; há também perfis inativos, sem conteúdo atualizado e com baixo grau de interação; e um pequeno número de páginas com resenhas, mas focadas em nichos como literatura infanto-juvenil, fanfics e fantasia, em geral baseadas numa troca de gentilezas entre autores solidários entre si, exaltando suas próprias qualidades.

Por fim, os grupos que congregam escritores – na sua esmagadora maioria iniciantes, pouco conhecidos e quase sempre independentes – restringem-se a murais para autopropaganda. As raras iniciativas onde se propõem leituras críticas de voluntários dispostos a expor seu texto e ouvir as percepções de leitores (outros escritores do grupo) também voluntários sempre contam com poucas adesões. Não fiz uma estatística ordenada, mas posso assegurar que 90% (no mínimo) dos comentários se limitam a “curtir” o texto sem qualquer comentário sobre verossimilhança, linguagem, coerência, ritmo ou estilo. Uma honrosa exceção que vivenciei foi provocada por Sergio Carmach, que chamou os escritores de um desses grupos para um evento virtual chamado “É lendo que se é lido”. A cada dia um autor colocava um trecho de narrativa ou um conto completo no mural do evento e recebia retorno dos demais leitores. Houve mais de uma edição e invariavelmente poucas adesões, especialmente para efetuar comentários. Muitos “escritores” enxergaram apenas a oportunidade de se mostrar, boa parte disponibiliza textos crivados de equívocos semânticos e gramaticais, visivelmente desprovidos de preocupação com a qualidade do texto e muito poucos se dispõem a uma análise baseada em argumentos.  Na última edição, com a ênfase dada às regras, o resultado foi mais rico, porque os participantes se dispuseram a uma análise mais detida, indicando falhas e necessidades de melhoria no texto, demonstrando uma leitura atenta. Como sempre digo que elogios vazios acrescentam menos que uma crítica dura mas bem fundamentada, fiquei, finalmente, satisfeita com a interação naquele espaço.

Mas o caso é que toda essa busca e o tempo dispendido em trocas (geralmente superficiais) toma do escritor um recurso precioso: o tempo. Tempo para escrever, re-escrever e começar tudo de novo quando o enredo não alcança a qualidade desejada, e tempo para ler, a principal matéria prima de quem pretende ultrapassar-se. Dá perfeitamente para compreender o desabafo de   Javier Marías quando reclama da necessidade de participar dos eventos de lançamento organizados pela Penguin  e lamenta que apenas um em cada 20 livros de novos autores ditos “geniais” realmente vale a pena. Para quem contra-argumentar que isso envolve gosto pessoal, volto a comentar o papel não isento das críticas que enaltece não apenas obras realmente boas, mas aquelas vinculadas ao interesse de certos mercados ou de certas relações – sem juízo de valor, apenas uma constatação. 

Isso pode ter correlação com o que comentamos antes, acerca da dificuldade de concentrarmo-os de fato em textos mais densos no espaço de um navegador, ou, pior, denotar uma tendência à deterioração da linguagem como 1985 do Anthony Burgess antecipou. Será? 

5 comentários:

  1. Maurem Kayna, muito obrigada por ter postado este texto, ele me foi muito útil. Como escritora independente e iniciante vivo diariamente muitas das questões abordadas por você. Quanto à posição de Javier Marías, cujos textos admiro, e de outros escritores já famosos, como Isabel Allende, que declaram odiar eventos promocionais, até acredito no sentimento, pois não gosto também de ter que divulgar meus textos, mas acho difícil crer que não estariam fazendo o mesmo, correndo atrás de público, se seus escritos permanecessem desconhecidos, ainda que não dependessem deles para sobreviver. Creio que o desafio do escritor moderno, aquele que publica de forma independente e é comprometido com a arte literária, está justamente em saber lidar com essa sobrecarga de informações, papéis e ruídos, e dali fabricar o sossego necessário porém fictício, para extrair de tudo isto algo capaz de resistir à passagem das gerações. Muito obrigada por postar estas idéias. Um abraço fraterno, até!

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    1. Helena, penso que toda declaração pública dada por um artista, não importa o segmento, nunca é completamente sincera. O grande público, aliás não tem grande predileção pela sinceridade, mas pelo efeito. Fora isso, a ideia era justamente contrapor questões um tanto óbvias do desafio insano do "mercado" quanto às possibilidades do indivíduo... no caso o ser escrevinhador.
      Eu é que agradeço a atenção e fico feliz em saber que o tema inquieta a mais gente.
      abraço.

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  2. Olá, Maurem

    Boas suas colocações, ponderadas e convincentes. Li seu artigo após ler o do Alex, que dialoga com este, mas meu ponto de vista já não é o de quem acha que um texto, por mais bem construído e elaborado que seja, seguirá seu próprio caminho rumo ao cume dos insignes no mercado editorial.
    Em outras palavras, o autor hodierno deve aceitar a realidade atual. Nosso país não se distingue por ser o de leitores ávidos (se isso tem a ver com o preço dos livros ou não, com a disseminação do e-reader ou não, não saberia dizer...); minha tendência é enxergar no leitor brasileiro um incrível interesse por listas de mais vendidos, fora o menoscabo com escritores ditos brasileiros (o quadro atual é desalentador? Não creio que o seja totalmente...). Proliferam leitores de livros cujas adaptações para cinema trataram de tornar tais livros assinalados, e parece que apenas nisso reside o interesse deles. Não é só a leitura de livros: Como você e Alex trataram de pontuar, a leitura está em escassez, em parte pela falta de perícia do leitor, em parte pelo estigma que sempre acompanhou aqueles que se detêm nas particularidades de um livro analisando suas sentenças, mensurando seus contrastes, sondando seus personagens a fim de lhes perscrutar o íntimo...
    Diante de um tal quadro desalentador, não restam saídas para o escritor moderno. Deve se dispersar em palestras, em redes sociais, em autopromoções de toda espécie a fim de que sua obra, a qual levou anos para concluir, entre escritura e reescritura, ganhe relevo e (aí sim) os predicados do dito livro possam sustê-lo, conservá-lo como o processo de resfriamento faz com os alimentos a fim de que não deteriore e (caso o escritor tenha sido bem sucedido em sua tarefa) mantenha, mesmo após anos, seu inalterado frescor.

    Como já apontei num post que escrevi, no mundo virtual as pessoas trataram de transportar seus defeitos, antes de domínio exclusivo da vida "real". Pessoas que falam sem parar pouco se importando com o que a outra tem a dizer, dispersão advinda de ter pouco a que falar, mesquinhez, etc. As pessoas são incrivelmente dispersas na leitura on line, os escritores apenas querem disseminar seus livros, mesmo que para tanto tenham que passar pelo martírio de ler o de outro autor, enfim...
    É um quadro que dificilmente irá mudar. Por isso acredito na força na Boa leitura de livros que Acrescentam porque só estes são capazes de frutificar no leitor o gosto pelo detalhe, pelo mergulho sondativo, pelas nuances. Creio que a medida que esse tipo de leitura aumentar, minguarão os interesses supérfluos e mesquinhos. O mercado editorial continuará o mesmo (sempre o fora: Proust teve que agradar a junta que lhe concedeu o prêmio Gouncort, Bocage satirizava os poetas que viviam de vender seus versos nas ruas...), mas quiçá a média geral de leitores será menos pusilânime e, com tal tendência, poderá fomentar intensos debates dos quais os que acontecem aqui nesse blog são exemplos válidos?

    Talvez então o mercado editorial, que segue a tendência de seus leitores, mude...

    É esperar para ver.
    D.

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    1. Daniel, as vezes penso que a leitura talvez não esteja em posição diferente da que sempre esteve em cada nação. A porção de uma população com acesso e interesse talvez se mantenha e até tenha aumentado ao longo do tempo. A proporção de escritores é que cresceu de modo alarmante. Assim, é de se esperar que, como em quase todas as situações no mundo, haja bom lugar para poucos. O triste é que esses poucos não serão, no que depender das engrenagens gerais, os melhores - mas também nisso não sei se há muita razão para espanto.
      Mercado editorial é, antes de tudo, mercado. E pensando nisso, vejo poucas perspectivas.
      Concordo com o Alex no que diz respeito ao valor da obra - sim, minha ambição seria que algum dia algum (de preferência vários) texto meu atingisse o nível capaz de gravá-lo na memória de algumas gerações. Mas a probabilidade disso ocorrer, mesmo que eu consiga o apuro técnico necessário, é zero se não houver, sorte, contatos e divulgação. Mas não falo isso de modo azedo... é que se tenho de escolher entre escrever e divulgar, fico com a primeira parte, porque a segunda seria inútil sem a primeira.

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    2. Participar de discussões e sites como este é uma forma 'automática' de divulgação, não? Como Juan Goytisolo, penso que não se deve confundir o texto literário com o produto editorial: são coisas totalmente distintas. A Literatura precisa de tempo para ser reconhecida como tal. Dedicar um pouco de tempo para observar as discussões que estão 'rolando', até mesmo para manter-se atualizado, é uma oportunidade de divulgar as próprias idéias e o trabalho (que corre em paralelo). Concordo plenamente: redes sociais e sites 'pseudo' literários não são lugar para quem deseja boas leituras ou aprimorar-se ao escrever. Aposto muito mais nas trocas individuais com autores selecionados e no uso da maior parte do tempo para trabalhar as próprias produções textuais, mastigando o próprio texto, buscando novas formas de olhar para ele. Um bom texto, sendo bom mesmo, algum dia cairá nas graças de algum bom leitor, nesta ou nas próximas gerações. Por isso não tenho pressa: o que tiver que ser, será!

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