quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Quem está de olho em ti?

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Quem é você? O que você lê? Que horas? Quanto? Em qual velocidade? Tem gente te observando! Eles te conhecem ou acham que conhecem, mas você não os conhece, não sabe nada da vida deles, nem sabe exatamente o porquê estão te observando, mas eles te observam, não só a ti, mas a muitos milhares. Agradável? Não! Mas em realidade não percebemos esta bisbilhotice, ela acontece, e muitas vezes sem o nosso consentimento, escondida em termos de uso abusivos que violam seu direito à privacidade.

Eu, muito provavelmente você, e muitos outros como nós, somos pessoas simples, nossa vida não deveria interessar a ninguém e assim não nos preocupamos em esconder nada, pelo menos não agora, mas nem sempre foi assim, o Brasil já foi uma ditadura, um estado policial, e ter ou ler “O Capital” era uma espécie de crime não escrito, te qualificariam como comunista, um elemento perigoso para o governo, com conseqüências mais ou menos drásticas ao sabor do vagabundo de plantão. Como já aconteceu na idade média, ao acusarem as pessoas de bruxaria, coisa que nunca existiu, mas matou muita gente em interrogatórios ou na fogueira, ferramentas úteis para os totalitários calarem seus desafetos e manterem o poder.

Confesso que só li “O Capital” por ser um livro proibido, e fiquei extremamente desapontado, esperava encontrar ali sortilégios macabros e não teorias econômicas plagiadas misturadas com fé ideológica ignorante, aliás, acredito que Marx não era tão fanático como seus seguidores, parecia ser um cara razoável para um bom papo de boteco, ao contrário do belicoso Bakunin, que à menção de seu nome governos tremiam, sempre insuflando o povo com seus discursos apaixonados. Não havia nada de tão abjeto no “O Capital” para torna-lo um livro proibido, mas de maneira não explícita foi, nem era possível falar sobre estes assuntos na rua, um clima de medo pairava sobre a cabeça das pessoas, infelizmente isso não foi há muito tempo.

Ao longo de nossa história o homem conquistou direitos, se antes escravidão era uma prática aceitável, hoje é abominável, e outras práticas abusivas antes comuns foram tornando-se execráveis, a tortura é uma delas, método legítimo para extrair confissão de uma bruxa ou um blasfemo, hoje não mais tolerado, infelizmente ainda utilizado, mas às escondidas, não mais em praça pública. Lutamos e conquistamos direitos, e estes só existem se iguais para todos, violar um direito é prática execrável, crime, e o direito à privacidade é uma destas conquistas. Enquanto vivemos em regime onde os direitos são observados e respeitados, a privacidade torna-se um ponto menor, quando criminosos totalitários querem calar as vozes dos opositores, a privacidade é o primeiro direito a ser violado. Esta é uma alegação de suporte do voto do cidadão ser secreto, para não haver policiamento por parte do poder de turno, no caso de uma democracia, ou do conjunto de direitos e valores que se cobrem desta bandeira.

E-readers vinculados a lojas, aplicativos de tablets e computadores, hoje estão fazendo o que era tarefa dos serviços de inteligência: espionagem. Se na era PC o usuário lutava contra programas de spyware, hoje eles já vem embutidos, catalogando informações sobre ti e enviando para uma central. Tudo isto é para o seu bem, o grande irmão está aí para ajudar, só quer o melhor... Imagine uma pessoa que não conheça, coleta informações sobre ti: música que gosta, livros que leu, comidas favoritas, hobbies e uma porção de outras informações com o intuito de aproximar-se de ti para tirar dinheiro ou vender algo, é uma pessoa legal ou um safado, aproveitador e duas caras? Ele conhece muito sobre ti, o que você sabe dele?

Estamos sendo muito brandos com esta espionagem, e o motivo é não termos nada a esconder, mas é insidiosa, hedionda, é a violação de um direito adquirido, não faz muito tempo o Brasil foi uma ditadura e pode voltar a ser, esta tecnologia de espionagem pode tornar-se uma arma, lembrem que hoje ainda existem regimes ditatoriais, a China é um, o cidadão é policiado o tempo todo, não querer deixar é motivo de desconfiança, a privacidade é um valor pequeno burguês, assim como a individualidade, mas vá espionar os vagabundos do partido e verá que eles prezam a privacidade ou seus segredos escusos. Cuba é outro país onde só se fala de política com o rádio ligado no último, felizmente não vivemos mais sobre este terror, mas tem quem quer, e o governo do PT é um que compartilha os ideais de Cuba e é complacente com as violações dos diretos humanos naquele país, e hoje está de beijinhos com o ditador venezuelano Chaves, que solapou a democracia. Vejam o genocídio acontecendo hoje na Síria por conta de um ditador que quer manter o poder, ditadores parecem bonzinhos até que lhes ameacem o domínio, aí partem para toda arma para manterem-se no poder, atrocidades acontecem aos montes. Estas ferramentas de espionagem são arma, por sorte ainda não estão nas mãos dos ditadores, mas países como Cuba e China já as começam manejar para suprimir o povo e manter o poder. Estes vagabundos tem um projeto de poder e precisam manter o povo fora, controlado, subjugado e suprimido, para isso usam da espionagem para minar a liberdade de consciência.

Vi dados divulgados com o hábito dos leitores, em média lêem cinqüenta e sete páginas por hora, fiquei arrasado, acho que sou bem mais lento para ler, e também fiquei chocado, será que o aparelho está gravando meu costume? Enviando para quem? Não estou mais sozinho no meu canto? Eles vêem minhas anotações particulares? O problema é que só com um hack e um bom serviço de análise de dados vou conseguir saber o que o meu leitor está lendo de mim, o consumidor médio fica na ignorância, sendo espionado por quem não conhece, com objetivos de que não sabe, sem saber para quê serão usadas suas informações; dependendo do poder de turno, podemos ganhar uma estrela costurada na roupa? Ou um triângulo vermelho?

Alex


6 comentários:

  1. Oi Alex, eu acho que sobre este tema tem dois lados, um deles é aterrorizante porque alguns podem usar as informações para um lado errado, por outro lado, eu particularmente gosto de conhecer os gostos das pessoas em relação a livros, amo ler matérias sobre autores que eu gosto sobre o que eles lêem, sigo alguns no shelfari e pego boas dicas de livros com eles. Amo ler livros sobre livros, e gosto de compartilhar meus livros em rede sociais de livros e conhecer os gostos das pessoas em questão de literatura. Espero que esta falta de privacidade seja usado para colher informações para um bom uso e disponibilizar obras e melhorar cada vez mais a divulgação de livros.
    Vamos ver o que nos espera no futuro...

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  2. Oi Marta,

    As informações que você está falando são as que as pessoas divulgam espontaneamente, me preocupo com o que é apropriado sem nosso conhecimento por programas embutidos em aplicativos e e-readers, e pior ainda, imagina em 3G você pagar pelo tráfego de informações usadas para te espionar. Um dos motivos de eu não usar facebook, é que o que você posta vira propriedade do zukerberg... é só ler o contrato.

    Abraço,
    Alex

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  3. Olá, Alex. Tudo bem?

    Li seu texto acima e, como um sujeito que na infância não gozava dos recursos tecnológicos modernos e a cada dia observa seu surgimento ininterrupto, tendo a ficar receoso com o quadro que me apresenta. Assim como você, eu optei por não me utilizar das novas redes sociais de relacionamento, embora meus motivos seja outros (se tiver curiosidade em saber: danielmattoss.blogspot.com/.../a-descomunicacao-pela-internet.html), mas é bom ter essa noção de como aqueles que administram tais redes podem deter em seu poder informações que não atinamos.
    A internet é um veículo relativamente novo e ainda não aprendemos a mensurar o tamanho do impacto desse advento em nossas vidas, ou mesmo em escala internacional (vide o caso do Wikileaks...).

    Alex, tomei conhecimento de suas ideias a partir da leitura de um diálogo entre você e a escritora Maurem Kayna no site off-granta. Ali eu me interessei sobretudo pelo nível do diálogo que transcendia o comum e superficial que abunda na internet. Visitei seu blog Espírito de Gutemberg e lá deixei um comentário que ainda aguarda moderação... Você o atualiza sempre? É bom que saiba que a internet carece desses canais relevantes de discussão como o é o seu blog.

    No mais é isso,
    Abraço.
    D.

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    1. Daniel,

      Li seu blog e deixei um comentário, minha intervenção em aberto no texto da Maurem foi para mostrar que blogs e internet podem ser usados para algo mais, o problema não são as ferramentas, mas o uso que as pessoas fazem dela. Surpreendi-me com a submissão do texto dela à granta, apesar de colaborarmos juntos neste blog, ela só contou depois que aconteceu, fiquei abismado quão poucos autores se dispuseram a abrir seus escritos na off granta, uma iniciativa ímpar para mostrar que o debate pode ser qualificado e sair da inútil troca de acusações e fofoca.

      Peguei um pouco da ditadura, e imagino estas ferramentas de espionagem nas mãos dos nossos antigos algozes ou agora nas mãos dos nossos atuais verdugos, não é uma boa perspectiva, ao mesmo tempo vejo as garantias individuais desvanecerem, solapadas sorrateiramente por comodismo. É um quadro assustador!

      Eu atualizo o blog do “espírito de gutenberg” quando tenho algo que me interessa compartilhar na área literária, eu gosto deste debate atemporal, os textos estão lá, para quem quiser ler e comentar, a qualquer tempo, são minhas questões na literatura contemporânea. É um canal, mas ao mesmo tempo é uma tentativa de achar bons interlocutores, coisa que sinto falta, ou até bons alunos interessados em aprender, pelo conhecimento, pelo prazer de aprender. Não sou elitista, mas tenho pouca tolerância aos comportamentos que você bem pormenorizou no post do seu blog.

      Abraço,
      Alex

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  4. De fato, Alex, são poucos os focos de debate consistente e interesse de estabelecer, entre as partes, uma "simbiose" cognitiva. Em geral, numa conversa, estabelece-se uma luta de egos, e só concordamos com o "outro" quando este manifesta nossas opiniões com suas palavras (Tremaine).
    Achei a iniciativa do off-granta válida, ainda que alguns tendam a ver como ressentimento pela rejeição... Não acho que seja o caso, mas a visão dos íncolas de nossa "pátria amada" geralmente valoriza o que é extra-nacional, daí o porquê de localizarem nos novos autores um ressentimento maior que sua qualificação estética.
    Estou mantendo um diálogo sobre o fazer literário com a Maurem via e-mail (pois este é mais pontual e incisivo); sem narcisismos tolos, fiquei imaginando qual seria sua leitura acerca de um texto meu que busca um diálogo com "as questões da literatura contemporânea" que mencionou. Creio que a forma de narrar dele seria um mote razoável para um diálogo. Como você (sabiamente) busca não se expor muito na web, deixo aqui meu e-mail: danielmattoss@gmail.com

    No mais, grande abraço...
    D.

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    1. Daniel,

      Não tenho apreço por simbiose cognitiva, procuro desafio, de pessoas que aprofundam-se no conhecimento e podem interpor argumentos de qualidade que ofereçam provocação, gosto dos argumentos, por isso prezo a manifestação incorpórea onde são eles mister, não títulos ou outras falácias, respeito a opinião, mas só aceito os argumentos, até o maior imbecil tem direito a uma opinião, mas não tem bons argumentos. A iniciativa do off granta é excelente, mas suscita o medo dos que não tem propriedade no que escrevem e precisam dos meios de validação, um debate assim aberto pode colocar as verdades a nu, educar os leitores e avançar a literatura, um verdadeiro perigo!

      Eu gosto de colocar os diálogos abertos, não tenho nada a esconder e assim podemos ajudar os outros, veja, eu uso software livre, mas não mexo com código há muito tempo, o que posso oferecer em troca na internet? de graça? é justamente este tipo de debate, por isso prefiro deixar em aberto, é minha forma de contribuir. Gostaria de ler seu texto, é só colocar o link, aliás, se quiser deleto seu post com seu endereço, não é boa política deixar seu endereço online em aberto, existem robots, só para pegar estes endereços e usar para spans e vírus. Se quiser deleto seu post e o recoloco sem o endereço de mail.

      Cuidado se pareço bonzinho com a Maurem, lá estou me metendo em seu texto, não me diz respeito, ela é a dona, eu sou “sapo de fora”, lá não quero impor nada, apenas ser uma ajuda, o texto é dela e sempre será, se eu quiser do meu jeito, escrevo o meu, tento sugestões para dar um contraponto para pensar, nada mais. Penso em um comentário do Hemingway que disse que a Gertrude Stein teve menos papel em sua obra do que dizia. Era uma mulher culta, uma leitura crítica provavelmente de muito valor e talvez essencial pra Hemingway, mas ele era o escritor, por mais valor que a ajuda de miss Stein tenha, o crédito é do escritor, e apesar do sucesso que obteve em detrimento de miss Stein, que preferiu um experimentalismo extremo, é mérito solo do escritor. Ter alguém com a ampla bagagem cultural de Gertrude Stein para ser um leitor crítico é impossível de avaliar, mas a decisão, a criação, é do autor. Se ela quisesse as luzes que obteve Hemingway, que fizesse sua literatura mais palatável, que escrevesse suas obras, mas não peça crédito como leitor.

      Este é meu ponto, gosto muito na Maurem o bom gosto e o destemor que tem na literatura, tem algo ainda bruto em seus textos que não consigo pegar, tem valor, precisa de polimento, mas nunca sou complacente, apenas socrático inveterado.

      Abraço,
      Alex

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