quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Suicídio do Editor

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Tem gente por aí falando da morte do editor, em todas formas desta palavra, e culpam a auto-publicação facilitada pelo livro eletrônico, mas a realidade é que o editor cometeu suicídio, mas não morreu, virou um zumbi, criatura sem alma, o que a disseminação da auto-publicação faz é apenas colocar os moribundos para descansar nos caixões, uma vez que já estavam mortos e apodrecidos, infectando a literatura.

Ser editor é difícil, tarefa ingrata e nada fácil, ter que mergulhar em uma pilha de manuscritos e ler o mínimo que seja para separar apenas os que valem, é um trabalho árduo, mas não tem jeito, a grosso modo, este é o trabalho do editor. Para tornar a tarefa mais simples, alguns editores terceirizam a seleção, deixando para outros a parte grosseira; nos EUA esta é tarefa dos agentes de autor, mas estes também terceirizam e colocaram outros para operar as peneiras, não recebem nenhum manuscrito que não seja indicado. O trabalho que era do editor, foi dividido entre três ou mais pessoas, a responsabilidade de escolher um na pilha, ser editor.

Selecionar um texto implica em critério, este foi parcialmente terceirizado, mas o próprio editor tem um dilema: editar o que tem mérito ou o que vende? Categorias opostas, como posicionar-se entre elas? Ele é um profissional, ganha dinheiro vendendo livros, e em sua verve exclusivamente capitalista, sua escolha deve ser para o que dará maior retorno do capital; se existem outros critérios, seja a excelência literária, por qual definição que se tenha, se não der dinheiro, é secundária e não deve ser editado, afinal, o objetivo do editor profissional é escolher textos que vão fazer o capital neles investido render mais. Será que existe editor que prioriza a qualidade em detrimento do sucesso comercial? Se um dia existiu morreu, é o que diz a concorrência, se em vez do editor comercial tivermos o idealista, aí estamos falando de mecenas não de editor, deixaram de existir, faz tempo.

A maioria dos livros não chega às mãos do editor em sua forma final, para isto há ainda mais um trabalho, o editor de desenvolvimento que vai ajudar o autor em falhas ou somente amparar em arremates finais da obra, é um trabalho de responsabilidade, pois vai interferir com o original do autor, e se este não vender, o editor também deve levar a culpa, se este é o critério de seleção. Interferir em um texto autoral é trabalho delicado, mais ainda se o autor é dos que cuidam do próprio texto. Está aí mais uma tarefa que pode ser terceirizada, deixando o editor com menos uma de suas funções vitais.

Editoras profissionais são máquinas como todas as outras, e fazem o que toda máquina faz, no caso, dar o polimento final no livro, promover e vender. É importante notar que a tal qualidade profissional de livros editados por editoras, refere-se apenas a este detalhe derradeiro, pois muito cascalho depois de polido parece uma pedra bonitinha, independente de seu valor. O público em geral ficaria chocado se visse o texto original de alguns autores, sem o polimento, estes manuscritos são secretos, discutidos a boca pequena nas rodas de chopp pelos responsáveis pela lanternagem, piadas recorrentes.

A grande maioria dos autores auto-publicados, carece deste polimento final, e é apenas esta a diferença notada pela maioria dos leitores, mas bastaria a eles jogarem seus trabalhos na máquina acéfala, o polimento será feito.

O editor clama o direito de ser o porteiro que determina quem será ou não publicado, não são os buracos na cerca que o livro digital faz que torna o editor uma peça inútil, é a sua própria incompetência, sua preguiça, terceirizando suas funções vitais, enorme falta de visão. O editor morreu, escolheu envenenar sua função, tornou-se um porteiro inútil, cometeu suicídio, os livros auto-publicados só fazem o papel de enterrar os coitados, um mata burro acéfalo que deixou de contribuir para a literatura, peso morto.

Autores independentes não são bons por serem independentes, mas devem ser melhores, se não tiver quem dê ao texto o polimento final, trabalhe quintuplicado e faça a tarefa, mas não ofereça ao leitor um texto de má qualidade com a desculpa de ser independente.

Contrário dos funerais normais, vamos festejar a morte do editor, ele escolheu seu destino, e se algum dia voltar a ressurgir, deverá escapar dos venenos que lhe tiraram a função vital. Descanse em paz.

Alex

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