quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Exercício sobre o preço dos e-books

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O post de hoje do Juremir Machado no Correio do Povo me inspirou a brincar com possíveis números envolvendo a produção de e-books. Segui a mesma lógica da análise do Juremir, com adaptações que imaginei necessárias para o caso dos livros digitais.
Tomemos como exemplo, então, o preço de um e-book produzido por uma editora não exclusiva de livros digitais (que costumam ter preços mais camaradas) como a Cia das Letras, por exemplo. Escolhi no seu catálago, dentre os títulos nacionais (sem custo de tradução), quase ao acaso, o do Marçal Aquino (gosto do título, embora não o tenha lido). Ele custa R$ 31,00 em e-book (R$34 na versão impressa, contrariando o quadro da maioria dos títulos, onde o digital custa 30% menos). Seguindo o exemplo feito por Juremir Machado para os livros impressos, vejamos qual seria a possível composição de custos no caso de um e-book.
Como não há uma tiragem pela qual possamos dividir o custo de produção (que, em tese, não varia muito do impresso para o digital e que não pode usar exatamente a mesma diagramação), vamos supor que a editora tenha gasto com a produção / edição o mesmo valor do exemplo do Juemir (R$ 5 mil) e vamos exercitar a futurologia (já que não se tem previsão de quantas unidades serão vendidas, façamos de conta que seriam as mesmas mil unidades de uma tiragem pequena e fiquemos com o custo unitário de cinco reais).
Dos 31 reais, cinco foram gastos na produção do arquivo, ficam 26. Não se sabe quais os acordos de editoras maiores com seus autores no caso de e-books, mas a maioria das editoras dedicadas exclusivamente à produção de digitais oferece de 40 a 70%. Tomemos um valor intermediário de 50% do preço de venda, o que deixaria R$15,5 para o autor.
Os R$10,5 que restam certamente não ficam integralmente com a editora, a menos que ela não entregue o arquivo para nenhuma livraria online vender. Do contrário, a livraria terá de receber algo pelo armazenamento e distribuição do arquivo. Embora não sejam materiais físicos, a distribuição não some, ela muda apenas. Servidores e conexões custam tempo, dinheiro e energia. Não conheço os meandros dessa etapa, e não localizei nenhum artigo que pudesse me dar uma ideia do que seriam esses custos, mas vou arbitrar um valor "mágico" de R$ 1,00 por transação efetuada (ou seja, para cada unidade vendida).
A editora ficou, nesse exemplo maluco, com R$ 9,5. Não seria um valor nada ruim, mesmo considerando que desse valor devem ser descontados os custos fixos da empresa – espaço físico, luz, telefone, internet.
Mas o mercado de e-books no Brasil ainda é bastante tímido e atingir a meta de 1.000 e-books vendidos (exceto no caso de best sellers como a biografia do Jobs ou os tão aguardados tons de cinza) é pouquíssimo provável. A menos que a editora invista razoavelmente em divulgação, e isso também custa dinheiro, certo? Quanto? Não tenho muita ideia. Aliás, nenhuma. Mesmo porque, exceto as editoras dedicadas exclusiva ou prioritariamente ao e-book, não se vê ações de divulgação realmente fortes. Ah sim, e ainda temos a tributação, que no caso do e-book não perdoa, já que ele não é considerado como livro para fins tributários. 
A solução? Talvez passe pelas possibilidades citadas no artigo do Juremir – o tal cortar de elos. A editora, a princípio, seria a primeira a se tornar dispensável no cenário dos e-books. Afinal, os mecanismos de autopublicação abundam, proliferam até. Mas se o objeto (ainda que digital) esperado pretende ter qualidade, não poderá ser gerado pela mera conversão de um arquivo de texto. Um processo de revisão não é supérfluo. O servidor para armazenar os arquivos continuará sendo necessário.
 Onde a solução, nesse caso? Com ou sem ódio ao capitalismo (também concordo que merece, e bastante) é fato que as mudanças que até aqui se apresentaram não fazem mais do que colocar um modelito diferente num manequim antigo. O próprio crawdfunding não é só uma maneira alternativa de pagar a conta, que continua sustentando a roda?
Novidade mesmo ainda não se tem, não no sentido de aproveitar o que haveria (na verdade acredito que há) de poderoso nas possibilidades de multiplicar a distribuição de conteúdo relevante para um número significativamente maior de pessoas.
Será que ainda caio no equívoco adolescente das utopias?
A partir desse exercício inspirado na análise apresentada no Correio do Povo, podemos fazer muitos desdobramentos, como, por exemplo, o que aconteceria se ao invés de dividir o preço de "capa" de R$31,00, o preço despencasse para, digamos... R$5,00. Que volume de vendas se atingiria? Mas isso fica para outro papo.










4 comentários:

  1. Olá maurem,

    Muito se é comentado sobre Custos de servidor.
    Não vamos esquecer que um ebook como o "Cem anos de solidão" que tem 448 páginas pesa uns 500Kb.
    A nível de custo de servidor, você consegue de graça.
    O tráfego de transferência, é tão insignificante nos termos de internet hoje, que mesmo contratando um servidor pago para hospedar tudo, o custo não chega a 50 reais/mes.
    Vamos levar em consideração que a forma de pagamento para dar opções, seria um PagSeguro da vida, eles cobram algo em torno de 5% no valor da venda e mais 1 real se o pagamento for por boleto bancário.
    Modelos de lojas virtuais tem aos montes pela internet, meio caminho andado.
    Um domínio de internet não chega a 30 reais/ano.
    Tirando o custo inicial para dar uma identidade mais Professional ao site, o custo de manutenção será baixíssimo.
    E ninguém cria uma estrutura dessas para vender um único livro.
    Levando em consideração que isso será vendido por uma editora que tenha 500 livros e vende uma média de 10 livros de cada a 10 reais, temos 50.000 de receita.
    Destes 50.000, vamos supor que 200 reais seja gasto com servidor / reposição de custo inicial.
    E que os autores fiquem com 50% do valor arrecadado (menos os 5% do PagSeguro).
    Temos neste exemplo uma receita para a editora/site de 23.550.
    Um serviço desta magnitude necessita de poucos funcionários, vou ser generoso e colocar 4 pessoas, sendo 1 financeira, 1 para suporte e manutenção ao site e mais duas para qualquer assunto que uma editora necessite.
    Por ser uma empresa web, as pessoas podem trabalhar de casa, ou seja alugando um espaço. Ex: 2000 de espaço, já contando com internet (qualquer plano de 2 megas atende a necessidade), luz (poucos funcionários) e sala pequena.
    Coloque mais uns 10 mil para pagamento de funcionários e impostos.
    Posso estar desatualizado com valores, mas sim. é possível!

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    1. Jayme, ainda que os arquivos sejam pequenos, uma livraria maior precisará de um sistema seguro para hospedagem e etc (não vai utilizar esses serviços que nós pobres mortais escolheríamos por muito pouco ou de graça). Há que se computar ainda o custo da aplicação do DRM. Não custa pouco. Mas digo isso não para defender preços absurdos, e justamente para que pudesse ter clareza de quanto realmente custaria sustentar todo o processo. A lógica de vender por menos para vender mais, parece óbvia, não? Me custa entender porque tão poucos apostam nisso.

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  2. Olha só que beleza nosso mercado de e-books, que crescerá de vento em popa se formos depender das livrarias daqui

    Silmarillion a r$ 49,90? e perceba, nos comentários, que estão vendendo (querendo vender) a versão física a r$ 72,50!!!! 72,50!!!!

    - vamos vender digital com desconto? ou a preço justo?

    - não, vamos vender mais caro a versão física, assim ganhamos dinheiro nas duas pontas!!!

    esse capitalismo de quinta praticado no Brasil....

    depois reclama da pirataria....

    Nos Estador Unidos, a discussão sobre pirataria ocorre em outra situação, plenamente diferente: esse livro na amazon está, na versão física, a +- R$ 49,00 na VERSÃO CAPA DURA! versão livro normal a +- R$ 20,00.

    aqui a versão digital sai a R$ 49,90 - po, R$ 50,00, sejamos claros

    Depois ainda se arvoram pra dizer que "o livro digital no Brasil não decola", "não dá certo" - claro que não, estão reclamando pq o consumidor não é burro, isso sim

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  3. minha anedota com ebooks

    Tenho o kindle reader para meu smartphone e compro ebooks lá.

    Fui na Leitura no shopping e comprei um Stephen King por 29 paus. No cadastro, estava por 41, mas como estava etiquetado a 29, a moça liberou.

    Quando finalizei o livro, já senti vontade de novo King, então puxei o smartphone e comprei: 7 dólares = 14 paus.

    Essa é a realidade do preço dos livros nacionais para um (cada vez mais nicho) público de elite.

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