terça-feira, 24 de julho de 2012

O quanto (e como) cresce o acervo de e-books em português

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Em abril deste ano a Amazon oferecia 4.389 títulos em português, três meses depois já podemos verificar um incremento de 18% no número de e-books nesse idioma (em 23/07 a pesquisa retorna 7.178 títulos na seção “Portuguese”) . 

Mas, como em quase tudo na vida, na literatura e mesmo no segmento das publicações técnicas ou de não ficção em geral, quantidade não só não é sinônimo de qualidade como pode ser sintoma de sua ausência.

Não, não estou dizendo que diversidade não seja coisa importantíssima. Claro que é! Mas faço essa ponderação em relação ao aumento expressivo no número de obras em língua portuguesa para provocar alguma reflexão e análise do conteúdo que vem sendo ofertado. Ele responde às demandas do público leitor? Estão sendo disponibilizados conteúdos de qualidade? Sobre temas de real interesse? Ou há um incremento que visa apenas aumentar volume, sem qualquer impacto em conhecimento, cultura, entretenimento?

Não disponho de tempo, critério ou paciência para analisar todo o acervo disponível, então fiz um brincadeira cujo resultado partilho aqui com vocês: passar os olhos sobre as 2 primeiras páginas da pesquisa usando todos os critérios de ordenamento do site (popularidade, preço e  ranking das avaliações de leitores).

Então, vamos lá, confira na opção "Foreign Language Books"- Livros em Português lá no site da Amazon. Ao escolher o ordenamento crescente por preço encontramos grande número de obras de domínio público (em geral oriundos do projeto Gutenberg) oferecidos gratuitamente (contabilizei 196 títulos a $0.00). 

Se invertermos o ordenamento (do mais caro para os gratuitos) vamos nos deparar com um bom número de livros técnicos (muitos da área médica) por valores bem pouco convidativos (o mais caro custa U$ 413.11). 

Já a classificação baseada na avaliação de leitores traz Paulo Coelho, vários títulos de Auto Ajuda e/ou espiritualidade, algumas obras que já conhecia da KBR (editora brasileira dedicada exclusivamente à publicação em formato digital) e vários títulos autopublicados (tanto de ficção como não ficção) ou de editoras desconhecidas (pelo menos para mim) cujas descrições oferecidas não me seduziram. Não tenho certeza sobre a forma como esse ranking é feito, mas suponho que faça alguma ponderação das "estrelinhas" atribuídas pelos consumidores, do tempo que o e-book está disponível e do número total de avaliações.   

Por fim, a classificação por popularidade (vendas!?) traz e-books de diferentes faixas de preço (achei isso interessante), e aqui uma centelha de esperança - há Machado de Assis, Eça de Queiroz e Dostoievski (embora o título em questão seja uma edição horrivelmente mal cuidada - baixei a amostra para testar). Nos primeiros lugares desse ordenamento os religiosos apareceram com certo destaque (bíblia e alguns livros sobre a doutrina espírita).

Certo, e isso permite concluir o que? Não muito, mas me permito algumas inferências / constatações que podem (ou não) ter utilidade:

  • o preço importa, mas não determina a popularidade (se ela está atrelada a vendas não estou certa) da obra em formato digital;
  • há clássicos muito baratos em português (e muitos gratuitos) e em número razoável para que os leitores amenizem  sua fome de letras não contemporâneas;
  • nenhuma grande (ou mesmo média) editora nacional tem obras por lá, portanto, se o desejo de leitura estiver alinhado com o que circula em nossas livrarias físicas, por enquanto, esqueça a Amazon;
  • o crescimento no número de títulos tem correlação importante com a autopublicação e/ou publicação por editoras pequenas (que algumas vezes são apenas prestadoras de serviço de edição e não editoras de fato).

Resta esperar ainda muitos movimentos por aqui, e enquanto isso, insisto na utilidade de "testar" as amostras grátis antes da compra - isso ajuda a economizar tempo e grana.

Por Maurem Kayna

3 comentários:

  1. Por enquanto a Amazon é só pra ler em inglês (recentemente comprei On The Road, The Black Dahlia e uma coleção do H.P. Lovecraft - somando tudo deu uns 10 dólares). O jeito é esperar eles chegarem por aqui.

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  2. O acervo em espanhol também já é bem expressivo, Daniel. Mas a mudança da oferta de títulos em português ainda depende das negociações cOm editoras daqui. A menos que eles mesmos pretendam investir em tradução.

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  3. Excelente matéria! Condiz exatamente com o que eu sinto na prática.

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