quarta-feira, 25 de julho de 2012

Como autor chega no leitor?

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Com certeza vocês já estiveram em uma festa, bar, balada, até bailinho, como chegar na garota? Normalmente o repertório de cantadas é patético, mas independente do texto, há um fator anterior. Tempos mudam, “chegar” deixa de ser uma atribuição totalmente masculina e algumas garotas tomam iniciativa; se a bonitinha que já estava de olho chega em ti, é bem recebida, por mais estúpida que seja a conversa, se outra que não estava interessado chega, fica ofendido, mesmo com um texto inteligente, espirituoso e charmoso, é um assédio. Ser interpelado por quem se deseja é um presente, por quem não se quer, assédio. É uma relação pessoal, direta, em primeira pessoa, autopromoção.

No antigo e decadente mundo editorial, o autor não aborda o leitor, é sempre um terceiro, contratado, treinado, municiado para chegar no leitor, mas sem este ranço pessoal, que torna toda autopromoção escrota, apesar de ser promoção do mesmo jeito, é feita por terceiros, mesmo que a mando da primeira pessoa. Há uma barreira entre autor e leitor, tornando a promoção uma coisa impessoal e menos agressiva, mas muitas vezes mistificando a relação. Para os mestres da mídia esta mitificação do autor é benéfica, as pessoas projetam-se no autor, independente de sua própria personalidade que talvez colidisse frontalmente com o escritor. Existe um autor nas páginas do livro que não é a pessoa real, a que vive no mundo dos vivos, caminha, fala, vai no banheiro e solta pum. O autor assim mitificado é coisas diferentes para todos, uma tela em branco para projeção, não tem este ranço pessoal que nos restringe a vinte ou trinta bons amigos com mesmo espírito de vida.

Imagino que já tenha acontecido contigo: um destes barzinhos, redutos de gente intelectualizada e afetada, cuido da minha cerveja, do tira gosto, aproveito a boa companhia, o papo leve e interessante fora do cotidiano profissional; eis que aparece ele: o vendedor de poesia, que também é autor, desfia seu papo de autor independente que precisa de ajuda e pede um incentivo, sempre monetário, à cultura. Acho que por ter cara de bicho grilo, atraio esses tipos, mas vamos lá, não gosto de ser interpelado, a não ser pelo garçom com mais uma cerveja ou outro petisco a meu pedido, apesar do bar lotado, apertado, estamos em uma conversa privada; antes eu até era cordial, pedia para o rapaz ler seu melhor poema do livreto; o problema é que sou chato com poesia, só leio os muito bons, acho uma arte difícil, digo ao poeta que não gostei e não vou comprar o livro, às vezes até enumero os motivos, sempre ouço que não tenho cultura e que não quero incentivar a arte, fui educado, dei-lhe a chance de provar seu mérito, mas não me cativou, e a grande maioria é ruim de dar dó, como se poesia fosse esta prostituta rampeira que aceita tudo, por isso prefiro dizer que não gosto de poesia. De todos os poetas aprecio uns poucos, e hoje não dou-me ao trabalho de ser gentil com poetas independentes, viro a cara para o lado e aceno um negativo enfático, tocando o enfado com um gesto de mão, pelo menos só ouço ofensas murmuradas, por não querer contribuir com a “cultura”.

Eis-nos aqui, com o livro eletrônico a editora torna-se para o autor um fardo, um atravessador desnecessário, mas para vender o autor deve divulgar seu trabalho, sem isso ninguém sabe que existe, e óbvio, não vende. Todo este trabalho executado pelo autor cai na categoria de autopromoção, a mesma do chato que te aborda na festinha ou do poeta comerciante de boteco. Como o autor pode chegar ao leitor sem esse ranço? O leitor é a bela do baile, será assediado por todos, e o assédio pessoal é sempre mais ególatra que o de terceiros vendendo o primeiro. Com toda certeza, importunar leitores é o melhor jeito de não conseguir leitores, todo autor independente dirá que seu livro é bom, quem diz o contrário? Apenas o apelo à pena ou caridade é mais patético e eu não leio por caridade, apenas por diversão ou excelência. Como o leitor pode filtrar no assédio o que é bom? Como o autor pode evitar o assédio. Como chegar ao leitor de maneira gentil, testando antes com a troca de olhares a receptividade do parceiro?  Como fazer com que o trabalho de Fernando Pessoa não seja deitado fora com seus trastes velhos, como evitar que as partituras de Bach sejam usadas para embrulhar carne na feira?

Alex

2 comentários:

  1. Poxa Alex, cheguei levar um susto quando vi o fim do post, estava esperando por mais uma seqüência e parágrafos que talvez dessem algum mínimo indicio de resposta. Risos

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  2. Maurem,

    A realidade é que tenho pensado muito no assunto, mas não chego em uma resposta, se eu for assediado por todo autor acabarei com algo parecido com minha “poetofobia”, ao mesmo tempo como vou achar bons livros? Gosto da idéia da amostra, mas nos últimos tempos mais leio amostras do que livros inteiros, o “sample” é uma atitude honesta, mas dá trabalho ler vários para achar um bom livro. Esse acesso direto entre autores e leitores é algo novo, ainda não tem uma dinâmica.

    Abraço,
    Alex

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