terça-feira, 19 de junho de 2012

O Preço do Ebook

Aumentar Letra Diminuir Letra



Enquanto ebooks eram vendidos para ler no computador, nunca o mercado se preocupou com o valor destes livros destituídos da forma física do papel e de todos os custos a ele envolvidos, com o surgimento e popularização dos leitores e-ink, depois de sua baixa de preços, o ebook tornou-se uma realidade, tão forte que compete em condição de superioridade com o livro de papel; a partir daí começou a ameaçar a estrutura editorial tradicional, e suas práticas “dinossauricas”.

A guerra entre editoras tradicionais e livrarias on-line é aberta, no mundo todo com diferentes cenários, dependendo dos países envolvidos, cheguei a discutir aqui o preço do livro e sua subseqüente penetração na população, com continhas simples para traçar um paralelo de acesso ao livro entre EUA e Brasil, aqui a questão é outra: os movimentos e estratégias no confronto entre os editores tradicionais de papel e os novos modelos do livro eletrônico.

A primeira coisa para as pessoas de bom senso é o fato óbvio de que ebooks são mais baratos de serem multiplicados e distribuídos do que o livro físico, mas mesmo este óbvio é contestado pelas editoras tradicionais, alguns tem o descaro de afirmar que os ebooks são mais caros que o livro físico, pois em seu mundo o Sol ainda roda em torno da terra, e quem dizer algo contra é um herege, assim, todos os seus lacaios afirmam esta inverdade, desta maneira fica fácil diferenciar os esbirros das editoras, afirmar o absurdo funciona como uma etiqueta, “aqui existe mais um lacaio que vendeu seu cérebro para falar as besteiras das editoras”. Isto acontece aqui no Brasil e nos EUA, pelo que vi também em outros países, com conseqüências ainda mais ultrajantes.

Se vocês quiserem ter uma visão bem lógica do que acontece nos EUA pode ler o blog do Joe Konrath, ele é um autor que foi editado no sistema tradicional e partiu para a carreira "solo"com sucesso, vivendo de sua escrita, ele faz questão de mostrar os absurdos do mercado "legacy", controlado pelas editoras e apoiado por seus asseclas. Lá o governo viu com clareza a combinação de preços para majorar o valor do ebook entre as chamadas "big six", as maiores editoras americanas, e a Apple, em uma reação aos preços mais baixos cobrados principalmente pela Amazon. Estão sendo processados pelo departamento de justiça, que permite que as pessoas se manifestem, e divulga estas manifestações, antes impressas, mas devido à enorme quantidade de cartas, colocaram on-line. O Joe Konrath é um cara que usa a lógica e denuncia as falácias baratas no discurso "legacy", mas o que mais achei absurdo mostrado em seu blog, foram duas cartas: http://jakonrath.blogspot.com.br/2012/05/agent-fail.html , http://jakonrath.blogspot.com.br/2012/05/simon-says.html . Gente que deveria representar escritores e seus interesses, usando argumentos estúpidos (que o Joe pulveriza), defendendo os "legacy" contra a ação justa do DOJ de combinação de preços perpetrada pelas "big six". Leiam e fiquem espantados, como eu fiquei.

Nos EUA a grande briga é que a Amazon sugeriu um teto de U$9,99 para os ebooks, os "legacy" acharam o preço muito pequeno e decidiram justar-se para aumentar os preços e forçar a Amazon a aceitar o valor sugerido pelas editoras. Levaram nas costas uma ação do governo, o que lá é coisa séria, mas os que já firmaram acordo só receberam um tapinha na mão e ficarão no olho da justiça nos próximos anos. A alegação dos "legacy" é que a Amazon através do preço mais baixo, quer fazer dumping para dominar o mercado, existe mais na precificação dos ebooks. Aumentar o preço não significa ganhar mais, pois com o livro mais caro menos pessoas compram, existe uma faixa de preço onde você ganha mais, e no caso do ebook, onde a multiplicação do produto é infinita, este ponto é muito importante. A Amazon não está só favorecendo o consumidor por serem santos, nem apenas praticando dumping, estão colocando as melhores táticas de venda em prática, o que acaba favorecendo o consumidor. As legacys afirmam que é melhor pagar mais no ebook, e é bom o autor receber menos... vá no blog do Joe Konrath e veja os absurdos, não vou gastar tempo aqui por algo que ele fez tão bem.

Você deve perguntar: "E eu com isso?" vai determinar quanto do seu dinheiro você vai gastar para ler, ou quanto você vai ler se tiver pouco dinheiro. No Brasil a coisa é um pouco pior, as editoras querem colocar os preços dos ebooks lá em cima, com raríssimas exceções de editoras menores; muitas vezes o ebook aqui é mais caro que o livro de papel que entra em promoção, e o governo, a despeito da constituição vetar imposto ao livro, cobra imposto na venda do livro digital. Nos EUA alguns livros de papel custam U$2,99, pois as editoras sabem que este é um valor que faz eco no leitor, podendo aumentar a venda de um livro, basicamente, a mesma prática da Amazon, mas elas não se interessam em quanto o consumidor quer pagar e sim em quanto querem ganhar, mas esta estratégia só funciona se todos cobrarem o mesmo preço, tentaram, levaram o processo nas costas. Aqui no Brasil acontece o mesmo, mas o governo joga contra o mercado e contra o leitor; grandes editoras tem no governo seu maior cliente, e assim juntos, jogam contra o ebook, contra o e-reader e contra o leitor; pior ainda, boicotando a diminuição de preços da leitura, sabotam a educação, em um país onde a educação está em ruínas, perdendo leitores nos últimos anos, este deveria ser um crime grave. O mais engraçado é que Dilma e o PT fingem que não são governo e não tem nada com isso quando a culpa é deles, aponto os culpados pois só assim teremos mudanças, não é um problema genérico de "forças ocultas", Dilma e o PT são os culpados. O leitor e-ink é um aparelho revolucionário, pois tem o mesmo conforto de leitura do papel, mas com um custo infinitamente menor para publicar e distribuir livros, assim pode ser um vetor importante de cultura, se baratear o processo fazendo o livro caber no bolso do brasileiro; no mínimo, ler é educar-se, e o leitor não sairá do colégio sem domínio da leitura e por conseqüência da escrita, é uma vergonha alguém terminar o colégio sem saber ler e escrever, o leitor por definição, não tem esta falha.

Um fato que não deve ser deixado de lado é que com o e-reader a pirataria torna-se um nivelador do preço dos livros, quanto maior o preço mais gente recorre à pirataria, se o leitor não achar o preço justo ele consegue o livro por outros meios, assim, o livro legalizado deve ter o preço justo e o processo de compra simples, caso contrário a pirataria torna-se uma alternativa viável.

No artigo anterior já mostrei que para o brasileiro ter o mesmo acesso à leitura que nossos amigos do norte, baseado nos nossos salários, o livro aqui deveria custar R$2,00 a R$4,00, é um cálculo que só leva em conta o poder aquisitivo, há outros fatores no preço, mas é apenas um cálculo do acesso. Tudo no Brasil é mais caro, roupas, computadores, e tudo mais, apesar de nós ganharmos menos, apenas alguns produtos agrícolas não commodities são mais baratos. O problema é que livro, como base de qualquer educação, tendo dificultado seu acesso nos faz mais ignorantes, e esta falta de educação é um problema que se reflete em toda sociedade.

Por incrível que pareça o panorama do ebook no Brasil não é o pior do mundo, o governo francês colocou leis que obrigam autores e editores, de maneira torta, a vender seus livros pelo google...vejam este: http://www.the-digital-reader.com/2012/06/14/frances-writers-sold-down-the-river/#.T-CxrpGGnVo ,e se quiserem ler todos os capítulos da novela é só procurar no google.

Pessoalmente o que me interessa é que o brasileiro tenha melhor acesso aos livros e possa independente de iniciativas paternalistas do governo educar-se. Advogo pela educação consciente e livre, desde antes de sair do colégio, e ela só existe com acesso a livros, se me acham um rebelde hoje, perguntem a quem me conheceu na adolescência. Revolução através da educação!

Alex

7 comentários:

  1. Felipe Freitas,

    Acredito que a educação é a única revolução legítima possível, nós leitores digitais devemos cobrar nossos representantes e tentar divulgar a leitura, peça fundamental para a educação livre e consciente.

    Alex

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  2. Olá Alex,
    muito bom o texto. Gosto muito dos seus artigos e deste blog.
    Quanto ao teto do ebook, "Nos EUA a grande briga é que a Amazon sugeriu um teto de U$9,99 para os ebooks ...", gostaria de saber se você saberia informar se isso também iria valer para a versão ebook dos livros-textos. Se isso também ocorrer para os livros-textos seria um grande avanço/sucesso pois qualquer aluno de graduação sabe que os livros não são baratos (principalmente se você fizer um curso de exatas onde a maioria dos livros são extrangeiros) e poderiamos parar de baixar pdf piratas.

    Raniere

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    1. Raniere Gaia,

      A política da Amazon é transparente no seu programa KDP onde autores auto-publicam, se o livro custa entre U$2,99 e U$9,99 o escritor recebe 70% de royalties, fora desta faixa é 35%. No 70% o autor independente paga uma taxa alta de “delivery” dependendo do tamanho do livro, assim, recebe um pouco menos em realidade; no 35% o “delivery”está incluso. Isto cria um gap para um livro ganhar líquido mais do que o programa 70%, se o preço final for maior que U$9,99. Assim o livro mais caro torna-se muitíssimo menos atrativo.

      Os acordos com editoras são confidenciais, mas há muita gente reclamando que a Amazon força a baixa dos preços, os atuais “livros texto didáticos” estão nesta categoria. Alguns tem versão ebook bem mais barata, outros um pouco mais barata.

      Vou lhe dar minha visão sobre o tema, estes livros texto tem conteúdo em domínio público, mas não o texto em si, pois um trabalho científico publicado vira domínio público. O Brasil financia milhares de pesquisadores em todas as áreas, eles pagam para publicar em revistas que cobram para ler, para o trabalho virar domínio público. Bastaria todo órgão de fomento exigir em seus contratos que o pesquisador escreva um texto didático em seu campo para ficar em domínio público. Resolvido, com o mesmo que gastamos para financiar a pesquisa, teremos todos os livros texto para graduandos, com possibilidade de escolha dos melhores.

      O que acha da sugestão?

      Alex

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    2. Olá Alê,
      Para falar a verdade nunca tinha olhado a política da Amazon (tabela de preços). Muito obrigado pela informação.

      Queria dizer que também compartilho da sua visão sobre o tema. Para a produção de livros (ao menos os de exatas/engenharia que são minha área) a melhor ferramenta é o LaTeX e infelizmente ainda não existe um bom conversor para epub (que apenas em sua versão mais recente possue suporte para símbolos matemáticos).

      Raniere

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    3. Raniere,

      Para colocar equações em epubs eu tenho usado imagens, há alguns detalhes técnicos de tamanho e inserção no texto, se você otimizar para e-reader ele não ficará muito bom em um tablet com tela maior, mas é o melhor no epub 2, com prática parece uma parte do texto. Seria interessante um formato que aceitasse de forma nativa equações, mas acho que mesmo o HTML não tendo otimização para equações, o epub 3 também não terá. Há tanta gente boa de programação na comunidade científica que poderia resolver o problema com facilidade, e quem sabe ser uma funcionalidade do epub 3?

      Abraço,
      Alex

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  3. Alex: seu texto é ousado, coerente, atual e necessário.

    A questão aqui, como tantas outras, é polêmica na raiz.

    Primeiro porque, desde infância, foi e é assim: a maioria das pessoas não tinham acesso (e ainda não tem), apoio e incentivo para suscitarem o hábito da leitura.
    Muito menos o de comprar, por razões obvias.

    Depois, além de enfrentarem obstáculos "naturais" de acesso à cultura em geral, que sempre existiram e persistem, tais políticas 'pilantristas' usam as "máquinas secretas", para dificultarem ao máximo, entre outras coisas, que pessoas possam desenvolver aptidões e capacidades suficientes ao fazerem escolhas e tomarem decisões conscientes.

    Discutirmos se os preços de livros, impressos e digitais, praticados e defendidos aqui no Brasil, são ou não IN-coerentes e IN-decentes, é o mesmo que dizer que todo político é honesto, e que o brasileiro não gosta de futebol. É coisa pra lá de ABSURDA e INSANA!

    Vermos na Internet e na TV, como em filmes de terror, as "caras" das pessoas que atuam nos bastidores, direta e stupidamente, no preço final e o acesso aos livros, é coisa ofensiva.
    Tais 'amebas engravatadas' do cenário nacional são, desde sempre, os mesmos que fazem discursos prometendo um monte de conquistas e trabalharem para "O Povo".

    É uma disparate e desrespeito ao bom senso dos brasileiros.
    Ao lermos um texto como o teu, ou de alguém audacioso o suficiente, é espantoso observarmos que ninguém da "área ligada-e-afetada", se sensibilize de forma profunda por tal questão.

    Instiga-me, graças a Deus, a usar meu e-Reader (como cita aqui o Filipe), e difundirmos o mais que pudermos e em todos os meios possíveis, quais livros trazem informações da Realidade política e social do Brasil. Quem ou o que impede, emperra e trava tal coisa.

    Talvez assim, de forma impávida e atrevida, momentânea e virtual, o governo, os donos das editoras e das livrarias, possam, por bem ou por mal, tomarem alguma porção de juízo, e pararem de impedir que os melhores livros escritos em Português, cheguem às nossas mãos de forma natural, justa e coerente.

    Utópico, talvez. Sonhador, não.

    Apoiemos sem medo ou receio, em todos os sentidos, a viabilização e o acesso completo aos melhores livros (impressos-digitais), em língua portuguesa; já!

    Isso aí!

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    1. Oi Gilmar,

      Não acho o que postou utópico, pois é factível, o e-reader permite; não há exatamente uma polêmica, há pilantrismo sim, pois ninguém pode negar que o acesso aos livros é condição primária da educação, mas as pessoas colocam a culpa nas “forças invisíveis” para não comprometer-se ou ficar taxado de inimigo da educação. Enquanto não se aponta os culpados (quem tem o poder e não toma providências), vamos ficar neste jogo de empurra, enquanto mais e mais crianças são despejadas na ignorância para serem adultos iletrados. Eu aponto Dilma e o PT como os culpados, pois de todos os poderes da república, são eles que teriam maior facilidade para resolver o problema, e ficam se escondendo em burocracias fictícias quando vemos claramente que quando é de seu interesse, nem leis em contrário os barram, a constituição proíbe o imposto do livro, mas eles cobram tornando o livro eletrônico caro e inviável. Medidas podem ser tomadas pelo judiciário, que só atua quando provocado e alguns advogados conseguiram liminares que os que livram do imposto. Também o legislativo pode atuar, já existem dois projetos neste sentido, mas a tramitação é mais lenta e com o executivo contra é inviável. O executivo, comandado por Dilma e recheado pelo PT pode acabar com o imposto em um piscar de olhos, não faz! São contra o livro e contra a educação.

      Continuamos nossa batalha, falando o óbvio que ninguém quer ver, não uma utopia, mas algo que está ao alcance dos dedos e com um custo mínimo beneficiará toda a educação no Brasil!

      Alex

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