terça-feira, 29 de maio de 2012

Ensaio sobre pirataria generosidade

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Minha primeira parada para entender a pirataria foi a bordo de navios corsários, uma vez que é de lá que veio a palavra; logo ao me alistar percebi que no meio dos outros tripulantes, nada havia de comum com os “piratas” modernos, éramos apenas a tripulação de uma nave, que apesar de não parecer, trabalhava para um governo, mas eu não era um marinheiro oficial, apenas mais um dos velhos cachorros do mar. O capitão tinha bem guardado sua carta de corso, e foi financiado pelo rei, navio, mantimentos e tudo, mas nós não tínhamos soldo, dependíamos do que conseguíssemos tirar de outros navios para além das linhas de fronteira. Se estivéssemos em terra seríamos somente mercenários, saqueadores, mas agora no mar, somos piratas. Aqui ninguém compartilha arquivos, vivemos de abordar navios comerciais e pilhar as cargas, sendo que a maior parte vai para o capitão, e dele para o tesouro do rei, a nós trabalhadores do mar o butim é minguado. Aqui não encontrarei respostas para minha pesquisa, desembarco, fugindo do meu alistamento forçado e pego carona em um navio comerciante fenício que me transporta mais longe no tempo.

Nas origens do comércio encontro também um dos primeiros alfabetos usados em larga escala. Não é interessante, junto com os primeiros comerciantes navais “mundiais” encontro o alfabeto que estará presente em nossos livros. Aqui nas galés fenícias, entre remadas bucólicas vejo Tiro progredir transportando de lá para cá aquilo que os outros não tem, a tintura púrpura apreciada pelos nobres gregos é trocada por muito vinho puro, medicinal, vinho pode ser trocado pelo ouro núbio que abunda no Egito. Cada vez que voltamos para Tiro, ela fica mais rica, e por uma fração podemos carregar mais tintura, que neste lado do mediterrâneo é fácil de encontrar, ela está nos caramujos que nunca acabarão. Ao contrário dos meus companheiros de galera, eu sei que no futuro os caramujos não mais existirão, mas não tenho como explicar, devo sair daqui, a brincadeira estava boa, mas as correntes e as eventuais chicotadas me mostram que sou um escravo, sem direitos.

Não foi fácil escapar da academia forçada das galés fenícias, mas o esforço valeu, os meus antigos colegas piratas roubavam coisas preciosas, coisas que todos queriam, pois todos não podiam possuir, a água do mar nada vale, há muito dela, e o mesmo digo para o ar, mas a água doce que em algumas terras abunda, na galé é preciosa, e a nós fiéis remadores era racionada. O púrpura tírio valia muito para os gregos, pois poucos podiam ter, uma veste vermelha era sinal de status social. Pelo jeito o valor das coisas é maior se alguém quer mas não pode possuir. E é assim que enriquecem os comerciantes, transportando o que é comum de um lado, para outro onde é raro e vice versa, e assim conseguem melhores trocas até chegar ao metal que todos consideram de valor, o ouro, que só vale por ser muito raro.

Acho que a pirataria de dados interfere com esta noção de valor, então pode ser interessante ver como se desenvolveu o comércio. Dos fenícios aos persas e romanos o comércio floresceu, mas na queda do império devido às invasões bárbaras, toda comunicação acabou e junto com ela o comércio, e no início os feudos eram essencialmente auto-suficientes. Deste modo devo pegar a porta da história que irá me deixar nos primeiros mercados medievais. Por certa afinidade viajo sob o hábito de um monge agostiniano, o homem feudal não é livre, está preso à terra, assim como toda sua descendência, fugir de sua obrigação com o senhor feudal pode significar penas gravíssimas. Cuidando de um pedaço de terra encontro um tal Shumaker, que além de cumprir com seus deveres é um excelente artesão, com o pouco que sobra consegue confeccionar calçados, os mais bonitos e funcionais vistos na região, é dia de mercado e ele vai encontrar-se para fazer um acordo com outro servo que é bom em trançar a lã das ovelhas, pretende trocar seus sapatos por três casacos de lã para aquecer-se no inverno, o último foi muito frio, sair de perto do fogo era dolorido.

No mercado posso ver as trocas das poucas mercadorias e também uma novidade, um estrangeiro aparece com uma carroça cheia de coisas diferentes, ferramentas bonitas e fortes, Shumaker fica interessado, mas o comerciante quer muitos pares de sapato, que ele não tem. O comerciante interessado, diz que dá próxima vez troca as ferramentas, por sete pares de sapatos, ou em vez de trocar por sapatos aceita prata ou ouro, mas sapatos é tudo que o artesão tem. Volto depois de alguns anos, o mercado cresceu, o senhor das terras agora cobra um tributo para que o mercado funcione, Shumaker tem muitos sapatos, ainda mais bonitos que os anteriores e trabalham com ele três aprendizes autorizados pelo senhor feudal. O mercado cresce, muitos vassalos agora são artesãos e trazem riqueza para o senhor que ganha dos negócios do mercado, ele os dispensa da terra e permite que construam suas oficinas perto do mercado, assim lhes trazem mais dinheiro; logo, além das oficinas, outros vem morar ao redor do mercado, guardados e fortificados em seus burgos. O povo que vive na cidade é diferente do vassalo do campo e muitos almejam viver nas cidades, serem cidadãos, livres das obrigações para com o senhor. O mercado dá dinheiro, os artesãos crescem, a cidade cresce e logo surge uma nova figura, o mercador, o comerciante, viaja entre mercados e compra o que tem de melhor e vende o melhor de outros mercados.

O crescimento do artesão era limitado à sua produção, assim para prosperar tinha que produzir mais, ter mais artesãos trabalhando, além disso, só produzia um bem. O comerciante ao contrário, poderia revender bens de vários artesãos, apesar de nada produzir ele transportava, comunicava bens de um lugar para outro, mas sua prosperidade implicava em carregar mais bens, e cada vez ficava mais difícil, a solução seria transformar os bens em ouro, mais valioso, desejado em todo lugar e fácil de transportar, mas comercializar com ouro não era fácil, assim, foram criadas as moedas, e por conta delas é que o comércio entre burgos cresceu, fazendo com que as cidades passassem a prosperidade dos senhores, que tornaram-se incômodos ao comércio.

Mas o que tudo isso tem em comum com nossos bucaneiros? Pilhar navios não é novidade, vi naves fenícias sendo atacadas por gregos, nem nossos piratas se parecem com os modernos, aliás, quanto mais me aprofundo na história vejo que o nome pirataria é pejorativo e nada tem em comum com a troca de arquivos digitais. Ao que me parece, compartilhar algo que pode ser replicado sem custo viola as leis básicas do mercado, o sapateiro não poderia fazer mais sapatos sem maior estrutura, mesmo o comerciante tinha que carregar seus produtos de um lugar para outro, e se as pessoas comprarem um e partilharem, os preços caem, pois ninguém mais vai precisar, se o ouro ficar comum e todos poderem ter ouro como tem água do mar, ele também perde seu valor comercial.

Um arquivo digital pode ser replicado sem custo, e isso é um precedente que nunca houve na história do comércio, é uma violação da regra, um produto só é comercial se ele é restrito de alguma forma, o que é acessível a todos não tem valor comercial. Elaborando estas questões no mosteiro que estou hospedado, outro irmão me vê perdido em pensamentos, pergunta o que me aflige, como explicar um arquivo digital para um monge medieval? Tento o melhor que posso explicar meu dilema, ao que ele mostra-me um trecho do livro que carrega consigo: “Caía a tarde. Agrupados em volta dele, os discípulos disseram-lhe: Este lugar é deserto e a hora é avançada. Despede esta gente para que vá comprar víveres na aldeia. Respondeu: Não é necessário: dai-lhe vós mesmos de comer. Mas, disseram eles, nós não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes. Trazei-mos, disse-lhes ele. Mandou, então, a multidão assentar-se na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, elevando os olhos ao céu, abençoou-os. Partindo em seguida os pães, deu-os aos seus discípulos, que os distribuíram ao povo.Todos comeram e ficaram fartos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios. Ora, os convivas foram aproximadamente cinco mil homens, sem contar as mulheres e crianças.”

Muito interessante, tinha ali o relato do primeiro pirata moderno da história, imagino que os comerciantes da aldeia ficaram bravos, assim como os padeiros e pescadores, seriam eles agora desnecessários? Isto nada tinha em comum com os desagradáveis piratas que encontrei, foi generosidade, uma festa, mas os primeiros peixes tiveram que ser capturados, não teria o pescador direito sobre os peixes multiplicados? E o pão? Não teria também direito o padeiro?

A música não aparece sem um compositor, o livro não aparece sem um autor, é obra de homens que trabalharam muito, o que precisou Beethoven para compor obras tão magníficas? E Shakespeare? Se fosse fácil teríamos centenas ou milhares de obras no mesmo nível, mas não, foi obra do gênio de um homem. Qual o seu valor? O problema é que toda nossa noção de valor vem da relação mercantil. Apesar de ser essencial para a vida, sem ele não vivemos mais que três minutos, o ar não tem valor de mercado, e se um dia tiver, esta será uma terra maldita!

Volto agora ao conforto do meu escritório, o passado do comércio me traz algumas idéias, mas não todas. Os artesãos e os comerciantes queriam ficar mais ricos, prosperar, mas em realidade, o comerciante tem maiores possibilidades, pois pode atender a mais pessoas, de tudo que vende não precisa preocupar-se em produzir, o que faz com que a estrutura necessária para crescer seja mais fácil que do artesão. Logo os produtos da terra passaram também a aparecer nos mercados, vendidos pelos senhores, abastecidos por um exército de vassalos, os comerciantes poderiam lucrar com mais este produto. O comércio prosperou, mas a relação comercial não é uma relação humana, nesta interação tudo que quero é vender minha mercadoria com maior lucro possível, e o comprador quer gastar menos, é uma relação mesquinha de interesse, e quanto mais avarento melhor, mais eu ganho, se só eu tenho a mercadoria que o cliente quer, o preço é o que eu disser, mas se outros tiverem e venderem mais barato eu não vendo nada, isto chama-se competição. Ainda é só uma relação interesseira, inumana, comercial; generosidade? De jeito nenhum! Dá prejuízo.

Em minha casa tenho livros, muitos, a grande maioria só li uma vez, estão lá à minha disposição para ler novamente, e estão lá para todos que eu emprestar, tenho livros que já circularam nas mãos de mais de sessenta pessoas diferentes, e voltaram, tenho livros que já circularam e não voltaram, não sei quantas pessoas os leram, espero que ainda circulem; nunca deixei de emprestar livros; lá, parados nas minhas estantes tudo que fazem é coletar pó, mas quando lidos vivem novamente, é melhor guardar para compartilhar do que para juntar pó.

Até um tempo atrás ninguém nunca me encheu o saco ou chamou-me de ladrão por eu emprestar livros, muito ao contrário, e só não emprestei mais pois não podia. O livro físico trás uma limitação em si, o livro eletrônico em conjunto com a internet é ilimitado. Ter minha biblioteca era mais que acumular livros era ter à mão fontes de pesquisa, em caso de dúvida meus livros estão lá, para serem consultados quando necessário, mas hoje tenho a internet, e muito do que recorria aos livros está na rede, mas nem tudo, com o ebook logo tudo pode estar na rede. É muito preocupante quando o que era um direito passa a ser criminalizado, é perda de direito. Antes eu era um leitor, interessado em compartilhar e difundir a leitura, agora sou bandido! Pelo menos sou tratado como um em potencial, pelos mecanismos restritivos do DRM.

Vão me dizer que eu sou contra o autor, e violo o direito autoral, mas vamos analisar estas afirmações à luz do mercado. Se a intenção é proteger o autor, por qual motivo, não é ele a receber a maior receita com a venda do livro? Se a editora é a favor do autor e de seu direito como pregam, por que não dão uma fatia maior do próprio direito para o autor, que é quem menos ganha na cadeia e nem tem como verificar se seus minguados rendimentos são realmente o que lhe é devido.

Como vimos em nossa excursão ao passado do comércio, o autor é o produtor, a editora é o comerciante, o intermediário que compra do autor para vender ao leitor, em realidade vende para livrarias, que depois vendem para o leitor. A editora é apenas o intermediário, acreditem se quiser, já vi gente dizendo que o trabalho do editor vale mais que do autor, pois revisa, diagrama, imprime e distribui, o autor só escreve, como se isso fosse pouco, apenas um detalhe, peça sem o qual o livro não existiria. Mas se pensarmos em termos de mercado como é a relação editor x autor? Existem muitos autores querendo ser publicados, há grande oferta de autores, mas as editoras tem capacidade limitada de publicação, portanto quem sobra é o autor, ele é o bem sem valor, comum, e nem vou entrar na questão da qualidade do material, pois aí complica muito, mas para o editor não há diferença de qualidade, há muitos autores e por isso pode oferecer pouco. Mas não é só mercado, se fosse, os valores oferecidos para autores iriam variar muito, e não é o que ocorre na realidade, de editora em editora os acordos são muito semelhantes, só autores com seu próprio público tem preço diferenciado. Em muitos paises esta homogeneidade no mercado é investigada como suspeita de cartel.

Vejam que o direito autoral é defendido em nome do autor, mas ele é quem menos ganha na cadeia do livro e ao mesmo tempo o mais desvalorizado pelas editoras, não lhe parece um contra-senso?  A não ser que exista algo escondido neste meio.

O autor é o detentor do direito autoral, mas este direito é vendido barato para as editoras, e são elas que tem o direito, não o autor, que é a parte que vale menos. É a editora que mais se beneficia do direito à obra, pois ela pode vender para outros, imprimir, ou não fazer nada, o autor depende da editora para vender, se não o fizer o autor não ganha nada além do adiantamento, se é que ganhou algum. E se a editora não faz o seu trabalho e deixa o autor encostado ou esgotado? O autor não pode fazer nada. Depois perguntam por que certos autores ficam felizes de verem seus livros compartilhados, pois antes nunca foram divulgados, caindo no buraco negro da editora, pode parecer que o escritor deve ser grato por ser revisado, diagramado, impresso e distribuído, mas se o livro não tem divulgação não vende e o autor nada ganha, pela pirataria alguns autores no vácuo voltam a ter suas obras vivas, lidas, comentadas e divulgadas, e até ganham mais do que no limbo da editora.

Para um invento, tem-se a patente, que dura no máximo vinte anos e se não for produzida fica aberta. O direito autoral dura setenta anos depois da morte do autor, por que esta diferença? Procurem na internet pela lei Walt Disney (http://en.wikipedia.org/wiki/Copyright_Term_Extension_Act), quem é que está sendo protegido?

O autor escreveu e deve ter seu direito protegido, ele deve ter seu trabalho remunerado, assim como a editora, que investiu seu dinheiro para publicar o autor, e ganhar mais que o próprio. Se distribuírem seu conteúdo de graça, o valor do livro cai e todo trabalho e investimento é perdido. Se o livro vende muito ele torna-se parte da cultura popular, uma parte privada, protegida pelo direito autoral, as editoras investem para que o livro ocupe uma parte significativa da cultura popular, mas fazem questão de cobrar um aluguel desta parte. Por outro lado empresas gastam muito mais do que em um livro para veicular trinta segundos de um filme comercial gratuito, e se você distribuir este trabalho estará fazendo um serviço de divulgação importante, a propaganda também visa apropriar-se de parte da cultura, mas tem um objetivo além, te convencer de comprar um produto, serviço ou ideologia. O livro compartilhado acaba com o produto em si, a propaganda compartilhada ajuda o produto, pois nada lhe entrega, a não ser um jeito ladino de te convencer de algo que não quer ou não precisa.

Com o livro acessível a editora perde o seu poder de barganha, que é negar a quem não pague o valor que ela estipular, o acesso ao conteúdo do livro. Ainda é uma negociação, e quem pode mais paga menos, a mesma relação comercial inumana, que não leva nada mais em conta que o poder de negociação. A possibilidade de cópia é uma arma na mão do consumidor, e quanto mais se pede pela obra, mais é tentadora a cópia.

Com o e-reader a literatura ganha o conforto do papel, antes a falta de conforto confinava a literatura à sua forma antiga, mesmo existindo já há muito tempo o livro eletrônico. Bacon e Espinoza já estavam disponíveis em domínio público, mas não era confortável de ler, e para ter acesso ao pensamento destes grandes homens era preciso recorrer ao intermediário que o imprime em papel, hoje não mais. De posse do aparelho o leitor pode ler estes autores com conforto e sem pagar para os intermediários. É o leitor digital o grande facilitador da literatura e só por causa dele é que hoje se preocupam tanto com o compartilhamento de livros, pois o que era limitado no livro de papel, hoje na internet torna-se muito simples, e o e-reader torna a leitura digital confortável.

Antes, por ser caro editar um livro e imprimir no mínimo duas milhares de cópias, os autores precisavam das editoras para os financiar, mas são muitos autores e pelo mercado, este impessoal e inumano, o autor perde valor, e a editora pode pagar pouco pelo direito autoral de uma obra. Com a internet e o e-reader o custo de publicar um livro cai a uma fração insignificante do que era antes e o autor pode ficar livre da editora vendendo seus livros diretamente ao leitor. Se você mora ao lado de um produtor de tomates, vai comprar direto, mais barato e prático; a internet nos coloca vizinhos de todos os autores do mundo, por que recorrer ao intermediário?

Agora sim a proteção ao autor faz sentido, mas ainda há o compartilhamento, e aí entra uma variável que nunca foi pensada na história dos mercados, o valor humano. Em vez do vendedor escolher o preço, e com ele limitar o acesso ao livro, o preço de certa forma depende do que acha o leitor, e valor monetário que fazem parecer absoluto, é em realidade relativo, e vou explicar por que: se dou a um pedinte um real, isto corresponde a X por cento da minha renda, mas imagine o mesmo X de um trilionário? Provavelmente mais do que eu tenho, e isto é um valor humano. Em uma ilha deserta ouro tem menos valor que comida e água potável, necessários para sobreviver, pois o ouro tem o mesmo valor das rochas. A facilidade em compartilhar um arquivo faz com que o leitor julgue seu valor se justo ou não, pois existe a alternativa gratuita, se pensar apenas no mercado, é a segunda opção que irá optar, é o comum no nosso dia a dia, mas quem são aqueles que acham que existe valor no trabalho do autor e que acham que podem pagar o que também pode ser conseguido de graça? É uma outra forma de pensar, fora do mercado inumado, que é a prática comum dos avaros; um milionário pode dar uma esmola de quinhentos reais e ser considerado generoso, mas para ele isto representa menos que a moedinha de um real da minha carteira.

É estranho pensar que um autor deva viver de esmolas, e uma doação espontânea é assim comparada, o mendicante vende sua comiseração, o autor sua excelência, seu trabalho. Há uma diferença no pensamento, no modelo social que vivemos, e isto é o que torna a prática do compartilhamento confusa de se avaliar. De um lado querem forçar leis que vão reduzir os direitos civis em favor do velho mercado, ganancioso e desumano, e não querem pensar em outra escolha, generosa e humana.

Compartilhamento é generosidade, pirataria é crime, onde está a fronteira? Vale reduzir direitos civis em favor do mercado avaro que vem desde antes dos fenícios? O mercado que já vendeu até seres humanos?

O compartilhamento ou pirataria nos força a pensar em algo que temos como normal, mas é desumano, o mercado quer dizer que ao compartilhar um arquivo você é um ladrão, e o roubo normalmente está associado à violência, o problema é que ninguém se sente ladrão ao emprestar um livro ou ao compartilhar um arquivo, eles querem que as pessoas se sintam criminosas por algo que sempre fizeram, e foi antes classificado como generosidade, mas generosidade não existe no comércio, nas nossas relações comerciais; mas é, e deveria ser, uma característica humana, nobre, rara e infelizmente desvalorizada, pois os generosos ficam pobres.

Alex

8 comentários:

  1. Boa tarde Alex, como sempre gosto dos seus textos longos mais profundos. Eu sei que muitos não pensam como eu, mais não acho que fazer download de livros é crime ainda mais quando muitos títulos principalmente em português não existiam há dois anos atrás, hoje sou compradora fiel da Amazon e Kobo, mas antes abaixei alguns livros "grátis" e nunca me achei fazendo coisa errada, porque sempre vi como uma biblioteca, eu pegava lia e deletava depois. Graças a Deus uma parte do meu salário sempre reservo para comprar livros, mas sei que nem todos conseguem guardar um dinheirinho todo o mês pois todos temos despesas, eu não vejo como errado fazer download para ler.
    Se estiver errada me perdoe.
    Abraço, Marta.

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    1. Oi Marta,

      Aqui somos um pouco na contra-mão da moda, internet não é só para textos curtos e superficiais, aliás, a Maurem sugeriu que estes textos mais longos fossem também disponibilizados em .mobi ou epub, o que você acha? Ajudaria a leitura?

      Você é minha veterana no e-reader com o cool-er, eu sou da geração Sony PRS-650, que ainda uso, eu sei, o brilho é chatinho, mas escrever nas páginas é um vício que peguei. Como você, eu era leitor de papel, e na minha época de universidade nem internet tinha, muitos dos bons livros textos, eu comprei, mas a maioria dos livros que meus professores usavam eram tão novos que não chegavam ao Brasil, era antes da Amazon, advinha se a xerox não comia solta em toda universidade, a biblioteca quando muito tinha dois exemplares, o problema é que xérox é ruim de guardar e tudo mais; tem um livro que nunca consegui, apesar de tentar comprar o original por todos os meios possíveis e inimagináveis, é a edição antiga do Ecology do Begon, se tivesse em ebook baixava no ato, sem cerimônias; na época que a Amazon procurava livros em sebos, ele ficou na minha lista por muito tempo e... nada. Queria a mesma edição que usei, que é muito boa, mais científica, as novas ficaram mais didáticas imbecilóides. É errado?

      Alex

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    2. Oi Alex seria legal disponibilizar seus textos em mobi ou epub, acho mais fácil a leitura no e-reader do que no computador é mais confortável. Também sou da época de xerox na faculdade, que os próprios professores muitas vezes disponibilizavam para nós, fora muitas vezes ir na biblioteca da faculdade ou no centro cultural aonde era "freguesa" sempre para fazer os trabalhos escolares e universitários. Agora outro tempo... muito mais fácil, sempre falo para meus sobrinhos, vcs tem tudo na mão aproveitem.

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    3. Marta,

      Os próximos textos longos vou colocar versões epub e .mobi. Acho um contra-senso as coisas hoje serem mais simples e as pessoas aproveitarem menos, quanto não gastamos em xérox? Estudar na biblioteca com os livros que não podiam ser retirados, meses de pesquisa bibliográfica, anos para conseguir um livro. Será que facilitar as coisas é errado? Sempre achei que com tudo mais fácil as pessoas poderiam ir mais longe.

      Abraço,
      Alex

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  2. Maravilhoso texto... simplesmente maravilhoso!

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    1. Valië,

      Legal que gostou, vamos abrir o debate.

      Alex

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  3. Maravilhoso texto... simplesmente maravilhoso! [2]

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    1. Raniere Gaia,

      Legal que gostou, vamos abrir o debate.[2]

      Alex

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