quinta-feira, 19 de abril de 2012

E-books, para quem??

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Depois de gastar alguma energia analisando algumas das razões para os e-books não terem ainda "acontecido" no Brasil e ver as respostas de quem se interessa por e-books e seu contexto ou de quem se interessa por livros simplesmente, resolvi fazer o caminho inverso, ou seja, buscar os motivos e caminhos pelos quais ele poderia decolar.
 
E, para começar o percurso, imagino que cabe dissecar um pouco: 1) a necessidade a ser atendida (e é só isso que cabe nesse post) e 2) quem é o cliente potencial de um e-book. 
 
Como a proposta não é uma análise completa de mercado, vou me permitir certa generalização do que seja esse cliente - o leitor, procurando olhar para as características que seriam comuns entre a maioria dos leitores (os que conheço, vale frisar) independente do gênero que possam apreciar ou preferir. Arrisco, então, elencar as seguintes como principais:
1.    gosto pela atividade de leitura (entendendo como leitura não a mera decodificação do agrupamento de letras, mas a busca dos sentidos possíveis do texto e tendo nisso fonte de satisfação)
2.    certo apreço pelo livro enquanto objeto ou ao menos pela sua funcionalidade
3.    disposição para gastar com a aquisição de livros, mesmo que dentro de certos limites de custo, conforme suas possibilidades financeiras ou o tamanho da fissura por determinado livro
4.    hábito de intercâmbio de impressões e de obras (vulgo empréstimo de livros e bate-boca sobre as leituras que mais interessam)
 
Coloco somente esses aspectos sabendo que uma análise mais profunda levantaria outras questões, talvez mais associadas a determinados nichos dentro do grande grupo "leitores". Mas me detenho nestes como ponto de partida. Todas as quatro características, se tratadas como necessidades do leitor, podem ser atendidas (e bem)  pela leitura de um e-book, respeitadas certas condições. Vejamos.
 
Se ler é o prazer que se busca, tomando como referência o prazer de ler um livro "tradicional', que envolve o conteúdo em si e aspectos físicos (que repercutem no conforto da leitura) como a fonte utilizada, qualidade da diagramação, cor e textura do papel, bem como o formato e peso do livro, não é difícil concluir que um e-book bem diagramado, num formato que permita a adaptação eficaz a diferentes dispositivos portáteis de leitura cumprirá muito bem o seu papel. E podemos ir além, para aqueles leitores vorazes que consideram o peso do livro um incômodo para o seu transporte diário, ele apresenta vantagens. As vantagens não são as mesmas se consideramos diferentes dispositivos de leitura, mais especificamente tablets x e-readers. O tablet embora tenha a suposta vantagem (econômica, talvez?) de ser multifuncional, não traz o melhor desempenho para leitores vorazes, e isso por razões simples: bateria dura menos (muito menos!) a tela retroiluminada para leituras longas não é tão confortável como o papel e o peso é maior.  Mas, se o leitor voraz em questão não dispõe de recursos para ter outro dispositivo dedicado ou considera essa uma decisão economicamente desinteressante, sim, o tablet pode cumprir bem a função. E o que vemos no cenário atual? Alguns e-books com certa preocupação de diagramação eficaz + uma enxurrada de edições com aspecto sofrível + uma discussão volumosa sobre a necessidade imperiosa de adicionar funcionalidades (?) ao formato obsoleto dos livros tradicionais. Quanto a esse último aspecto, farei um post específico mais adiante para detalhar a novela dos trâmites de um modesto e-book no mundo do iBooks Author e iTunnes connect, mas resumo aqui que o retorno que recebi é de que o e-book precisa de adicionalidades que melhorem a experiência do leitor efetivando-o como um enhanced e-book. Ou seja, porque a simples (?) leitura não serve?! Ok, antes que haja manifestações, era apenas um texto meu, nenhuma obra prima, mas sei que se fosse uma obra prima de algum grande mestre da literatura receberia a mesma avaliação, caso contivesse apenas texto (!?!?).
 
Mas vamos adiante, o apreço pelo livro enquanto objeto é uma questão incontornável. Eu gosto de livros, embora não chegue a ser bibliófila de carteirinha, então, não deixei e provavelmente não deixarei de comprá-los, apesar do pó, do risco de traças e do espaço que consomem em casa. Livros a meu redor alegram meu ser. Mas não posso dizer que o e-book também não me dá isso, pois além de poder ler em qualquer lugar sem precisar carregar mais de 300 g e com a mesma sensação visual da leitura no livro físico, a satisfação de ter até mil livros na bolsa... ah, uma companhia e tanto!  Essa funcionalidade é impagável meus caros, mesmo que ainda não tenha uma biblioteca desse tamanho no meu kindle, a centena de títulos que carrego já é garantia de leitura para qualquer estado de espírito em que me encontre.
 
Quanto à disposição para gastar, está sempre atrelada às possibilidades financeiras de cada leitor (e notem que me refiro somente aos que são leitores, nem estou aqui pensando naqueles que poderiam vir a ser porque isso não está vinculado somente ao cenário do e-book... é um contexto maior e mais complexo), mas é perfeitamente natural que o leitor espere gastar menos (bem menos, aliás) pela leitura do e-book. Isso, especialmente neste momento em que a maioria dos leitores não tem acesso ao conforto da associação e-reader + e-book no seu dia a dia, não vendo, portanto, as possíveis vantagens dessa modalidade de leitura. Ou seja, ainda é preciso conquistar esse leitor e ninguém quer pagar caro para ser conquistado, certo?  Hoje vemos basicamente duas situações: há editoras (poucas e pequenas) que conseguem produzir e-books com certo cuidado visual e a preços atrativos (na casa dos 10 reais) e as demais, que parecem ter estipulado uma regra geral de que o e-book tem preços 30% menores que o da versão impressa, podendo acontecer da versão impressa entrar em promoção e ficar até mais barate que a versão e-book. Promoções de e-books eu ainda não assisti nenhuma, se alguém tiver notícia, me conte, por favor.
 
Por fim, o hábito de empréstico / troca de livros não está viabilizado com sucesso para os leitores de e-book nem mesmo onde o mercado já decolou. Todos os leitores que conheço e com quem já interagi tem esse costume, com variações que vão desde a restrição de empréstimo de certas obras ou a certos leitores. Sim, há aqueles, muito ciumentos de seus volumes, que não cogitam emprestá-los em circunstância alguma, mas não são a regra. E o e-book, especialmente com a limitação de propriedade imposta pelos  modelos vigentes de comercialização com DRM, não possibilita essa prática. O que pode parecer um aspecto secundário no cenário, se analisado do ponto de vista do leitor, dos seus hábitos e daquilo que ele pretende ver satisfeito, é uma lacuna significativa que só perderia importância com uma redução tão expressiva dos valores de compra do e-book que viabilizasse o seu acesso a qualquer leitor, tornando a prática dos intercâmbios de obras totalmente desnecessário.  
 
Colocado todo esse blá blá blá, ficam ainda mais perguntas. Será que as editoras não enxergam esse cenário? Qual será o grande impedimento para a montagem de um modelo de produção e comercialização capaz de atender às necessidades do cliente (leitor)? A disponibilidade de e-readers (de boa qualidade e com preços praticáveis) como forma de leitura de e-books realmente atrativa é um fator determinante? Digam aí? Eu confesso que já ando um pouco zonza tentando ver uma solução para esse emaranhado todo.
 

2 comentários:

  1. A resposta é simples... tão simples que é um tiro no próprio pé se você pensar bem: Ganância.

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  2. Acho que a pergunta não é nem "ebooks para quem?". É "livros para quem"?
    O buraco é mais embaixo. Lemos pouco. Então, comprar ebooks para que?

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