terça-feira, 27 de março de 2012

Uma Palavra, uma Frase, um Parágrafo, o Livro

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Quando se inicia uma busca, sabemos o que procuramos, nem sempre existe, procura-se inutilmente aquilo que a natureza não produziu, mas existem rumores, pistas de que alguns já chegaram e estas alimentam nossa aventura.

Após cinqüenta anos o caminho desaparece, procuramos, mais por hábito do que pela motivação inicial de encontrar o tesouro inestimável que habita o mundo imaterial dos sonhos. A rotina da busca toma o lugar da ventura do êxito, na segurança do caminho conhecido, seguimos autômatos realizando as mesmas tarefas, pois já não temos ânimo para mudar os caminhos, nem paixão para buscar novos sonhos.

Como sempre no mesmo horário, no mesmo dia da semana, uma vez ao mês entro na loja e passo a olhar os velhos tomos de sabedoria anciã, há sempre novidades, nunca a que procuro, pergunto preços, barganho, às vezes compro se o valor é razoável, uma lembrança, uma pedra no caminho da busca. Muitas novidades, mas não ele; grandes, pequeninos, conservados, destruídos, coloridos, sérios, nobres, vulgares, mas não ele; velhos conhecidos, novos desconhecidos, amigáveis, repulsivos, mas não ele; caminhos trilhados, caminhos a trilhar, estórias a contar, histórias a afirmar, todos no caminho, mas não ele, o fim prometido, o sonho partido. Os olhos adestrados perfazem a mesma tarefa, a procura da imagem: a pista que encontrei a quarenta anos, novas imagens, nunca a que procuro.

Na rotina as pessoas representam pausa, infelizmente depois de tanto tempo todas faces já são conhecidas, não de nome, não de conversa, mas de vista, sempre os mesmos hábitos. O homem calvo, agora com os cabelos mais rarefeitos do que na época que primeiro o encontrei, sempre um terno impecável, bem cortado e fora de moda, uma visão de trinta anos; compra, compulsivamente, muitas vezes nem pode carregar, e lá está ele a fazer a felicidade do alfarrabista. Sujeito perigoso, nunca leu dos tomos além da capa, mas sabe julgar o desejo nos olhos do comprador, um leve descuido e o preço vai nas alturas, na menor demonstração de interesse a cifra cresce. Nenhum deles tem o preço marcado, é preciso negociar com o alfarrabista, tarefa das mais perigosas, em cifras astronômicas ele pode bloquear-lhe o caminho, fechar uma porta que não mais se abrirá.

Já de braços cheios o homem calvo vai ao alfarrabista, coloca cada tomo sobre o balcão e recebe o veredicto, uns vão para a pilha da esquerda outros na direita. Ele! Quase desmaio, está lá, meu fim de jornada, por sorte o alfarrabista não me vê, tento ao máximo esconder minha excitação, dou uma volta, mais calmo chego a tempo de vê-lo ir para a pilha da direita. Qual ele irá levar? Torço com todas as forças para que seja a esquerda, a negociação continua, tento ao máximo acalmar-me, a pilha da direita está mais alta, acho que será esta que irá ficar. Eles terminam, com a direita bem mais alta, o homem calvo afasta-se do balcão, não escolhe nenhuma das pilhas, vai pegar mais livros, de onde estou não consigo ouvir a conversa e o livreiro sempre fala preços em tom muito baixo para que os outros não o ouçam, o custo é uma variável flutuante, pessoal, não reflete o valor do tomo, mas o desejo que o alfarrabista consegue ler em seus olhos. Nisto estou lascado, preciso controlar-me, mostrar indiferença, ou aquele que procuro estará para sempre longe de minhas mãos.

O homem calvo volta com mais cinco livros, coloca o primeiro sobre o balcão, pilha direita, o segundo e o terceiro vão para a esquerda, o quarto e o quinto para a direita, alta o suficiente para esconder de minha visão o alfarrabista. Um talão de cheques, preenchida e destacada a folha vai para as mãos do alfarrabista, não é preciso ser treinado para ver o desejo em seus olhos, pega a pilha da esquerda e um suspiro de alivio sai de meus lábios, só preciso esperar para os livros da pilha direita serem recolocados no mostruário, mas o homem calvo, em vez de esperar pelo embrulho com os livros da pilha esquerda, pega de maneira desajeitada a pilha direita e dirige-se para a saída. Não consigo acreditar, estive tão perto e agora está perdido, preciso saber quem é o homem, antes meu conhecido, agora meu inimigo, temos o mesmo objetivo. O alfarrabista sabe, o conhece, mas como vou tirar tal informação de figura tão ladina? Aproximo-me do balcão, difícil esconder meu desânimo, aponto para um — Quanto?

— Trezentos milhões.
— E este?
—Quatrocentos milhões.
— Muito! Dou apenas duzentos.
— Nada feito, já tenho comprador.
— Duvido.
— Vai ver, semana que vem não vai estar mais aqui.
— Por esse preço não sai.
— O preço é esse.

Volto a olhar com pouco interesse os livros, sabendo que o único que procuro, a minha jornada, foi-se; segundo consta é único, o original e as outras nove cópias feitas pelo monge copista foram destruídas, só sobrou um, o exemplar que o abade guardou para si e navegou nas mãos de seus herdeiros eclesiásticos até desaparecer na fumaça da guerra e reaparecer nas mãos de um erudito do século XVII, que aparece segurando-o em um retrato que agora está exposto em um museu obscuro nas ruas de Amsterdã. Lembro de cada passo desde o início da busca, as viagens a museus, bibliotecas e livrarias. Os indícios rarefeitos até encontrar a capa reproduzida com precisão pelo pintor. Os caminhos da herança e novamente a guerra, fazendo o mundo enlouquecer e a trilha esfriar; até hoje... eu o vi, a poucos metros, e agora foi-se. Não há de ser nada, estou mais perto do que nunca. Continuo a olhar os livros no mesmo ânimo negro, bolando planos para encontrar o homem calvo. Passo o dedo pelos livros, um grande, um pequeno, outro pequeno, ele! É como tomar um choque, lá estava ele sob meu indicador, nos momentos que não olhei, eles tiraram o tomo da pilha da direita e recolocaram no mostruário sem que eu percebesse. Preciso controlar-me, o alfarrabista não deve perceber, tento voltar à minha indiferença, pego o livro e mais três, tentando mostrar apatia vou colocando um a um sobre o balcão para receber o veredicto.

— Trezentos e cinqüenta milhões.
— Cento e cinqüenta milhões.
— Setecentos e trinta milhões — meu coração aperta diante de soma tão absurda, coloco-o sobre o balcão.
— Dez.
— Milhões?
—Não, só dez.

É um teste, como reajo? Tiro uma nota do bolso, cinqüenta, ele me devolve quarenta. Pego o livro e sem acreditar dirijo-me para a saída, desconfiado, há aí algum truque, passo a soleira imaginando que meu mundo se desmoronará, mas nada acontece, protejo a visão do livro com o casaco e dirijo-me à minha casa, assim abraçado, desconcertado.

Não consigo tirar a impressão que aí há algum truque ou trapaça, como algo de valor tão inestimável pôde custar tão barato? Sem demora vou ao meu canto e começo a ler, não paro até terminar. Magnífico, não há dúvida, é o verdadeiro, só ele poderia ser tão bom, é um pergaminho estranho, leve, muito fino, tão fino que não é possível saber o número de páginas. Deliciado e realizado, como alguma coisa, vou à janela olhar o céu e decido ler novamente. Impressionante, uma nova estória mostra-se à minha frente, ainda melhor que a primeira, se é isto possível. Foram semanas, lendo e relendo o livro, quando o procurava, mesmo depois de tantos percalços e dificuldades, não tinha idéia das maravilhas que ali se encerrava, meu sonho mais selvagem não chegou aos pés do que encontrei em suas páginas. Como algo de valor tão inestimável pôde custar tão barato? Neste a ganância do alfarrabista não conseguiu penetrar.

Depois de ler muito, vem-me à cabeça uma idéia, partilhar tal maravilha, é muito egoísmo ficar com tal benção apenas para si. Recomendo e empresto ao meu melhor amigo, pois sei que voltará. Quando ele sai o livro ainda está em minha estante, não deve ter acreditado no que disse, e decidiu não pegar o livro. Bom, não posso forçar. Uma amiga me pede emprestado, mas também não o leva, pois ele continua na minha prateleira, empresto, muitas vezes, mas ninguém o leva e ele continua ali, na minha coleção.

Algumas semanas se passam, continuo a lê-lo, deleitar-me no interior de suas páginas, meu grande amigo liga-me e agradece pelo empréstimo e pede para ficar com o livro mais um pouco; fico chateado com a mentira, na certa esqueceu aqui, acha que perdeu, e pede mais tempo para encontra-lo; não há de ser nada. Mas o mesmo ocorre com todos que emprestei o livro, não consigo entender.

Visito meu amigo, e qual não é minha surpresa de encontrar o livro sobre a sua mesa, ele me pede mais um tempo de empréstimo; atônito, não tenho como negar. Volto à minha casa e lá está ele, no seu lugar. Há algo de maravilhoso, talvez um pouco de magia, nada mais há a falar, é apenas tecnologia.

Alex

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