sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Crise de Validação

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Nos tempos modernos usar a palavra crise é quase um sacrilégio: crise dos bancos, crise do capitalismo, crise da ética, crise na política e crise econômica; resulta do agravamento de uma situação incômoda, mas a percepção de uma crise pode ser algo bom, indicando uma consciência de que mudanças devem ser feitas para alterar o estado das coisas; são problemáticas quando não resolvidas, mas sua resolução nos leva a melhores planos. Quanto mais adiamos a mudança, mais a crise se agrava.

Validação e sua crise é um assunto muito discutido nos círculos de mídia e crítica profissionais, e o agente que detonou esta crise de validação é o acesso dado às pessoas de fora do círculo de validação pela internet, e agora pelo ebook, lido no e-reader. Quando alguém escreve em um jornal, espera-se que tenha propriedade para tanto, assim, mesmo sem ler o escrito, só o fato do texto figurar em um jornal lhe confere validade, uma certa autoridade compulsória do meio onde o texto figura; o mesmo pode ser dito do livro em papel: confere certa autoridade. A crise resulta do contato entre as mídias de acesso irrestrito e a tradicional. Qualquer um pode escrever um blog, existem bilhares, dos piores aos melhores, se todos os blogs fossem mal escritos, não haveria crise de validação na mídia atual, mas existem os muito bons, muitíssimo superiores aos textos que encontram-se impressos em jornais, revistas e livros de papel.

Antes, a mídia tradicional era única, não encontrava voz de contestação, assim o que nela se escrevia, era automaticamente tido como superior à voz solitária de um zé ninguém sem acesso aos canais de validação, mesmo que seu argumento fosse bom e superior. O conflito de idéias já vem da raiz da filosofia, com Sócrates desmascarando os artifícios do discurso sofista. Esta habilidade de argumentar e contra-argumentar virou até disciplina, chamada dialética, e sobre ela Schopenhauer escreveu um pequeno ensaio desmascarando as tentativas de golpe à lógica, perpetrados pela técnica dialética; como diz no livro: a argumentação é um modo de chegar à verdade comparando argumentos, o melhor modo de prevalecer em um debate é estar ao lado da lógica, com o melhor argumento, mas se quer fazer vencer uma proposta falsa, ou seja, prevalecer sem ter razão, ele mostra os recursos escusos da técnica dialética. É um livrinho instrutivo de ler, está em domínio público, e uma tradução em inglês está disponível no Projeto Gutenberg.

Por muitos anos desenvolveram a técnica dialética para o debate oral e suas peculiaridades: os debatedores estão em igualdade de condições, e argumento e falas logo perdem-se da memória, deixando margem aos vários truques dialéticos, um dos truques mais comuns é chamado “argumentum ad verecundiam”; o homem normal prefere a crença ao exercício intelectual da lógica, assim acreditar em alguém, em uma mídia impressa, é mais fácil que julgar a pertinência dos argumentos. Jornais, rádios e TVs tem a credibilidade ao seu lado, ou ao menos tinham, pois dia a dia o acesso livre da internet permite a aberta contestação de idéias, fazendo com que a validação dos jornais seja ativamente contestada.

É comum ouvir da boca dos participantes da antiga mídia termos como: “os blogs por aí” , para generalizar pejorativamente tudo que é escrito em blogs independente de sua pertinência, e assim valorizar o texto das mídias tradicionais. Mas o público, vendo sua crença esvair-se cada vez mais, vê pertinência e propriedade em muitos que escrevem na internet, seus textos estão aí, fáceis de acessar e ao alcance do olho, coisa que antes não acontecia, fazendo a mídia tradicional hegemônica.

Muito do que se escreve na mídia tradicional é uma grande baboseira, e hoje, com a mídia venal a serviço do governo, até a credibilidade factual tem sido contestada. Há verdade, há mentira, não existem lados com pesos iguais e este é um dos exemplos comuns da vigarice jornalística. Se pararmos para pensar, a faculdade de jornalismo deve ser a maior maravilha, pois com o mesmo período de estudo de um químico o jornalista pode discorrer com propriedade sobre química, física, biologia, matemática, sociologia, psicologia, medicina e todas as disciplinas cultivadas pelo homem. Muito do que encontra-se em blogs não é escrito por jornalistas, mas por médicos, engenheiros, químicos, biólogos, além de muitos outros, quem tem mais propriedade no assunto? Veja os suplementos de tecnologia, e veja a informação que se obtém na internet sobre o mesmo assunto.

Bons e ruins, mentira e verdade, tudo misturado na internet força o leitor a abandonar a crença e adotar uma relação de análise com aquilo que lê, e esta crítica passa a ser exercida ao ler os textos jornalísticos, e sua pertinência ou propriedade pode ser abertamente contestada, gerando a crise de validação.

Se vocês já leram o livro “Nove Noites” de Bernardo Carvalho, não terão dúvidas que é um escritor acima da média; aos domingos, a Folha tem um suplemento batizado “Ilustríssima” que normalmente traz textos de caráter ensaístico com dimensões superiores aos textos regulares. Dia destes encontrei um ensaio sobre fotografia escrito pelo referido autor, leiam: http://sergyovitro.blogspot.com/2011/10/fome-de-ver-bernardo-carvalho.html, este foi o único link eletrônico que encontrei para o texto.Um bom escritor, um suplemento em teoria respeitado e um ensaio que de fotografia nada fala, pura bobagem, Lacam, Freud e nada pertinente à fotografia, incomoda-me, pois fotografia é assunto que preso, e o texto em questão é de uma vigarice impar, não importando quantos validadores incondicionais tem, ao analisar o escrito vê-se claramente o amontoado de bobagens e a falta de referência a qualquer parâmetro pertencente ao mundo fotográfico. Quando uma bobagem destas é escrita em um blog, webpage ou o que o for, passa despercebida na imensidão de porcarias, e é culpa exclusiva do escritor; mas quando um texto destes chega em um jornal, há uma cadeia de incompetências, de escritor a editor que evidencia-se. Poderia citar montanhas de porcarias do mesmo gênero, jornais divulgando notícia falsa e todo tipo de sortilégio, só chamo atenção a um exemplo que chamou minha atenção, por tratar-se de meu universo.

O mesmo ocorre com a crítica literária e os prêmios, que também representam uma forma automática de validação. Críticos tradicionais gostam de ter este poder de elevar ou afundar um livro, enquanto alguns usam esta responsabilidade com propriedade, escrevendo críticas pertinentes ao livro, muitos não tem sequer bons argumentos e apóiam-se exclusivamente na validação do meio em que escrevem, mas com a internet, varrem abaixo do tapete a credibilidade do veículo quando suas análises mal feitas são desmascaradas. E isto só corre pois aí está a liberdade a dar voz aos argumentos contraditórios. Um sambista famoso escreve um livro muito ruim e é aclamado como escritor, um político nefasto escreve um livro péssimo e vira imortal, são validados pelo meio, mas ao mesmo tempo invalidam e retiram propriedade do meio, gerando o que agora chamamos crise de validação.

Crises são boas, podem nos conduzir a planos melhores, a contestação de idéias na internet faz com que as pessoas tenham que exercer o discernimento em vez da crença, e isto gera um aumento de consciência, educação. No debate escrito é mais fácil pesar com calma as idéias, e ver quem tem propriedade, desmascarando os vigaristas. O ebook com o conforto do e-reader chega agora no ponto de gerar a crise de validação da literatura, qualquer um com um bom texto está em pé de igualdade com todo outro escritor, sim, há propaganda ativa na internet, e muito da crítica é apenas propaganda disfarçada, mas no contato autor leitor, não há intermediários, e quem por um livro se apaixona, torna-se seu grande divulgador, isto acontece comigo, pode não gostar de minhas indicações, mas são sinceras, só indico o que gostei. Anseio o mesmo de meus amigos, mais que um livro, espero o testemunho de uma alma.

Alex

2 comentários:

  1. Alex,

    Qual o título do livro de Schopenhauer ao qual você se refere?

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    1. Alessandro,
      O ensaio é chamado “the Art of Controversy”, aqui está o link para ti:
      http://www.gutenberg.org/ebooks/10731
      Abraço e divirta-se,
      Alex

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