domingo, 11 de dezembro de 2011

Um Minuto de Silêncio para o Livreiro

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Será que estou sendo precipitado? São poucos no Brasil que tem um e-reader. Em realidade estou atrasado, mais de vinte anos! Foi ainda na década de oitenta que o senhor livreiro faleceu.

Quem freqüentou o centro de São Paulo nas décadas de setenta e oitenta, se puxar um pouco pela memória vai lembrar de uma grande quantidade de pequenas livrarias, muitas apenas uma portinha, escura, empoeirada, atulhada de livros do chão ao teto, dos assuntos mais diversos; muitas vezes o dono era o único “funcionário”, senhor livreiro. Tínhamos nossas preferências, freqüentávamos três ou quatro, poderíamos dizer que mais do que clientes éramos amigos, uma amizade diferente, não conversávamos sobre o tempo, a família ou qualquer outro aspecto de nossas vidas pessoais, o assunto era sempre livros, e sobre isto estes senhores tinham muito a dizer, recomendar, até instruir. De todas obras que lhes eram oferecidas, compravam ao menos uma cópia, pois acreditavam que a livraria mais que um ponto de venda era um ponto de cultura, para encontrar a maior diversidade possível, a eles cada venda importava, cada cliente satisfeito. Aproveitei muito da experiência destes senhores, grandes indicações, boa leitura.

No início ainda sem idade para caminhar sozinho pelas ruas do centro acompanhava meu pai em sua peregrinação às livrarias, sempre terminando na Rosov, no alto de um edifício antigo, de portas fechadas, falando Russo,o idioma dos livros lá vendidos, cresci e pude traçar meus próprio caminhos e escolher as livrarias de minha preferência, devo muito à paciência destes senhores em ajudar um cliente interessado em assuntos pouco corriqueiros. Eram livreiros por profissão, alimentavam suas famílias com os lucros de suas pequenas livrarias, e além disso, gostavam de livros, o que os aproximava de seu público, quem ainda lembra do movimento da madrugada na banca cidade jardim dos que esperavam os periódicos importados? Revistas que chegavam ao Brasil três meses depois de sua publicação, com as “últimas” novidades.

O livreiro já foi peça atuante no mundo do livro, e podemos citar uma das mais famosas “livreiras”: a autodenominada Sylvia Beach, grande incentivadora de Hemingway e muitos outros autores de língua inglesa que viviam em Paris, sua livraria alugava livros e também os vendia, foi ela que decidiu editar Ulysses de Joyce, e sem isto talvez nunca conhecêssemos esta obra. Quem já o leu sabe que não é simples e isento de polêmicas ainda hoje, Sylvia tomou o risco e quase foi a falência, mas guarda o crédito de visionária, até passou ao outro lado e escreveu um livro, mas nunca deixou sua condição de livreiro.

Nos anos oitenta lembro vividamente um dos meus amigos livreiros reclamar que não podia competir com as novas cadeias de livrarias que estavam crescendo –“Está vendo este livro? Eu compro três, até cinco, pago muito mais caro que a Siciliano, quem vem aqui vê um preço, e lá mais barato. Como posso viver assim? Esta vendo este? – pegou um livro de auto-ajuda – a diferença de preço é ainda maior! Pego um apenas para ter, pois com este preço sei que não vou vender.” Foi a política das editoras que matou a maioria dos livreiros, sem dó nem choradeira as pequenas livrarias foram fechando, os livreiros preteridos pelas editoras foram esquecidos, a literatura sofreu, mas lágrima não verteu.

Pergunte-me se fico condoído com esta chorumela da indústria do papel? Não! Quem gostava dos livros foi morto por estes vendedores de papel, espero que meus antigos amigos saboreiem o prato frio da vingança, e que os livros deixem de ser produto para transformarem-se em cultura.

Alex

6 comentários:

  1. Boa tarde Alê, sou também desta época das pequenas livrarias aonde fazíamos peregrinações para encontrar o nosso livro desejado, sempre achei lindo a profissão do livreiro, um sonho poder conviver totalmente com os livros e compartilhar essa paixão com os outros.
    Agora também quero ver a postura das grandes livrarias com a chegada do e-book, atualmente compro somente e-books, eu uma adepta do livro físico parei de comprá-los e só gasto em livros digitais que na Amazon e Kobo tem um excelente preço por sinal, torço para que no Brasil o e-book possa ter preços justos e assim passar a ser de livre acesso a todos.
    Marta

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  2. Marta,
    Eu também achava uma profissão maravilhosa, admirava os livreiros, nunca pensei que meus queridos livros pudessem ser substituídos, de tudo que tenho, minha biblioteca é o que mais prezo, e sabe a parte chata? Os livros que mais gosto emprestei, nunca voltaram, assim estou sem meus queridos ‘Conquistadores do Inútil” e todos meus Tolkiens, livros que não gostamos não emprestamos, a não ser que queiramos ver a pessoa sofrer, assim ficam na biblioteca. Os que gostamos queremos compartilhar, e aí uns não voltam, mas é a vida, compartilhar um livro é sempre mais rico.

    Abraço,
    Alex

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  3. Alex, fiquei toda saudosista lendo esse post. Venho do interior do RS e na minha cidade não havia propriamente livreiros, mas tínhamos alguns sebos onde a experiência era parecida. Quiçá alguns teimosos que entendam a leitura como forja para gente com letras maiúsculas consigam algum movimento real para aumentar a proporção de leitores nesse país, e que o ebook possa de fato ser uma via para isso!

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  4. Maurem,

    Espero que o e-reader, barateando a confecção do livro, faça com que os bons escritores se animem a tomar o risco da publicação, independente do mercado viciado. Há o movimento oposto, tentando encabrestar o leitor, vai depender do público quebrar os grilhões da ignorância.

    Abraço,
    Alex

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  5. Tem toda razão. Trabalhei em uma livraria bastante conhecida de Niterói onde o dono dizia claramente que "cultura que nada, quero é meu dinheirinho no fim do mês para comer meu bacalhau". Disse isso a uma mulher que queria negociar a venda de uma publicação independente em sua loja. Mas para editoras que vomitavam (vomitam) livros vazios em suas bancadas, seu semblante mudava, suas sobrancelhas se juntavam no alto da cabeça e ele proferia um discurso do quão importante era o seu papel de divulgador da cultura para o país. rs

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  6. http://senhorlivreiro.blogspot.com.br/
    Livros em txt pdf e muito mais!

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