quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Novo, Ano Novo

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Lá vamos nós em mais uma volta em torno do sol, e apesar de novo, percorreremos o mesmo caminho do ano passado e de nossos antepassados, realizaremos os mesmos rituais, as mesmas superstições, vamos colocar o pé direito no chão no primeiro minuto do novo ano e pular mais três ondinhas, mesmo com a fatídica meia-noite mudada em uma hora. Como perfazemos sempre a mesma cerimônia, qual o motivo de chamar de novo?

Na literatura podemos dizer que há algo novo? É o e-reader novo ou novo é o tablet? Mais um ano de velhas novidades? Para quem não leu Victor Hugo, é novo; Tolstoi? Novíssimo! Até Dante, Cervantes e Shakespeare, novinhos, cheios de velhas novidades para quem não os leu. O novo é bom o velho é ruim, mas sem o velho o novo não existiria, é o que chamamos causalidade; desde que me lembre são as mesmas leis da física que estão em vigor, nenhuma novidade, nem uma modificação, não seria interessante uma pequena modificaçãozinha? Nada muito grande, bem pequenina, uma novidadezinha na maneira que ligam-se quarks. Seria divertido, e também o fim de toda existência do que conhecemos.

O velho, tão execrado, nos é absolutamente necessário, dependemos da tal causalidade que do velho faz o novo que vira velho e escreve a nossa história, e desta causalidade também depende a literatura; Mis Stein tentou aboli-la, do texto nada restou a não ser fragmentos mínimos, pois se o texto imita a vida, é a causalidade também sua matéria-prima. E como perseguiram o novo estes modernistas, com tal afinco que quase acabaram com a causalidade, com toda a vida em busca do novo transitório, que quando se atinge já ficou velho.

Dos clássicos tivemos a consolidação da relação entre literatura e leitor, nos românticos a aproximação dos textos com o leitor e o mundo terreno e com o modernismo tivemos o rompimento com todos os anteriores. O clássico é um valor congelado no tempo, o romantismo um ideal grafado na história, mas o moderno é transitório, pois quando aparece, logo deixa de ser moderno, fica velho, e a modernidade desaparece. O que seria o mundo pós-moderno? Um mundo em desaparecimento? Pois o novo não mais é moderno, e tão pouco não pode mais ser história.

Hoje, na era da ciência, reverenciamos o deus pagão: tecnologia. Se no panteão a ciência é a mãe da tecnologia, como nos antigos gregos, o filho destrona o pai, e a tecnologia passa a existir sem ciência. Logo teremos tablets agradáveis ao olho como o papel e nosso pequeno maravilhoso e-reader deixará de existir; segundo a mídia brasileira, já não existe, é só o tal tablet, a volta ao passado dos processadores que nunca precisamos e o futuro das telas que nunca existirão.

Em relação aos processadores já vemos o que ocorre, chegaram no limite da tecnologia e tiveram que voltar atrás, os núcleos de quatro giga não mais são encontrados, mas não superados, e a velocidade do processador dos tablest é a do meu computador de uma dezena de anos atrás, mesmo os computadores novos não melhoraram muito seu desempenho, mas sempre há algo novo, moderno, para ser comprado e logo descartado.

Nossos futurólogos, sacerdotes do deus tecnologia, anunciam as novas telas que substituirão o e-ink, sem darem-se conta das antigas lições do deus ciência. Existem basicamente duas tecnologias para mostrar imagens, uma que depende de adição de luzes e outra de subtração, e isto é por conta do meio físico em que cada uma impera: RGB, CMYK, o princípio da tela que produz luz é RGB, a que reflete é CMYK, mesmo que nos e-readers atuais tenhamos apenas o K. São meios físicos diferentes, no RGB temos a velocidade da luz no CMYK dependemos de matéria para refletir luz; na superfície dos e-readers, são “bolinhas” pretas ou brancas que vão à superfície e refletem a luz, é esta luz difusa, ou a falta dela que faz com que vejamos as letras na tela, enquanto o outro emite luz, mais rápido para mudar a imagem, mas depende de maior energia enquanto está sendo lido pois a emissão é contínua, além de projetar um feixe de luz direcionado, para ser difuso gastaria muito mais energia. São variáveis físicas, científicas, e uma inferência errada do deus tecnologia ao afirmar que logo uma substituirá a outra, pois nada na ciência mostrou-se possível.

E-ink colorido? Pode até ser, mas uma tela tem 800x600 de definição, em preto e branco isto dá uma boa resolução, mas se tivermos que dividir os “pixels” em cores vamos ficar com uma tela de resolução medíocre. Se tiverem que reduzir a resolução fico com meu e-ink preto e branco de resolução superior e baixo consumo de energia.

Vencidos os problemas técnicos, ou pelo menos esclarecidos, podemos ir ao mercadológico, mais místico e errático. Se o brasileiro lê em média cinco livros ao ano, dá para ler em um tablet, duas páginas ao dia? Nada! Portanto para manter o Brasil na ignorância o tablet é o instrumento perfeito! Mas se ao contrário quisermos fomentar a leitura, o aparelhinho não serve, e não serve mesmo! Como qualquer leitor que já pegou um e-ink na mão pode comprovar com facilidade.

Muitas vezes temos a impressão que toda esta tecnologia nos torna mais ignorantes, em parte nos tornamos mais conscientes da gigantesca dimensão da nossa ignorância, pois à medida que conhecemos o mundo sabemos que há muito mais a conhecer, o que sabemos torna-se menor perto do que existe a conhecer. Ao longo da história a literatura foi ocupação de poucos, as vendas de Cervantes em seu tempo nunca despertariam a cobiça de nossas editoras, eram poucos a ler, menos a apreciar literatura. Com o tempo o número de leitores foi aumentando, mas pouco, e literatura ainda era ofício elitista, coisa de gente estudada e educada, hoje mais gente tem acesso às letras, mas poucas à literatura, que é ofício mais lento que a própria alfabetização, como o bê-a-bá, exige treino. O público das mil cópias de Ulysses que quase levaram sua editora à falência, já lera Victor Hugo, Tolstoi e Dostoievski, além de muitos outros, a eles o modernismo de Joyce fazia sentido, pois era uma reação a estes que foram lidos anteriormente, cheio de referências aos mesmos, assim como piadas internas contemporâneas marcadas por uma escrita impecável.

A novidade está aí: o e-reader, o novo para quem não leu está aí: em domínio público, grátis. É só perfazer o mesmo velho ritual de nossos antepassados: ler.

Feliz velho ano novo.

Alex

Um comentário:

  1. Excelente texto, Alex. Parabéns por conseguir unificar todos os mundos, novo e antigo, numa só realidade.

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