domingo, 27 de novembro de 2011

Autores, Ebooks e E-readers

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Terminei de ler o primeiro volume da série “A Song of Ice and Fire” (As Crônicas de Gelo e Fogo), o livro intitulado “A Game of Thrones” (A Guerra dos Tronos), comprei a coleção de ebooks em inglês por uma fração do que custa o livro aqui, ainda comparei as primeiras páginas do original com a tradução brasileira, fiz um bom negócio, o melhor adjetivo que posso dar ao trabalho de tradução da versão em português é: podre, trabalho de porco. Acontece que ao chegar ao fim do livro, achei péssimo, odiei mesmo, é escrito entremeando os pontos de vista dos personagens de uma maneira irritante, o que pode funcionar para roteiros de filme, é péssimo no livro; mas este não é o maior dos pecados, as mais de setecentas páginas servem apenas como o prelúdio mais longo e tosco que vi na história da literatura, nada ocorre nesta verborrágica estória, sempre achei que o título de “enchedor de lingüiça” fosse exclusivo de tele-dramaturgos, o George Martin os superou. Avancei sobre as páginas de forma penosa imaginando quando a estória iria deslanchar, nada ocorreu, fiquei esperando o Godot na companhia de um mau escritor.

O Forster em sua obra separa personagens em “round” e “flat” (arredondados e planos), a característica de um personagem arredondado é surpreender o leitor de uma maneira consistente, não tenha dúvidas que os personagens de Martin surpreendem o leitor, mas é por seu comportamento aleatório, sem uma personalidade por baixo das vestes que lhes dê enchimento. Não sou fan de obras sobre personagens abjetos, mas se em Dostoievski personagens desprezíveis tem uma razão de o ser, no livro em questão são traços que não montam uma personalidade.

Tudo isto fez-me pensar o motivo pelo qual comprei o livro, de tanto ouvir falar, assumi que havia algo de bom, grande engano, fui levado pela massa, sem uma boa indicação. Não sou leitor de livros populares, fico longe dos Sidney Sheldons e Nicholas Sparks da vida, mas confesso que diverti-me com Harry Potter e gostei bastante da trilogia Millenium, livros que atingiram o topo das listas de vendas. O famigerado livro foi lançado em 96 e só ouvi falar do mesmo este ano, muito provavelmente por conta do seriado da HBO, que assisti quase concomitante com a leitura do livro, as cenas de sexo no livro e no seriado são apelativas e desnecessárias, jogadas na estória para dar um tempero mais forte, sensacionalismo supérfluo. Há um motivo para o livro não ter aparecido antes no meu radar, normalmente fonte de leituras confiáveis, o livro é ruim, e depois de comentar com outros amigos que também o leram, vi que compartilham da mesma opinião.

Quanto do sucesso de um livro é devido apenas à propaganda? Imagem que não reflete qualquer mérito do conteúdo de suas páginas. Olhando assim é fácil entender a idéia de editoras que dizem serem necessárias à existência do livro, “sem as editoras não haveria conteúdo para os e-readers”. Note bem, sem editoras e não sem autores, pois estes são apenas secundários na existência do produto livro; não importa o recheio, é o trabalho do editor que gera o produto livro, não importa a qualidade e sim a propaganda. Qualquer livro ruim que virou filme ou qualquer filme ruim que virou livro é mais importante que o bom autor escrevendo um bom livro.Umberto Eco é um excelente autor, ficou muito tempo na lista dos bestsellers, mas não por sua habilidade, pois garanto que 90% de quem comprou “O Nome da Rosa” não o leu na íntegra, passando pelas epopéicas páginas descritivas.

Dentro do produto livro o autor é responsável por quando muito 5% do preço consumidor ou 10% do preço da editora se já tiver alguma “inserção” no mercado, é uma porcentagem que representa bem o que significa o autor para a editora; mas para o leitor, que lê o livro do começo ao fim e trava um diálogo com o escritor, a editora inexiste, é esta relação autor e leitor que impera. No ebook toda gordura que interpõe-se entre quem escreve e lê desaparece, perde função, não adianta querer colocar ferraduras nos carros, os cavalos perderam popularidade, mas burros ainda precisam de ferraduras.

Com a facilidade de publicar um ebook, muito mais livro vai surgir, aí será fundamental um sistema de indicação confiável. Minhas melhores indicações vem de amigos com gostos similares ao meu, mas de onde eles pegam suas indicações? Todos nós acabamos vez por outra lendo algo ruim, mas a verdade é que estes não indicamos, e se ouvimos falar ainda alertamos os amigos que o livro é ruim; com vários amigos leitores aproveito o melhor de meus críticos particulares e consigo ter indicações certeiras do que vale a pena ser lido, não perdendo tempo e dinheiro com lixo sem mérito ou fora de meu gosto.

O leitor de posse de um e-reader passará a ter autonomia, podendo conectar-se direto a qualquer autor, está certo que muitos serão apenas ruído, indignos de serem lidos, mais do que as porcarias que as editoras lançam misturado com o que presta; é preciso um filtro, honesto e confiável. O autor, o bom autor, vai poder independer de editora, terá maior poder de negociação, podendo ao mesmo tempo diminuir o preço da leitura e ter maior rendimento. Os maus autores que vendem por aparecerem com freqüência nos meios de comunicação, continuarão a vender livros ao leitor desavisado, pela sua massiva propaganda, mas alguns autores sem propaganda poderão ter o orgulho de dizer que sua fama veio exclusivamente do esforço próprio, comunicando-se de maneira mais íntima com seus leitores. Não há mágica, bons textos para leitores conscienciosos; má escrita para enganar leitores despreparados, ávidos ao paternalismo da auto-ajuda, mas antes de mais nada: um pouco de liberdade.

No estúpido cenário político atual, brincando com a liberdade dos leitores, há pouco material de ebooks em português, nosso livro sempre foi artificialmente e excessivamente caro, por políticas escusas no processo de produção e distribuição do livro em papel. Nos EUA onde existe um verdadeiro mercado, as mudanças foram rápidas beneficiando os leitores, aqui querem manter os grilhões que fazem do brasileiro um povo ignorante e sem leitura. As editoras querem conservar o preço superlativo de seus livros no meio digital, deixe que seus catálogos fiquem a preços absurdos! Autores independentes poderão escrever novos livros, vender a preços menores e ganhar muito mais que os autores vinculados às editoras. Logo editoras tacanhas e escritores vinculados a elas desaparecerão de nossas vistas, e a literatura brasileira passará por uma revitalização mais que bem vinda.

Alex

17 comentários:

  1. obrigado pelo post e os comentários sobre o livro da série "As crônicas de gelo e fogo". Eu sou um dos que li (numa livraria mesmo) o prólogo e já não gostei do ritmo da narrativa, mas quase comprei pelo apelo midiático.

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  2. Bom ainda bem que gosto é gosto, as crônicas de gelo e fogo são sim muito boas e não é a toa que é um "livro popular" se fosse ruim é que não seria...
    os capítulos divididos em point of views de cada personagem é uma das boas coisas do livro mostrando as varias nuances do que está acontecendo na historia...

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  3. Anônimo I,

    Fiquei mais revoltado pois não vi nenhuma crítica negativa antes de comprar o livro, nem pensei muito, comprei e o livro é péssimo! Fico feliz de ter te ajudado a economizar dinheiro e aborrecimento.

    Anônimo II,

    Demonstra bem o seu gosto e cultura pela pertinência de seus argumentos, continue assim.

    Abraço,
    Alex

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  4. Concondo com o Gabriel, gosto é gosto!

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  5. Oi Alex realmente as pessoas são diferentes, gostei muito da trilogia Millenium, amo Nicholas Sparks, Sidney Sheldon, bons best sellers, comprei na Amazon os 4 livros da Guerra dos tronos por um preço barato e espero discordar de vc e poder dizer que é uma série boa, vamos ver.
    Obrigada pelo post, pensamentos diferentes dos nossos são sempre bem vindos, que bom que as pessoas são diferentes senão o mundo não teria graça.

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  6. Começei a ler "A Guerra dos Tronos", livro um estou na comecinho ainda 3% e estou gostando.

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  7. Alex, felizmente há gostos para tudo.

    Eu, pessoalmente, não gosto de best sellers em geral, mas alguns me chamam a atenção e Martin, sendo do meu gênero favorito, me chamou a atenção assim que surgiu por aqui.
    Gosto bastante dos pontos de vista alternados por gerarem expectativa mas, especialmente, por mostrarem mais a fundo justamente o que dizes estar faltando - a personalidade dos personagens. Eu achei que a personalidade dos personagens fica bem clara, mas muito mais ao ler o segundo livro. Um dos personagens mais adorados da série é Tyrion, que teoricamente seria um vilão, mas tem seu "código de honra" próprio e Arya, que faz com que muitas mulheres se identifiquem com ela.
    Os capítulos que odeio são os de Sansa (ou deveria dizer Sonsa) que é insípida ao extremo, mas retrata tão bem muitas mulheres do mundo de hoje.
    Gosto das descrições, mas realmente as acho confusas - perde de longe de Bernard Cornwell e isso se vê claramente na descrição de qualquer batalha, especialmente no segundo livro.
    Realmente acho que apareceu dessa forma no Brasil por causa do seriado, assim como Senhor dos Anéis por causa do filme - isso não diminui um livro, de forma alguma, apenas diminui as editoras brasileiras, na minha opinião, que só querem lançar coisas que já trazem sua própria publicidade, para elas, gratuita.
    Em tempo - não passei da 5ª página de O Nome da Rosa.
    E, novamente, a tradução das Crônicas de Gelo e Fogo realmente é muito ruim - pegaram a tradução de Portugal e adaptaram, muitas vezes se perdendo na adaptação.

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  8. May,
    Depois de mais de setecentas páginas, recuso-me a ir ao livro dois quando nada aconteceu no #1(já comprei os quatro), é como um “Ordem da Fênix” estendido, onde enche-se lingüiça para ter o desfecho nas últimas dez páginas do livro, com a diferença que no “Guerra dos Tronos” não há nem o desfecho de um prólogo. A Arya é o único personagem “gostável”, apesar de que ao longo da extensa obra nada acontece. Avaliar literatura é sempre por comparação, então vamos ver o quê pode ter uma obra de ficção; a escrita, os personagens, a estória e o enredo.

    Não espero em um livro de entretenimento grande habilidade de escrita, não precisa ser um Hemingway que por seu estilo de escrita torna a descrição de uma pescaria algo vivo e poderoso, espero apenas uma escrita correta, o perigo aqui é tentar adentrar na escrita literária sem ter a bagagem para tal, e isto é facilmente visto nas metáforas e similies péssimos que o George Martin usa; não sabe usar: fique no básico.

    Como disse, nenhum personagem fecha em uma personalidade crível, usando a definição do Forster, os personagens do livro nem planos são; Sherlock Holmes é um personagem plano, tem uma personalidade e não sai do que é esperado dele, Moll Flanders é um personagem arredondado, abjeto, que te surpreende, tem uma personalidade. Não espero do Martin a habilidade com personagens de um Gogol ou Tolstoi, espero apenas personagens diferentes da telenovela que não tem qualquer delineamento de personalidade, completamente inconsistentes.

    Com tamanho número de personagens imaginaria uma estória complexa, mas garanto, com vinte linhas dá para contar toda a estória e estragar o livro para quem não o leu, a estória é pobre, pegue para comparar um pequenino conto do Borges: Pierre Menard, é uma estória curta, tão bem tramada que é mais fácil ler o conto de poucas páginas do que eu tentar lhe contar a estória.

    O enredo é um dos elementos mais difíceis, pois só pode ser visto na compleição da obra, no “X-files” o último episódio arruinou toda a série de anos, este descaso com o enredo virou cacoete do JJ Abrams, que joga várias cenas que nada ligam no final, veja o fiasco do Lost; alguns escritores gostam de dizer que toda cena que não contribui para o todo deve ser descartada, o livro do Martin é um festival de cenas inúteis, como uma novela televisiva, que pode ter 90% das cenas removidas sem prejuízo da estória.

    O recurso de dividir a narrativa para criar tensão, é o mesmo recurso paupérrimo usado pelos seriados de tv, que deixam um “gancho” para o próximo episódio, usado na literatura é um recurso ainda mais pobre e irritante.

    “O Senhor dos Anéis” é uma história interessante, saiu do obscurantismo virando cult nas comunidades universitárias americanas, por muito tempo a obra era por demais extensa e com efeitos pitorescos, o que não permitiu que fosse filmada, existiu uma animação que nunca chegou a finalizar e consideraram a queda de Isengard como o fim da estória. Só com o avanço do CGI que foi possível ir às telas, mas em 1984, já era um livro bem conhecido dos que gostam de boa literatura, muito mais que os do CS Lewis.
    Abraço,
    Alex

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  9. O único argumento que eu posso entender aqui, é o de "gosto é gosto", que é o único argumento real que você dá, uma vez que é inexplicável o que nos leva a gostar de algo. Fora isso, você critica, mas não argumenta. Você não nos dá um só exemplo do que critica. O autor não sabe usar metáforas, mas você não nos exemplifica.

    Não tenho maiores conhecimentos técnicos sobre literatura, e não sei dizer se os personagens do livro são planos, redondos, ou retangulares, mas sei uma coisa: A personalidade deles é sim bem definida, e a narrativa dividida ajuda nessa tarefa. A todo momento somos lembrados sobre a honra e a honestidade de Ned Stark. Como ele odeia tudo em Porto Real, e queria estar em Winterfell. Quase podemos sentir na pele a angústia de Bran por não poder correr, escalar e brincar por aí. O personagem mais enigmático, e alvez por isso o mais amado, talvez seja Tyrion, que como alguém já disse, possui um estranho senso de justiça.

    Além disso, dizer que não acontece nada na história, é um tanto quanto errôneo. Ao longo do imenso livro, nós acompanhamos de perto um homem sendo convocado e se instalando como nova Mão do Rei, descobrindo podres sobre a família real, as intrigas da capital do reino e vivendo na pele as maquinações de inúmeros agentes; o dia a dia de um patrulheiro da noit, defendendo a fronteira extrema do reino, o seu treinamento e os seus dilemas; o dia a dia de uma tribo de pseudo mongóis, e o casamento do seu líder com a princesa caída de um reino, assim como a evolução dessa história; uma guerra se formando, e os lados se movimentando; Enfim, uma infinidade de coisas estão acontecendo, e ao contrário da maioria dos livros, nós realmente ACOMPANHAMOS TUDO. É como no segundo livro do Senhor dos Anéis, quando acompanhamos três caminhos diferentes, mas multiplicado ao extremo! Você pode até não ter gostado do livro, as dizer que não acontece nada, é um exagero injusto, na minha opinião.

    Outra questão: A história não é previsível de forma nenhuma. Em nenhum momento do livro é possível dizer: A partir daqui, vai acontecer isso, isso e isso. Você com certeza errará. Nem ao final é possível afirmar o que vai acontecer nos próximos volumes. E comparar o livro a Lost é um completo absurdo, uma vez que todas as histórias ali contadas estão interligadas, e tem os seus respectivos desfechos (Além de dizer que Lost foi um fracasso, uma frase absolutamente errada, mas não vou entrar no assunto, até porque, não gosto de Lost).

    Por último, vou dizer uma coisa: Dizer que o livro é um festival de cenas inúteis, e que 90% das cenas poderiam ser removidas, revela muita coisa. Talvez seja por isso que você não conseguiu enxergar nada acontecendo na história, não conseguiu entender a personalidade de cada personagem, não conseguiu enxergar nada de bom. Talvez você tenha achado esses momentos inúteis.

    Não sou especialista em nada, sou apenas um leitor. Não sou fanboy da série, apenas li o primeiro livro e gostei bastante. Aceito críticas sem problema nenhum, mas preciso de argumentos, não de críticas vazias. Na verdade de argumentos vazios. Porque os seus argumentos estão aí. Não acontece nada na história, os personagens são superficiais, o autor não sabe usar metáforas e escreve mal, etc. Mas dizer isso qualquer um pode dizer de qualquer obra. O embasamento é que faz a diferença. Salientando mais uma vez, que nao sou especialista. Não estudei a fundo literatura, não li Tolstoi, Dostoiévski ou Gogol, mas gosto muito de ler, apenas.

    Abraço

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  10. Yuri,
    Se eu ficar dando exemplos e contar toda estória acabo estragando o livro para quem não leu, mas vamos lá: Ned Stark sabia o motivo pelo qual foi “forçado” a ser a mão do rei, se não o fosse, seria um Lanister, já havia a suspeita da antiga mão ter sido assassinada pelos Lanisters, além disso, ele já sabia que a capital era um ninho de cobras. Como ele pode ter sido tão estúpido de confiar em quem ele sabia não poder confiar? Se já sabia dos problemas, como não armou uma defesa para si e suas filhas? Viu como não faz o menor sentido? A Sonsa, depois do episódio do lobo e do filho do açougueiro, ainda gosta do reizinho fedelho...
    Veja esta frase: “Screaming, Bran went backward out the window into empty air. There was nothing to grab on to. The courtyard rushed up to meet him.”

    Existem muitas! Nem precisa procurar. Os argumentos que dei são fatos, existem no livro, nenhum personagem é consistente ou todos foram lobotomizados. Pela sua lógica acontece muita coisa nas novelas da globo, o problema é que o livro do Martin, como uma tele-novela, não ancora nada ao enredo. Tanto que os desfechos são virtualmente aleatórios.

    Abraço,
    Alex

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  11. Alex,

    Tem pontos de sua crítica que concordo com você: a tradução do primeiro livro é sofrível (cousin é traduzido como sobrinho, algumas construções verbais no texto em inglês poderiam ser melhor, com você apresentou no exemplo, além de ser irritante a divisão de capítulos por pontos de vista (realmente cansa e complica a busca de uma parte específica do livro).

    E por final, concordo com a alma desse post, que é falar sobra as possibilidades de surgir livros de qualidade de autores independentes graças a liberdade que o e-livros proporcionam na sua distribuição.

    A sua crítica ao livro do Martim foi meramente introdutória o que realmente você gostaria de comentar: sua esperança em encontrar ainda nesta vida autores-mestres.

    E talvez por causa disso você pode ter "ESPERADO" demais pelo livro. Essa frase ficou capenga, mas quis usá-la assim, para destacar o verbo que você mais usou na sua análise do livro. Você criou uma expectativa em cima do Martim e do livro que não conduz com a realidade.

    As Crônicas são livros estritamente de entretenimento, e só. Como as famigeradas novelas da Globo que cumprem uma função muito importante na formação dos povos (brasileiros e outros). Além, disso proporcionam o embotamento da mente, de forma balsâmica para aqueles momentos que você precisa parar de pensar.

    E o livro do Martim, cumpre bem esse papel.

    Para mim, o livro peca na descrição de combates, estratégia militar, de alguns cenários. Mas em relação aos personagens, satisfaz na medida que precisamos refletir que a maioria dos personagens que tem pontos de vista, ou aqueles apresentados durante a trama, são crianças, ou crianças entrando na vida adulta. De tal forma que as personalidades estão em formação,modificando-se constantemente ao longo dos livros, gerando surpresas ao leitor, elementos que caracterizam personagens "round".

    No primeiro livro as personagens Daenerys (minha preferida) e Snow são bons exemplos dessa dinâmica.

    O autor tem mérito em criar um universo interessante, para mim, inédito, no qual há uma tensão e senso de urgência patentes. " The winter is coming." Essa frase é marcada na alma dos personagens, produzindo um efeito de deletério na moral de alguns grupos, e em antítese, alimentando o fogo da honra em outros. Isso para mim, é muito interessante, e contribui para entender as angústia e desejos de muitos dos personagens.

    O fato, camarada, é que não existe apenas um tipo de leitor (ainda bem), e, principalmente no Brasil, há muitos mais leitores potenciais que precisam receber o primeiro livro para estimulá-los.

    Jamais indicaria o Martim para esse último grupo, mas para quem já tem uma experiência de leitura e que goste do assunto, as Crônicas de Gelo e Fogo podem gerar bons momentos de lazer.

    Felizmente, você pertence a um grupo seleto de leitores, que por ter lido diversos clássicos, tem um crivo de qualidade bem rigoroso. E admiro isso em você, almejando contar com suas indicações de leitura e suas análises. Mas temos que lembrar que o caminho que você trilhou foi longo, e mesmo que você já tenha chegado ao topo, não é justo cobrar de quem acabou de largar que se apresse.

    Abraço,

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  12. Oi Emanuel,
    Legal que entendeu o espírito do post, a análise do livro do Martin acabou atraindo a ira dos fans, a idéia original acabou perdida. Os livros são colocados em uma dicotomia, onde ou são entretenimento ou literatura: do primeiro nada se espera, tudo vale; infelizmente, do segundo se espera um certo clichê, hoje uma literatura afetada, aborrecida e sem enredo.

    Eu gosto de bons enredos, acho que hoje é o ingrediente mais raro, é aquela sensação que se tem ao fechar o livro, pensar, e ver que existe uma trama que foi enredada em toda estória; é desafiador, não é óbvio, exige inteligência do autor e do leitor, mas dá extremo prazer.

    Este entretenimento amortecedor de cérebros é pernicioso, ainda mais na literatura, é uma transposição dos valores de marketing à escrita. No livro do Martin há um personagem para cada personalidade para empatizar com todos tipos de leitores, violência gratuita, sexo apelativo, o que nos EUA puritano faz um escarcéu, aqui nem tanto. A estória fragmentada deixando um gancho no último parágrafo, e o enredo que não se move, pois os personagens, desprovidos de caráter podem tomar qualquer direção, serem jovens não é desculpa, jovens não são estúpidos, é quase uma ofensa à juventude; mas acima de tudo, não é o conteúdo do livro que fez sua fama, mas a propaganda, e isto aconteceria com qualquer livro, independente da qualidade, independente da avaliação crítica do leitor. Isto não se restringe ao Martin e o seriado da HBO, todo ano grandes porcarias ganham o prêmio Jabuti; livros ruins, até piores e mais vigaristas que o do Martin, e não existe debate sobre o assunto, não se espera uma avaliação crítica dos leitores, se ganhou é por ser bom independente de eu não gostar, independente de argumentos. É preciso fomentar o debate sobre toda literatura, aberto, verdadeiro, sem gritar dogmas, analisando de forma objetiva as obras. Os prêmios fora do Brasil são extremamente debatidos e sempre que uma obra inferior é laureada, há debate e gritaria, aqui não, crítica é tabu, e quando verdadeira, pecado mortal.

    Ei li os três primeiros “Wild Cards”, gostoso, despretensioso, sem truques de televisão, quando vi as críticas negativas do GoT, a mim eram positivas: gente reclamando que o livro é muito descritivo ou tem muitos personagens, ele não é nada descritivo e como você mesmo salientou pobre nas descrições de batalha, e tem muitos nomes mas pouquíssimos personagens, pois não há qualquer personalidade atrelada ao mar de nomes e títulos.

    Eu acredito que tanto quem quer alta literatura quanto quem quer entretenimento pode ter material de maior qualidade, e isto só ocorre com leitores conscientes do que querem, sem deixar-se levar por propaganda, seja no sabor massa ou prêmio “intelectual”.

    Abraço,
    Alex

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  13. Alex, vou discordar de apenas uma coisa, afinal, nem li o resto (hey, honestidade também é importante)...
    As descrições de GoT não são exatamente pobres (o que remete a uma ideia de pequenas, curtas, insuficientes), mas sim longas, prolixas e ruins MESMO. Não dá pra ter a mínima ideia de quem ataca quem, onde o personagem está, essas coisas...
    Gosto do enredo de GoT e gosto dos pontos de vista alternados e dos personagens. Mas é pessoal. Eventualmente me irrita, eventualmente me diverte.

    "todo ano grandes porcarias ganham o prêmio Jabuti; livros ruins, até piores e mais vigaristas que o do Martin, e não existe debate sobre o assunto, não se espera uma avaliação crítica dos leitores, se ganhou é por ser bom independente de eu não gostar, independente de argumentos." Concordo plenamente e aplaudo de pé. Não é por ser "clássico" ou "premiado" que vale dois tostões. Assim como não é por não o ser que é ruim.

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  14. May,
    Acredito que colocamos um panorama diverso para quem pretende adquirir o GoT ter um julgamento baseado em fatos, com um pouco de “spoilers”, inevitáveis.

    Acho que a literatura pode sair ganhando se o mesmo tipo de debate for feito em torno de livros ditos “não de entretenimento”, que em teoria deveriam ser muito mais cuidados.

    Abraço,
    Alex

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  15. Uma série que espera ter sete livros,cada um mais volumoso que o outro,realmente não pode escapar de um enchimento de linguiça.No mais os livros (já li os três primeiros)cumprem bem o seu papel de entretenimento.Quem quiser ler algo mais profundo,está batendo na porta errada.Vá ler Borges ou Samarago.

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  16. Estou no momento no meio do segundo livro e observando algo que muito me intriga mas é fato: prolixidade. Fica aquela dúvida se no final tudo isso não vai ser um LOST.
    Antigamente escritores bons passavam um bom tempo lapidando suas obras antes de serem publicadas, cito Guimarães Rosa, Fiodor Dostoiévisk, José Saramago, São Tomás de Aquino, e muitos outros clássicos. É algo marcante de se notar que um escritor universal é aquele que de alguma forma torna possível dentro de sua escrita um poder universal, o qual coloca-o dentro de um grupo de escritores imortais. Assim sinto nos contos de Machado ou Tolstói. Mas como é a leitura destas obras trabalhos citadas? Para mim pelo menos, é aquela leitura conectada, ficando esperto com cada figura de linguagem e seu significado, olhando a origem dos nomes para compreender sua conexão com a história e as milhares de interpretações possíveis para personagens como é o caso da obra A Hora da Estrela de Clarice Lispector e seu SM, por exemplo. Sinceramente, vejo em muitas páginas escritas algumas vezes temos um elo interessante ao ver um senhor como Eddard no começo cumprindo com sua honra e lei a decaptação de um homem. Mas para quase no fim do livro perder a cabeça com a mesma espada por traição. Espero que responda as suas perguntas mas Eddard Stark é um homem educado para seguir o ritual de vassalagem e ele o cumpre moralmente. Existe um trecho no segundo livro que põe em questão o porquê dois homens honrados morreram ao lidar com Cersei, pois não sabem jogar o jogo dela. Existe uma passagem em que Eddard Stark logo após a morte do rei entrega a carta selada do rei ao homem da guarda real Sor Barristan Selmy, O Ousado, para ler perante os demais para logo em seguida ter a carta rasgada por Cersei. Acredito que revela um pouco o nível da esperança honrosa que Eddard esperava com uma carta. Existe um outro fator importante a ser apresentado ao longo dos demais livros que é a religião, as origens de alguma regiões e seres, lugares e elementos tanto físicos como culturais. Fiquei sempre pensando ao ler o Senhor dos Anéis que os homens sempre vem e vão, mas de onde vieram? Eles rezam, tem Deuses? Somente em outras obras de Tolkien como Silmarillion que consegui uma resposta. Mas pensando neste aspecto, não quero criar paralelos, no entanto vejo a manifestação religiosa é bem marcada na obra de Martin e assim como Tolkien, o mundo dos presentes personagens é decadente, ou seja, o mundo anteriormente era sempre maior e glorioso. O que quero dizer é o fato de os castelos no momento em que foram contruídos como Harenhal onde seus níveis não são nem mais ocupados como um dia o foram, a magia havia desaparecido, os dragões, e muitos outro elementos apontam que a humanidade esta numa decadência. Já em Tolkien os seres humanos vivem menos do que viviam no passado, o Gandaf é o único elemento de magia no povoado dos Hobits que são seres bastante tediosos não gostam de aventuras e apenas dos momentos de chá em suas casas buracos de hobits. Uma comparação com a visão propriamente da Bíblia onde os seres no começo vivem mais e são mais poderosos e ao sair da criação vão perdendo seus poderes e sua longevidade diminuindo ao percorrer as gerações é uma ideia mantida então nas obras.

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  17. Stolcker,
    Se entendi direito seu post está me sugerindo ler o GoT com o mesmo cuidado com que se lê Machado ou Tolstoi, sugerindo que há na escrita de Martin, densidade para tanto, desculpe-me, é impossível; não posso cometer a injustiça de tentar comparar um livro raso de entretenimento com os escritos de Tolstoi que em setecentas e cinqüenta páginas me coloca no meio do Guerra e Paz, muito menos com Machado, portador de uma escrita impecável. Se o GoT tivesse escrita cuidada neste nível, não apareceria em suas páginas uma coleção de metáforas patéticas no meio de uma composição descuidada. Esta sua frase assusta-me: “as milhares de interpretações possíveis para personagens”, isto é sinal de um mau escritor, pois o bom define um personagem, ou no caso da Clarisse, um personagem com uma patologia, não existem milhares de interpretações, mas milhares de detalhes; veja em Ulysses: discutem se o dialeto que Joyce dá a Molly Bloom seria apropriado a uma mulher nascida em Gibraltar de mãe espanhola, pois parece a voz de uma peixeira irlandesa. São detalhes de um personagem e não milhares de personalidades possíveis como em GoT, que dependendo do trecho que ler, o personagem tem diferente personalidade, ou melhor; uma personalidade aleatória. Ned Stark pode ter qualquer personalidade dependendo dos trechos que escolha, mas ao juntar tudo, não há deus do panteão que forme uma personalidade, mesmo patológica. A Sonsa tem doze anos, não paralisia mental, já conversou com “crianças” de doze anos? Tudo isto parece-me uma péssima desculpa para ruindade incomensurável do GoT. Não gostaste de Star Wars, era filme não livro, então vamos comparar o primeiro episódio a aparecer no cinema com o seriado da HBO, em pouco mais de duas horas tem uma excelente estória, no GoT com quase dez horas de filme não tem nada, no livro então, no mesmo número de página de GoT Joyce terminou Ulysses. Mesmo comparando com o que deve ser comparado, neste espaço de páginas cabe Duna, com um mundo muitíssimo mais desenvolvido e Neuromancer, icônico dentro de seu gênero.

    Há muitos que gostam de novela da Globo, há muitos que até assistem Big Brother, e vamos ser realistas, perto da boa literatura ou da literatura boa de entretenimento, estes programas ficam abaixo de cloaca de ofídio, há muita gente que gosta do GoT, não o torna um bom livro.

    Abraço,
    Alex

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