quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Estratégias do ebook no Brasil

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Gosto de jogar “wargames”, joguinhos com mapas hexagonais e umas centenas ou milhares de pecinhas de cartão com símbolos esquisitos e três pequenos números. São baseados em situações históricas, brincamos com acontecimentos passados e futuros, traçando estratégias para vencer o jogo. Vamos fazer a mesma brincadeira com o ebook.

O livro eletrônico já está aí a muito tempo, nunca ameaçou o mercado editorial, o que mudou? O que modificou o cenário foi o surgimento do e-reader, tão confortável para leitura como o livro de papel, não apenas o surgimento deste aparelhinho, mas quando o mesmo reduziu seu custo para menos de U$150,00. Foi a partir deste ponto que o ebook começou rapidamente a comer o mercado do papel.

O ciclo do livro começava no autor, ia para a editora que vendia o livro para a livraria. Antes, livro era coisa de pequeno negociante, com livrarias independentes distribuídas em todo território, vendendo livros impressos por editoras, com o tempo a lógica das grandes cadeias livreiras foi tomando espaço do livreiro individual, tinha mais poder de fogo, podia negociar melhores preços, vender mais barato. Foi a política das editoras que sufocou os pequenos livreiros e favoreceu a grande cadeia. Ao concentrar o poder de varejo de livros nas mãos da grande livraria, as editoras também lhes franquearam seu principal veículo de propaganda: a vitrine e as prateleiras das livrarias; as editoras por sua própria política tornaram-se reféns de sua estratégia míope.

Por conta da concentração do mercado livreiro as grandes cadeias rarearam a disponibilidade de títulos, concentrando-se apenas nos mais rentáveis. Foi assim até o surgimento da venda de livros na internet; nasce a Amazon, através de seus mecanismos qualquer livro poderia ser encontrado, obras que persegui por anos, em livrarias, viagens e bienais, agora estavam à minha disposição com extrema facilidade. Absolutamente tudo era encontrado em suas estantes virtuais, eles até procuravam para ti livros em sebos com uma qualidade de serviço impecável, gentis e prestativos. Uma vez comprei um título em ‘paperback” ,recebi o “hardcover”, muito mais caro, pois não tinham o “paperback” em estoque, e se eu fizesse questão do “paperback” poderia trocar o mesmo sem custo quando o livro voltasse ao estoque. O que posso dizer desta pequena gentileza? A Amazon passou a ser minha única parada ao comprar livros, e ainda indiquei para amigos; óbvio que eles tornaram-se grandes, e por mérito, diversidade não encontrada nas livrarias comuns que ficavam preteridas em favor da venda por internet. Com o tempo os livros da Amazon não só eram mais disponíveis como mais baratos, só recorria a uma livraria física para comprar presentes de última hora, no mais era só Amazon.

Eis que hoje os livros não precisam atravessar céu, terra e mar para chegar às minhas mãos, mas olhe que ironia, meu e-reader foi comprado em loja nos EUA logo que houve a queda de preço, tenho o Sony reader. Só posso comprar da Amazon se tiver um kindle, não tenho, assim compro em livrarias canadenses, pois nem a da própria Sony vende ao Brasil.

Quem vende ebooks e ganha dinheiro só o faz com os falíveis DRMs, e só existem duas possibilidades já implantadas nos e-readers, os aparelhinhos necessários ao conforto da literatura eletrônica, o responsável por fazer o mercado existir. Ou Amazon DRM só presente no Kindle ou Adobe DRM não presente no kindle. To kindle or not to kindle?

Mais uma: agora a Amazon, antigamente livreiro, passa a comercializar diretamente do autor, dispensando editoras. Semana passada li duas matérias no jornal referentes ao mercado de ebooks europeu, em uma havia um argumento que sem editoras não haveria livros a vender... sem editoras? Ou sem autores? Quem faz o livro, editores ou autores? Chegamos ao ponto da geração espontânea dos livros que passam a existir sem autores? A outra matéria dizia respeito à lentidão do avanço dos ebooks na Europa, não sei como foi feita a pesquisa, mas todos os meus amigos europeus tem kindle e compram na Amazon EUA, pois não tem boas opções domésticas.

Uns podem dizer por aí que sem as editoras a qualidade dos livros vai diminuir e será difícil ao leitor encontrar algo que preste frente às porcarias; o mercado de papel está cheio de porcarias e nunca me perdi nelas ao comprar meus livros na Amazon, mesmo estando o melhor e o pior, tudo misturado, este era o mérito da Amazon, tudo, absolutamente tudo podia ser encontrado, para todos os gostos. Qual motivo disto ser hoje impedimento diferente dos bilhares de livros que já existem?

Tudo isto foi apenas uma introdução histórica para agora podermos jogar com as possibilidades de como será o ebook no Brasil, é normal os “wargames” terem longos textos históricos para situarem os jogadores, um dos meus jogos favoritos era o do bolsão de Stalingrado, era o avanço russo contra as forças germânicas, quem conseguisse assegurar o controle de uma ponte em Kalach no Don, vence a batalha, era questão de chegar primeiro e cortar a retirada germânica, o que ocorreu historicamente.

Eu sou ou já fui um cliente Amazon, mas por acessibilidade acabei com o Sony (era o que tinha para vender na loja), estou plenamente satisfeito, não tenho queixas, acho o e-reader a grande maravilha moderna, mas não compro mais na Amazon, não tenho acesso. Com este esquema de DRMs quem chegar primeiro no Brasil com ereaders e livros com bons preços vai levar o mercado, sem deixar chance aos concorrentes.

A pouca leitura no Brasil é creditada à baixa educação, mas convenhamos, com livros a R$30,00 é difícil formar leitores, é preciso poder aquisitivo para ter livros, além da educação. Eu fico de certa forma vexado ao indicar um livro a uma pessoa de poucos recursos, parece que quero lhe substituir o feijão do mês por uma minúscula latinha de caviar beluga; infelizmente é uma questão de escolha, ou come ou lê. Às vezes presenteio livros, as pessoas lêem, gostam, mas não continuam, é caro, o que posso dizer? Apenas ficar envergonhado do livro no Brasil custar mais caro com isenção de impostos que o livro nos EUA, onde o povo ganha muito mais. Educação se faz com livros.

O preço do livro no Brasil é uma grande batalha, mas pela internet pagamos o preço do mercado americano, mais rico e mais barato, quem aqui vai aceitar pagar os preços extorsivos do mercado brasileiro? As editoras brasileiras tem a seu favor um grande catálogo, mas será que isto basta para competir com uma Amazon vendendo livros diretos do autor por preços verdadeiramente acessíveis? Será que neste novo panorama os autores tradicionais não vão ficar preteridos por seus livros custarem verdadeiras fortunas?

Quem entrar com o e-reader no Brasil primeiro, ao preço mais acessível, vai ficar com todo o mercado, e se hoje, com livros a R$30,00 ele é minúsculo, qual será seu tamanho com livros a R$5,00? É a comodidade e o preço acessível que vai tirar o fôlego da pirataria, fazendo um país de leitores, com mais educação e todos os bens advindos desta mudança.

Alex

4 comentários:

  1. Haviam noticias que a Amazon viria para o Brasil e poderiamos comprar o kindle e e-books,mas parece que vai iiciar com a operação de i-cloud.
    O que é verdade nisto?
    Será que é melhor importar um kindle ou esperar para comprar quando (e se) chegarem ao Brasi?

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  2. Alex, esse seu texto esta de acordo com meus pensamentos. Parabens!
    Um dos melhores textos que ja li sobre o assunto>Editoras x Autores.
    Abracos!

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  3. muito bom o texto concordo com quase tudo acho que o dia que os autores tomarem coragem e se desvencilharem das editoras vai ser uma coisa muito boa para eles e para os leitores e os ebooks e também o POD (Print on Demand) permitem que isso se torne realidade...

    Quanto as vendas de ebooks no Brasil as livrarias ainda engatinham e fazem errado a saraiva que vende alguns títulos mas ai além d epecar no preço cobrado que é o mesmo e as vezes até maior do que o de uma copia tradicional ainda peca em vender apenas um formato e ainda por cima com DRM

    anônimo que a amazon vai vir para o Brasil parece que já é fato, só seguir os sinais novo kindle tem opção de interface em português, novo app do kindle também, eles abriram vaga para gerente do escritório deles aqui em São Paulo e mais os rumores todos ai pela net, eu já dou como certa essa vinda deles para terras tupiniquins e quando eles chegarem essas livrarias "digitais" fazendo o serviço pela metade e cobrando preços abusivos estará com os dias contados

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  4. Anônimo, são apenas indícios, algumas contratações, interfaces em português, e nada de datas, ou algo concreto. Acredito que a entrada da Amazon no Brasil causaria maior pânico nas editoras estabelecidas, e uma forte oposição, tanto saudável como virulenta, apesar que se existe alguém com bala na agulha para encarar a tarefa, esta é a Amazon.

    Everton, legal que gostou das idéias do texto, acho que só temos a ganhar neste debate, por muito tempo esta relação ficou estática e unilateral.

    Gabriel, o POD é muito interessante, já ouvi uns editores dizerem que o livro neste sistema sai muito caro, mas veja: do preço final o autor ganha uma ninharia na publicação tradicional; no POD, tirando fora a editora, o livro sai ao mesmo preço, com o mesmo ganho para o autor... Imagina no ebook!

    Abraço,
    Alex

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