sábado, 1 de outubro de 2011

Batalhas Tecnológicas

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Agora, com a batalha dos tablets aquecendo, é uma boa hora para relembrar as guerras históricas por formato e tirar um sentido disto tudo, é batalha de corações, mentes e muito dinheiro, datando do começo da eletricidade, Thomas Edison com a corrente contínua batalhou com George Westinghouse que defendia a corrente alternada. Sabemos quem venceu e modelou o nosso sistema de produção elétrica, apesar da maioria dos dispositivos de baixo consumo de nossa residência transformarem o AC em DC, é a corrente alternada que chega em nossa tomada, e só chega de distâncias tão longas pois é transmitida em altíssima voltagem. Tal modelo centralizado de distribuição energética só é possível em corrente alternada. A voltagem e o ciclo da corrente definem nossos aparelhos, o sistema de tv: ntsc e pal, vem da diferença de ciclos.

Uma das grandes batalhas mais recentes foi dos vídeo gravadores VHS e Beta, o segundo era tecnologicamente superior, mas perdeu a batalha por fatores de mercado. O que contribuiu para a derrocada do beta foi um conjunto de fatores que fez com que o inferior VHS tomasse o mercado, dentre eles: o licenciamento mais lento e complicado da Sony começou a diminuir a distribuição do beta; o preço mais alto fazia com que muitos preferissem o VHS da JVC; podem achar engraçado, mas a Sony não permitiu conteúdo pornográfico em seus aparelhos, este também foi um dos fatores da vitória do VHS, existia conteúdo que não podia ser visto em beta; no início, as fitas beta só permitiam sessenta minutos de vídeo, contra três do VHS. As velhas fitas morreram, hoje temos o DVD e um Blu-Ray vencedor sobre HD DVD que enquanto não gravar tão bem como os DVDs vai ficar restrito. Ninguém quer um aparelho limitado!

Outra briga das boas foi IBM vs Mac, quem venceu não foi nenhum dos dois, mas sim a Microsoft. Só quem fabricava Macs era a Apple, eram bons, com um sistema gráfico intuitivo, mas caros. A IBM abriu o seu padrão e permitiu terceiros vender máquinas compatíveis, tecnologicamente fracas, com um sistema pouco intuitivo para leigos, mas eram baratas, a metade do preço de um Mac. Você precisava de um computador, não podia comprar um Mac, adquiria um IBM PC com DOS, mas queria o sistema intuitivo do Mac com mouse. A Microsoft copiou a idéia do sistema gráfico de ícones do Mac e o vendeu aos possuidores de PC. Resultado? Quem é o homem número um na lista da Forbes? O executivo da IBM que disse que software nunca seria um mercado rentável ficou famoso...

A batalha dos sistemas operacionais aperta, hoje temos sistemas abertos, gratuitos, de capacidade técnica muitíssimo superior ao Windows, mas a maioria dos computadores ainda tem o sistema pago. O primeiro motivo é a diversidade de programas criados por terceiros que só rodam no Windows, o segundo é a pirataria, sim, a pirataria. Se a Microsoft desenvolvesse um Windows com sistema anti-pirataria à prova de falhas e obrigasse o usuário a pagar pelo sistema, sua distribuição diminuiria e assim perderia mercado, pois os desenvolvedores de software iriam criar programas para os sistemas mais populares, logo o Windows estaria morto.

Não é a excelência técnica que domina o mercado, mas sim quem consegue atender melhor o consumidor de massa. Quem precisa de um computador super rápido? Por muito tempo a batalha dos megahertz obsoleceu computadores em favor das novidades mais rápidas, mesmo o consumidor não sabendo para que os usaria, a grande realidade é que a maioria tem necessidades muito simples, mesmo um processador lento dá conta do recado. Computadores estão sendo desafiados por dispositivos mais simples e junto com eles vem a supremacia do sistema operacional, os desenvolvedores irão criar para os sistemas mais populares, menos burocráticos e mais capaz, sistemas de padrão aberto.

É recente, e se vocês não lembram, deixe-me contar, o tablet da Apple, o ipad foi desdenhado por todo o mercado e mídia antes de seu lançamento, outros tentaram e fracassaram, virou tabu, o tablet era um mico preto. A firma que já foi posta no buraco pelo Windows, reapareceu com o seu ipod e iphone, apostando no conceito de simplicidade, design e muita propaganda; apenas isto não bastaria para impulsionar o tablet. O ipod é mais caro que seus irmãos, assim como o iphone, os tablets anteriores afundaram, pois eram muito mais caros que os outros computadores. A maior surpresa no lançamento do ipad foi seu preço, o dispositivo mais simples é incrivelmente limitado tecnologicamente, mas é relativamente barato. Foi a chave do sucesso, a Apple saiu na frente onde outros fracassaram, tomando mercado enquanto a concorrência tentava correr atrás do tempo perdido; não conseguiram concorrer em capacidade nem em preço, o antes preterido ipad é dono de mercado.

O novo round da briga começou com a Amazon lançando seu tablet, extremamente barato, mais limitado e voltado à incrível loja gerida pela Amazon. Os kindle e-reader são dispositivos limitados, não aceitam expansão SD e não abrem epub ou qualquer outro padrão DRM que não seja da própria Amazon, mas para leitores de língua inglesa não podia existir loja melhor, é a força e a fraqueza de seus dispositivos. Preço e capacidade de satisfazer o consumidor são os ingredientes principais, vamos ver como se dá o embate. Mais que a sobrevivência dos dispositivos, está em jogo a prevalência dos sistemas operacionais, são eles, aliados aos conteúdos que vão rechear os dispositivos os responsáveis pelo desfecho da batalha.

E o Brasil? Tenho o hábito de observar a marca dos celulares das pessoas quando estou em ônibus e metro, a grande realidade é que raramente vejo as marcas conhecidas, sempre é uma variação do que chamamos “xing-ling”, nosso governo incompetente criou um mercado paralelo maior que o oficial. Enquanto os tablets Apple, Motorola e Samsung custam uma fortuna, os “xing-ling” estão aí por R$300,00... são inferiores? Sim, mas são os únicos acessíveis ao nosso povo, nunca vi alguém em ônibus com um tablet das marcas famosas e muito menos com um e-reader, mas já vi diversos destes tablets inferiores funcionando como televisão. Enquanto os nossos políticos comem bola e apostam no nosso atraso, o Brasil digital acontece pela porta dos fundos.

Alex

2 comentários:

  1. Quero dizer que gostei muito do seu blog... e concordo com grande parte do que você disse... principalmente sobre que no Brasil original é para poucos...

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  2. “no Brasil original é para poucos.” Não é exatamente o quê quis dizer mas fez-me pensar: o governo taxa pesado os aparelhos, para quem tem dinheiro, paga mais caro, mas tem o aparelho; é como multa, se você tem muito dinheiro nem se preocupa, pode pagar para delinqüir, mas se não tem vira problema. A camada mais carente fica excluída da tecnologia e da educação pelo governo, pois não tem o dinheiro, fica sem usar os aparelhos, não pode comprar, fica sem ler, mantida na ignorância, não é só o original que é para poucos, também a cidadania.

    Abraço,
    Alex

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