sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Forma e Função

Aumentar Letra Diminuir Letra



A grande diferença entre e-reader e tablet é sua tela, enquanto o primeiro utiliza e-ink onde a luz ambiente é refletida em uma imagem estática, o outro utiliza uma tela retro-iluminada com a imagem piscando em alta velocidade. Para o leitor assíduo de livros este pequeno detalhe traz aos aparelhos funcionalidades completamente distintas. Quem gosta de ler e já manuseou um e-reader, não viu diferença entre o aparelho e o livro, é tão díspar quanto uma edição em papel é de outra. Particularidade que passa despercebida a quem nunca usou o aparelho.

Departamentos de marketing ficam pensando em como colocar traquitanas nos dispositivos e esquecem do básico: sua funcionalidade. Tudo que um Steve Jobs fez foi priorizar este item, ficou famoso com o ipad e muito antes o visicalc do apple II. Todos estes aparelhos não existem per si, são apenas ferramentas para outras tarefas.

No mundo da leitura já existem livros, revistas e jornais. Livros são mais longevos, exigem maior intimidade do leitor, revistas e jornais são descartáveis, acabam indo embrulhar mamão na feira. Seria possível ler um livro impresso como um jornal? Possível sempre é, mas não é confortável, aí é que está o ponto: conforto. Não usamos o computador da mesma maneira que a TV, apesar de parecidos a atitude ao usar os equipamentos é diferente, assistimos televisão inclinados para trás, relaxados; no computador estamos inclinados para frente, atentos. Esta consideração não é minha, faz toda diferença no conteúdo que porta a tela de computador e o aparelho de televisão.

Computador e principalmente a internet nos trouxeram mais ferramentas que usos e a inovação muitas vezes esquece o conforto. O início da internet não foi para público “civil”, os primeiros usos abarcavam a comunidade científica, onde a livre discussão de idéias e os amplos debates poderiam impulsionar a atividade, era ferramenta de discussão, livre, sem fronteiras, imediata, um mail substituía uma carta ou um caríssimo telefonema, quando a internet popularizou-se pensaram até em criar uma rede separada para o uso científico exclusivo. O problema é que a ferramenta era muito melhor que a comunidade científica, acostumada a viver em feudos não se adaptou ao debate aberto e o mundo da internet. A ferramenta é poderosa, idealmente democrática, mas a comunidade científica é essencialmente medíocre, não tem o preparo para usar ferramentas tão poderosas como os fóruns de internet. Imagine o debate entre Einstein e Bohr aberto, diário, na internet! Infelizmente a mente da comunidade é menos iluminada que seu ideário.

Depois tivemos as homepages e mais recentemente seus irmãos blogs. Fazer uma página, normalmente implica em imiscuir-se, no mínimo, em códigos HTML e outros domínios de programadores e designers, se tem necessidade muito específica, não há outro caminho para um bom trabalho, mas o blog, que é uma página já pronta e com máscaras que excluem o usuário leigo do mundo dos códigos faz uma página minimamente estética e funcional. Jornais e revistas tem esta diagramação padronizada de blogs e nem por isso são piores, lhes confere identidade visual limpa e identificável. Apesar de ler em tela de computador ser menos agradável, blogs comportam com facilidade o mesmo conteúdo de jornais e revistas onde os textos são cada vez mais curtos pela limitação do papel, foi-se o tempo em que ler jornal lhe dava maior base por artigos mais fundamentados; blogs podem portar mais texto sem o limite do papel, acho isto excelente, não me é desconfortável ler um texto mais longo em um blog, é engraçado notar que o formato periódico, com textos descartáveis virou estereótipo de blog, apesar de poderem abrigar textos perenes em seu formato.

Para blogs, revistas e jornais o tablet é excelente, não para o livro mais longo, é a desgraça da retro-iluminação. O conforto da leitura tem alguns fatores: a posição em que se lê, inclinado para frente, em textos menores ou técnicos, ou inclinado para trás, entretenimento ou literatura mais complexa. A coluna de texto também influencia, se muito fina ou larga interfere na leitura, páginas de livros são estáticas, o esquema de “scroll down” é irritante para leitura longa. Mesmo os “hiperlinks” são inoportunos em textos de literatura e devem ser evitados. Leitura consome tempo, baterias de curta duração atrapalham. São fatores de conforto que irão determinar o sucesso ou fracasso dos dispositivos, independentes de bobagens que departamentos de marketing inventam.

Para todos os séculos de literatura que me precederam acho o e-reader perfeito, ficam inventando traquitanas, livros interativos com filmes, música, jogos, comunidades, terceira dimensão. Encantem os tecno-maníacos, mas por favor, deixem nós leitores em paz com e-reader e e-ink.

Alex

15 comentários:

  1. Tenho um Kindle e um iPad. Embora este último seja muito legal, não troco a leitura de livros no Kindle por nenhum aplicativo bacaninha do iPad. O browser do Kindle é fraquinho... mas eu o quero para ler livros, não para navegar na internet. Deixo o Wi-fi desligado a maior parte do tempo.

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  2. Realmente eu não entendo essa coisa de querer colocar outras mídias dentro dos livros, quando era criança odiava aqueles livros que tinham puzzles no meio, só queria saber da história, e por mais detalhes que tenha uma animação, minha mente e uma boa descrição vão muito além.

    Normalmente, quem fala mal de um e-reader comparando com um tablet nunca pegou uma tela e-ink para ler uma página sequer. Além de ser uma comparação hedionda, como comparar uma águia a um pato. A águia voa muito bem, assim como o Kindle é perfeito para leitura. O pato, nada, corre e voa, mas não faz nada disso brilhantemente, assim como o iPad faz um monte de coisa sem ser fantástico em nenhuma delas.

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  3. "Eu o quero para ler livros!!" Falou tudo!

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  4. Eu também prefiro o kindle para a leitura, mas acho válida a tentativa de criar formas de aprimorar essa experiência nos tablets. Hj essas inovações podem nos soar estranhas, mas num futuro talvez nem tão distante quem sabe....

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  5. Excelente texto Alex.

    Eu não abro mão do meu kindle para leitura de e-livros. Ler no ipad cansa não só a visão mas os braços. :)

    Porém, ler o e-livro do Al Gore "Our Choise" foi uma experiência ímpar e recomendo. Ele tem texto, fotos,text, infográficos,texto, videos, texto voz, texto, jogos e texto...

    A interatividade desenvolvida para esse e-livro permite um absorção do conteúdo de forma mais profunda, e segue a tendência a adapção do contéudo as crianças de hoje.

    Contudo, um bom livro, formado por palavras arranjadas linearmente numa sequência capaz de levar a quem ler numa viagem sem sair do lugar, jamais deixará de existir.

    Abraço,

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  6. Não sou contra interatividade de mídias nem nada disto, apenas falo o óbvio, tablet não substitui e-reader, e os e- readers atuais já permitem ler um texto como um livro sem que note diferença. Qual motivo de declamar o óbvio? No mercado editorial brasileiro existe o tablet, mas não o e-reader, ficam anunciando o apocalipse do livro, que as próximas publicações serão todas interativas e que o novo leitor não vai mais querer ler apenas texto. Parece-me uma bobagem de colossais proporções. Nos EUA onde existem mais tables que e-readers a maciça venda de e-books é para e-readers. É como dizer que as gigantescas bibliotecas podem hoje ser queimadas ou transformadas em museus, falso: estão digitalizando seus acervos e disponibilizando os conteúdos em epubs gratuitos.

    Adoro interatividade, não sei se alguém aqui jogava adventures tipo “Day of the Tentacle” e “Full Throttle”, eram tempos de máquinas mais limitadas e grande criatividade, geraram estórias interativas no formato de jogos extremamente divertidos, não são livros, mas são conteúdos perfeitos a tablets. Com a moderna tecnologia, muito da criatividade que tornava os jogos simples instigantes foi perdida em favor de efeitos especiais 3D. Quantos jogos de poucos recursos tornaram-se magníficos pela criatividade, “Civilisation”, “X-Com”, “Master of Oriom” além de muitos outros. Já existiu conteúdo interativo, mas nunca um aparelho tinha substituído o livro de palavras tão bem.

    Abraço,
    Alex

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  7. Estas críticas a quem criou a Internet (a comunidade científica) não são muito justas...
    "O problema é que a ferramenta era muito melhor que a comunidade científica, acostumada a viver em feudos não se adaptou ao debate aberto e o mundo da internet.

    A ferramenta é poderosa, idealmente democrática, mas a comunidade científica é essencialmente medíocre, não tem o preparo para usar ferramentas tão poderosas como os fóruns de internet.

    Imagine o debate entre Einstein e Bohr aberto, diário, na internet! Infelizmente a mente da comunidade é menos iluminada que seu ideário."

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  8. Se a comunidade científica prefere publicar “papers” em revistas privadas, pagar, precisar esperar muitas vezes mais de ano para o artigo sair, virar domínio público e as pessoas pagarem para ler, em vez de terminar o trabalho e imediatamente publicar na internet, gratuitamente para todas as partes; qual conclusão devo tomar?

    Abraço,
    Alex

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  9. ainda não consigo alcançar as razões da desproporção de incentivo e atenções enter tablets e e-readers. É como se a fatia do mercado que está interessada "apenas" em ler, estivesse sendo ignorada.

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  10. É verdade, como leitor sinto-me preterido, como se ler fosse mau hábito, já estou vendo livros e e-readers vendidos com uma tarja com a foto de escritores feios e os dizeres “O ministério da Educação adverte: ler faz mal ao cidadão”. Sem leitura não há educação, este atraso nos e-readers é verdadeiro crime.

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  11. Na minha (pouco influenciada e levemente conspiracional) opinião, tem tudo a ver com o plano do governo de manter o povo burro para que o sistema do governo (elege, rouba, reelege, rouba, compra uma empresa que trabalha para o governo, rouba) não seja derrubado...
    Enquanto o povo joga Angry Birds, não vai se importar com política. Mas se ler 1984 (ou qualquer outro livro que faça pensar no sentido político) pode ser um perigo...

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  12. Gostaria que fossem apenas teorias conspiratórias, mas o fato é: faz quarenta anos que a educação só piora, não é coincidência, é intenção. O pior é que nos últimos dez anos a ladeira descendente ficou mais íngreme. Há hoje movimento ativo em favor da ignorância.

    Abraço,
    Alex

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  13. "Se a comunidade científica prefere publicar “papers” em revistas privadas, pagar, precisar esperar muitas vezes mais de ano para o artigo sair, virar domínio público e as pessoas pagarem para ler, em vez de terminar o trabalho e imediatamente publicar na internet, gratuitamente para todas as partes; qual conclusão devo tomar?"

    1. Existem várias revistas abertas. Deveriam existir mais. Mas a pouca existência delas tem mais a ver com os pesquisadores-elite que supervalorizam as revistas pagas do que com a massa de pesquisadores, ou seja, a comunidade científica de fato.
    2. Muitos pesquisadores já pré-publicam seus artigos em sites como o http://www.arxiv.org/

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  14. Se os “pesquisadores-elite” preferem a mediocridade das revistas privadas em vez da ferramenta que supostamente criaram, o que os faz pesquisadores-elite? Isto não seria um problema comunitário? Quem sustenta a elite são as camadas “inferiores”. Há vinte anos no mínimo a internet já é ferramenta de uso comum, se a livre circulação de idéias não aconteceu em um meio que prezaria por sua racionalidade, é exemplo da mais pura e infame mediocridade.

    Abraço,
    Alex

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