domingo, 14 de agosto de 2011

Pixels x papel

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Tempos atrás a Rafa Lombardino compartilhou conosco um infográfico a respeito das supostas vantagens ambientais dos e-books e nos comentários do post iniciamos uma discussão sobre o tema. No final das contas, convergimos para certo ceticismo quanto às vantagens ambientais (sempre tendo em mente que este não é o ponto central da discussão quando se trata de ter um e-reader ou não e promover ou não os e-books) e lamentamos pela indisponibilidade (naquele momento) de comparativos similares ao apresentados que trouxessem opiniões "do outro lado".

Prometi investigar e consegui com um amigo material produzido pela International Paper – uma parte interessada, sem dúvida, pois produz celulose e papel, mas que traz abordagens que julguei merecedoras de atenção. Segue uma livre tradução entremeada de meus próprios pitacos. O material original pode ser lido (em inglês) aqui.

O artigo aborda o seguinte fato e seus desdobramentos: qualquer processo de comunicação provoca algum tipo de impacto ambiental. Possivelmente várias pessoas já devem ter parado um segundo ao menos para ponderar que cada e-mail enviado / recebido, implica em consumo de energia. O mesmo é válido para o envio de uma carta pelo correio. Mas para avaliar, no fim das contas, a melhor alternativa em termos de racionalidade no uso recursos naturais a análise precisa ser ampla, não pode se restringir à comparação do tempo de consumo de energia com o computador ligado enquanto se digita o mail + tempo equivalente para quem lê e comparar diretamente com o tempo do escrever / receber a carta. Essa é uma visão insuficiente para se chegar a uma resposta. Há que se pensar no custo energético por trás desse atos mais simples - todos os servidores que permitem o funcionamento da web, toda a logística de transporte que envolve a distribuição física da comunicação.

Ao iniciar a discussão do que pode ser considerado sustentável, o material começa com a defesa da inerente sustentabilidade da indústria de celulose e papel, uma vez que toda a madeira utilizada (no caso da International Paper e da imensa maioria de indústrias do ramo) vem de plantações florestais, ou seja, são árvores plantadas com a finalidade de suprir as fábricas e não extraídas da natureza, de florestas nativas.

A argumentação segue com o lembrete de que um computador requer recursos oriundos de mineração e da indústria química. Muitos minerais e metais, incluindo ouro, prata assim como grande quantidade de plásticos e solventes – todos recursos não renováveis.

A vida útil de um computador (e isso se estende para tablets, e em certa medida e-readers) pode ser considerada curta e tem contribuído para o crescimento da geração de resíduos do mundo todo.

Diz o material que o impacto em geração de CO2 é 30% menor para uma leitura diária de 30 minutos no jornal impresso em comparção à leitura de notícias online. Seguindo a linha dos infográficos, eis a comparação apresentada em termos de consumo de energia da indústria de celulose e papel x centros de armazenamento de dados.







Outro ponto discutido na “competição” entre as formas de disseminação de conteúdo (impressão x eletrônico) é a questão do potencial para reciclagem. Apesar de haver certas ressalvas quanto à viabilidade de reciclagem e o impacto ambiental do processo para certos tipos de papel, não há como negar que é muito mais frequente e viável do que a reciclagem de componentes eletrônicos. Entretanto, ambos ainda devem melhorar. Veja:





O artigo conclui de maneira um tanto óbvia, defendendo que a "briga" entre qual o melhor meio em termos ambientais não é o caminho, mas que devemos buscar o balanço ideal e tratá-los como meios complementares.
E como não se trata tanto de concordar ou discordar, apenas acrescento que considero enganoso e dispensável argumentar a favor de um ou outro com base no argumento ambiental. Há tantos outros aspectos relacionados com o interesse e conforto do mercado que delinearão os rumos do tema que poderíamos gastar horas debatendo, mas eu vou economizar um tantinho de energia aqui do computador e vou ler meu kindle na frente da lareia que o inverno pegou novamente.





Escrito por Maurem Kayna

7 comentários:

  1. O meu primeiro "e-book" saiu em 2004, está no Recanto das Letras, disponibilizado gratuitamente, título Verbetrix. Para escritores iniciantes no mercado, o e-book é um ato de preservação de árvores, pois conheço muitos que fizeram uma tiragem de 1000 exemplares e depois de 1 ano ainda tem 899. Livros em papel são impressos loucamente e não é isso que dá dinheiro ou prestigio para um escritor que está começando e nem para nós, ainda não consagrados. Primeiro precisamos de leitores.

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  2. só um comentário sobre um detalhe: sim, o papel é feito a partir de florestas plantadas. Mas as florestas são plantadas em algum lugar, não? E esses lugares um dia já foram florestas nativas, campos rupestres, pampa, cerrado (não! o cerrado brasileiro está virando lenha & carvão mesmo, não papel). Eu acho que é um problema sem solução (o ambiental), porque eu mesma nem cogito abdicar de usar as variadas formas de papel, talvez uma das maiores invenções da humanidade e que ainda permitiu à espécie humana acumular o conhecimento gerado ao longo dos séculos. Mas não sejamos ingênuos ... o fato das árvores terem sido plantadas não significa que o papel seja verde. Indústria de papel é poluidora e ambientalmente agressiva sim. Como todas as indústrias. A questão é que ninguém vai parar de ler livros e jornais, usar aborvente, fralda descartável, pasta de dentes, caixas de papelão ...
    Então, é o preço...

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  3. Tive o mesmo debate com um amigo sobre fotografia digital e analógica. Já vi vários comentários de pessoas afirmando que a fotografia digital elimina os laboratórios com seus químicos poluentes e de que é mais "ecológica" , tudo bem, mas com a expansão da fotografia digital precisamos de muitos computadores e o consumo de equipamentos aumentou exageradamente. Nada vem de graça , a natureza paga caro porque cada câmera ou computador montado consome recursos naturais e comparando digital com analógico na fotografia chego a conclusão de que os químicos não eram tão agressivos para a natureza...No caso do e-books acho que vale o mesmo debate. Só para deixar claro, sou usuário de fotografia digital e cada vez mais apaixonado por e-books .

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  4. Fabbio, eu também sou usuária e fã de e-books, embora também possa me considerar bibliófila. O fato é que as novas alternativas vieram e ficarão até a próxima novidade aparecer. Brigar resulta em nada. Mas um bocadinho de consciência sempre vai bem ,né? Inclusive para não discutir apaixonadamente algo com base em visões muito parciais. Abraço!

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  5. Ana, concordo que o fato da árvore ser plantada não elimina o impacto ambiental, mas não aceito o argumento da "economia" de árvores. Grande parte das áreas onde estão as plantações que abastecem fábricas de celulose era lavoura ou pasto degradado, porque nossa alimentação também ocupa os espaços naturais. Concordo contigo que tudo tem preço... especialmente com a população humana crescendo como está, mas ninguém está mesmo muito disposto a abdicar dos confortos hoje disponíveis. Eu tento me disciplinar para muitas coisas que minimizem geração de lixo e consumo de energia, mas também não vou deixar de consumir papel em todas as suas formas, tampouco abandonar o computador e o kindle. O objetivo do artigo não era trazer uma bandeira de que papel é isento de impactos ambientais, mas reduzir a distorção de que a tecnologia o seja. E debater com vcs, porque gosto disso. risos. Abraço!

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  6. Pegando uma carona no comentário da Maurem, sabiam que produzimos mundialmente uma quantidade de comida suficiente para abastecer mais do dobro da população mundial ? É isso mesmo, comida não falta. O que falta sim é distribuição correta. Hoje o que crescemos em termos de produção e padronização de alimentos é mais do ponto de vista de aumento de lucratividade do que de ter alimento para todos. Só que esta massificação das produções, acaba por colocar em extinção muitas plantas nativas de alguns locais e, com elas, vai todo o ecossitema onde elas estão encaixadas na cadeia alimentar, ou seja, é mais ou menos assim : no meio do Brasil, desmatam uma região que produz uma frutinha que só dá lá para plantar Soja (que dá em muitos lugares do planeta... Só que tem uns insetos que só comem as folhas da tal frutinha e não da soja, e lá se vão estes também, ai vai junto os que comem os insetos e com estes os seus predadores naturais. Só que estes comem outros insetos e animais também, que se mantiveram sem a tal plantinha, mas ai sobra estes e o produtor tem que colocar um monte de agro tóxico para conseguir os indices de produção que querem. E ai, lá vamos nós com uma excesso de Soja ruim e cheia de veneno e sem os produtos que nossos bisavós apreciavam como algo nativo da região. Bem, isso é um Blog de livros e não de defesa da mudança dos modelos economicos que vão acabar com o planeta. Mas aqui vai o desabafo e, ficando nos livros, leiam o livro Slow Food de Carlos Petrini que explica tudo isso que comentei muito bem.

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  7. Pessoal,

    o Kindle agora também pode ser acessado do Cloud Reader, uma App para o navegador Chrome. Achei muito interessante. É só ir na Chrome Store e instalar a app. É grátis.

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