sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A Era da Distração

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Passeando pela Web, encontrei um artigo interessante do colunista Johann Hari, do London Independent. E apesar de não concordar com ele em tudo, achei o seu ponto de vista digno de atenção.

A seguir segue uma transcrição - não completamente literal - de algumas partes não contíguas do artigo que eu achei que seriam interessantes para compartilhar com todos os amantes de e-books, livros físico... bem, todos os amantes da literatura independente da forma em que ela se apresente.



"Na Era da Distração, precisamos de uma coisa mais do que nunca: Livros

Eu me mudei recentemente, o que para mim, geralmente significava empacotar verdadeiros Everests de livros que eu venho juntando desde criança. Peça-me para jogar um livro fora e eu começo a tremer mais que Meryl Streep em A Escolha de Sofia e a insistir que eu não quero me separar dos meus livros, não importando quão pouco provável seria eu ler (por exemplo) uma biografia de 1000 páginas do pouco conhecido ditador português Antônio Salazar.

Enquanto eu empilhava meus livros eu percebi o quanto essa cena pode ser incompreensível para as gerações futuras. Sim, alguns especialistas continuaram carregando suas coleções de vinil de um lado para o outro, mas o resto de nós migrou felizmente para os Mp3's. Isso importa? O que é que foi realmente perdido?

O livro - o livro de papel físico - está cercado por tubarões, com as vendas em queda de 9% apenas nesse ano (2011). Ele está sendo mastigado pelo e-book. Está sendo destruído com a morte das livrarias e bibliotecas. E mais importante: o espaço que ele ocupava está sendo preenchido pelas milhares de armas de destruição em massa que nos rodeiam. É duro de admitir, mas nós todos estamos sentindo: está ficando fisicamente mais difícil ler um livro.

No livro 'A Arte Perdida da Leitura', o crítico David Ulin admite essa sensação estranha: todos esses anos, ler, para ele, era tão simples quanto comer, mas então, há uns anos atrás ele percebeu que em seu apartamento cheio de livros, ele não conseguia mais encontrar a quietude necessária para tanto.

Ele sentava a noite para ler, como sempre fazia, apenas para perceber sua mente pensando e implorando para que ele fosse checar seu email, twitter ou facebook.

'O meu conflito interno' escreveu Ulin 'é devido ao crescimento do zumbido de que tem alguma coisa lá fora que exige minha atenção, quando, na verdade, e só uma série de eventos desconexos e fragmentos que se somam para gerar a ansiedade característica de nosso tempo'.

Acho que a maior parte de nós sente isso hoje em dia, se formor honestos. Se você lê um livro com seu laptop do lado, pode parecer como se estivesse tentando ler com uma banda de heavy metal gritando na sua frente.

Não me entendam mal. Eu adoro a Web, e eles vão ter que desparafusar meu twitter das minhas mãos mortas e gélidas. Mas para ler você precisa diminuir a velocidade. Precisa de silêncio mental. E isso está difícil de achar.

Na década de 50, o novelista Herman Hesse escreveu: 'Quanto mais as novas invenções atingem as expectativas da necessidade de entretenimento, mais o livro recupera sua dignidade e autoridade. Nós ainda não alcançamos o ponto onde os novos competidores, como o radio, cinema, etc, tomaram do livro funções que ele não pode perder'.

Agora, nós alcançamos esse ponto. E aqui está a função que o livro tem - o livro de papel que não apita, pisca, nem te permite ver mil vídeos ao mesmo tempo - e que mais nada pode te dar. Ele te dá a capacidade de uma concentração profunda e linear. Ulin diz que 'ler é um ato de resistência em uma paisagem de distrações. Exige uma imposição de ritmo de nossa parte. Nos meandros de um livro nós não temos escolha a não ser ser pacientes, receber cada coisa em seu momento e deixar a narrativa prevalecer'.

E é precisamente porque ele não é uma coisa imediata - porque ele não sabe o que aconteceu há cinco minutos atrás no Cazaquistão ou na casa de Charlie Sheen - que o livro faz a diferença.

A princípio, eu não sou contra e-book's - estou tentado pelo Kindle - mas quanto mais eles se tornam interativos e "linkavéis", quanto mais eles oferecem centenas de funções e operação multitask, menos eles vão poder preservar os aspectos do livro que nós realmente precisamos.

Um leitor de e-book que faz um monte de coisas não vai ser, no final, um livro. O objeto precisa permanecer monótono para que as palavras possam cantar"

Johann Hari
23/06/2011


Que acham?

3 comentários:

  1. Há certo paternalismo, é como se o leitor não tivesse escolha, a mesma falta de escolha que faz com que alunos em vez de terem prazer na leitura, tenham traumas que os manterão para sempre longe do mundo literário. Todas formas e tecnologias podem coexistir, é o usuário, o leitor que irá optar. Se gosto do livro puro, letras pretas em substrato branco, é por motivo de ser infinitamente superior a outras maneiras de contar estórias.

    Abraço,
    Alex

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  2. Concordo em parte com essa visão. O excesso em geral atrapalha, mas o problema não é o veículo, é o receptor. Nós estamos propensos à dispersão...
    Porém, prefiro o livro como livro - morada do texto onde se viaja... sem as milhares de possibilidades do tablet e similares (que são ótimos para muitas coisas, mas não necessariamente para ler).

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  3. é por isso que eu adoro ir para minha casinha desconectada em lumiar: só eu, minha mulher e meu kindle...

    []'s

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