segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Auto publicação em e-book – a melhor opção?

Aumentar Letra Diminuir Letra

Das posições mais realistas e sinceras acerca da publicação independente que já vi, posso citar a do Albano Ribeiro d’Os Viralata. Resumidamente, a versão anterior do site dizia de modo curto, mas não grosso, que ninguém se iludisse em obter sucesso de público e vendas assim tão simplesmente, por mais fantástica que fosse a obra. E assim é. Mesmo os poucos autores iniciantes que conseguem ser avaliados e publicados por uma editora de peso no mercado costumam percorrer um longo caminho (e incerto também) até que possam colher algum resultado (e não estou falando necessariamente em ganhar dinheiro). Os Viralata trabalhava com versões impressas sob demanda, se bem me lembro, na tentativa de reduzir um dos problemas da publicação impressa, que é a distribuição e a estocagem.


Tenho visto muito debate colocando o e-book como uma solução para todos os problemas e limitações de uma versão impressa independente. Penso que esta é uma visão muito simplista. Certamente o e-book é uma possibilidade tão acessível ao autor que lhe permite disponibilizar seu produto para venda sem nenhum custo além do tempo e da conexão à web muito facilmente, pois há várias alternativas*, nacionais e internacionais, que disponibilizam ferramentas de auto publicação.

Isso, no entanto, não garante aquilo que me parece ser o ponto central para quem escreve: ser lido. Estou divagando sobre tudo isso tendo como foco principal a ficção, que é meu segmento de interesse, mas creio que muito do que aqui está dito vale também para não ficção.

O fato é que ser lido depende, tanto quanto no caso dos livros impressos de muitos outros fatores além da formalização do livro. Vejamos alguns.

Brasileiros já saem com certa desvantagem nessa batalha porque o hábito da leitura não está entre os mais privilegiados no nosso país. Não há como ignorar isso.

Segundo (não necessariamente em ordem de importância) parece haver ainda grande carência de um serviço de edição** voltado para o mercado de e-books. Refiro-me aqui àquela função de avaliar criticamente o texto, propor ajustes que não se limitam ao aspecto ortográfico ou gramatical e que podem fazer a diferença na sustentação de uma obra, e cuidar da sua preparação visual e finalização até que seja o produto acabo e pronto para a satisfação da leitura.

Ainda, há a questão, que não pode ser desprezada, da desvantagem que pesa sobre o formato digital. Ele não conta com a aceitação ampla geral e irrestrita dos leitores, possivelmente porque o número de leitores com acesso a e-readers ainda é baixo por aqui, mas também porque há a resistência natural do ser humano a qualquer coisa distinta do costume.

Por fim, mas não menos importante, há o inconveniente da falta de filtro. O selo de uma editora não é, obrigatoriamente, garantia de qualidade, mas pode ser sim um bom ponto de partida. Eu, particularmente, compro de olhos fechados títulos de certas editoras (claro que isso depende de conhecer a linha editorial e o histórico da empresa). As publicações independentes não contam com nenhum tipo de “avalista” que possa dar uma indicação de peso ao “cliente” sobre a obra. Mesmo o esquema de opiniões em blogs e redes sociais, é, no mínimo, suspeito, pois encontra-se prioritariamente opiniões favoráveis angariadas entre leitores-amigos. E mesmo as customer reviews ou resenhas no skoob podem ser parciais, além de pouco frequentes para leitores desconhecidos.

Vem, então, a pergunta: A auto publicação em e-book é um bom caminho? É um caminho, sem dúvida, penso eu. Mas não é uma trilha menos árdua que a da publicação impressa independente. E alguém aí acredita mesmo que se possa alcançar “sucesso” somente por obra do acaso? Certo, um pouquinho de sorte pode ajudar, mas sorte se cava. E lá vou eu com minha pá no ombro.


*Serviços de auto publicação
Clube de Autores
Lulu.com
Smashwords
Amazon
Autores Livres




Escrito por Maurem Kayna

7 comentários:

  1. Como a famosa pergunta: “o livro vai morrer?” , a auto-publicação não é panacéia universal, mas é sim alternativa para leitores e autores, eu ao contrário de ti não compro nada de editora nenhuma de olhos fechados, bons livros são mais incidentais que normais.
    Ebook não é novidade, já os tinha em meu palm, nunca foram confortáveis, somente agora com o e-reader virou alternativa tão boa ou melhor que o livro em papel, no Brasil temos poucos leitores, e muito menos e-readers por seu custo exorbitante. Ebook como alternativa comercial só será viável no Brasil quando tivermos número crítico de e-readers, não há mágica nesta conta, simples obviedade. Com toda certeza teremos mais ebooks que e-readers em período recente, há muito mais supostos autores do que e-readers, é fácil fazer um ebook, facílimo fazer um ebook ruim, mas difícil vender e-readers nesta política míope.
    Publicar é uma trilha árdua? Posso dizer que escrever é mais difícil, independente dos tais filtros editoriais, tem muita gente que escreve sem ler, fala sem ouvir, debate sem querer ouvir resposta. Nesta trilha imagina a quantidade de material que irá surgir, como os blogs existem milhares, muitos ruins, alguns excelentes, é da natureza do meio. Antigamente gastava fortunas em revistas importadas para saber o que havia de novo no mundo, demoravam mais de mês para chegar ao Brasil, a internet e os blogs passaram a dar visibilidade a assuntos que nunca seriam publicados, mas de interesse para certos grupos.
    Antes do e-reader o meio eletrônico não apresentava o conforto necessário para literatura, tudo ok com revistas que podem bem ser substituídas por blogs lidos na tela do computador,trezentas páginas na tela? Inviável.
    No restritivo mercado editorial do papel que existe no Brasil, a auto-publicação será uma lufada de ar fresco afastando a literatura viciada, somente será popular quando o número de leitores possuidores de e-readers tiver massa crítica, a depender da vontade empresarial e política isto ainda demora.
    Abraço,
    Alex

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  2. Alex parabéns para este comentário:

    "... tem muita gente que escreve sem ler, fala sem ouvir, debate sem querer ouvir resposta."

    Há muita água para rolar.

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  3. Alex concordo em gênero, nº e grau com tua abordagem e lamento (como leitora e como pretensa escritora) a quantidade imensa de autores dessa categoria que pensa apenas na momentânea satisfação de publicar um livro, seja eletrônico ou impresso. Mas, descontando o exagero da compra 'de olhos fechados', cosac naify, por exemplo é uma editora que nunca me decepcionou.
    eu fico na torcida para que o nº de e-readers cresça, mas só isso não bastará para mudar o fraco hábito de leitura... isso eu bem gostaria de ver mudar.

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  4. Emanuel,
    Acredito que aqui no Brasil ainda nem engatinhamos, nos arrastamos. Quando uma grande como amazon entrar, com ebooks e e-readers a preço justo, as editoras vão entrar em desespero. Espero que a política nacional não obrigue os e-readers entrarem no mesmo caminho de elite do livro em papel. É óbvio que teremos muito ebook ruim, mais que os minimamente bons; concordo contigo, tem muita água para passar, espero que nós do KBB possamos colaborar no processo.
    Abraço,
    Alex

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  5. Maurem,
    Eu sempre preferi as edições originais às da cosac naify, caras, decoração de estante. Em minhas mãos o livro desaparece, assim quanto mais prático e leve na mochila melhor, o que me importa é somente o texto. O hábito de leitura é um ciclo vicioso, livro caro desestimula a leitura, na escola é obrigatória, também desestimula. Precisamos de livro barato e uma escola que seduza o aluno com a leitura, sem os dois nada de leitores.
    Abraço,
    Alex

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  6. Alex, concordo contigo em alguns pontos. Livro caro é péssimo, mas mesmo que o principal seja o texto, também gosto do objeto e por conta disso, algumas vezes acho aceitável pagar a "embalagem". Entre o texto e o invólucro, lógico que o primeiro é mais importante, mas prefiro, por exemplo, uma edição com bom visual (interno, especialmente) do que um pocket com fonte 8.
    Mas que seria bacana poder contar com alguma empresa interessada em conteúdo de qualidade disposta a apostar no caminho do e-book, com seriedade, ah isso seria. Sei que isso não faz nem cócegas no cenário atual se pensarmos nos demais obstáculos a superar (preço dos e-readers, p. ex.), mas seria um movimento interessante.

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  7. Maurem,
    Eu até prefiro pockets, fonte 8 sem problemas! Não prezo livros como objeto, apenas seu conteúdo. Sempre carreguei três livros na mochila, os mais leves tem minha preferência, acho engraçado como existe uma diferença marcante entre a estética livro do Brasil em comparação com os EUA, lá há o hardcover e o paperback e depois o pocket. Aqui é só um formato em um meio termo entre hard e paper com preço muito maior que o hard. Infelizmente muita gente compra livros no Brasil apenas como objeto, adornos de mesa de centro, é caricato mas real, para este mercado o e-reader não tem qualquer apelo.
    Abraço,
    Alex

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