domingo, 24 de julho de 2011

A santíssima trindade digital: Mobi, ePub e POD

Aumentar Letra Diminuir Letra



Muito obrigada é o básico, mas quero dizer muito mais. Eu, que saí de uma relação totalmente impessoal com a antiga editora, encontro o totalmente oposto. Me sinto acolhida, importante. Isso não tem preço.

Priscila Ferraz, autora de Nuvem de Pó, um dos novos títulos publicados pela KBR em mobi, ePub e POD


Parados na porta do parque logístico de uma grande editora, contemplamos as milhares de estantes abarrotadas de livros impressos até quase o teto do galpão monumental e nos entreolhamos, perguntamos que destino tudo isso terá em breve: eu e o gerente de contas que me acompanha nesta visita estamos imersos 24 horas por dia na tarefa gloriosa de implantar no Brasil a terceira grande revolução do livro: a plataforma POD.

O acesso ao depósito se dá por um corredor também monumental, onde passado e futuro se misturam: uma carreta enorme, com capacidade para distribuir numa só viagem milhares de volumes empacotados, e um simples posto de correio expresso para o envio à la carte dos exemplares efetivamente encomendados, diretamente postados para o consumidor final: nosso leitor.

Do centro desse corredor duas realidades nos contemplam: de um lado, o impressionante estoque obrigatório da agonizante era off-set e, do outro, o limpo e leve santuário do mais revolucionário formato de livro, que se esconde sob a capa enganosa de um objeto impresso de leitura, igual na aparência a todos os demais. Para os menos informados sobre o mercado, e até mesmo para o leitor, pouco ou nada mudou. Mas para a indústria da literatura, meus amigos, uma nova era se levanta: a dos negócios sob medida, ou melhor, sob demanda, um tiro de misericórdia no encalhe de títulos e no desperdício de livros.

Para o autor, principalmente, a inovação funciona com uma carta de alforria. Embora o nascimento do livro continue cercado dos mesmos mistérios e cuidados, seu crescimento vai se processando na exata medida, num diálogo constante em duas vias que alimenta o sucesso de vendas sem impor ao iniciante as velhas regras sufocantes — que outrora empurravam as publicações ditas “independentes” ou “de risco” para o limbo esquecido das livrarias, um processo perverso que condenava ao ostracismo qualquer tentativa criativa fora dos padrões estritamente comerciais, condenando a literatura, com raras e honrosas exceções, à permanência abafada num clube tedioso de iguais. Nunca mais.

Mas que revolução seria essa, agora impressa em papel? Não é tudo o mesmo livro? — perguntariam vocês. A verdadeira inovação do livro não é o formato digital? Os leitores de ebook tão em voga, responsáveis por um verdadeiro renascimento do hábito de leitura — ler agora é cool — respaldado pela aparência moderna e ousada das placas digitais contendo literatura?

Sim, é isso mesmo, bem, pelo menos em parte. O aparecimento do Kindle, por exemplo, primeiro leitor digital a transcender os desconfortos da leitura em tela, deu o pontapé inicial nesta nossa jornada, possibilitando o aparecimento de um novo modelo de editora — sem sede, sem equipamento e sem pessoal: toda a criação transcorre “na nuvem” e seus colaboradores trabalham no espaço virtual, ganhando em custo e agilidade. A KBR Digital, criadora da Farra do POD e referência em ebooks no país, com títulos presentes por semanas nas listas de mais vendidos — é da KBR o primeiro ebook brasileiro cuja venda alcançou a casa dos 4 dígitos: Domingo, o Jogo, de Cassia Cassitas — e com seus livros distribuídos nas maiores livrarias digitais do país e do mundo, como a Amazon, Cultura e Saraiva, é uma empresa desse tipo, tendo publicado mais de 30 títulos em seu primeiro ano de vida e já contando com uma carteira de autores com mais de 50 membros ativos.

Pois para minha própria surpresa, tendo vencido os obstáculos iniciais enfrentados por toda empresa de tecnologia — tais como: falta de pessoal adequado (todo funcionário deve ser “formado” a partir de uma vasta gama de conhecimentos variados: o novo editor é um gestor multimídia, cuja expertise deve agregar das ferramentas tradicionais de edição de texto às revolucionárias técnicas de desenvolvimento de software e conversão digital, uma categoria de profissional bastante rara no mercado); falta de um modelo a ser seguido — tudo deve ser recriado, redesenhado e discutido, mas discutido com quem? O que nos leva ao terceiro problema: a falta de um interlocutor disponível e desinteressado. Todos os empresários do nosso setor pioneiro convivem com a mesma rotina apertada e o mesmo acúmulo de demanda estressada: para os mais prolíficos produtores, não há tempo hábil para ser despendido em congressos, workshops, trocas de ideias ou palestras em fins de semana prolongados e relaxantes. Para o empresário da era digital o conceito de dia “útil” foi simplesmente abolido, por falta absoluta de seu oposto direto, o dia “livre”. A mesma facilidade virtual que nos livra do trânsito nas ruas nos seduz e obriga, ao mesmo tempo, à produção em tempo integral — e tendo estabelecido e amadurecido em certa medida os mecanismos de distribuição e controle virtual, me deparei com a necessidade de um novo passo para garantir nossa pujança comercial: a remodelação completa do negócio de impressão de livros.

Porque embora seja excitante e praticamente instantânea a compra de ebooks e sua consequente leitura digital, ainda persiste, tanto para o leitor como para o autor de livros, a emoção imbatível de ter em mãos um exemplar material de um desses objetos culturais mais antigos e bem-sucedidos do mundo civilizado, o toque aveludado da capa e o farfalhar suave das páginas sendo folheadas. Agora: como conciliar necessidade e novidade, como acrescentar à imutabilidade material de um texto impresso a desejada flexibilidade e mobilidade do livro digital? Como operacionalizar, em empresas como a KBR — que carecem elas próprias de materialidade em suas instalações —, como transcender sem maiores transtornos as dificuldades logísticas de estoque e distribuição do formato impresso?

A solução para este enorme desafio está sendo criada no dia a dia e neste exato momento, enquanto você, leitor, prossegue lendo este artigo, e acredito que também você se surpreenderá: os novos livros impressos, que você poderá ler e adquirir onde e quando assim o desejar, embora se pareçam na forma com seus velhos amigos são na verdade objetos bem diferentes, um terceiro formato também virtual que vem integrar, ao lado dos já conhecidos Mobi (formato proprietário da Amazon.com) e ePUB (formato mais universal criado pela Adobe),  a novíssima trindade digital: o POD, do inglês Print On Demand, impresso sob demanda.

E nesse contexto, “sob demanda” é muito mais do que apenas uma moderna tecnologia de impressão; trata-se, ao contrário, de um modelo de negócios totalmente inovador que vem responder com vantagens às necessidades e prioridades de todos os segmentos do mercado livreiro: o autor, o editor, o distribuidor e a livraria em si. O arquivo do livro é mantido armazenado na nuvem, à espera de pedidos ou encomenda, possibilitando quaisquer alterações que sejam necessárias e evitando o estoque obrigatório sem, com isso, alterar a competitividade dos preços, um ponto chave no sucesso da comercialização de livros.

Nesse novo modelo, o impressor atua, na verdade, como um distribuidor digital, e nisso reside a revolucionária inovação da Singular Digital, nossa parceira de opção para a produção e gestão dos PODs KBR e companheira cotidiana na excitação e sensação de modernidade que o negócio da literatura digital nos proporciona: a alegria de estar um passo à frente do mercado, desbravando os avanços a serem conquistados.

Para completar, gostaria de revelar mais um dado surpreendente na nossa rotina de trabalho, considerando o fato de que cada colaborador tende a trabalhar em seu próprio espaço isolado: o sentimento de comunidade que nos une e que compartilhamos igualmente com os nossos colegas da Singular. A KBR não opera exatamente como uma fria companhia de alta tecnologia, mas sim com a intimidade de uma reunião de família: através de um contato constante com os nossos autores e colaboradores numa comunidade do Facebook, estendemos nosso espírito pioneiro à divulgação dos livros e à comunicação aberta e franca com nossos clientes e leitores. Nossa ambição número um é a total transparência nas operações e isso, acreditem, é o fator crucial que nos impulsiona para frente: por trás de cada livro há o carinho do editor e, fundamentalmente, um exclusivo ato de amor congregando cada autor. O resultado aparece, compensa e nos envaidece.

Sejam bem-vindos ao mundo excitante da literatura digital!


Em tempo: 25 novos títulos serão lançados em POD pela KBR na segunda edição da Farra do POD, em 8 de agosto próximo, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. Vai ser uma Farra!


Noga Sklar é escritora, fundadora e editora da KBR, a primeira editora do país totalmente dedicada à literatura digital. Tem sete livros publicados, todos eles disponíveis em ebook, três deles também em papel no modelo tradicional. Os três títulos mais recentes e bem-sucedidos como ebook já estão disponíveis em formato POD nas maiores livrarias do país.

3 comentários:

  1. Seja bem vinda como colaboradora do nosso Blog. Posso dizer sem medo de errar que você é a pessoa aqui que mais conhece dos temas que nos interessam, pois a KBR Editora é uma desbravadora que plantou sementes em um campo totalmente desconhecido, formado por aridez e "ervas daninhas" reticentes a inovações, mas que com esforço e, sem dúvida, muita competência começa a colher os frutos. Acredito sinceramente que em breve o "pomar" da KBR, por você comandado será um dos melhores, se não em quantidade, em qualidade neste semear dos e-books no Brasil.
    Parabéns pelo post e fico ansioso para partilhar sempre desta fonte de informações e dicas.

    ResponderExcluir
  2. Noga, bom ter você aqui no blog. E bom ler esse tipo de abordagem que faz crer que ainda há negócios interessados no cerne do que significa o mundo editorial e não apenas nos resultados numéricos. abraço

    ResponderExcluir
  3. Obrigada, gente, pretendo ser colaboradora assídua, e se tiverem perguntas, podem mandar!

    ResponderExcluir