domingo, 31 de julho de 2011

O futuro do livro parece mentira

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Esta semana a KBR foi procurada por um repórter de um grande jornal paulista, que queria saber o motivo de os livros brasileiros em geral, incluindo os ebooks, serem mais caros do que os estrangeiros. Ele se referia a livros traduzidos, agora eu entendo isso, mas na entrevista ele não especificou, ou eu já o teria descartado logo de cara: na KBR não publicamos autores que escrevem em outras línguas, só em português. Mas o interessante é que fiquei com a impressão de que o repórter já tinha uma agenda pré-concebida, ele queria que eu reafirmasse que os ebooks e impressos brasileiros são mais caros do que os estrangeiros, mas eu não pude... vocês me entendem. Expliquei pra ele também porque o advento dos PODs derruba o preço dos novos livros impressos (que, como já disse aqui, também são digitais, e por isso os menciono), o que torna a tiragem no futuro irrelevante, mas ele não acreditou. Daqui a um par de anos me pedirá desculpas.
Segue a entrevista, em primeira mão pra vocês:

Olá,
Estou tocando uma pauta sobre preços de livros no Brasil, comparando edições nacionais e importadas. Queria dedicar uma parte da matéria aos livros digitais e por isso pensei em falar com vocês.


A primeira coisa que queria saber é como vocês avaliam o preço do livro digital no Brasil: caro, barato, equivalente ao cobrado no exterior? Caso haja diferença para mais ou para menos, quais as razões, na visão de vocês?
Caro, veja, primeiro quanto às suas primeiras considerações: esse posicionamento de tiragem para livros impressos já está completamente ultrapassado. Mesmo a Amazon nos livros que vende (e falo aqui de papel) já pratica o POD, print on demand, com a filosofia inédita e funcional de escalar impressores locais para derrubar o verdadeiro vilão do preço dos livros: o frete. E a Singular Digital, nossa parceira nos PODs — que, aliás, serão lançados oficialmente em São Paulo, na Cultura do Conjunto Nacional, na próxima sexta, 5 de agosto, às 19h00, na Farra do POD, promovida pela KBR —, é quem está estabelecendo a parceria nacional com a gigante americana neste sentido. Com as máquinas digitais de última geração, o preço de impressão dos livros é bastante baixo, e de qualidade impecável.
Para livros digitais, que felizmente não têm essas duas questões, a coisa a nosso ver fica mais no terreno da especulação. Nossa posição é que devem ser baratos, na medida: não tão baratos que não remunerem seu autor, nem tão caros que desencorajem o leitor, por outro lado abrindo uma porta para a pirataria. O custo do ebook é razoavelmente fixo: é o custo da edição e produção do livro, que na composição do preço, a partir de certo número de ebooks vendidos, torna-se irrisório. Para nós na KBR, que somos uma editora pequena, a solução para o problema foi desenvolver um modelo de negócio onde o autor é nosso verdadeiro parceiro: banca metade dos custos iniciais e leva a metade dos lucros da venda, o que a partir de certo ponto é um valor bastante substancial, léguas distante dos humilhantes 10% de antigamente. Uma vez o livro editado, publicado e distribuído, grande parte do custo que lhe é atribuído vem do marketing e da divulgação, outro quesito onde a KBR apela para a parceria explícita: damos aos nossos autores todas as condições de divulgar em portais, redes de relacionamento etc. Mantemos até mesmo uma vibrante comunidade secreta de autores no Facebook, de onde partem todas as iniciativas: quer ganhar? Tem que ralar!
Por exemplo, acabamos de inaugurar um blog de crônicas onde nossos autores são os colunistas regulares, ao mesmo tempo que divulgam seus livros: botamos o escritor para trabalhar e criar, e eles adoram isso, pode acreditar. E o retorno vem. De todos os lados.
Agora, voltando ao seu ponto: no início, os ebooks brasileiros tenderam a ser mais caros, principalmente os oriundos das grandes editoras, ainda viciadas no modelo tradicional de negócio editorial. Mas esse quadro já está mudando. A Singular, por exemplo, está estabelecendo aos poucos o teto de R$16,99. O nosso é R$12,00. A relação propagada entre o preço do impresso e do digital é em grande parte ilusória, principalmente quando o livro já está editado, pois as regras de marketing do mercado digital são outras, com o uso fundamental de redes de relacionamento: não é uma questão de poder pagar, mas de saber inovar e criar.

Depois, queria saber quais são os principais custos envolvidos em uma edição digital. Como se dividem esses custos: direitos autorais, diagramação, tradução, software... Qual o peso de cada componente?
Bem, como te disse, quando publicamos o nosso ebook o custo editorial fica zerado, então, nesse quadro, o direito autoral, que no nosso caso é 25% do preço de capa, começa do início, é uma conta nova. A diagramação dos ebooks é muito simples, não existem muitos recursos ainda, e nós na KBR rezamos pelo credo do conteúdo; gastamos, portanto, um preço fixo por lauda que gira em torno de 30% dos custos de edição, mais outros 10% de homem-hora para os canais de distribuição. Software? Só usamos software grátis! Baseado, é claro, num infalível método manual de conversão que desenvolvemos na casa e aprimoramos ao longo desses 3 anos, a partir dos nossos primeiros ebooks publicados na Kindle Store: é uma das poucas conversões sem erros do país. Não trabalhamos com títulos traduzidos; nossa filosofia é publicar apenas títulos escritos originalmente em português, não só do Brasil: em setembro estaremos lançando, na novíssima Cultura do Fashion Mall, Rio, nosso primeiro título internacional, Sexo à beira do Rio Kuebe, do angolano Francisco Inácio Cabota. Por outro lado, o negócio do ebook não conhece fronteiras: estamos nos preparando para lançar nossas próprias traduções para o inglês no mercado mundial, no mesmo modelo de parceria com o autor. O primeiro título já está na Amazon: The poetics of Episteme-art, de Adão Vieira de Faria e Lilian de Faria Gomes, dois mineiros. A tradução foi de Alan Sklar, sócio da KBR e editor de inglês. No mês que vem, com tradução de Fal Vitiello, virá o Domingo, o Jogo, nosso líder de audiência, há 12 semanas na lista de mais vendidos, grande parte delas no topo, como você já deve ter visto aí no seu jornal. Agora, onde vão os outros 60%? Um detalhe crucial que você deixou passar: a edição de texto e revisão ortográfica impecáveis que a KBR faz questão de praticar!

Finalmente, qual o desconto dado aos canais de venda? Seria legal comparar esses números com o impresso.
Em geral o desconto praticado é o mesmo para ebooks e PODs: 50%. Na Amazon, ainda estamos lutando pelos 70%. Em breve vamos conseguir, mas no momento só temos 35%. Mal cobre a despesa, considerando que para os autores vão os mesmos 25%. Não tem importância: entra na conta do investimento, e os nossos livros lá são garantia de prestígio e de uma boa posição no mercado digital! Já parou para quantificar isso?

É isso aí. Quanto à Farra do POD, estão todos convidados! Vai ser na próxima sexta, às 19h00, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, São Paulo. Oba.

5 comentários:

  1. Esclarecedora a entrevista. Infelizmente nós consumidores temos uma noção muito imprecisa e superficial dos custos de um livro. Achava que o que encarecia um livro era praticamente a matéria prima e a sua impressão.

    Porém, melhor contextualizando, essa talvez não seja a realidade das grandes editoras, considerando que elas têm um quadro fixo de funcionários que percebem valores pré-definidos a título de salário.

    Noga, me ocorreu um questionamento, que talvez você possa elucidá-lo. Concordo com a entrevista no que se refere a novos títulos que exigem todo esse custo de produção, desde os direitos autorais até a publicação do material. Agora, como ficariam esses custos considerando um material existente? Haveria alguma forma de barateá-la? Caso afirmativo, em qual parte do procedimento?

    Forte abraço,

    Cadu

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  2. Cadu, seu posicionamento para material existente é válido no caso de uma editora, por exemplo, que já publicou em um formato, estender a publicação a outros, o ebook, digamos. Mas quando nós na KBR republicamos livros já existentes, também reeditamos o texto, pois é nossa experiência que a edição em geral deixa a desejar. Abraço.

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  3. Noga obrigado por compartilhar as "entranhas" da produção de um e-book.

    Um dúvida, nessa conta há a figura do programador?


    Abraço,

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  4. Bem, Emanuel, não temos um programador propriamente dito. Nossa designer foi treinada em html e faz o código de acordo com os comandos que funcionam de verdade, sem os excessos que causam tantos problemas nos leitores; uma outra pessoa "fecha" os livros e os converte para os outputs.

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  5. Parabéns pela sinceridade, Noga. Mas, a grande questão do preço do ebook brasileiro é, com certeza, que ele é tributado enquanto o livro impresso é imune. Por isso, a Amazon tem grande facilidade para vender ebooks por 30-50% do preço do impresso enquanto aqui os preços praticados ficam entre 70-90%, quando as livrarias estão com muita vontade de vender.

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