quarta-feira, 13 de julho de 2011

Crítica e Ebooks

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Para muita gente crítica é algo pejorativo, coisa que se faz para diminuir algo ou alguém, em linguagem popular crítica e elogio são antônimos, às vezes é assim, mas está longe de ser a verdadeira crítica, que deve ser analítica, não condenatória. Este uso equivocado da palavra faz com que uma sociedade como a nossa, de aparente boa camaradagem, não a veja com bons olhos. Muito da crítica que se vê por aí se furta a qualquer análise, rasga elogios sobre uma obra, trabalho de propaganda não de crítica, ou denigre um livro, também sem fundamento analítico. O fundamento na crítica é importante, mais do que o julgamento, já li críticas extremamente pejorativas que por apresentar bom fundamento me fez discordar do crítico em seu julgamento e assim encontrar boa literatura.

Uma boa crítica analítica explanada com fundamento não é tarefa fácil, exige erudição do crítico e leitura meticulosa, notando valores e falhas literárias, é importante perceber que todos os grandes autores tem falhas, mas é seu ponto forte que os faz quem são, podem chamar isto de estilo, mestria ou o que for, mas é inegável, o autor escolhe escrever de um jeito, não de outro, e este jeito é o perfeito ao efeito que quer dar ao livro. Shakespeare, não há o que dizer é um cânone da literatura, mestre nos diálogos, mas e suas descrições? Era dramaturgo, o cerne de seu trabalho está no diálogo, assim como Cervantes tinha estilo distinto mas mestral.

Os ebooks vão mudar a literatura como a prensa de Gutenberg mudou o livro, e para isto é preciso uma nova forma de crítica, uma que acompanhe as incríveis possibilidades editoriais do livro eletrônico. Quantos manuscritos são rejeitados pelas grandes editoras? Quantos livros excelentes de sucesso foram inúmeras vezes rejeitados? Por maior que seja uma editora, sua capacidade de análise e publicação é mínima, e isto é muito mais crítico no Brasil. A possibilidade de um autor se auto-publicar em ebook é infinitamente superior que em papel, desta maneira podemos ter uma diversidade de títulos muito maior. Ai que entra o papel fundamental da crítica, ajudar o leitor a navegar neste mar de livros que estão por surgir.

Ouso advogar que vamos precisar de uma crítica especializada que só atenda aos livros eletrônicos, os livros em papel já tem seu caminho, aqueles que só existem no reino digital estão desbravando novos territórios. É preciso notar que a crítica depende do crítico, quase toda crítica da literatura brasileira vem da academia, assim, por mais que nos deliciemos com os livros de JK Rowling, a crítica acadêmica sempre lhe será pejorativa, inexiste no Brasil a crítica de gêneros, livros de fantasia, infantis, cyberpunk, policial dentre outros, são avaliados por pessoas que apreciam o gênero e podem dar uma melhor visão ao leitor apreciador do mesmo assunto. Nem todo livro é para todos os leitores, existem livros que só vão interessar um pequeno grupo, livros de nicho, e aqui o ebook é também uma excelente ferramenta, livros específicos eram caríssimos ou nem eram impressos.

Se todos os manuscritos submetidos às editoras vierem a público, o trabalho da crítica será bestial, nem um exército daria conta de tal tarefa, boa crítica é trabalhosa. Como lidar com o problema? Acredito que em vez de tudo ser criticado, deve aquele que se propor a crítico de ebook realizar o trabalho apenas para as obras que achar mérito, se arrisque a dizer: “Este é bom!” e assumir o ônus desta afirmação fundamentando sua crítica. E o que fazer com os rejeitados? Devem ficar no processo de crítica anônimos, para que a rejeição não se torne pejorativa e assim possam achar outro crítico que se disponha a ler, encontrar o mérito, escrever e assinar que: “este é bom”. As boas críticas são as mais arriscadas, as que exigem maior coragem do crítico quando fala de um autor estreante.

Quem serão estes críticos? Qualquer um de nós! A sua competência ou a falta dela serão atestadas pelas obras que receberem sua crítica, assim teremos novos autores e novos críticos ajudando a pavimentar o mercado dos ebooks.

Alex

7 comentários:

  1. Gostei de ver alguém se debruçar sobre esse aspecto aqui, Alex. Já deixei de interagir em algumas redes supostamente voltadas à literatura por conta dessa pseudocrítica que é apenas propaganda mal embasada, quando não enganosa. Mas o ebook ainda não é uma via que consiga dar real espaço a novos autores, entre muitas outras razões, porque ainda não há "críticos" com "credibilidade" no mercado dedicando tempo a fazer esse filtro sobre o grande volume de obras de qualidades muito distintas que começa a despontar nesse novo formato.

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  2. Um brinde aos críticos da critica!!! Adorei a lucidez ALex com a qual abordou a questão, num país como o nosso uma critica analítica não e vendável! acredito sim q com os ebooks se tenha um espaço mais democrático no qual autores e leitores se reposicionam, se despem dos papeis esperados, surgem novos autores leitores, ou seriam leitores autores anonimamente, virtualmente..

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  3. Queria fazer uma pergunta a vc Maurem sobre o seguinte trecho:
    "Mas o ebook ainda não é uma via que consiga dar real espaço a novos autores, entre muitas outras razões, porque ainda não há "críticos" com "credibilidade" no mercado dedicando tempo a fazer esse filtro sobre o grande volume de obras de qualidades muito distintas que começa a despontar nesse novo formato."

    E o que dizer daqueles autores americanos que ja venderam milhoes de livros pela Amazon como autores independentes...e ai so depois do grande sucesso de vendas as Grandes Editoras, que ja haviam recusado suas obras centenas de vezes(literalmente), resolveram investir e dizer..OH SUA OBRA E EXCELENTE VAMOS FAZER VARIAS TIRAGENS...

    Acredito que o mercado de e-books nao e forte o suficiente aki no Brasil porém nos Eua a propria Amazon, que e a maior livraria dos eua ja disse que faturou mais em vendas de e-books do que em livros impressos....isso demonstra a força do e-book, e concordo com o Alex em dizer que falta uma critica especializada para tal...por enquanto agnt vai se virando com a indicaçao dos leitores né...

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  4. Oi Maurem,
    Como você eu também me debati com a pseudo-crítica, tentei ler autores contemporâneos brasileiros, decepção total, não analisam e se perdem em elogios, no momento que tem o livro em mãos vê que é tudo enganação, mas aí já é tarde. Acredito que o ebook só vai ser veículo de novos autores e nova literatura quando os ereaders espalharem-se no Brasil, as pessoas ainda olham como se estivesse ninando um bebê alien quando está lendo em público. Sem o ereader a preço acessível os ebooks não vão decolar como já inicia nos EUA. Também acredito que a formação de críticos especializados vai ser fundamental, o mercado tradicional( críticos e editoras) trata o ebook como se estivesse manuseando uma caranguejeira feia e cabeluda.
    Abraço,
    Alex

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  5. Anônimo,
    Imagino que quando a crítica é vendável já deixou de ser crítica, acho que uma crítica mais comprometida com o leitor será fundamental para o sucesso dos ebooks.
    Abraço,
    Alex

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  6. Alex, acredito que, hoje em dia, os blogueiros literários acabam tendo um papel fundamental no processo de crítica. Pois a crítica profissional sempre acaba sendo hipócrita, privilegiando uns poucos "clássicos" e deixando de lado tudo que é comercial como inferior, enquanto os blogueiros literários trabalham com o que vende, o que agrada, o que é divertido.
    Nos EUA, o número de blogueiros é muito menor, mas mesmo assim muitos aceitam ebooks. No Brasil, há um certo status atrelado aos livros de papel, portanto a maioria dos blogueiros brasileiros se sente até ofendido se pedirem para ler um ebook. Mas isso tende a mudar, conforme o mercado muda.

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  7. Oi May,
    Não tenho dúvida que o blog literário será a melhor via para crítica de ebooks, mas é um termo muito genérico, tem os mais focados em novidades jornalísticas, os que apresentam resenhas e os que misturam um pouco de tudo. O problema da crítica acadêmica (profissional) é que ela coloca na mesma cesta coisas diferentes, não dá para ler Joyce da mesma maneira que um Stieg Larsson, que acho genial dentro do gênero policial, mas não é um mestre da escrita, há mais semelhança entre policiais do que entre mestres, podemos colocar no mesmo gênero Borges e Virginia Woolf? O único ponto que une os ditos clássicos seria na mestria em empunhar a pena. Há preconceito com o que vende, comercial, bestseller, mas estas categorias não dizem nada sobre a essência destas obras apenas a conseqüência do processo de venda.
    Não tinha idéia que há preconceito de blogueiros nacionais com ebooks, acho até anacrônico.
    Abraço,
    Alex

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