quinta-feira, 24 de março de 2011

RESENHA: Abascanto, a sombra dos caídos, Diogo de Souza

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 Antes, eles eram parte do universo. Agora, cada um tinha um universo dentro de si.”

Diogo de Souza é um dos colaboradores do Kindle Blog Br, e escritor. Abascanto é sua segunda obra publicada.

Logo ao visualizar a bela capa produzida pela designer Christiane Viana, já podemos antever que o livro de 4543 localizações (210 páginas) vai nos levar a uma jornada a fantasia e a ação.

Essa impressão é confirmada ao iniciarmos a leitura do prólogo, no qual o autor nos descreve de forma bem detalhada, mas dinâmica, o surgimento de três seres de outra dimensão (os grigori) em nosso mundo, e de como eles se adaptam a essa nova realidade, aos corpos físicos e às novas sensações. Confesso que essa cena lembrou-me a materialização do T-800, no filme Exterminador do Futuro, quando raios são arrastados dos postes em direção ao portal de energia.

Quando os nomes dos personagens são revelados uma sensação de surpresa me invadiu a mente: Kaliel, Daqshael e Oriniel. Mas isso não são nomes angelicais? Essa impressão afastou-se um pouco quando no decorrer da narrativa nos é apresentado o objetivo dos personagens: um confronto com outros seres fantásticos. Confronto com espadas!

Ah, então o enredo do livro é esse? Duelo de espadas entre seres sobrenaturais? Uma releitura de Highlander?

Não, queridos leitores. Existem sim, alguns duelos de espada, mas a cada capítulo novas revelações são feitas e um enredo mais profundo e filosófico vai surgindo.

A história tem poucos personagens e cada um nos é apresentado no momento certo da história. Diogo apresenta esses personagens de forma sóbria, eles têm uma função bem definida e específica para o andamento do livro. Não há excessos.

Durante a revelação dos personagens vamos compreendendo a ciência por trás dos acontecimentos fantásticos, as explicações de quem são, de onde vem e qual o objetivo dos seres de outra dimensão aqui na Terra.

E quem contribui de forma essencial para essa revelação é o personagem Érico, um jovem, recém formado, campeão de kung fu que presencia um assassinato em uma rua movimentada de São Paulo. Isso seria bem comum nos dias de hoje, se não fosse pelo fato do crime ter sido cometido durante um duelo de espadachins e de que o cadáver se desintegrara em luz e cinzas.

A partir desse momento, a narrativa ganha uma velocidade e intensidade extraordinárias, os acontecimentos vão se desenrolando de forma muito bem orquestrada, e a leitura vai se tornando fluida e viciante.

Os acontecimentos são mostrados em parte pela ótica do narrador e em parte pela dos personagens, principalmente de Érico que apesar de ser o mais marcante, não predomina em todos os capítulos.

Diogo usa recursos interessantes para gerenciar essa alternância de ótica, primeiro ele revela os pensamentos dos personagens por meio de parágrafos independentes e grafados em itálico.  Segundo, ele abusa da onipresença do leitor, quando descreve uma mesma cena sob óticas diferentes, mas de forma não repetitiva. Além de alguns flash-backs rápidos cuja função é proporcionar uma imersão a psique dos personagens.

E ao passo que conhecemos mais desse universo, a impressão de que o livro aborda a figura mítica dos anjos surge de forma intensa. Várias referências veladas na obra transparecem esse mote: os nomes dos personagens, a disputa entre dois grupos da mesma “espécie” (os grigori e os caídos), uma inexistência de vilões maniqueístas, a imortalidade, a proibição de interferir no livre arbítrio, etc.

Todavia, em parte alguma do livro, o autor nos revela se os grigori são mesmos anjos. O que considero um mérito da criatividade de Diogo, uma vez que, esses seres estão na onda da moda da literatura fantástica mundial, o que podemos constatar pelas obras: Fallen, Angelologia, A Batalha do Apocalipse, Halo, Anjos Caídos, Beija da Por Anjo, Angel´s Blood, The Succubus Diaries, etc.

Diogo reinventa o mito, de forma que eles ainda continuam misteriosos e divinos, mas tão vividos como se fossem reais, pois ao entrelaçar fatos da história da humanidade, de passagens bíblicas e de outras mitologias com os seus anjos, ele cria um reforço literário a sua narrativa, fazendo com que o leitor não estranhe o novo que lhe é apresentado, pois, mesmo sendo novo, nos parece ter saído de algo que já lemos ou conhecemos.

Algumas das referências são sutis, como no caso do número telefônico do personagem denominado Satanael, 6999-8697, no capítulo intitulado O Dono do Mundo, no qual esse personagem é descrito e podemos contemplar nele a semelhança com o primeiro anjo caído descrito pela Bíblia e no texto Apocalipse de São João.

Outras referências são explícitas, como no caso da interferência dos grigori e dos caídos nos acontecimentos históricos: Atlântida Mitológica, ascensão de Napoleão, diversas guerras e conflitos históricos. Aqui o autor mostra na sua ótica, como esses seres angelicais influenciam a vida dos humanos. Então, antes de rezar para seu anjo da guarda, é bom pensar no que vai pedir!

É nesse exato momento que encontramos o verdadeiro enredo do livro, a disputa entre duas facções que desejam o melhor para a humanidade, mas que tem uma visão diferente de como proporcionar essa melhoria. Os grigori acreditam que a humanidade vai conseguir se auto regular em determinado momento, enquanto alguns caídos, encabeçado pelo personagem Sariel, acredita que a sociedade precisa sofrer um “reboot”, e que somente as pessoas caridosas deveriam comandar esse mundo.

Apesar de ter sentido falta de uma pouco mais de discussão entre essas visões antagônicas, durante a leitura, diversas vezes mudei de lado, motivado pela excelente construção do personagem Sariel, que me cativou.

Consideraria o personagem mais importante do livro, pois todos os acontecimentos giram em torno de suas ações, ou por conseqüência delas: o conflito entre grigori X caídos, o conflito secreto entre caídos X caídos, a transformação de Érico, etc.

Inclusive, é por causa de Sariel que podemos presenciar o conflito emocional mais intenso de todo o livro.
Sariel é casado com a humana Aline que não desconfia da verdadeira natureza do marido. Todavia, ele a ama de uma forma intensa e verdadeira. Durante a narrativa, Aline desempenha um papel de âncora dos sentimentos do caído, que o mantém humanizado, prevenindo que o enxerguemos como um vilão. Apesar de ela ser uma personagem linear, e muitas vezes sem sal, é por causa dela que Sariel torna-se um personagem tão interessante e complexo.

E é por causa dela que temos um final surpreendente.
Poderia falar mais e mais sobre o livro, mas é melhor vocês lerem e descobrirem por si mesmos esse mundo eletrizante.

Abascanto, a sombra dos caídos é um livro de Fantasia com ação, romance e mistério dosados na medida certa, escrito de uma forma fluida que proporciona uma leitura rápida e prazerosa.


Abascanto, a sombra dos caídos, Diogo de Souza
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