domingo, 24 de agosto de 2014

Amazon x Hachette; Amazon x Brasil; e eu com isso?

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Para os que andam ligados nessa coisa de ebook e e-reader o caso da Amazon contra a Hachette tem sido um prato cheio de dramas, fofocas e cabeçadas que está passando do limite razoável, e em princípio isto nada tem conosco, por isso evitei de divulgar o assunto aqui no blog, é um caso restrito aos EUA, todo dia há notícias de novos empreendimentos no ramo do ebook por lá, eles nascem e morrem e nada chega aqui, por isso para nós brasileiros falar destas estórias parece coisa de alcoviteiro, o interessante de ver é a verve empreendedora que existe por lá, negócios nascem e morrem às centenas antes de um ir adiante e quem tiver curiosidade recorra aos blogs e jornais Norte Americanos, uma vez que para pouquíssimos brasileiros isso tem qualquer interesse; mas vou entrar hoje nesta história sórdida pois há no Brasil a tentativa de uma briga semelhante.

Para oferecer um background melhor para que nossos leitores entendam o assunto preciso retroceder um pouco ao caso onde o departamento de justiça americano abriu um processo contra a Apple e as cinco maiores editoras americanas por combinação de preços, a palavra em inglês é “collusion”, evito de traduzir pois os significados jurídicos são diferentes entre a palavra traduzida aqui e sua contraparte, assim, entenda como uma combinação secreta para lesar o consumidor aumentando o preço dos livros. O caso é que a Apple com sua loja e as seis maiores editoras da época juntaram-se para criar o que foi chamado de “agency pricing”, basicamente as editoras diziam qual o preço final de venda e a Apple levava uma porcentagem deste preço, desta maneira o preço final que o consumidor pagaria em um título seria ditado pela editora, sem a possibilidade das livrarias darem desconto, até aí não há grandes problemas a princípio, mas ao que parece e os dados comprovam, houve uma combinação para subir o preço de livros de papel e ebooks, e foi isso que fez o departamento de justiça americano abrir um processo, várias editoras preferiram fazer um acordo para ressarcir o consumidor em vez de esperar o processo ir até o final, a Apple não, e as decisões do juiz responsável tem sido desfavoráveis, resta saber qual vai ser a conta no final, se vai ficar barato ou caro para a Apple.

A Amazon não gostou desta história de “agency pricing”, ela é conhecida por dar desconto nos livros, quem é consumidor Amazon de longa data sabe, sempre foi assim, na maioria das vezes o título almejado está mais barato na Amazon; mas, com o “agency pricing” esta política de descontos é impossível. A Amazon entrou em conflito com algumas editoras e parou de vender seus títulos, e hoje, quando uma gigante como a Amazon tira seus livros fora do catálogo, você sabe que vai perder uma parte significativa de sua renda, e como é normal em sociedades livres, ninguém é obrigado a vender ou comprar de ninguém, é o que se chama livre negociação, só temos problemas quando a coisa vira um monopólio, por maior que seja a Amazon ela ainda não é um monopólio, assim, apesar de ter um enorme poder de fogo em qualquer negociação, o negócio ainda é livre. Tudo que estou falando é exclusivo do mercado dos EUA, aqui a Amazon ainda é irrelevante se não contarmos seus bolsos cheios de dólares para investimentos, mas a indústria brasileira de livros é mais irrelevante ainda, desta maneira editores estão em polvorosa com a entrada da Amazon no mercado brasileiro, ela é uma empresa capitalista fazendo o que deve fazer: ganhar dinheiro, ao contrário dos nossos editores que sempre se preocuparam mais em manter a concorrência fora do que desenvolver o mercado de leitores para aumentar seu faturamento.

Agora podemos falar do caso Amazon x Hachette, a história é a seguinte: a Hacchette é uma das grandes editoras Norte Americanas, ela vende livros; a Amazon é atualmente uma das maiores livrarias, ela compra livros para revender; o caso ocorre na venda de ebooks, como é o normal a Amazon quer que a Hachette lhe diga o preço do livro, para depois vende-lo ao preço que bem entender, contrário ao preço de “agency” onde é a editora que diz o preço final de venda. A Amazon pode não comprar nada da Hachette, e não vender nada da Hachette, mas aí ambos perdem, quem perde mais? Para compensar que o esquema com a Apple foi pego pelo departamento de justiça do governo, a Hachette queria cobrar caro nos ebooks vendidos para a Amazon e assim ela não poderia vender mais barato e concorrer com os livros de papel da editora, em resposta a Amazon retirou os livros da tal editora de sua loja e a gritaria pública começou. Tirar os livros da Hachette do catálogo da Amazon é uma enorme perda de dinheiro para a editora, e ela colocou parte da negociação aberta fazendo seus autores contratados escrever uma carta pública para a Amazon, a coisa ficou patética, ridícula mesmo, mas para piorar a Amazon mandou uma carta para seus leitores/autores para que escrevessem ao CEO da Hachette defendendo o seu lado, o que já era ruim ficou pior, este embate tem mais rounds com escritores proeminentes e jornalistas pronunciando-se contra ou a favor, quem quiser saber mais vá aos blogs norte americanos de e-reading, não é um história bonita nem divertida, mas acho que este resumo nos serve para entrarmos em outras questões e em especial aos últimos movimentos em relação ao Brasil.

Nesta história há dois grandes jogadores: Amazon e Hachette, dois lados: Amazon e Hachette, portanto tome seu acento na torcida correspondente, mas isso é uma idiotice, há mais lados nesta coisa, há mais argumentos e muita coisa envolvida. Dicotomias imbecilizantes são uma tática velha para polarizar opiniões e empobrecer o debate, quer um exemplo clássico? A velha briga direita versus esquerda. É um paradigma inútil que tem empobrecido a vida política mundial e excluído do debate as pessoas e suas vidas que é o que realmente importa, direita ou esquerda são conceitos genéricos e para muita gente tem significados diferentes, assim qualquer debate neste sentido carece de verdadeira objetividade, e as verdadeiras questões que importam nunca são ditas, ficam perdidas neste debate inútil e infindável que não se apóia em qualquer parâmetro objetivo. A realidade é que levadas ao extremo, direita e esquerda são apenas formas diferentes de ditadura, e como todos sabem ditadura é tudo igual, não importando a cor de sua bandeira ou o discurso vigarista a justificar as atrocidades. A realidade é que auto-determinação é algo que ninguém dos que gostam de poder tem simpatia, eles querem te controlar, e você não quer ser controlado; é isso que ocorre com o caso Amazon/Hachette, quem está de um lado é rebanho de um, quem está do outro é animal de curral do outro, e quem pensa e quer viver sua vida e ter seus argumentos está fora. Por que digo isso? Pois vocês verão que há algo muito mais profundo nesta estória e por mais que tenham falado do assunto à exaustão muitos aspectos não foram abordados.

Preciso apenas de mais um adendo para deixar claro para os brasileiros todo o processo envolvido: para quem não está acostumado a comprar livros em inglês, há uma dinâmica que não existe aqui: “hardcover” e “paperback” o livro de capa dura e a brochura; lá, quando um livro de relativo sucesso é lançado, primeiro há uma edição de capa dura bem mais cara, e quem quiser ler tem que pagar pelo “luxo”, só depois quando as vendas caem ou depois de um ano é que lançam a versão brochura mais barata. Com este processo as editoras ganham muito mais com a capa dura, e quando o mercado cai exploram outras faixas com o paperback, e dependendo dos livros até os de bolso super baratos em uma terceira exploração do mercado. Com ebooks e lançamento simultâneo, a obrigatoriedade de pagar mais para ler na edição de capa dura desaparece. Para quem é de fora da máquina editorial imprimir um livro, principalmente de capa dura é proibitivo, mas para editoras com a máquina estabelecida é bem barato, é uma fração pequena do preço final do livro, e a diferença de um hardcover para um paperback também é relativamente pequena, este menor custo de impressão que as editoras têm perto dos “civis” é o que lhes dá o controle do mercado. Aqui não é muito diferente. Outro ponto é que editoras pagam relativamente pouco aos autores, desta maneira impressão e o texto em si são uma parte menor do valor pago pelo consumidor.

Entendida a dinâmica do mercado atual americano, vamos nos concentrar um pouco na história da Amazon que conto como um de seus antigos fregueses. O mundo AM ( antes da Amazon) era um local quase sem internet, informação era difícil, editoras eram reclusas e livrarias os pontos de encontro entre pessoas e livros, às vezes ouvia-se falar de um livro, mas não havia onde procurar, com muita sorte e muitas livrarias às vezes encontrávamos um exemplar, e aí víamos a coisa em si, o livro que antes era só boato, e não pensem que estou falando de tomos obscuros, achar um mero Advanced Dungeons & Dragons era uma “quest”. Mesmo com as informações corretas, nome e endereço da editora era quase impossível adquirir o livro, as editoras não tinham interesse e não se davam ao trabalho de vender um único livro, ainda mais atravessando continentes. Este era o mundo AM, cheio de livros, mas difíceis de comprar. Com a entrada da internet surgia uma possibilidade, vender coisas on-line, ninguém botava muita fé, apesar dos EUA terem muito bem consolidada a venda por catálogos de papel; ao que parece, pelas necessidades não atendidas do leitor, livro seria o mercado ideal para começar a vender coisas na internet. Primeiro problema, desconfiança, segundo a própria logística. A Amazon começou pequena, a mim a grande diferença era que eles enviavam livros para o Brasil, a maioria das livrarias Norte Americanas não enviava, mas ao longo deste diferencial eles começaram a construir um catálogo muito completo, assim se eu queria saber se um livro existia minha primeira parada era a Amazon, e o catálogo não era só de livros atuais, lá tinha tudo, e pasmem, mesmo que eles não tivessem o livro para vender eles procuravam em sebos para você! Acredita? Lógico que a Amazon tornou-se a única parada para comprar livros, tinha um frete marítimo bem barato, e aí você comprava dez livros ou mais, às vezes juntava com amigos, e por muitos anos pelo menos dois ou três livros eu comprava toda semana, e o que é melhor, muito mais baratos que os livros nacionais!

Para completar o pacote a gentileza e presteza do atendimento eram sem par, eu nunca tive problemas, o máximo que me aconteceu foi encomendar um livro e receber a versão em capa dura sem custo adicional, pois ele estava fora de estoque, com uma carta dizendo que se eu fizesse questão do paperback eles trocariam sem custo, pode parecer pouco, mas este tipo de gentileza deixa uma ótima impressão, com um amigo aconteceu dos livros molharem no transporte, substituíram rapidamente e ainda desculparam-se pela demora em receber os novos exemplares, tudo sem nenhum custo ou aborrecimento. Lógico que indiquei a Amazon para todos os amigos, e todos viraram fregueses satisfeitos. E até hoje nunca ouvi de nenhum amigo que a Amazon pisou na bola, o frete marítimo baratíssimo não existe mais, eles também não procuram mais livros em sebos, era tudo parte de uma estratégia comercial, funcionou! Estou magoado pelos serviços que deixaram de ser prestados? De jeito nenhum, é a natureza da relação comercial, eles não são meus amigos, sou apenas um cliente satisfeito, e o que eles se propuseram eles cumpriram.

Ao ter um catálogo extremamente completo e um atendimento de primeira a Amazon virou referência, assim, ao pensar em comprar livros nos EUA só existia uma livraria: Amazon, e no mundo PM (pós Amazon) era muito mais fácil e barato conseguir livros. Livro era apenas o início, a idéia sempre foi ter uma loja de tudo, mas pelas características do público leitor e dos livros a estratégia inicial foi excelente, hoje pelo que dizem livros são menos de dez por cento do faturamento da Amazon, mas o catálogo completo é uma referência que faz com que outras lojas sejam irrelevantes. Mas vamos ao caso oposto, a Amazon tem seu tablet, o Kindle fire, e sua loja de “apps”, programas para este tablet, mas ela é muito inferior à loja da Google, quem é cliente da Amazon de livros sente-se o primeiro, já na loja de “apps” quem tem um kindle fire sente-se em desvantagem, você vê um programa legal mas ele não existe na loja da Amazon, isso gera frustração, melhor pegar um Android genérico com acesso à loja da Google do que o Kindle fire, conseguem entender a natureza do jogo?

Vamos adiante, como vocês viram o mercado de livros foi apenas uma estratégia para iniciar a loja on-line da Amazon, mas imaginem o que aconteceria se deixassem estes clientes de lado ou começassem a pisar na bola, a sua loja de outras coisas perderia credibilidade, e aí alguém poderia tomar o seu lugar. Vender livros físicos tem um custo logístico muito grande, é muito item de baixo valor perto de outras coisas da loja, mas vender ebooks é muitíssimo mais barato, não só pelo papel, mas por toda logística envolvida. Ebooks não existem sem o e-reader e a Amazon tratou de lançar o seu modelo com seu programa e formato de livros que só rodam em sua loja, o Kindle não foi o primeiro nem pioneiro em nada, mas pela fama da livraria quase virou sinônimo de e-reader, e assim, mais que nos livros físicos a Amazon responde por mais da metade das vendas de ebooks dos EUA, ao aliar a comodidade da sua loja aos ebooks a Amazon atingiu uma dominância sem precedentes, e ao mesmo tempo reduz o custo de logística de manter seus clientes leitores felizes.

Para quem gosta realmente de ler o e-reader com o ebook é um avanço sem precedentes, ele tem o conforto do papel, sem o peso e todos os problemas, e além de tudo é mais barato, dá para ler mais e ainda tem muitos livros gratuitos, que por mais que sejam de domínio público, os de papel nunca foram gratuitos e alguns até caríssimos. Assim quando uma Amazon disponibiliza livros gratuitos não é por serem beneméritos, é para o leitor os baixar em sua loja e não os adquirir em outro lugar, a idéia é ser a primeira opção, que como vocês vêem, falha miseravelmente no mercado de programas para Android.

Em um mercado capitalista não se fazem coisas para ser bonzinho, mas por que elas dão dinheiro, a curto ou médio prazo, raramente longo, assim a Amazon agrada seus clientes pois isso lhe garante fidelidade e mais negócios, se os tratarem mal eles vão comprar em outro lugar, desde que o outro lugar exista, isso chama-se concorrência, se alguém faz algo melhor para quem compra ele leva o cliente e o negócio. São as tais regras de mercado que se auto-regulam desde que haja concorrência.

No caso Amazon x Hachette a editora tem um vasto catálogo, e se a livraria não tiver seus títulos e o leitor quiser comprar terá que ir a outro lugar, e quem sabe este lugar lhe dê uma boa impressão e ele passe a comprar lá não só livros mas outras coisas, a Amazon perde, o grande trunfo da Amazon não é só ser uma loja grande, mas ser a loja que tem tudo! Ao outro lado a Amazon tem um grande público e se os livros e ebooks das Hachette não estiverem à venda neste ponto ela perderá muitas vendas, e ainda outras editoras vão vender livros em seu lugar, pelo porte da Amazon é uma grande perda financeira imediata. A Hachette quer proteger seu mercado de papel, por isso quer que o ebook custe mais caro, por seu custo muitíssimo menor o ebook pode custar muito menos, mas vejam: se a Amazon vende os ebooks mais caros ela também ganha mais, em teoria, mas a realidade não é bem assim, pelos dados que tem a Amazon e só ela tem dados tão bons do mercado de livros, um ebook deve custar entre U$3 e U$9,99 e assim maximiza-se os ganhos, segundo o que dizem, mas isso não convém aos editores que ainda vendem seus livros de papel e querem proteger o seu mercado, aí está a briga que todos viram, mas há aí um outro detalhe, lembram do tal caso de “collusion” que o departamento de justiça pegou? Todas as grandes editoras combinaram preço juntas, todas queriam aumentar o preço do livro. Porque todas juntas? Pois eles sabem que se uma baixar os preços os outros estarão em desvantagem e ela ganhará uma fatia maior do mercado. Por qual motivo a Amazon insiste em forçar este confronto com a Hachette? Se ela aceitar baixar os preços os outros também serão obrigados a reduzir seus preços, entenderam este outro aspecto da negociação?

Tudo parece muito definitivo, mas não sentiram falta de algumas pessoas importantes na cadeia do livro? Autor e leitor, o segundo é tratado como uma massa amorfa e o primeiro quase inexiste, parece que livros tem geração espontânea, deixe em um canto uns restos de carne, roupa suja, papel e tinta que logo terá lá, surgido do nada, um livro! E a realidade é que com ebooks e e-readers tanto editores como livrarias tornam-se supérfluos, instâncias que não agregam qualquer valor no livro, que é uma relação entre autor e leitor.

Outro aspecto que tem sido cuidadosamente escondido são os direitos menores que o leitor tem sobre um livro eletrônico em relação à sua versão impressa, a desculpa neste caso é proteger o direito do autor, mas a realidade é que ele é quem menos ganha no processo, ele é apenas uma desculpa para os editores restringirem o direito dos leitores, essa idéia de comprar um livro e não poder fazer o que quiser com ele é absurda, imagine se Hitler estivesse no poder hoje, nem precisaríamos reunir asseclas em praças para queimar livros, seria apenas retirar o livro do sistema e ele deixaria de existir, ninguém mais poderia lê-lo, pode parecer exagero, mas Hitler existiu e não estamos a salvo de outros ditadores, hoje mesmo ditaduras sangrentas existem em Cuba aqui na América, na África e na Ásia. Já houve tempo que livros eram raridades, caso da biblioteca de Alexandria, imaginem que dos livros que foram vítimas do incêndio, os que só existiam lá nunca mais puderam ser lidos, o que perdemos? Toda nossa riqueza cultural está em livros, além disso há toda uma função social em compartilhar livros, e isso está definitivamente proscrito com as regras draconianas que querem impor aos ebooks.

Outro aspecto que acho fedorento são os serviços de aluguel de livros on-line, não por conta da remuneração que é a principal preocupação dos livreiros, mas pelos catálogos, eu assino TV a cabo, tem um monte de canal, um monte de programa, a grande maioria um lixo total que não assisto, mas pago por tudo! Pior, fomento essa ruindade, sempre escolhi os livros que quis ler, sejam de onde forem, mas veja o caso da TV a cabo, alugo um serviço e fico restrito à sua programação, e tem tanto filme bom que não passa; veja o caso dos animes, sempre sucesso mas ferrenhamente boicotados nos serviços de cabo brasileiros, lembram da história do jabá para tocar música no rádio? Só que rádio era de graça, TV por assinatura nós pagamos! Eles escolhem o que vamos ver, e por exposição o que fará sucesso, a mesma coisa com o serviço de “aluguel” de livros me dá nojo, espero que os leitores sejam espertos e não deixem o seu direito de escolha de lado, é fácil perder liberdades e direitos, difícil recupera-las.

Mas, e o Brasil, onde fica nisso tudo? Para começar somos um país de poucos leitores, tudo por culpa dos nossos editores, livro por aqui sempre foi caro, e assim sem acesso, sem leitores, é óbvio que a “indústria” editorial não cresce; uma realidade contemporânea e histórica nefasta, a falta de livros tem sido a principal causa do nosso subdesenvolvimento, e mesmo hoje que apregoam que o livro no Brasil é barato ele ainda é caríssimo e pouco acessível. A realidade é que para quem tem o hábito de ler, isso não sai barato, pois quem lê, lê vários livros em um mês, e pode colocar aí um gasto de uns trezentos reais ou mais, o livro é barato para quem compra um livro ao ano, talvez quatro, mas estes não são leitores, e o pior é que nos EUA um livro com o mesmo número de páginas custa mais barato que o nosso, piorando a situação pois lá eles também ganham mais, assim, os editores que dizem que o livro no Brasil é barato estão tentando dar nó em pingo d’água para dizer uma mentira tão cabeluda. E falaram muito esta asneira no jornal, é preciso muita cara de pau! Aí vem um imbecilzinho e diz: “dinheiro para comprar livro não tem, mas tem para tomar um chopinho com os amigos”, enquanto tivermos que escolher entre o chopinho e os livros estaremos condenados, um não é excludente do outro, se há esta necessidade de escolher um ou outro é por que estamos muito mal, é aquela visão deturpada do esquerdinha ignorante que não admite que alguém possa ler e ainda tomar uma cervejinha com os amigos, coisa de burguês, pobre que é pobre não tem escolha, é como se disséssemos, olha, se você quiser ler vai ter que tomar umas pauladas, tem que ter sacrifício. E assim nunca formaremos leitores, o único e verdadeiro leitor lê por prazer e só há prazer com liberdade.

Se nos EUA livros e ebooks são apenas uma questão de mercado, aqui é de cidadania, e os livreiros se comportam como cadelas do governo, e seus asseclas na internet ficam latindo para a Amazon, com um medo mortal da concorrência, vi até um sugerindo que os livreiros fariam o governo expulsar a Amazon! Sério, procurem por aí, só dando risada. O que detonou tantas reações raivosas pelo jeito foi o fato da Amazon anunciar que conseguiu um catálogo com mais de 150.000 livros, e isso foi um grande feito, como mostrei anteriormente, é a mesma estratégia da Amazon quando começou nos EUA, e ela é boa, vender livros físicos não é só um negócio, é um teste para o serviço de logística no Brasil, mas por ter entrado no varejo de livros físicos com um catálogo tão completo a Amazon atraiu para si o ódio de todo mercado editorial, que tem medo da concorrência, pior ainda é que grande parte deste mercado é o governo, por isso o mercado papeleiro é tão lambe botas do governo. Os e-readers que podem significar a liberdade no mercado do livro no Brasil são ferozmente combatidos por livreiros, editores e governo do PT. O ebook com o e-reader é uma ameaça à manutenção da mediocridade editorial brasileira, a Amazon, a Cultura com a Kobo e agora a Saraiva com a Bookeen trouxeram o aparelho, mas o imposto da vergonha que a Dilma mantém no aparelho o torna muito caro para o bolso do pobre, principalmente o não leitor, que não corre o risco de virar leitor; precisam garantir que o brasileiro ainda troque votos por dentaduras. O novo problema é que a Amazon a despeito de todos boicotes montou um catálogo invejável que vai alavanca-la ao primeiro posto, e ela deixará de ser desprezível e vai ter mais poder de fogo para negociar no preço dos livros, os editores estão borrando as calças de medo, o governo também não quer livro barato. Estão colocando a causa de lutar contra a Amazon como um dever nacional: Brasil x Amazon, mas nós leitores somos de opinião contrária, pois queremos livros mais baratos, mais leitores, mais cultura e educação.

Depois de vocês verem toda a história da Amazon, Hachette e o caso do processo contra as editoras e a Apple, veja este trecho de uma reportagem da folha:

“Haroldo Ceravolo Sereza, presidente da Libre, diz que o mercado passa por um momento de mudança que exige muita atenção das entidades.
“Em princípio, não achamos um problema a Amazon vender no Brasil. É bom que o mercado tenha mais um lugar para vender livros. Só queremos que eles respeitem as regras da concorrência, que não pratiquem preços abaixo do mercado, como fazem lá fora.”"


Se tiverem curiosidade leiam a matéria inteira, notaram alguma diferença? Nos EUA o departamento de justiça processou a Apple e várias editoras por tentar fixar preços e ferrar o consumidor acabando com a livre concorrência, as editoras querem manter os livros caros, o caso da pinimba com a Hachette, e aqui querem que o governo faça esta fixação de preços do livro para mantê-los caros e inacessíveis! Acreditam? Que regras da concorrência são essas que o cara diz aí em cima? Nos EUA elas são consideradas crime! O que seria um preço abaixo do mercado? Um preço abaixo do que o mercado combinou para ferrar o consumidor? As coisas aqui são tão surrealistas que o cara ousa dizer isso em um dos jornais de maior circulação! E sabe do pior? Quase ninguém vê o absurdo! O pior de todo o Brasil vem desta falta de livros, façam o que fizerem, sem livros continuaremos a ser um país de merda, e não nos subestime, a coisa ainda pode piorar muito, vejam a Venezuela, nem livros nem papel higiênico!

Alex


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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Língua e literatura na era eletrônica.

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A linguagem surgiu, cresceu e evoluiu com o homem, é viva por nós, e por nós muda e evolui, é ferramenta para um fim, não vive por si mas vive para nós. É importante pensar a língua, seus usos e sua capacidade, mas infelizmente muita mudança não é feita de forma racional, e sem que queiramos ou nos damos conta existem certos consensos no uso da língua que espalham e contaminam sem que sejam pensados ou benéficos. É inegável a influência do suporte na forma da língua e sua capacidade de comunicação, imaginem se ainda usássemos “tablets” de argila para escrever caracteres cuneiformes, grande parte da evolução social que conhecemos nunca aconteceria, como seria carregar um livro de oitocentas páginas de argila? O livro deixou o papel e agora é mais leve e prático no meio eletrônico, é inegável que haverá mudanças, mas cabe a nós verificar a verdadeira capacidade do meio digital para que a língua e literatura cresçam e não diminuam perante o passado que já tivemos.

Por falta de pensar a língua está espalhando-se uma versão capenga e mutilada que diz-se dominante por pura ignorância, ela é a versão contida nos manuais de redação e (falta de) estilo. As frases complexas compostas por subordinativos ou coordenativos, as vírgulas e definitivamente os ponto e vírgula, são recursos proscritos, e isso quando pretende-se comunicar assuntos complexos que tem diversas instâncias e vários níveis de hierarquia impossibilita a composição textual; desta maneira, o texto escrito que tem a propriedade de educar, pois pode conter assuntos em profundidade é sabotado, permitindo em sua versão mutilada expressar apenas assuntos simples ou a simplicidade leviana que mediocriza os assuntos complexos impedindo definitivamente qualquer possibilidade de real compreensão. O uso desta língua deturpada que já é norma em jornais e revistas de grande circulação tem dois efeitos: o primeiro é tornar levianos todos os assuntos que aborda uma vez que não pode aprofundar-se, antigamente liam jornais as pessoas que queriam ter um conhecimento mais profundo, hoje o conteúdo de jornais e telejornais é idêntico, com vantagens ao telejornal por ser mais rápido e atualizado; o segundo efeito diz respeito à educação do leitor, antes o jornal era uma iniciação do leitor na escrita complexa, assim ao encarar um texto de Machado de Assis o fosso não é tão grande, mas hoje com a escrita pobre dominando tudo, o leitor só encontrará alguma dificuldade nos livros, e a tarefa pode ser tão desafiadora que fará um leitor muito primário desistir. Evitar o uso da língua aleijada é uma espécie de “pièce de résistance” para não sucumbir à mediocridade geral, pode não parecer, mas muita gente bem educada e de vasta cultura, ao ler em computadores e tablets, sem perceber acabada desistindo ao meio de um texto mais exigente por cansaço, não percebem que é o meio que induz a esta imbecilidade programada; computadores e tablets não se prestam a literaturas complexas, não permitem atingir o nível de concentração necessário para decodificar estes textos, e assim, sem sequer perceber o leitor torna-se mais burro, incapaz. Talvez por isso muitos mantenham o hábito do papel, como nunca entenderam no meio eletrônico a diferença fundamental do e-reader e-ink para as outras mídias.

Existe um consenso dominante errado de que o leitor não deve ser desafiado, muito disto vem do reino da propaganda, onde um texto deve atingir o maior público possível, isto talvez o valha para quem quer vender limpadores de privada, mas é um tipo de texto que menospreza o leitor, pois considera o menor denominador comum e assim diminui o padrão de toda leitura, mas escrever é comunica-se, e dependendo do assunto, a quem se dirige o texto ou sua função, esta simplificação obrigatória é simplesmente ridícula; com isso o texto perde a função de educar o leitor, expandir seus horizontes e a capacidade de articulação lógica. As pessoas não percebem o quanto este uso de textos obrigatoriamente simplificados é degradante para a leitura, para os assuntos tratados e para o próprio poder de raciocínio. É um verdadeiro veneno que extermina todos os níveis da cultura.

Aprender e desenvolver-se exige esforço por parte do leitor, não é possível ensinar sem desafiar o leitor, esforço não é necessariamente uma coisa ruim, muito ao contrário, assim como aprender, mas nos focamos em tamanha passividade por parte de leitores que cobrar um mínimo de esforço parece heresia, há esforço prazeroso, há desafios que trazem recompensa, e o aprendizado é um deles. Desta maneira em vez de escrever para aqueles que são tão vagabundos que abandonam um texto a meio caso este lhes ofereça qualquer desafio, o melhor é focar nos objetivos mais altos, pois quem ler o texto sai ganhando e temos leitores que valem a pena. E aí vem um imbecilzinho preguiçoso nos acusar de elitistas por não sermos condescendentes e desprezarmos a capacidade cognitiva de nossos leitores, oferecendo-lhes um texto que ao desafia-los os fará crescer; cabe aqui acabarmos esta mistificação grosseira: procure por aí os textos dos fabricantes de relógios que custam o preço de carros e carros que custam o preço de casas, verá que quem evidentemente produz itens para uma elite que pode dar-se ao luxo de pagar por objetos de status não usa textos complexos, muito ao contrário, são simplórios, portanto, onde está o tal texto “elitista”? Tudo isso para mascarar que a grande cultura humana hoje está gratuita a quem dispuser-se a ler, se a dois séculos foi um item de diferenciação de classes por conta do acesso restrito, hoje não é mais, assim acusar de elitista é imbecilidade a não ser que se refira a uma elite pensante, mas pensar ainda é de graça. Muito do que pensam é errado, escrever usando todo o potencial da língua não é um fator de exclusão, muito ao contrário, é a verdadeira inclusão, mas o leitor precisa fazer o esforço de desafiar-se para ser incluído. Um texto ruim exclui sem possibilidade oposta, pois mesmo que o leitor suceda na leitura está excluído, pois nunca oferece a oportunidade de crescimento.

Até aqui falei apenas de textos predominantes em jornais e revistas que ao optarem pela simplificação da língua perdem sua capacidade de tratar de assuntos com a complexidade merecida e assim falham em informar corretamente e formar o leitor. Mas e a literatura? Aí o caso é ainda mais grave: literatura antes de mais nada é arte, diria ainda uma das mais difíceis pois não tem guias, o artista que enveredar por esta modalidade terá que criar seu próprio caminho, as regras da gramática são paupérrimas perto de toda diversidade encontrada na literatura, que às vezes a desafia frontalmente e sai ganhando esplendorosa. Literatura aprende-se lendo, é uma vivência, só se aprende fazendo, não adianta, não existe outro caminho, e justamente por este particular fabricamos monstros estranhos: pegue um garoto nos seus dezessete anos e o enfie em um curso de letras, qual sua vivência como leitor? A maioria nenhuma, e aí o encha de livros aos quais deverá fazer uma “leitura técnica” como preconizam seus mestres, o garoto que não viveu a literatura agora vai ver o texto de forma mecânica ou ideológica, resultado depois de quatro anos de faculdade: alguém que não lê mais por prazer pois não teve tempo, quatro anos é muito pouco para tantos livros, mas ganhou o título de especialista em literatura. Especialista em quê, se não teve tempo de ler? Esse garoto agora com uns vinte e um anos vai ensinar língua e literatura... Já viram o desastre, não? É o que vemos hoje, mas tem lados piores, o rapaz em vez de ensinar nas escolas escolhe a vida acadêmica e vai ser um crítico literário: o pobre menino que não teve sua vivência com os livros vai agora falar sobre livros, não do ponto de vista do leitor, mas com os estudos acadêmicos que não interessam a ninguém que não sejam seus pares; resultado: ao encontrar o livro bem escrito mas sem experimentalismos inúteis vai logo taxa-lo de: “romanesco” em tom pejorativo, e se lhe cair em mãos um texto de Machado sem a assinatura do autor dirá que não é grande coisa, mas irá elogiar vilipendiando os adjetivos quando encontrar um texto experimental e ruim que não diz nada, não quer dizer nada, nem pode ser compreendido, o ápice do nada com a coisa nenhuma, a arte do nada!

A grande estupidez no meio acadêmico ou pseudo-acadêmico, é que não conseguem mensurar a extensão de sua ignorância, criando um universo analítico que tal como a taxonomia vê o livro não como vivo, mas como peça morta a ser dissecada, a verdade é que o todo é maior que as partes; leia uma análise semiológica, ela parece com um livro da mesma maneira que a descrição taxonômica de um gato parece com o animal vivo, a academia é muito boa em guardar o passado, mas inútil na criação artística. O viés cientificista é a causa desta cegueira, primeiro e mais importante: cientificismo não é ciência, é seu uso ignorante, pois a ciência dá conta do que são as coisas. A ciência observa o que é, a arte cria o que será; ciência é observação, arte criação. Desta maneira um acadêmico ao taxar algo de romanesco repete os mesmos preconceitos dos românticos ao criticar a literatura clássica, o modernismo ficou velho e o pós-modernismo ao desvencilhar-se da estética trouxe um viés ideológico que fez da não arte uma arte, assim tudo passa a ser arte e ao mesmo tempo nada mais é, não existe arte pós-modernista, pois criou-se uma falta de conceito, cabe ao observador ou leitor ter conceitos e decidir o que é arte, pós-modernismo em essência é o sofismo moderno, o discurso vazio, o relativismo, e ninguém representa melhor isso que o meio acadêmico, pois  o que era para ser o ápice do conhecimento tornou-se uma panelinha de relativistas inúteis, apodrecidos e preocupados apenas com seus próprios salários em vez de seus objetos de estudo.

A maior prova da impotência acadêmica na literatura é que a maioria dos bons escritores não vem de seus quadros, um leitor bronco mas não ignorante como o Faulkner é infinitamente mais capaz que a maioria acadêmica, é da realidade da escrita e da leitura. Escrever é a arte do ilusionismo com palavras, o leitor percebe o efeito mas não vê a mecânica, que na realidade é um conjunto de truques simples, por isso a maioria dos escritores não fala dos próprios escritos, por isso que não há manual. O escritor é um mágico que não gosta de revelar seus truques. Antes de estudar a literatura como um peixe morto é necessária vivência, deixar-se maravilhar com os truques dos vários autores, ver o texto vivo antes de partir para a dissecção, por isso criamos monstros deformados, os estudiosos nunca foram leitores, e sem ler não vêem o efeito das ilusões que formam o cerne da criação literária; o leitor vê o efeito sem conhecer o truque, o acadêmico procura o truque sem saber qual é o efeito. E assim criou-se todas essas distorções que vemos por aí, gente que louva textos ineficientes, sem efeito, trejeitosos e inúteis. Assim prospera uma literatura contemporânea estéril, inútil e enfadonha, que não cativa leitores nem cria nada de bom. Aposto mais na literatura taxada pejorativamente de entretenimento, pois há mais chances de ver real arte aí do que no lixo propagandeado pela crítica acadêmica.

Voltemos novamente ao meio, talvez por conta da influência de jornais e revistas ou pela escrita pobre de massa dos textos de propaganda, gerou-se um consenso não pensado onde o meio eletrônico só comporta textos curtos e linguagem simplória, lógico que em serviços como o twitter que limita as mensagens a grunhidos de poucos caracteres, é impossível, mas não é a realidade eletrônica, aliás, muito ao contrário, antes um livro de muitas páginas era difícil de ser impresso pois custava mais, livros comerciais eram sempre limitados a duzentas ou trezentas páginas, mais que isso só se já fosse um “bestseller” de venda garantida, caso contrário a publicação seria muito cara, no meio eletrônico não existe esta diferença, um ebook pode ter qualquer extensão que é replicado com o mesmo custo, isso é um ganho! Uma expansão da capacidade que tínhamos antes. Um texto de internet deve ser curto e de linguagem simples para que os leitores não desistam, por que focar-se em escrever um texto para quem não lê em vez de fazer ao contrário, escrever para os que lêem, tem capacidade ou não tem preguiça? Se não se está vendendo porcaria, mas se quer ter um diálogo de alto nível, não faz sentido escrever para os idiotas que não lêem. A língua em nosso cotidiano tem também a função de formar as estruturas lógicas do pensamento humano, foi analisando a conversa de crianças que Piaget percebeu que a estrutura lógica da língua induz ao pensamento complexo, se em crianças de seis anos as formulações lógicas são menos freqüentes e muitas vezes inconscientes, em garotos maiores há mais freqüência no uso lógico da língua, e sem esta vivência não há o desenvolvimento mental. Ao aleijar a língua evitamos que as pessoas treinem o intelecto e impossibilitamos o surgimento dos raciocínios complexos. O uso pobre da língua inviabiliza o pensamento complexo e mais que um estilo ou moda, induz à pobreza de pensamento, e isso reflete-se em toda cultura e vida social, é por este motivo que as visões dicotômicas e ignorantes imperam em nossa sociedade, pois qualquer complexidade além da imbecilidade binária, não tem capacidade de ser processada, todo assunto complexo que envolve mais de dois lados torna-se um problema insolúvel. Veja o uso de uma dessas simplificações ignorantes: em uma democracia todos temos direito à voz, liberdade de expressão, assim todos temos direito a uma opinião, seja ela verdade ou mentira, certa ou errada, mas tende-se a usar o “direito à opinião” como justificativa para cassar o direito de expressão do outro no caso de que discorde de nossa opinião, assim como alguém tem direito a dar uma opinião, esta opinião não impede o outro de manifestar-se contra, pois ele tem a mesma liberdade de expressão; é assim que funciona a argumentação, uma opinião recebe uma contra-opinião, um argumento recebe um contra-argumento, esta é a liberdade democrática. Quem não gosta de argumentação pois tem argumentos ruins tende a querer usar a opinião como direito de caçar a liberdade de expressão. Complicado? Não muito, mas é mais simplório dizer que “todos tem direito a uma opinião”, que é uma simplificação grosseira e que esconde a realidade do direito democrático.

Literatura é tudo menos simples, muito ao contrário, é justamente a diversidade e sua complexidade que faz sua riqueza, assim, veja como esta estrutura lingüística mutilada é derrogatória da apreciação artística da literatura que não cabe em qualquer dicotomia imbecilizante, um Hemingway não está acima de um Shakespeare, nem abaixo; é a existência de Faulkner, Cervantes, Goethe, Virginia Woolf, Defoe, Chaucer, Sterne, Conrad, Byron, Yates, Shelley, Walt Whitman, Chekov, Machado, Kafka entre muitos que faz da literatura a potência que é. E nenhum autor é uma unanimidade, veja Joyce em Ulysses e em Finnegans Wake, o primeiro foi ao limite, o segundo passou do limite, criou uma obra mutilada que perdeu o foco do leitor e empobreceu-se na língua, a soma de suas partes ficou menor que o todo. Imagine o quanto deste universo o garotinho estudante de letras já teve tempo de apreciar, quase nada, não há curso de quatro anos que substitua uma vida de leitura. Por isso a impotência acadêmica na literatura é tão gritante.

Ler, como tudo que vale a pena na vida, exige certo esforço, fazer um texto para preguiçosos que não querem ter o mínimo de esforço é escrever inutilidades, banalidades nunca farão ninguém crescer, cada grande autor criou o seu jeito de escrever, não é só questão de estilo, pois bom ou ruim todos tem um, o escritor artista criou um jeito que funciona, expande as possibilidades da linguagem para contar suas estórias, por isso cada novo autor é um novo aprendizado, um novo esforço e um novo universo expressivo, é assim que se cresce. Quem não consegue ler um bom autor confunde o ruim com o bom, não tem capacidade de diferenciar um do outro, por isso a literatura contemporânea é tão cheia de embusteiros, escritores incompetentes que mascaram sua ruindade com experimentalismo vazio.

O meio eletrônico traz novas possibilidades para a literatura, é preciso ver sua real capacidade e descartar os consensos ignorantes que mutilam a língua e os seres humanos, a literatura será o que faremos dela, é preciso conhecer a arte dos grandes homens, por prazer, criando assim a apreciação artística e o domínio da língua, seja no papel ou no e-reader e-ink mais acessível e democrático; depois de viver ler é a experiência mais próxima, vivemos uma vida, mas através da literatura vivemos milhares.

Alex
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segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Brasil dos perdedores: a luta do PT para evitar que o e-reader seja acessível ao povo.

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Não há fogo sem combustível, não há água sem hidrogênio e nem cultura sem livros, uma realidade óbvia, mas os que querem um brasileiro ignorante, crédulo e fácil de ser enganado, teimam em afirmar que há fogo sem combustível, não há! Livro é essencial para cultura, mais ainda para educação, e sem livros não se aprende a ler, e isso explica o motivo de 75% da população brasileira ser de analfabetos funcionais, aleijões da leitura, deficientes fabricados a propósito. Dilma, o PT e em particular a deputada Fátima Bezerra querem a todo custo inviabilizar o e-reader para o brasileiro pobre, uma vez que nunca tivemos e não teremos livros de papel acessíveis, o e-reader é a melhor aposta para divulgar a literatura entre todos cidadãos e assim melhorar a leitura, educação e cultura. Por este motivo o PT direciona todos os esforços para manter o e-reader caro e inacessível ao pobre, eles precisam de ignorantes! E isso mostra um ponto fundamental: o PT não é o partido dos pobres mas sim da pobreza, pois dedica-se a manter os brasileiros miseráveis. Vocês tem dúvidas? Vejam a Venezuela, é o mesmo modelo ideológico que segue o PT, hoje lá papel higiênico é um luxo! Vocês querem viver naquela miséria? O PT lhes dá a receita!

Vemos no andamento do projeto PL4534/2012 uma analogia de tudo que tenta o PT para tomar o poder de forma autoritária e tornar os brasileiros cidadãos de segunda classe em seu próprio país. Mostro a vocês com extrema clareza: diz o texto constitucional que é vedado ao governo de qualquer esfera instituir imposto sobre “livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão”. A constituição é um texto perene, assim o ebook e o e-reader como sinônimo moderno do que é o livro, pela hermenêutica mais básica já contaria com a proteção deste dispositivo constitucional. Mas Dilma não quer! Ela não quer que o brasileiro seja educado e por isso taxa o e-reader, pois sem ele não há ebook, com a popularização no mundo o e-reader tornou-se relativamente acessível, sem os impostos do PT ele custa o preço do celular mais barato, e isso é um perigo para a ideologia petista, vai que o cidadão começa a ler e percebe seus truques básicos, tragédia! Não iam mais ser eleitos nem para faxineiros de banheiro público. Por isso o projeto do senador Acir Gurgacz que já foi aprovado no senado deve ser rejeitado, pois ele diz apenas que ebook e e-reader são livros e gozam da mesma imunidade de impostos.

O projeto foi aprovado no senado depois de dois longos anos, mesmo com o PT sendo contra, tempo demais para um país onde a educação é precária, foi para a câmara onde o presidente Marco Maia petista fez com que tomasse o caminho mais longo possível para evitar que fosse aprovado; na comissão de Cultura a relatora é a deputada também petista Fátima Bezerra, dois anos de lenga-lenga e a deputada divulga seu parecer onde inviabiliza a retirada dos impostos ao e-reader, chega a ser piada, mas o relatório é contraditório em si mesmo, não colou, o deputado Ônix Lorenzoni fez voto em separado concordando com a não tributação do e-reader e a deputada inventou uma espécie de audiência pública, que não tem nada de pública pois foi feita apenas com seus convidados, para justificar a sua decisão, a coisa foi uma vergonha, uma verdadeira palhaçada e nós demolimos os argumentos ruins com a maior facilidade. Mas a realidade que todos escondem é que justamente por falta de apoio que a deputada Fátima Bezerra não enterrou de vez o e-reader nos impostos, são os deputados, os representantes do povo que não permitem que a vontade ditatorial do PT tenha êxito. Por pior que seja nossa democracia representativa, ela é melhor que a ditadura do PT. Foi tanta demora que o projeto passou do tempo regimental para ser apreciado uma vez que é oriundo do senado, o deputado do PMDB do RS Darcísio Perondi exigiu que o processo fosse votado em plenário, e se for, aí veremos o que acontece, a realidade é que a mesa da comissão de cultura dominada por esquerdistas nunca colocou o projeto em votação com medo de perder, eles precisam da ignorância do povo, mas não tem maioria para rejeitar a proposição do Senador Gurgacz. Ou seja: a nossa democracia representativa, mesmo precária impõe-se contra os desejos totalitários do PT, mas o que é pior, quem acompanha o andamento do projeto na imprensa vai pensar que ele já naufragou pela vontade exclusiva da deputada Fátima Bezerra do PT, o que é a mais ignóbil mentira! Ela e sua proposição encontram-se em posição de fraqueza e não conseguem rejeitar o projeto, mas como dominam a presidência da comissão ficam protelando.

Há inúmeros exemplos práticos a se tirar do que acontece: a tal audiência pública que a deputada Fátima Bezerra convocou não tinha nada de pública uma vez que só participavam os convidados, ou seja, uma audiência pública que não é pública é uma mentira! E isso não é novo, é parte da ideologia, tanto que tem até um nome: “Nomenklatura”, na antiga URSS as pessoas não eram todas iguais, a nomenklatura representava a casta dominante, a que mandava, e eles ocupavam todos os postos formando o "Apparatchik" , e desta maneira os cidadãos ficavam fora do governo que mentia dizendo representar todos os cidadãos. Na tal audiência pública foram privilegiados os membros da nomenklatura, mas sem estes nomes burocráticos a coisa é a simples panelinha. A tal audiência que era para ser pública não era, pois tinha privilegiados os membros da panelinha do governo. É assim que age o PT, e se fosse por eles o projeto já teria chumbado, mas não, os deputados não petistas ainda não concordaram com a coisa e o PT não tem o poder sozinho, eles fazem estas palhaçadas para tentar solapar a representatividade dos outros deputados, mas ainda não funciona, ainda temos um resto de democracia, por pior que seja, é melhor que a ditadura do PT.

O tal decreto 8243 da Dilma é uma maneira de impor as panelinhas do PT em todas as instâncias do governo, assim como a audiência pública da Fátima Bezerra, que não é pública pois participam dela apenas seus convidados, os membros da panelinha ou nomenklatura. O tal decreto quer fazer com que os únicos cidadãos que contam sejam os que o PT considera, assim os membros da panelinha ganham voz e o resto dos brasileiros viram cidadãos de segunda classe tendo que se conformar com os desígnios ditatoriais do PT. Eles dão a desculpa que esta seria uma democracia direta, um pinóia! Democracia direta depende do sufrágio universal, todos sob a mesma lei, todos iguais perante a lei, esta palhaçada nada tem de democracia direta, é apenas uma mentira para encobrir um método de ditadura! Um jeito da panelinha do PT dizer para você o que fazer, controlar suas vidas. Democracia é muito mais que isso, e logo mais entro em detalhes, mas vamos a outros exemplos.

O decreto 8243 cria os tais conselhos populares, vulgo a panelinha do PT, o Ministro Gilberto Carvalho já tenta viabilizar grana pública para essa nomenklatura com o pagamento de passagens e diárias, a coisa tenta ser rápida. Dizem que não há problemas pois os tais conselhos já estão em funcionamento, e é verdade, veja o caso que mostramos aqui do enxovalhe de Machado de Assis, foi aprovado por uma tal de CNIC, Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, apesar do absurdo de deturparem Machado de Assis com montes de dinheiro público, o que nós cidadãos podemos fazer? Nada! Nós não temos voz, eles fazem o que querem, e como a própria Patrícia Engel Secco declarou no programa Globo News Literatura, o projeto veio de dentro do governo, da panelinha, de uma conversa na coordenação de livro e leitura do Ministério da Cultura, o projeto foi para a tal CNIC e foi aprovado com a bagatela de mais de R$1.000.000,00 do dinheiro do brasileiro. Estou sendo bem claro? Se dependesse de tais comissões o projeto do e-reader já estaria condenado, mas depende dos outros deputados que representam partidos diferentes do PT, é a nossa precária democracia que nos protege da ditadura do PT que nos obrigará a sermos felizes com uma pobreza venezuelana.

É necessário entender o motivo da sabotagem da educação de verdade ser prioritário para toda ideologia de esquerda: ela é ruim, fraca e mentirosa e não sobrevive a um debate honesto com pessoas inteligentes e esclarecidas, ela é apenas uma desculpa para grupos vagabundos tomarem o poder e viverem de forma nababesca sustentados pela ditadura do estado, os maiores genocídios do século passado ocorreram em regimes ideológicos de esquerda, não há nada de humano, mas de genocida, e isso mostram os livros com a maior facilidade. Por isso Dilma quer a todo custo barrar o e-reader, pois ele representa a circulação livre de livros que podem educar o cidadão, vemos todo dia propagandas ufanistas da Petrobras na televisão, e todos sabemos da derrota da companhia tomada pelos petistas, os casos de corrupção avolumam-se nas páginas jornalísticas, e mesmo assim eles não tem vergonha na cara de fazer propagandas superlativas gastando mais ainda do dinheiro público, não estão promovendo um produto da companhia, mas sim a mentira do governo. O que custaria seguir a constituição no caso do e-reader? Quase nada perto dos montes desperdiçados pela Petrobras, mas o e-reader é perigoso, torna os livros mais livres e corre o risco de educar o cidadão, que não mais cairá nestas propagandas vagabundas e mentirosas. Não é apenas mesquinharia que impede o e-reader é somente a mais pura inumanidade, a mesma ideologia que proporcionou montanhas de cadáveres.

Muito falou-se sobre o livro do tal Piketty, e isso é patético, qualquer pessoa semi-esclarecida vê o quanto o livro traz uma argumentação patética para justificar o marxismo já ultrapassado e demolido em seus fracos dogmas. Ou seja, qualquer um que tente defender as ideologias da esquerda não é um pessoa muito inteligente e assim não pode enfrentar de maneira frontal e honesta uma argumentação, um livro como “O Capital” só sobrevive se a pessoa nunca leu outra coisa, qualquer um com um pouco mais de leitura vê como as idéias de Marx são fracas, e mais, injustas, o tal valor trabalho é absolutamente ridículo e nega uma realidade básica do ser humano, somos todos diferentes, impor este tipo de “igualdade” é massacrar o ser humano, o tal marxismo que diz revestir-se de um planejamento científico é apenas uma crendice que não resiste ao confronto com a própria realidade. O livro do Piketty fez sucesso não por ter bons argumentos, mas por tentar validar uma ideologia já morta que seus cultuadores não tem mais argumentos; a desigualdade no mundo aumentou? Os mais pobres vivem melhor hoje com maior desigualdade ou antigamente quando a desigualdade era menor? Qual era a desigualdade nos países socialistas onde os líderes vivem no mais alto luxo enquanto a povo vive na mas hedionda pobreza? Não é Cuba um bom exemplo para enterrar o Piketty? Ou seja, como disse antes, este tipo de estupidez só prospera pela ignorância, que os livros livres podem acabar, por isso livro e liberdade de expressão são tão combatidos por todas as ideologias de esquerda.


Toda ideologia de esquerda odeia a democracia pois ela enseja em si a idéia de educação e liberdade individual, mais que isso, democracia não se presta a ser ideologia ou dogma, é um conceito que evoluiu com o tempo e hoje é a nossa melhor prática de convívio social, é ignorância associar democracia só a voto, pois este não é o seu cerne, vota-se quando não se chega a um consenso na argumentação, pois é o debate livre, a argumentação esclarecida o cerne da democracia. Por isso para o cidadão exercer a democracia ele precisa aprender a argumentar, voto unicamente não representa democracia, se assim o fosse 51% poderiam decretar a morte dos outros 49%, isso não existe. Quem resume democracia ao voto não sabe o que é democracia, é a mediocrisação de um debate muito mais profundo que só prospera se aliado à ignorância. O voto pode ser aparelhado e usado para destruir a democracia, os demagogos já o faziam na Grécia antiga, mas a educação de verdade, esta só liberta, e ela hoje está aliada à livre circulação de idéias com livros livres, por isso a constituição brasileira impede que livros sejam taxados, por liberdade de expressão, divulgação da cultura e fomento da educação. Mas quando temos um supremo dominado por membros da nomenklatura, os defensores da constituição e dos direitos individuais salvaguardados na carta tornam-se seus algozes.

Nosso momento atual não deve ser visto com leviandade, estamos na encruzilhada entre a pobreza e a ditadura da Venezuela, ou ao desenvolvimento social que um povo tanto merece, ou tomamos a nós a responsabilidade ou os vagabundos vão nos escravizar na pobreza para manter seus privilégios ditatoriais. Se o mensalão não foi um aviso bom o suficiente onde os dirigentes petistas tentaram destruir a república, o decreto 8243 não podia ser mais claro para criar os “soviets” no Brasil e assim jogar o brasileiro de verdade ao escanteio para que a nomenklatura tome seu lugar. E digo e afirmo mais uma vez: só crescemos com educação, e educação de verdade precisa dos livros livres. Não é uma receita direta, mas é o passo mais fundamental para que possamos ter um país mais humano de verdade. Não vote nulo, vote contra o PT, não vote em branco, vote contra o PT, não deixe de votar, vote contra o PT, e não importa em quem vote desde que não seja o PT, pois como vocês viram, por pior que seja a nossa democracia, a ditadura do PT é ainda pior, por ela o e-reader já estaria proscrito. E vamos cobrar por um sistema eleitoral auditável pois não podemos conviver com a suspeita de fraude, ou o sistema é transparente ou não há confiança em seus resultados, ainda mais com os membros da nomenklatura controlando o processo.

Alex

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quinta-feira, 26 de junho de 2014

3 diferenças entre livros impressos e digitais: a perspectiva de uma editora

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Todo mundo está falando sobre as diferenças entre livros impressos e digitais do ponto de vista do leitor. Quem ama a cópia física fala do perfume das páginas, do toque do papel e como arruma os exemplares na estante. Os que preferem as cópias eletrônicas falam da conveniência, porque podem ler onde quiserem usando um smartphone, tablet ou leitor favorito, todos eles aparelhos leves e que podem armazenar milhares de títulos.
Mas, quais são as diferenças entre os livros impressos sob demanda (conhecidos como "POD" em inglês, de "print-on-demand") e os livros digitais do ponto de vista daqueles que montam o produto? No que os editores têm que pensar e o que eles precisam prever quando o assunto é fazer o design e o planejamento visual do livro? Vou falar um pouco das minhas experiências quando organizei os dois volumes da coletânea Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), dedicada a contos brasileiros traduzidos para o inglês.




1. Numeração de páginas x Cliques interativos
Duas versões do índice:
impresso (acima) e eletrônico (abaixo)
Isso é algo bem óbvio: você precisa numerar as páginas para saber onde parou de ler um livro ou encontrar um capítulo. Porém, isso não é necessário num livro eletrônico, não é? Uma das maiores vantagens da leitura digital é que você pode mudar o estilo e o tamanho da fonte no aparelho. E, depois que um leitor muda essas configurações, você sabe que a maneira como você concebeu o visual do livro digital vai por água abaixo...
Então, o mais importante é compreender a principal diferença entre a cópia impressa e a eletrônica: não é necessário numerar as páginas no último caso, seja no canto da página ou no índice. Do que você precisa mesmo é links no índice para levar o leitor ao respectivo capítulo ou parte do livro.
O mesmo vale para as notas de rodapé, já que elas não aparecerão da mesma maneira (no pé da página) e deveriam aparecer como notas no fim do livro, ou seja, palavras seriam associadas a essas notas por meio de links, em vez de números sobrescritos para organizar a informação.
E, enquanto você estiver com a mão na massa, capriche na interatividade ao criar links em outras partes do livro para páginas externas, tais como o site do escritor ou outros livros que você tenha escrito.
Esses são os passos que eu segui ao editar os livros do CBSS no formato digital: o índice mostra os títulos de cada conto e o nome do respectivo autor com links para cada página relevante. Dessa maneira, os leitores podem clicar e ir direto para o conteúdo desejado.


2. Imagens e páginas de autor
Biografia do autor, versão impressa
Lembra que eu falei sobre o planejamento visual do livro? Então, na versão impressa você pode colocar uma imagem em um canto da página e o texto vai contorná-la. Você pode aumentar ou diminuir o tamanho da imagem para alinhá-la ao parágrafo, isto é, para evitar que muitas ou poucas linhas fiquem ao redor da imagem.
E, onde é que você provavelmente vai usar imagens em um livro? Na página sobre o escritor, é claro! Falando nisso, se você geralmente não coloca uma página sobre o autor no final do livro, tá marcando bobeira! Essa é uma ótima oportunidade de colocar uma breve biografia, dar mais informações sobre os seus livros e a sua carreira e deixar links para o seu site ou outros títulos que escreveu. Hoje em dia, é preciso prender o leitor não só com uma história original, mas com a sua história de vida também!
Biografia do autor, versão digital
Planejar tudo no papel é fácil, mas a melhor coisa a fazer na versão digital é não alinhar imagens com texto. Coloque-a centralizada, acima ou abaixo do parágrafo. Assim, não importa o que os escritores façam para personalizar o visual do texto no aparelho de leitura, a sua imagem nunca vai atrapalhar e o alinhamento não vai ficar esquisito.
Quando editei os dois volumes do CBSS, usei dois modelos: o impresso mostra a foto do autor e uma breve biografia no lado esquerdo da primeira página que traz a tradução do seu respectivo conto e, na versão eletrônica, as biografias foram organizadas alfabeticamente no fim do livro, com a foto posicionada logo acima da biografia.
Na versão eletrônica, ficou tudo mais centralizado, já que os leitores podem ver a foto, a breve biografia e todos os links necessários para saber mais sobre o escritor (e-mail, site/blog, Twitter, Facebook, YouTube e outros livros publicados). Para o livro impresso, por causa do espaço limitado, optamos pela foto com biografia na versão em inglês do conto e a foto com as informações de contato na versão em português (original).

3. Preços e promoções
Ah, o debate que vemos desde sempre, pelo menos desde que surgiram os livros digitais: por que o livro eletrônico às vezes é tão caro quanto a versão impressa? Bom, cada editora ou escritor independente tem seus próprios motivos para estabelecer preços diferentes para cada versão de um livro, mas o que posso dizer da minha experiência pessoal é que os livros digitais podem (e devem!) ser mais acessíveis.
Vamos apelar para a matemática: cada exemplar de um livro físico precisa ser impresso, o que é feito em papel e papel custa dinheiro. A distribuição dos livros impressos também custa dinheiro. Então, se você decidir disponibilizar o seu livro em formato impresso, haverá despesas associadas ao custo da impressão sob encomenda. Com um livro digital você só precisa de um original e várias cópias podem "viajar" pela internet até destinos diferentes, ao mesmo tempo, sem muito custo adicional.
Assim sendo, ao calcular o preço dos seus livros, verifique se ele reflete as despesas correspondentes usando aquelas calculadoras convenientes oferecidas pela sua plataforma preferida de publicação. Durante o processo, você poderá estimar quanto ganhará em royalties e qual será a comissão que a plataforma receberá. E, apesar de maximizar os seus royalties parecer uma boa ideia, você poderá alcançar um público maior se oferecer os livros digitais a um preço mais em conta.
Além disso, se você decidir fazer uma promoção, fica mais fácil trabalhar com cópias digitais. Se você prometeu distribuir livros autografados, por exemplo, precisará comprar algumas cópias (com desconto, obviamente). Foi isso que fiz durante uma palestra para a Associação Americana de Tradutores realizada em San Antonio, no Texas, quando levei 20 cópias para ajudar com a distribuição e promover o projeto. Agora, se você distribuir cópias digitais, poderá pagar bem menos, criar cupons de desconto para algumas campanhas ou até mesmo enviá-los gratuitamente, dependendo do seu canal de distribuição.
Bom, estas são as três principais lições que eu aprendi ao organizar os dois volumes do CBSS. Quais lições você gostaria de compartilhar sobre as suas próprias experiências com publicação?


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).
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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Do papel para o e-reader.

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No momento que o livro eletrônico tornou-se uma realidade viável com o e-reader a preços acessíveis, o que mais se ouviu falar foi sobre a competição entre o meio físico e o eletrônico, mas esqueceu-se de frisar que o livro é exatamente o mesmo; pela característica física da tela e-ink que reproduz letras do mesmo modo que o papel há pouca ou nenhuma diferença. E por que isso não foi o cerne da discussão? Pois tudo que se fala é no sentido comercial da coisa, o negócio de vender livros ou o negócio de vender papel, sinceramente, para o leitor estas são diferenças marginais. Explico-me, para quem quer ler um livro acredito que o fator determinante é o acesso, digo isto pois passei anos procurando livros em livrarias, e se penso nisso hoje não há como perceber como era uma grande chateação, e impedia-me a tarefa principal que é ler, mas eram momentos de prazer, talvez por não ter alternativa, ler e procurar livros eram a mesma coisa, mas hoje com a facilidade do e-reader, gastar anos procurando um livro parece-me grande perda de tempo, tempo que poderia ser melhor gasto lendo.

O meio eletrônico trouxe aos livros uma mobilidade nunca antes imaginada, com ele a cultura da melhor qualidade pode circular por todas as camadas da sociedade, se até o final do século dezessete livros entravam no inventário dos mortos por serem bens de alto valor, hoje com muita facilidade temos acesso aos mesmos livros, é só querer ler, e o e-reader é tão bom como o papel; mas cuidado, o mesmo não ocorre com o tablet de tela emissora de luz, não permite a mesma concentração, é como se ler no tablet diminuísse o QI de quem lê, textos mais complexos com uma sintaxe cuidada tornam-se desafios, e muita gente que lê bem estes textos em papel não consegue no tablet, é uma realidade, e se perceber, em textos de literatura a sua viagem não é tão viva, o livro de papel ao ser lido desaparece, o mesmo ocorre com o e-reader, mas não com o tablet, por isso ele é um meio inferior para ler. Em textos curtos de sintaxe pobre talvez você não note a diferença, mas ela existe, e na prática te faz um leitor mais burro, com menos concentração e menos capacidade de abstração.

Para quem lê o que se escreve fora do Brasil sobre e-books, outra palavra bem em voga é “discoverability”, seria a capacidade de um livro ser encontrado pelo seu leitor, mais frequentemente é basicamente saber como que o leitor chega a ler um livro para usar como propaganda mais direcionada, mas do lado do leitor isso tem um papel muito maior do que seu simples aspecto comercial. Com a popularização do e-reader, fica muito fácil para autores “imprimirem” seus livros, estamos tão calcados no papel que até nos faltam palavras para descrever o processo do e-reader, antes um livro tinha que ser impresso e distribuído, várias cópias tinham que ser feitas a um custo respeitável, principalmente para quem está fora da indústria do papel, e depois estes exemplares tinham que ser transportados até milhares de pontos de venda, quem está fora do mercado acha que o mais difícil é imprimir o livro, mas a distribuição é muito mais complicada, principalmente para um autor independente que vai fazer isso para apenas um título, quase impossível; e aí ainda vem a publicidade, falar para o leitor que o livro está ali. Tudo isso fazia com que para o autor imprimir, distribuir e ser lido fosse um processo muito complicado e na sua maioria tornavam-se completamente dependentes das editoras, que já tinham suas máquinas montadas para fazer este trabalho.

A editora era um dos portões de barragem do que o leitor lia, o autor para ser lido tinha que passar por critérios nem sempre claros das editoras, e aí muitos livros não viam a luz, nunca chegariam aos leitores, havia um critério mínimo, e muita porcaria era rejeitada e bem rejeitada, mas essa não era uma decisão do leitor e sim do editor, muitos livros “bestsellers” sofreram vária rejeições, Harry Potter é um deles. Hoje é o caso oposto, quem quiser pode publicar seu livro eletrônico com a maior facilidade, o ebook em países com muitos e-readers democratizou a publicação em um nível fantástico nunca antes imaginado, e esses livros com um mínimo de cuidado na edição podem ser lidos com o mesmo conforto que os livros das maiores editoras, não há diferença, pelo menos em relação ao meio. E aí veio uma nova falácia, que os livros ruins auto-publicados estariam poluindo o mercado, pois não tinham o mínimo de cuidado, o que é uma generalização grosseira, há autor sem noção que publica as piores porcarias, mas há da mesma maneira editores sem noção que publicam porcarias ainda piores. O ponto é que do lado do leitor os livros que não lemos nunca interferiram com os que lemos, sempre que entrei em uma livraria lá haviam milhares de livros que nunca iriam me interessar, e nunca me incomodaram, o mesmo ocorre com os ebooks online, e aí vem a mesma palavra: “discoverability”, como cheguei a ler os livros que li.

Acontece que como ler escolher o que ler é igualmente importante, e isso é um caminho pessoal, é como você caminhou pela vida, e nisto ninguém pode substituir a sua escolha, escolher, discernir o que ler, o que te faz sentido para o momento é parte integral do que é ler, por isso livros obrigatórios são tão ruins, eles tiram de ti esta decisão. Lembro de quem indicou-me cada livro, nem todos tem o mesmo peso, tive professores que me indicaram grandes livros, livros que demorei anos procurando e que hoje estão fáceis na internet. Nem todas indicações tem o mesmo peso, tem pessoas que indicam e ignoro, tem outras que tal indicação é um tesouro valioso, muitos livros considerados clássicos li da biblioteca de meus pais, não por indicação, mas por estar sem grana para comprar novos livros e já ter lido todos os meus, raramente releio um livro, assim na falta de escolha Balzac ou Dostoyevsky eram os escolhidos, simplesmente por estarem a mão, ali na estante, pronto a ser lido, na internet mesmo gratuito esta oferta é de milhões.

O livro ainda é o livro, seja de papel ou digital no e-reader, o fato é que o digital é mais simples de “imprimir”, comprar, ler e guardar. A prensa de Gutenberg não mudou o livro, tornou-o mais simples, o e-reader não mudou o livro, que ainda são os mesmos de antes da prensa de Gutenberg, mas muito mais fáceis e acessíveis, é só ler.

Alex
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terça-feira, 27 de maio de 2014

O caldeirão de Machado.

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O projeto acintoso de Patrícia Engel Secco aprovado pelo Ministério da Cultura para destruir a excelência da obra do maior escritor brasileiro gerou muita polêmica, mas incrivelmente a grande maioria das reportagens apenas tangenciou o problema sem nunca cruzar seu cerne, para nosso azar coisas semelhantes são comuns no Ministério da Cultura, mas a desfiguração de Machado de Assis foi demais e atraiu para as aprovações da lei Rouanet uma atenção indesejada, uma vez que um mecanismo de disseminação cultural público é propositalmente usado para sabotar o que há de mais precioso na cultura brasileira, mas além disso, parece ser uma ótima maneira de doar dinheiro público sem esbarrar nos incômodos da lei de improbidade administrativa.

O problema não é alterar a obra de Machado de Assis, mas sim fazê-lo com dinheiro público, obrigando o brasileiro a comprar esta monstruosidade! Seus textos estão em domínio público, podem ser usados e alterados à vontade, mas o que não pode é fazer um texto alterado passar-se pelo legítimo Machado, isso é falsidade! Se vocês olharem a capa do lixo em questão, verão que não há qualquer indicação desta ser uma obra adulterada, está ali o nome do conto: “O Alienista” e o autor: Machado de Assis, o que é uma grande mentira, este texto nunca saiu da pena de Machado! O brasileiro pagou sem ser consultado se queria ou não R$1.000.000,00 aproximadamente para deturpar Machado e José de Alencar, criando um “bestseller” instantâneo, mesmo que ninguém queira comprar o texto mutilado, venderá 300.000 cópias! É um absurdo, mas um amigo levantou um problema ainda pior, este texto falsificado, com esta enorme distribuição, concorrerá com o verdadeiro Machado, quer queiram ou não, quer saibam ou não que este é um texto mutilado. Aí estão os maiores problemas, muita gente comparou esta adaptação com outras já existentes, mas a realidade é que nenhuma das outras foi feita com dinheiro público! Compra quem quiser, o Machado de Assis adulterado é obrigado ao brasileiro que não tem escolha, já pagou, já comprou sem ao menos saber, e estes somos todos nós.


Tal anomia leva a questionamentos muito mais profundos, e o que nos é mais caro é a necessidade do governo PT Dilma inviabilizar o e-reader ao leitor carente brasileiro, o mesmo Ministério da Cultura que aprovou esta barbárie é sumamente contra que o texto constitucional seja aplicado ao e-reader, a acepção moderna do livro, pois com ele o pobre brasileiro ganha liberdade de leitura, a coisa seria cômica se não fosse trágica, criaram uma audiência pública para justificar o boicote ao e-reader, só com quem quer barrar o projeto na Câmara que já foi aprovado na Senado, uma vez que eles não tem bons argumentos para tal, e continuam não tendo, destruímos aqui com a maior facilidade todos os argumentos da tal audiência, é uma verdadeira vergonha. Ao que consta cada exemplar do conto “O Alienista” adulterado custará R$1.67, mas de posse do e-reader o brasileiro pode ter uma coletânea onde encontra-se “O Alienista” original por R$0,00, e não importa a tiragem, 300.000, 600.000, 300.000.000, o preço continuará o mesmo: R$0,00. Mas veja que também pode ter “Helena” por R$0,00, “Ressurreição” por R$0,00, “A Mão e a Luva” apenas R$0,00, e em promoção “Dom Casmurro” por R$0,00, se acha caro pode levar “Memórias Póstumas de Brás Cubas” pelo preço de R$0,00, ou ainda “Memorial de Aires” com preço tabelado em R$0,00, “Quincas Borba” e “Casa Velha” os dois por apenas R$0,00 ambos, quer mais? “Esaú e Jacó” e “Iaiá Garcia” em super promoção por R$0,00, e ainda livros com contos do mestre: “Contos Fluminenses” R$0,00, “Histórias da Meia-Noite” R$0,00 e “Histórias sem Data” R$0,00; todos com os originais de Machado, cuidadosamente editorados pelo nosso colega Paulo, nos formatos para qualquer e-reader. E se quiser também ofereço por este preço promocional uma coletânea com o melhor do mestre Português da poesia: Fernando Pessoa R$0.00, se não bastar-lhe ainda encontrará por aí milhares de outros textos de valor inestimável pelo mesmo valor. E aqui você tem a escolha de comprar ou não, no caso do texto mutilado de Patrícia Secco você não tem esta opção, você já comprou, já pagou, mesmo que não queira.

Frente a tal disparate de gastar um milhão de reais para deturpar a excelência de Machado e ao mesmo tempo boicotar o e-reader para o brasileiro pobre, mesmo indo contra o espírito explicito de nossa carta magna, conduz reflexões mais profundas, e aqui tomo emprestado o caldeirão de Machado para queimar a mediocridade.

Reza certa lenda que uma das peças do mobiliário de Machado de Assis era um pequeno caldeirão usado para queimar os textos ruins, seus e dos outros, e continuando os boatos: foi à luz deste fogo purificador que fundou-se a Academia Brasileira de Letras, hoje dominada pelos restos das cinzas do caldeirão. Os textos queimados representavam o compromisso de Machado com a excelência escrita, aquilo que fosse indigno era deixado para ser devorado pelas chamas do interior do caldeirão. Machado recebeu a literatura por uma linhagem nobre, não de sangue, mas de ofício, trabalhou como tipógrafo, e sabemos pela história que foi por conta dos operadores das prensas de Gutenberg que o público começou a ler, para converter os textos manuscritos nos tipos móveis era necessária a leitura, e assim, lendo os livros sobre os quais trabalham a educação começou a propagar-se; com Machado não foi muito diferente, e o que determinou-lhe o fado da vida foi o acesso a livros, e ainda ouso dizer que o jovem teve com os livros o desfrute que a muitos hoje é negado, por condição ou obrigação. Quem não tem dinheiro, como Machado não tinha não lê, e para fazer uma analogia moderna: dar um livro de Machado a um jovem é como pegar um garoto que começa a andar de skate e colocar obrigado nestas super-rampas altíssimas, se não se quebrar com certeza vai traumatizar, Machado é o virtuoso indisputável da literatura brasileira, como o maior skatista da atualidade, ler Machado não irá quebrar ossos, talvez uma leve dor nas costas, mas com certeza vai traumatizar, denegrindo toda outra forma de livro escrito. Machado não deve ser proibido aos jovens, os mais aventureiros podem arriscar-se, mas nunca deve ser obrigado, forçado. Literatura antes de tudo e no início de tudo deve ser desfrute, só assim o leitor terá forças e animo para ir em frente, e quem sabe, um dia, desafiar Machado e sobreviver aos fogos de sua caldeira.

Desfigurar a obra de Machado através da lei Rouanet usando dinheiro público traz uma série de constatações: os projetos que candidatam-se a esta dinheirama são julgados por uma comissão, a CNIC, ou seja, não é apenas a tal Patrícia Secco a responsável por este ato inominável, mas toda esta comissão, como no caso da refinaria de Pasadena, por ato ou omissão são todos responsáveis, ou seja, como uma Comissão Nacional de Incentivo a Cultura permite que o bem mais valioso da cultura literária brasileira seja deturpado? E a coisa é ainda pior, segundo a própria Patrícia Secco em entrevista ao Globo news Literatura, ela diz que a idéia surgiu em uma conversa na coordenação de livro e leitura do Ministério da Cultura, ou seja, veio de dentro! Não foi apenas um projeto aprovado, mas criado no interior do Ministério da Cultura para destruir Machado de Assis! O que nos faz questionar sobre o mérito e a relevância de todos os projetos aprovados por essa CNIC, além da competência dos integrantes  desta tal “coordenação de livro e leitura”; para vocês verem como a coisa está amarrada na ideologia do governo. O que nos leva ao questionamento de se os projetos aprovados pela CNIC são aprovados por mérito de forma clara e republicana visando realmente incentivar a cultura, ou ele é uma cópia do Ministério do Amor do livro 1984 de George Orwell com o intuito de torturar e destruir o que resta de cultura verdadeira? Pelo tratamento dado a Machado a segunda opção parece a mais real!

Procurei dados atualizados de todos os projetos aprovados pela CNIC, e os registros são escassos, se alguém souber como acessar os projetos e não somente a planilha de valores e títulos, peço que me informe, é necessário passar um pente fino nessa história, já soube de gente muito competente pedindo frações ínfimas da média de preços dos projetos aprovados que teve seus projetos negados. E tem um monte de gente que tem um medo paranóico, não sei se justificado ou injustificado, de criticar o governo pois estão submetendo projetos, existe esta perseguição? Só são aprovados os projetos dos amigos do rei? Só a transparência pode dizer, se há margem para discricionalidade e arbitrariedade a coisa começa a feder! Machado já fedeu!

Infelizmente noto que há em quase todos projetos governamentais de suposto incentivo à cultura popular uma ideologia mediocrizante, oferecendo ao povo apenas lixo e nada da alta cultura herança gratuita deixada por nossos antepassados, uma espécie de cultura autista e auto-indulgente que tudo que faz é incentivar a ignorância orgulhosa; se Machado representa o píncaro da literatura brasileira, essa versão depauperada é a Fossa das Marianas, é ofensivo oferecer esse lixo aos pobres! Rebaixa não só Machado, mas o cerne do que é literatura, e menospreza o brasileiro; com livros desse calibre o mulato pobre filho de um pintor e uma lavadeira que morreu cedo nunca poderia tornar-se Machado de Assis.

Em vez de ensinar música e apreciação musical para pelo menos educar os ouvidos, o que mais se oferece é batuque em lata, e mesmo assim sem a linguagem herdada de nossos antepassados no registro, diversidade rítmica e tímbrica, é a ignorância orgulhosa na música. Em literatura a coisa é um pouco pior, fazem uns saraus de poesia onde só se propaga o lixo; a poesia de história e obras tão ricas, e disponível gratuita na internet nunca é oferecida, mas escrevem umas coisas horrorosas, aplaudem e são aplaudidos, um festival de falta de crítica, auto-indulgência, autismo e com ranço fedorento de ideologia que garante que a pessoa nunca cresça. São coisas que Machado não se dignaria sequer a queimar, o trabalho não vale. E assim alguém como Machado de Assis, que subiu por mérito no posto mais alto da literatura brasileira, por fazer pó desta ideologia nefasta, mesmo morto deve ser combatido, seus livros são o testamento de sua excelência, não há relativismo aí, não é questão de gosto, pela extrema capacidade de sua prosa, involuntariamente humilha a todos que aprenderam a escrever mas não ousam desafiar o mestre, uns o vêem com admiração e conseguem perceber em suas letras uma superioridade insuspeita, outros sem ver, perceber ou conhecer reverenciam o nome, mas a tal superioridade os elude, Machado morto ainda os desafia e precisam destruir a quem os humilha. Ler Machado é uma experiência que faz crescer, o texto desfigurado faz emburrecer, nada há ali do gênio de Machado, nada há ali de literatura, nada há ali que mereça ser lido!

Os homens são inteligentes pois tem no seu desenvolvimento cerebral a plasticidade que todos os animais não tem, aprendemos pois nossa cognição não vem pronta, embutida nos genes, mas desenvolve-se em contato com o ambiente. Um bebê ao nascer só tem a dimensão do seu ego, tudo é ele, é com o tempo e por suas explorações sensórias do ambiente que ele começa a sair do comportamento exclusivo egóico, portanto é absolutamente necessário o contato com o meio externo para desenvolver a inteligência, o melhor mecanismo proposto para o desenvolvimento do raciocínio lógico é um processo de adaptação onde um modelo lógico e coerente existente na mente encontra algo novo que desequilibra a realidade do pensamento, assim é necessário o contato com informações diferentes para provocar esse processo, impossível no reino exclusivo do ego. A nova informação causa um desequilíbrio no processo lógico mental, é ao montar essa informação de forma lógica no sistema existente que ocorre o processo chamado de equilibração, a maneira como a inteligência desenvolve-se. É só através de novas informações, de cultura, que a inteligência desenvolve-se. Todos esses projetos que visam fomentar cultura mas ensimesmam as pessoas são na realidade bloqueios mentais, sem o contato com o universo da cultura humana, sem contato com a grandeza da cultura, não se cresce, não se desenvolve a inteligência; o tal Machado buscou ativamente o melhor da cultura mundial que lhe chegou, e assim desenvolveu-se. É frustrante, escrever no nível de Machado não se aprende na escola, em nenhuma escola, mesmo os alunos nota dez só produzem titica na comparação, esse é um processo individual de apropriação da linguagem escrita, mesmo os milhares de cursos ditos de escrita criativa não dão conta da excelência em Machado, pois tentam criar regras e usar dogmas do que seria a boa escrita, e até hoje ela nunca rendeu-se a essas babaquices, quem copia Machado sempre será um escritor de segunda categoria. Machado mesmo morto é o grande crítico dos contemporâneos, e é essa visão crítica, comparativa que faz crescer que querem destruir, pois ela evidencia o mérito, ostenta para alguns uma superioridade insuportável.

A inteligência e excelência verdadeiras tem uma cisma histórica com os auto-proclamados sábios, temos isso muito bem registrado por Platão que contou as desventuras de seu mestre Sócrates. Ao contrário dos ditos sábios da época, Sócrates não tinha reservas, conversava e debatia com todos, sejam escravos ou cidadãos, e como vocês viram pela minha brevíssima explanação de epistemologia genética, por submeter-se ao contraditório Sócrates acabou ficando mais inteligente que os outros e pelo jeito isso tornou-se notório, pois ou pelos deuses ou pela boca dos cidadãos as meninas de Apolo no  Oráculo de Delfos o nomearam o mais sábio da Grécia. Ciente disto Sócrates postou-se a confrontar os ditos sábios, chegou à conclusão que sabia mais que eles, pois ao que consta nenhum sequer opôs desafio a Sócrates, e eles diziam-se sábios, ao que Sócrates concluiu que se eles que sabiam menos diziam-se sábios, ele que só tinha consciência da sua ignorância monstruosa sabia mais que os sábios, portanto o verdadeiro conhecimento era o de seus reais limites, e assim concluiu com o bordão do “tudo sei que nada sei”. Lógico que os ditos sábios de plantão não ficaram felizes, Sócrates era velho, feio e até pobre, uma figura deplorável pelos padrões vigentes, mas gozava de tal estatura intelectual que causava inveja, precisavam destruí-lo, e assim o fizeram como fazem hoje os que destroem Machado.

Os ditos sábios de ontem hoje proclamam-se intelectuais, mas ao contrário dos antigos, são mais espertos, não dignam-se a argumentar com um borra-botas do cacife de Sócrates ou Machado, calam-se, fogem, escondem-se, pois vai que por descuido encontrem por aí alguém verdadeiramente inteligente e esse os desmascare, seria imperdoável, e desta maneira, não permitindo-se ao contraditório que forçaria seus cérebros à equilibração, não desenvolvem inteligência, se conhecemos os mecanismos da formação consciente, essa é a conclusão lógica, os que se auto-proclamam intelectuais, por serem falsos, por terem que esconder-se, nunca poderão ter inteligência. Sabendo disto um espertinho italiano, vigarista no último, criou uma ideologia com o intuito de subdesenvolver a inteligência, seu nome? Antonio Gramsci, sua hegemonia cultural visa fazer uso prático dos vícios humanos, uma espécie de Maquiavel 2.0; como vimos os falsos sábios em grande maioria ressentem-se de apenas um verdadeiro sábio, perdem e são humilhados no confronto, para que isso não ocorra é que Gramsci teorizou o uso de sua hegemonia cultural, assim unem-se os falsos sábios, que tem muito a perder do confronto com os verdadeiros, e para garantir que não haja confronto de idéias, imbuem-se de destruir os verdadeiros sábios e propagar métodos que impeçam no cidadão o desenvolvimento da inteligência. É por este motivo que a censura é imprescindível a todo regime socialista, pois um único cidadão dotado de voz, inteligência e verdade é capaz de aniquilar intelectualmente hordas de impostores, que temem o embate intelectual, por isso impõem a seus contraditores a destruição física, esta é a hegemonia cultural, destruir qualquer um com um pingo de inteligência e verdade, por isso Machado é um perigo, pois mesmo morto sua excelência aniquila de forma impiedosa os impostores, os falsos intelectuais fogem de sua sombra.

Como vêem, o trabalho regiamente pago com dinheiro público da Patrícia Secco, não é um mero erro, é um método, dentro de um objetivo maior: imbecilizar o brasileiro, por isso o e-reader deve ser inviabilizado, principalmente para o pobre, que deve ser usado de massa de manobra, algo, coisa para usar e jogar fora como fazem hoje. Não estou falando aqui de teorias obscuras de conspiração, falo de fatos que ocorrem hoje, e se só a desfiguração de Machado atraiu reações contrárias, é pois tentaram ir longe demais, o Brasil não é ainda um país exclusivo de jumentos, e Machado mesmo morto defende-se sozinho, pois qualquer um que o leia abre a consciência e vê que nossos escritores em sua grande maioria são um bando do inúteis, incapazes e incompetentes, alegam arte para esconder sua incapacidade textual, falsificam um hermetismo de uma sapiência inexistente, apenas um blefe, e quando alguém paga para ver e as cartas caem na mesa é possível ver que por trás do segredo não há nada. Por isso precisam da hegemonia, por isso escondem-se da forma mais covarde da argumentação franca e aberta, e hoje com a liberdade de expressão advinda da internet sua posição covarde é ainda mais vexaminosa, e desta maneira a exigência para a hegemonia cultural é mais estrita, por isso as fileiras do governismo e seus asseclas precisam tomar medidas mais drásticas, para eles a censura mostra-se urgente!

Chegou a hora dos fogos do caldeirão de Machado fazerem o seu trabalho: queimar a mediocridade, enaltecer o mérito e mostrar que a principal virtude da cultura verdadeira é o desfrute, um tipo de prazer blindado aos medíocres, e é ela que nos faz crescer, desenvolver a inteligência e ter uma vida mais plena e divertida.

Alex
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